Ensaio sobre a rasteira: Lee Atwater, Carlos Lacerda e o “estilo neocon”

Padrão

Luis Nassif tem toda razão quando ele fala do “estilo neocon” da imprensa tupiniquim, e da revista Veja em particular.

Paulo Henrique Amorim, entretanto, uma voz mais estridente, insiste em tachar essa mesma turma do PIG – o “partido da imprensa golpista.”

Numa entrevista com a revista Caros Amigos, Nassif mostrou um certo receio de ir tão longe, analisando que a imprensa marrom seria essencialmente venial e oportunista, pensado só em alimentar os preconceitos preexistentes dos leitores para poder manter e aumentar as vendas.

Me lembro das cartas zangadas que apareceram na revista em resposta, insistindo que a Veja seria, sem dúvida, “a final flor de fáscio,” comprometida carne e osso politica e ideologicamente com uma extrema direita recrudescente e tosca.

Sempre que surge tais denuncias, eu tenho vontade de explicar para o leitor brasileiro o que realmente significa esse “estilo neocon” — de onde veio, quais os objetivos e pressupostos dele, e sobretudo quais a técnicas de comunicação social empregadas por esse movimento da ultradireita extremista nos EUA, instituída por antigos trotskistas como Richard Perle.

Para isso, no entanto, seria necessário resumir uma longa e complicada historia.

Um dia vou tentar. Se der tempo.

Entretanto, continuo curioso também sobre quais podiam ser as ligações entre esse “estilo neocon” e o estilo neo-Lacerdista do qual a Veja abertamente jacta-se.

Como é que é? A Veja Lacerdista? É.

Como prova disso, eu tenho a lembrança de comprar uma edição do semanário lá em 2002, 2003, 2004. Dentro da revista, houve um código de acesso, uma senha, para o leitor entrar no site e ler os conteúdos lá.

A senha foi: NOVOLACERDA.

Carlos Lacerda, o Lee Atwater brasileiro

Existe uma certa tentativa hoje em dia no sentido de reabilitar a reputação do saudoso governador do estado de Guanabara.

Como li no ex-blog de Cesar Maia no ano passado, por exemplo, uma biografia recém-lançada do falecido governador tenta pintá-lo de administrador eficiente, um liberal moderado sincero, um exemplar de civismo e espirito democrático, e, quanto ao seu apoio ao golpe de 1964, uma vítima de forças que ele, tragicamente, não entendeu certinho.

Como escreveu o Rei do Factóide no “ex-blog”:

Blowback é uma expressão usada por alguns politólogos para definir uma ação política que aponta numa direção e produz um resultado inesperado e contrário ao objetivo inicial. Em grande medida, foi o que ocorreu com Carlos Lacerda a partir de sua candidatura a governador da Guanabara, em 1960. Jogava tudo, mesmo antes, na desestabilização dos governos do PSD e do PTB. E olhava para a sua meta: a eleição presidencial de 1965.

Essa definição é errada. Blowback — “saindo pela culatra” — é gíria do mundo de espionagem para descrever ações clandestinas que tem conseqüencias inesperadas. O apoio dado a Osama bin Laden no Afeganistão, por exemplo, levou a blowback. Saiu pela culatra.

E vamos acrescentar o seguinte: Tudo indica que Carlos Lacerda foi um “ativo” cooptado pela CIA, motivado por uma percebida convergência entre interesse próprio – sonhava que os generalíssimos fariam ele o presidente da República – e os interesses dos EUA no hemisfério.

Quanto ao estilo jornalistico Lacerdista, como notou um estudioso norte-americano, as lengalengas de Lacerda no Rádio Globo mostrava um desprezo pela epistemologia de fatos capaz de incomodar até os companheiros udenistas da época.

Infelizmente, não consigo localizar nesse momento o referido estudo sobre Lacerda, o radialista da Globo, mais me lembro que citou um correligionário e contemporâneo de Lacerda dizendo que Lacerda botava qualquer coisa no ar, se fosse conveniente aos fins políticos dele, sem a mínima apuração.

Cesar Maia não foi o primeiro Rei do Factóide a reinar sobre a bela e banguela Guanabara.

Veja e El Mercúrio

Agora, lendo ultimamente o livro Formula para o Caos — do historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, sobre o golpe de estado de 1973 contra Allende — eu fiquei impressionado com a conta que o Moniz Bandeira dá das constantes e pesadas manipulações da imprensa chilena.

Foram bancadas pela CIA durante as décadas das sesentas e setentas sob a bandeira de “operações psicológicas.”

“Várias foram as técnicas de propaganda empregadas pela CIA. A mais usual consistiu em infiltrar os meios de comunicação, com o objectivo de publicar artigos ou pedir que fossem escritos de acordo com a sua orientação política … De 1964 a 1971, a CIA destinou um total de US$ 1,95 milhão a[o jornal] El Mercúrio

O objectivo: semear pânico, medo e confusão, preparando o terreno da opinião pública para engolir o golpe de estado a vir.

Como décadas depois fazia Montesinos, o faz-de-tudo e eminência parda de Fujimori no Peru (também homem da CIA, ele mesmo insistia), os “grupos especiais” no Chile distribuía copiosa jabaculê a jornalistas e donos de mídias para manter uma campanha destinada a maximizar alarme público entre as classes consideradas mais dispostas a uma reação antidemocrática.

De certo jeito, portanto, eu gostaria sugerir que o “estilo neocon” pode ser entendido como a aplicação das mesmas técnicas de guerra psicológica empregadas na América Latina durante a Guerra Fria, com verbas milionárias, contra o próprio público norte-americano, para fins eleitorais.

