O Globo x O Jornalismo

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A seguir, uma materia que eu pretendi divulgar na página do Centro de Mídia Independentes. Será que vai aparecer?

Desculpem o meu péssimo portuguex.

Já postei uma versão mais comprida e menos coerente na minha coluna pra inglês ver.

“Few writers need to be reminded that we seek and publish a response from anyone criticized in our pages. But when the criticism is serious, we have a special obligation to describe the scope of the accusation and let the subject respond in detail. No subject should be taken by surprise when the paper appears, or feel that there was no chance to respond. –New York Times, Guidelines on Integrity

“Poucos jornalists precisam ser relembrados que nós pedimos e divulgamos uma resposta de cada pessoa que denunciamos em nossas páginas. Mais quando a denuncia é grave, temos um dever especial de descrever e apurar detalhadamente os contornos e o contexto da denuncia, e de deixar o sujeito da denuncia responder em detalhe. Ningúem deve ficar surpreso quando aparece nossa matéria, ou achar que faltou-lhes uma opurtunidade para responder.” — New York Times, Manual da Integridade.

Ainda não sei muito sobre o caso dos quilombolas na Bahia noticiado pela Rede Globo na semana passada — eu venho aqui no CMI, a vou para outras fontes, para aprender mais, de fato.

Mas fico de olho faz tempo na qualidade do jornalismo do Globo, e gostaria deixar uma testemunha, de um antropólogo marciano, à pessísima qualidade dele. Realmente, chega ao ponto de não poder ser chamado mais de jornalismo.

Para mim, isso seria um excelente causo para uma aula, na faculdade Caspar Líbero, onde se formou Zeca Camargo e William Bonner, de má-prática de jornalismo.

Para dar um exemplo só, dem conta ao seguinte princípio, tambem da manual da redação do New York Times.

“Readers should be able to assume that every word between quotation marks is what the speaker or writer said.”

“Os leitores devem poder ter confiança que cada palavra que aparece entre aspas é o que a pessoa realmente ou disse ou esreveu.”

No site do Globo, aparece a seguinte transcipção da primeira reportagem sobre o assunto dos autodenominados quilombolas:

Repórter (José Raimundo): aqui já existiu um quilombo?
Eronildes: não. Estou vendo falar nisso agora.
Repórter: algum parente seu foi escravo?
Eronildes: não, nem avó, nem bisavó, ninguém nunca foi escravo aqui.

Mas confirem a reportagem, na original, tal como foi emitido no dia 14 de maio.

Na verdade, é o “repórter” que pergunta ao velho, “nem avó? nem bisavó? ninguem foi escravo?”

E o seu Eronildes responde, simplesmente, “ninguém foi escravo.”

O Globo e a TV Bahia bota as palavras do “repórter” na boca do testemunho, e além disso, as mudam.

Em nenhum momento é dito que “ninguém nunca foi escravo aqui.”

E o “equívoco” vai — mirabile dictu! — no mesmo sentido da teoria tendenciosa da matéria: que a remanescente de quilombo seria um fraude.

Eu mandei correio eletrónico pra JN para apontar esse fato, faz dias.

Não recebi resposta.

Os Times de novo:

Because our voice is loud and far-reaching, The Times recognizes an ethical responsibility to correct all its factual errors, large and small. …. any complaint should be relayed to a responsible supervising editor and investigated quickly. If a correction is warranted, fairness demands that it be published immediately.

“Porque nossa voz é alta a vai longe, reconhecemos um dever ético de corrigir todos os erros, grandes ou pequenos. …. Qualquer reclamação deve ser encaminada ao editor responsável and apurado rapidamente. Se for descoberto um error, e só justo que seja esclarecido sem demora.”

Olhem, eu trabalho como revisor e tradutor, e sou meio um coleccionador de manuais de redação. Para mim, por exemplo, o manual da redação do Estado de S. Paulo é bom — até melhor do manual da Associated Press.

Meio complicado, sim, mas reconhecívelmente tratando-se com o jornalismo como essa profissão é entendido pelo mundo inteiro.

Quando surgem casos como isso — que surgem com frequência “estarrecedora” no JN e até no Fantástico — o mais útil e mais educativa pro público, eu acho, é citar os simples e nítidos principios do jornalismo adecuado que são assolados pela Clã Marinho no caso, referindo-se ao manual padrão que a gente prefira.

O jornalismo não e física nuclear, certo?

Quem não pode reconhecer a diferença entre o boato e o fato, o provável e o não comprovado?

Coisa de jardim de infancia. Nem precisa-se ser alfabetizado para entender isso.

Mais vocês no Brasil, segundo o FENAJ, tem que se formar num curso especializado de jornalismo e receber habilitação do Estado para exercer a profissão.

Coisa das Idades de Pedra!

Eu tenho vario colegas que iniciaram as carreiras — como é tradicional entre nós lacaios do Império — fazendo cobertura da delegacia de polícia em Ô do Borogodô.

Foram lá cada dia para contar os bebuns que passaram a noite no xilindrò.

Agora trabalham nas maiores redações do País.

Os princípíos do jornalismo podem ser aprendidos dentro de meia hora.

O manual, em caso de dúvidas, cabe na bolsa do casaco — ou na bolsa pseudo-Prada paraguia, comprada no Daslu, das moças, no caso.

A prática, a aperfeição, vem com aprendizagem, com o dia a dia, com a colaboração e orientação dos colegas com mais experiência.

Obviamente, o que vocês tem, dentro do Globo e em outros lugares na grande imprensa brasileira, e um sistema que premia a incompetência e o que eu gosto de chamar “republicanismo-bananeiro,” enquanto castiga a miníma e mais simples exercicio de integridade.

É triste.

Que saco!

Vocês Tupiniquins tem toda a minha solidariedade.