Ando Falando Mal de Vocês!

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O seu fiel correspondente, manco após estragar a pata enquanto ensaiva os passos da Dança do Siri na praia de Barra do Sahy, ficou como Jimmy Stewart no filme Janela Indisreta.

Dinheiro não lhe emprestei
Favores nunca lhe fiz
Não alimentei o seu gênio ruim
Você nada está me devendo
Por isso, meu bem, não entendo
Porque anda agora falando de mim

Não é facil, tentar virar Sambôdiano após décadas morando no Brooklyn, com ypsilon, de Nova York.

Últimamente eu quase não saio de casa por causa de uma briga com as leis da física que me deixou manco.

Unimed Paulista disse que pagaria o gesso, sim, mais a bota desmontável, que permitiria a rehabilitação durante o tempo de imobilização do membro ferido, não. A gente pagou. Diz quanto foi? Foi duzentos reais.

Tratava-se de suposto tratamento experimental. Pois é. Seguradora é assim.

Enquanto isso, eu fico cada vez mais viciado em blogagens.

Escrevo, além do Bicho, The New World Lusophone Sousaphone, uma coluna sobre a parte da terra onde não existe pecado — de lado debaixo do equador — para inglês ver.

Principalmente eu faço um exercicio de tradução cada dia, para treinar o lóbulo do cocoruto que cuida das linguagens, falagens pelo cotovelo, lengalengagens e coisa e tal.

Cuando conseguirmos meu visto de permanência — nosso advogado, um delegado de policia aposentado, foi preso numa operação contra mais uma mafia de fiscais; juro-lhes que é verdade — eu vou tirar um CNPJ e lançar minha Boi Zebu Traduções Ltda.

Entretanto, labuto como jornalista de meio tempo num serviço de notícias para investidores, sediado em Londres.

Então. O quê ando falando de vocês?

Olhando bem minhas blogagens dos últimos tempos, ando falando mal de vocês, que nem o Larry Rohter do New York Times.

Desculpe. Meu mal humor e paranóia deveria proceder do meu estado de portador de deficiência.

Numa cidade onde o pedestre não tem vez, o manco tentando atrevesar a rua é homem marcado pela  morte.

Falei mal, por exemplo, do 28° Bienal, o Bienal do Vazio. Pois é.

Falei mal de Daniel Piza e a sua mapa multimídia de arte de rua no Estadão, por ser longe de ser completa, como pretendia.

Falei mal do livro O Jornal, organizado por uns professores da UnB.

Falei mal da demissão do Sidney Rezende pela Globo. Eu vivo falando mal da imprensa tupiniquin.

Suponho que chamando Sampa de Sambôdia seria um jeito de falar mal de vocês, tambem. É claro que se trata de um trocadilho com samba e a nação de Cambodia. Sei lá porque, mais essa cidade de lembra sempre de uma música daquela saudosa banda de punk, The Dead Kennedys, chamado (livre tradução) “Tirando Férias em Cambôdia.”

A letra fala com acidez de um interlocutor pretencioso que precisa cair na real.

Play ethnicky jazz
To parade your snazz
On your five grand stereo
Braggin’ that you know
How the niggers feel cold
And the slums got so much soul

Você ouve música étnica no seu aparelho de som de $5,000 para mostrar que você está na moda. Você jacta-se de sentir solidariedade com os negros e diz que as favelas tem “soul” …

It’s time to taste what you most fear
Right Guard will not help you here
Brace yourself, my dear:

Está na hora de você encarar seu pior medo. Desodorizante de grife não vai te ajudar aqui. Prepare-se, meu bem:

It’s a holiday in Cambodia
It’s tough, kid, but it’s life
It’s a holiday in Cambodia
Don’t forget to pack a wife

Tirando férias em Cambôdia. É duro, rapaz, mais a vida é assim. …

Vivo falando mal da situação de democracia no Rio de Janeiro.

O quê tem lá — como apontou o CPI das Milícias — não é muito diferente da parapolítica que flagela a Colômbia. Mais ninguem na imprensa tupi comenta o fato. O último fim de picada: A fuga de Batman.

Eu vivo falando mal da impunidade e o poder de corrupção do jogo do bicho de Rio de Janeiro — com o qual, por meio da LIESA, as Organizações Globo tem contrato exclusivo.

Apesar desse poder perigosíssimo, tem gente falando da policia federal como “a KGB de Lula.”

