Chove Chavurska, Na Esteira e No Velório de Finnegan

Dezembro 11, 2008

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É de manhã. É da madrugada é de manhã.

Chove cada vez mais forte.

Segundo a gravação da NET – que conseguiu me atender dentro de um minuto, seja dito – ainda não há previsão para a volta da NET Serviços na sua (nossa) região.

Cada vez que chova, a NET cai e não tem previsão para a volta de NET Serviços na nossa região.

Sumiu como o Imam Oculto dos xiitas ou os velhos heróis de lendas.

Chavurska! (Tambem escrita Skavurska!)

Uma palavra russa significando descaso com os efeitos da chuvarska – no russo, -rska significa ria “forte e implacável.”

Na primavera e no verão, chove muito, faz séculos.

Desde quando os dinossauros reinava sobre essa terra, chovia por caralho nesse lugar.

É quase como a NET não entendesse que a região na qual oferecem seu serviço é uma região altamente chuvosa.

Terra da garoa. Campeão em pontos de alagamento.

Para operar um sistema de banda-larga aqui, precisa-se a tomada de providências contra a chuva.

Mais talvez o Mexicano Carlos Slim, vindo da caatinga cozida do deserto de Sonora, não entende muito disso.

Mais isso nem vem à conta.

Seguindo uma sugestão da minha pomba querida e bicha-preguiça, estou pensando em frequentar, como auditor, um curso na USP sobre o Tupi Antigo.

Acontece que faz tempo eu comprei o texto do curso.

Sou bom de idiomas.

Na década das noventas, eu fiz dois cursos intensivos na Universidade de California, o curso da língua árabe e o curso da língua latina. Adorei. Eu faria um curso desse jeito cada verão, se eu pudesse.

Faz tempo agora, por exemplo, que eu tenho na minha mesa também o bom e velho método do Grego antigo do autor de Alice na Terra das Maravilhas; a gramática da língua árabe do bom e velho von Wright; e o dicionário jamais igualado daquela língua nobre do ínclito professor Edward Lane.

(Pensando nos boms e velhos livros que não estão mais no meu acervo dá um saudade para cortar os pulsos.)

O livro carregava o título irresistível de Um Método Moderno de Tupi Antigo.

Eu não resisto um bom paradoxo.

Até agora, consegui entender que Pindamonhangaba é o lugar onde se faz anzol de pesca, e que talvez os verbetes nhemnhemnhem e lengalenga vem da palavra Tupi nhe-enga, ‘fala.’

Tudo mundo já sabe de mirim e guasu (ou -ussu).

Vi ontem na BBC que nas escolas elites da Grã Bretanha agora, em vez da tradicional pedagogia nas línguas clássicas, o latim e o grego, estão ensinado o sânscrito à molecada.

A emissora mostra cenas de meninas de cinco anos, vestidas de saia de xadrez, fechando os olhos e intonando om mani padme om.

Faz sentido, uma vez que todas nossas línguas – menos os chineses e muitos outros, notavelmente os malucos finlandeses, sem esquecer dos tupi mesmos — são da família Indo-Européia.

Como dizia meu professor do francês antigo – liamos o Chanson de Roland no original — durante meus estudos medievais, entender uma língua romance é entender todas. Ate o romeno, surpreendentemente.

Bem, um certo fetichismo sobre esses raízes que surgiu da filologia alemã durante o século XIX levou a uma certa mitologia perniciosa, mais isso nem vem à conta.

E agora?

Tenho data marcada hoje anoite no Finnegan’s Pub no Pinheiros para um painel e debate sobre O Crise (sifu?) com outros jornalistas que não são daqui (marinheiros sós).

Meu costume e política geral é de ficar longe de concentrações de compatriotas nessa cidade.

Eu posso, sim, cantar “The Minstrel Boy” com todos os versos enquanto razoavelmente bêbado, embora eu prefiro não cantá-la.

Mais eu mandei fazer monte de cartões de visita, com o meu logotipo do nobre boi-zebu em destaque – os cartões do serviço noticioso onde trabalho meio tempo vão demorar para chegar de vapor – e portanto talvez seria bom distribuí-las, fazer contatos.

Aliás, nunca entendi porque os tradutores de Finnegan’s Wake, do irlandês desterrado James Joyce, escolheram como título Finnicius Revem.

Talvez estavam pensando com saudades em Vinicius Moraes.

Mais o tal de wake pode ser traduzido como o velório do velho herói irlandês ou como a esteira dele. Seguimos na esteira dele, fazemos a mesma viagem que ele fez.

Em fim: O Inferno são os outros gringos. Vou precisar de uma boa dosagem da chamada coragem holandesa — água que passarinho não bebe — para segurar a onda.

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