Lee Atwater, o Lacerda Americano

Uma figura-chave nessa virada das armas de desestabilização social, da corrosão de tolerância e pluralismo, contra o próprio povo norte-americano foi um homem chamado Lee Atwater.

Está para estrear na TV pública nos EUA ainda nessa semana um novo documentário sobre Lee Atwater.

Segue-se um resumo da carreira dele, traduzido do original em inglês, publicado pelo SourceWatch:

Lee Atwater foi um marqueteiro e estrategista político do partido Republicano dos EUA.

Foi um homem de confiança dos presidentes Nixon, Reagan, e Bush pai.

O talento de Atwater para a política rasteira trouxe muito sucesso para ele e para os candidatos que ele aconselhava. Os adversários dele o chamava do “Darth Vader do partido Republicano,” “o carrasco sorridente,” e “um cara que praticava o jogo sujo pela pura alegria de fazé-lo.”

As táticas agressivas viram à tona pela primeira vez em 1980, quando dirigia a campanha do candidato Floyd Spence contra o representante federal Democrata Tom Turnipseed. As táticas daquela campanha incluíam pesquisas falsificadas, conduzidas por “pesquisadores independentes,” que “informava” eleitores brancos da classe média sulista que Turnipseed seria integrante da NAACP, organização de direitos civis para afro-descendentes.

Pouco antes do pleito, enviou aos eleitores uma carta assinada pelo Senador Strom Thurmond informando eleitores que Turnipseed queria desarmar o País e entregá-lo aos “liberais” e comunistas. Numa entrevista coletiva, ele infiltrou um “repórter” que levantou-se e disse, “Ouvimos que Turnipseed teria recebido tratamento psiquiátrico” — referindo-se aos tratamentos de choque elétrico que o Democrata tinha recebido como adolescente.

[…]

O maior sucesso de Atwater veio nas eleições nacionais de 1988. Uma campanha midiática notavelmente agressiva na qual destacava-se o caso de Willie Hornton, um assassino condenado a prisão perpétua que cometeu um estupro durante uma licença da cadeia concedia pelo governo de Dukakis, ajudou o Bush pai a superar uma vantagem nas pesquisas do adversário dele de 17% para ganhar o pleito.

Durante a campanha, Atwater espalhava inúmeros falsos boatos sobre Dukakis, como a denuncia feita pelo Senador Republicano Symms que a mulher dele teria queimada uma bandeira nacional durante uma manifestação contra a guerra de Vietnã. Ele tambem espalhava que Dukakis mesmo teria sido tratado para uma doença mental.

Durante aquela campanha, o Bush filho foi mandando acompanhar as atividades de Atwater. A estrategista do filho, Karl Rove, mais tarde utilizaria as táticas de Atwater contra John McCain nas prévias de 2000. Depois da eleição de 2000, Atwater foi indicado para presidir o partido Republicano.

Morreu de cáncer poucos anos atrás. Antes de morrer pediu desculpas a Turnipseed e se arrependeu dos apelos ao ódio racial que caracterizava as campanhas dele.

Naquela campanha de 2000, note-se, espalhava-se o boato que o McCain teria enloquecido durante os oito anos que passou como prisioneiro de guerra. A lema rimante “McCain is insane” (McCain é maluco!) foi espalhado pela Internet, a grande novidade no ramo de “infoguerra” naquela época.

Há muito mais a dizer sobre a carreira bem Lacerdista de Atwater, que jogava um papel central, por exemplo, no abafamento do escândalo Irã-Contra.

Foi Atwater o responsável para um discurso no qual Reagan equiparava os Contra a Washington, Jefferson, Hamilton, etc. – os ilustres pais da pátria amada.

Eu, hein? Os Contra eram um bando de sociopatas ultradireitistas que contrabandeava pó para Los Angeles em aviões militares nos intervalos entre crimes lesa-humanidade – fato que demorou muito para dar no New York Times.

Eram os pais das AUC colombianas, às quais as milícias do Rio tem muitos rasgos em comun.

Bem. Por enquanto, só queria deixar mais um palpite sobre tal “estilo neocon.”

O Nassif acertou fundo com a escolha da frase.

E se parecesse meio descabido sugerir que podia existir uma ligação — além de um estilo discursivo compartilhado entre o “estilo neocon” e a guerra psicológica terceirizada para testas-de-ferro cooptadas, estilo Lacerda — considere a freqüência com que Cesar Maia cita a sabedoria do consultor político Dick Morris.

É só assinar o “ex-blog.”

Então, considere a história cabeluda da atuação de Morris nas eleições mexicanas de 2000 e 2006, quando ele e o Rob Allyn – co-autor da campanha “McCain é maluco!” — entraram no país clandestinamente para driblarem as leis mexicanas que proíbem tal ingerência por parte de estrangeiros.

Deixando ao lado quanto a campanha que promovia a guerra no Iraque assemelhava-se as campanhas de pânico moral típicos dos regimes fascistas estudados pelo historiador Michael Mann, num livro também recém-lançado aqui no Brasil, Fascistas.

Para capturar o Estado, tem que exagerar o tamanho de uma ameaça vasta e difusa, e insistir sempre. (Assim, no México em 2006, o adversário de Calderón foi “un peligro para Mexico” — frase da autoria de Morris e utilizada numa campanha midiática paga com caixa dois de grupos empresariais.)

Tem que criar o sentido constante de um crise iminente.

Precisa-se de uma fórmula para o caos.

“Várias foram as técnicas de propaganda empregadas pela CIA. A mais usual consistiu em infiltrar os meios de comunicação, com o objectivo de publicar artigos ou pedir que fossem escritos de acordo com a sua orientação política … De 1964 a 1971, a CIA destinou um total de US$ 1,95 milhão a El Mercúrio …”