Um Connecticut Yankee na Corte de Dom João II

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Mais uma promessa sem pagar, meu sagrado juramento de escrever mais nesse espaço com a esperança de um dia substituir o Matthew Shirts como colunista no Estado de S. Paulo.

Uma coluna, aliás, que costumo pular. Eu não mudei a minha moradia pro lado debaixo do Equador só para ficar sabendo o que pensa meus compatriotas, nem pagar uma revista (National Geographic) simplesmente colada da versão inglês.

Nem assinar TV a cabo para ver a mesmíssima programação que eu tenho com meu pacote lá em Nova York — só que agora com (péssima!) dublagem.

Vou confessar-lhes uma coisa: Tenho vergonha de escrever em português. Sou mestre da minha lingua-mãe, posso citar os grandes poetas, entender as letras dos Sex Pistols, ironizar com uma ironia devastadora e contundente, xingar para fazer meus inimigos chorarem.

No português, me sinto um palhaço ainda, meio sem defesa retórica.

É isso aí: pura vergonha e covardice, a não ser a pura preguiça.

Eis porque não escrevo mais no Bicho.

Mais olhem: O correspondente Larry Rohter do New York Times está pronto para lançar um livro com a editora Objetiva (do grupo espanhol Prisa-Santillana) sobre as suas experiências trabalhando no País.

Em português. Para tupiniquim ver. Título: Deu no New York Times.

O jornalão manda o homem pro Brasil para explicar o lugar para os leitores norteamericanos, e ele acaba explicando o País para leitores do próprio País.

Vai lançar o livro dele o mesmo multinacional midiático que deimitiu a jornalista Carmem Aristegui do Radio W no México e lançou a biografia autorizada da Marina Maggessi, Dura na Queda.

Aquela inspetora da Policia Civil do Rio e deputada federal, ouvida num grampo autorizado pela Justiça (e depois vazado, claro)?

Nele, ela recomendou que um colega recebesse “um monte de tiros no cocoruto.” Lembra? E agora milita na CPI de Grampos para acabar com o KGB Lulista? Nas livrarias já já!)

Alguem pode explicar tudo isso para mim?

Tambem pode explicar porque, num debate que deu recentemente na Folha de S. Paulo sobre o voto facultativo, a opinião em favor foi dado por um professor de USP que se formou na Florida — berço da prática de usar falcatruas para tirar o direito ao voto facultativo de populações afro-descendentes — e deve ser o gringo mais gringo que já se viu por aí?

Bem, agora, se Larry pode, porque eu não posso tambem?

E só mandar um bom editor para corrigir minha gramática.

Mas eu deveria? Eu não tenho direito ao voto aqui, não pretendo virar cidadão da grande republica federativa brasiliense, e portanto, não caberia a mim pronunciar sobre a vida política do país. Caberia?

Mais: eu assisti uma entrevista ontem anoite sei lá onde, na Conta Corrente da Globo, talvez, com um diplomata estadounidense.

Esse cara, sem dúvida com formação da Liga de Hedra (Yale, Harvard, Princeton, uma daquelas) falava um portunhol realmente atroz, tanto que a entrevista precisava de legendas.

Me senti aliviado: Não sou o pior torturador da final flor de Láscio nesses partes.

Olha só que nosso diplomata nem consegue deixar de confundir a rumba e o samba.

Eu, pelo menos, sou capaz de acertar o subjuntivo 90 porcento das vezes. Se eu falasse, não fale da Maria, que esteja calmo, e coisa e tal.