Besteira enorme. A noção de liberdade desse pessoal remete ao dito de Paulo Francis:

O Brasil sempre foi a casa da mãe Joana de elites sub-reptícias que fazem o que querem.

É esso tipo de liberadade, que não passa de uma forma de libertinismo, que vocês baixaram uma constituiçã para garantir?

Eu sempre falo mal de Cesar Maia, apesar de não ser eleitor e não ter direito, portanto.

O cara é maluco, só fala sandices, e pior, parece que pegou essa maluquice de consultores políticos neoconservadores estadounidenses.

Eu gostaria saber se meus impostos estejam pagando a conta por meio de uma daquelas programas de “promoção de democracia” patrocianado pelo sinistro National Endowment for Democracy.

O USAID, acusado de ter promovido o moviment separatista na Bolivia, está recusando a revelar para onde foram os $85 milhões gastos na “promoção de democracia” no país nos últimos dois anos.

Eu tenho direito de saber. Pô!

Falo mal de Marina Maggessi, aquela inspetora de polícia flagrada em grampo receitando “monte de balas entre os cornos” para um colega que denunciava corrupção na Policia Civil de Rio. Depois, o colega recebeu monte de balas, lá em Copacabana, mais sobreviveu. Homem sortudo.

Agora ela lançou uma biografia, Dura na Queda, pintando-a como figura heróica, e juntou-se à CPI dos Grampos para reclamar tambem do Gestapo de Lula.

Eu, hein?

Pretendo falar mal de Larry Rohther quando ele lançar seu livro Deu no New York Times (da mesma editora, do grupo espanhol Prisa, que lançou a biografia da inspetora) ainda nesse mes.

Eu não gosto de Larry Rohter. Ele encarna The Ugly American (o protótipo do gringo safado) para mim.

Por outro lado, falei bem do livro Corrupção: Ensaios e Críticas (UFMG), que eu peguei no (caríssimo) Livraria da Vila.

Falei bem, ou falarei, do livro Insultos Impressos, por Isabel Lustosa, sobre a imprensa brasileira durante o debate sobre indepêndencia.e o Fico, no começo do século XIX. Historias fascinantes dos raizes do jornalismo marrom estilo Veja.

Eu tambem pretendo falar bem do show do Gil ontem anoite no velho Palace na Moema (hoje Citibank Hall), mais vou aproveitar para falar mal do patrocínio de Telefônica.

Telefônica aplicou um golpe na coitada da minha sogra.

Ligou para perguntar se ela quissesse um serviço de banda-larga. Não queria. Ah, tarde demais, senhora, a gente já assinou para você. Você tem que cancelar. O que ela não conseguia fazer, ligando noite e dia.

Nosso hospede, Carlos o Chileno, que vim para assistir o F1 no Interlagos, relata que se aplica o mesmo golpe lá, e as mesmas outras baixarias que a gente sabe. Quando os pais de Chileno morreram, ele ficou meses tentado desligar o serviço dele. Em nada adiantava.

Um mercado dominado por um monopólio rentista não é um livre mercado, mais os que defendem o monopólio, adquirido de forma escusa, são sempre quem mais defendem os valores do livre mercado.

Já notou a fina ironia?

Sempre falo bem do Manual da Redação da Folha de S. Paulo. Agora, se o jornal seguisse os princípios , talvez eu o compraria de quando em vez.

Entretanto, eu quase somente leio o Valor e o DCI.

Na verdade, eu falo mal de monte de coisas. Preciso achar mais coisas sobre os quais eu podia falar bem.

Por isso, vou precisar sair dessa cadeira e ir ao encontro de novo como mundo (o que não se ve na televisão.) Tá na hora de cair na real. Blogagens são como punhetas. Aliviam a coseira de curiosidade sobre o estado do mundo, mais não são a coisa em sim. Quero fazer jornalismo de verdade (apesar de não possuir diploma para tal, que não existe no meu país.)

Senão, eu vou acabar como Alberto Dines do Observatório da Imprensa.

O OI só fala mal da imprensa nativa.

Fala mal com toda razão, muitas vezes, mais deveria existir exemplos de bom jornalismo por aí.

Eu gosto da seçaõ Cidades do Estadão, por exemplo, e gostaria vé-lo ampliada. Eu gosto de Luis Nassif e Celso Ming. Eu apostaria que existem jornalistas na Abril que estejam constrangidos pela canalhice que rege a redação lá e podia produzir muito melhor, se tivessem a oportunidade.

Falou? Falei. Eu falo demais.