Atravessando a Ponte Brooklyn-Brooklin

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A ponte Otávio Frias de Oliveira: cartão postal, mais sem asfalto

A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento
A ponte não é para ir nem pra voltar
A ponte é somente pra atravessar
Caminhar sobre as águas desse momento
–Lenine, “A Ponte”

Chegou a hora de eu pagar uma promessa que eu fiz no Ano Novo passado mais ainda não paguei.

Minha promessa foi de passar um tempinho cada dia prosando aqui na final flor de Lácio, com o fim de melhorar a minha mestria sobre a língua de Camões e Gonzagão e, quem sabe, virar um daqueles gringos bem-assimilados com coluna na Folha ou no Estadão.

Que nem o Matthew Shirts, por exemplo, recentemente promovido dentro da Editora Abril, e que assina uma coluna uma vez por semana no Estadão.

Eu estava lendo uma coluna de Shirts outro dia — “Deu No New York Times,” dia 4 de agosto — sobre a ponte Otávio Frias de Oliveira (encima), por exemplo.

(“Deu no New York Times” será o título do livro de Larry Rohter a ser lançado em Novembro, segundo informa a editora do ex-correspondente.)

Aquela ponte que, se o motorista consiga desvendar o mistério de como entrar nela – a sinalização fica meio ambígua, não fica? — leva-o desde uma Av. Jornalista [sic] Roberto Marinho engarrafada até a casa da mãe Joana, também engarrafada.

Para Shirts, emocionado com a façanha de implantar uma cópia de outras tantas pontes do mesmo cunho assimétrico e pós-moderna aqui na Sambôdia — do mesmo jeito que aquele casino na Las Vegas reproduz a ponte de Brooklyn, em escala reduzida — é um sinal do que o Brasil não seria mais um pais do Terceiro Mundo.

Do banco de trás curtia o novo cartão-postal da cidade, a ponte Otávio Frias de Oliveira, que ainda não vira iluminada, e comentei o crescimento modernoso do bairro de Brooklin, ali do lado direito.

– É por isso – respondeu o motorista, um rapaz jovem, na casa dos 20 – que não entendo como podem chamar isto aqui de Terceiro Mundo.

– O Brasil?, indaguei.

– É. O Brasil. Você vê um bairro desses e pensa: não faz sentido chamar de Terceiro Mundo.

Para a ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, entretanto, numa entrevista ao Monde Diplo Brasil – eu o leio porque o tablóide esquerdista tem o bom gosto de divulgar uns contos da minha talentosa mulher no seu saite – é mais um exemplo de soluções cosméticas, pontuais, e faraônicas-bombásticas que mostram a falta de planejamento urbano que ainda assola nossa saudosa, novamente limpa e Malufo-Kassabificada, mais quase inabitável, Sambôdia.

Agora, para minha parte, eu fiz questão de passar pela referida ponte assim que a gente adquiriu nossa Celta (prateada, kilometragem 40 mil) no mês passado.

Não dá mas viver como vivíamos em Brooklyn, Nova York, sem carro, navegando a cidade só de metrô.

Cair na zona de rebaixamento dos sem-carro aqui na Sambôdia é um tipo de morte social.

Combustão interno = cidadania.

Portanto, adquirimos uma pegada de carbono mais expressiva após muitos anos de chacoalhar no trem do Central e pegar estrada na Rodoviário Tietê.

Não houve outra escolha.

Passando pela referida ponte, então, não deixei de notar que, se a estrutura da ponte ficava indiscutivelmente linda e muito bem iluminada – graças à Philips, patrocinador da campanha Cansei, segundo a propaganda que eu vi na televisão — e uma verdadeira cartão postal, como disse o próprio Shirts, eles ainda não conseguiram asfaltar o leito da via antes de abrí-la ao trânsito.

Quase acabou com nossos pneus, que não são exatamente aqueles resistentes a balas e granadas que vem com o blindado Urutu ou caveirão da Bope.

Portanto concluí que o Shirts esteja viajando, metaforicamente falando.

Contemplar a ponte do banco de trás de um taxi, como ele fez, é uma coisa.

Bacana, se você tiver a bufunfa de se deslocar pela cidade sempre no reloginho, como um sahib do século XIX andando de liteira.

Atravessá-la com a volante nas mãos, sentindo o chacoalho dos pneus sobre uma via sem asfalto nos seus próprios ossos, é outra coisa.

Assim como samba não é rumba, e Brooklin não é Brooklyn.

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Georgia O'Keefe, "Brooklyn Bridge" (Ponte de Brooklyn), 1949