Lusofonia

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O trabalho do dia feito — “Devolverá o fruto do seu trabalho e não o engolirá; do lucro de sua barganha não tirará prazer nenhum” (Jó, 20:18) — está na hora de exercitar a lusofonia, definida pelo eminente filólogo Antônio Houaiss (um péssimo tradutor de James Joyce, mais, justiça seja feita, quem já conseguiu verter o ínclito Guimarães-Rosa para o inglês?) como:

conjunto daqueles que falam o português como língua materna ou não

Eu sou da turma do “ou não.”

Aterrissei por ocaso nesse país tropical, me casei com lusófona, e agora sou lusófono também.

Lusófono com sotaque que tortura os ouvidos, mais quando, pelo telefone, peço pizza com pepperoni, é isso que motoboy traz.

Qual outra verdadeira medida de lusofonia poderia haver? Sou lusófono.

O gato jamais teve esse problema.

Fez a grande migração de Brooklyn pra cá no cabine de um 777 do TAM — mijou no meu colo em algum lugar seis kilometros acima da Bacia do Orinoco, dentro daquele buraco negro no radar, não duvido — e continuava gatófono como antes.

Como invejo a sorte dele.

A necessidade de falar: que fiz eu para merecer tanto?

Então: O quê que eu faço para ganhar o pão?

Bem, no momento, sou um tipo de espião na casa da lusofonia.

Daqueles espiões tipo coronéis israelenses e arapongas doidas do Caso Kroll, não.

Eu trabalho com o que se chama de “informações de fonte aberta,” o que significa na prática que eu passo o dia inteiro sentado na bunda folheando os jornais para saber se houver algo de Valor Econômico neles pra inglês ver.

Quem comprou ou comprará quem?

Quais as tendências no preço do boi-zebu in natura?

Quanto tempo vai demorar para concertar o porto de Itajaí?

Qual a história do Ferronorte? (Um assunto complicadíssimo.)

Quais os resultados trimestrais do Itaú? Da Paranapanema? Da Brasiliana? Quanta dívida tem a Editora Abril? A TV Bandeirantes? Onde foi para o dinheiro do Banco Santos? (Ah, mais isso ninguém sabe!)

Debruço sobre informações como o seguinte:

Em 05 de Dezembro de 2008, a Diagnosticos da America S.A. (“DASA”) adquiriu a totalidade das quotas representativas do capital social das sociedades, (i) Cedic – Centro de Diagnosticos por Imagem de Cuiaba Ltda., correspondente a 1.443.880 quotas, (ii) Centro Medico de Imagenologia Ltda., correspondente a 1.000.000 de quotas, (iii) Ressonancia Magnetica Cuiaba Ltda., correspondente a 750.000 quotas, que compoem o Grupo Cedic (“Cedic”), e (iv) Centro Medico de Diagnostico Laboratorial Ltda. (“Cedilab”), correspondente a 50.000 quotas, empresas estas atuantes na prestacao de servicos diagnosticos por imagem e analises clinicas nas cidades de Cuiaba e Varzea Grande.

E daí? O mercado está se consolidando. Algum vigia deve anotar as movimentações.

O seguinte não tem nada a ver com meu trabalho, apesar do que o Sabesp ser dentro do meu universo de cobertura:

Um homem morreu na tarde deste domingo, 7, em uma obra da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) na Rua Ibiraiaras, Jardim Vista Alegre, na zona norte da capital. O Corpo de Bombeiros foi acionado às 16h13, mas quando chegou ao local a vítima, que teria sido arrastada pela água e se afogado, já estava morta. Uma segunda pessoa conseguiu sair da obra com vida.

A máquina tritura pessoas.

Cem mil ficam sem água nem esgoto. O governo do Estado fica tres dias sem Internet.

Mais isso não entra no balanço.

Em fim, apesar de ter me formado em poesia, acabei como uma daquelas “cabeças de planilha.”

Estou aqui, entre vocês, como Padre Anchieta, aprendendo seu antropófago falar para poder pregar o evangelho do capitalismo global.

Só que a revista The Economist já pensou nisso.

Como li na coluna de Aziz Ahmed no Jornal do Commercio do Rio hoje:

Em parceria inédita, a Carta Capital lança este mês a versão em português da principal edição do ano da revista britânica The Economist. Trata-se da The World in 2009, que desenha fatos, tendências e possíveis cenários para o mundo no próximo ano

Não é um fato inteiramente inédito. Faz tempo agora a Carta Capital reproduz, em tradução, matérias do The Observer, semanário dominical do jornal The Guardian.

E claro que agora o leitor paulistano tem traduzido, dentro da Folha de S. Paulo, uma seleção do New York Times.

Como se o paulistano precisasse saber do trânsito no Long Island Expressway (o Via Dutra de lá) ou como ia o cotovelo ferido do melhor arremessador dos Mets de béisebol.

A não falar na edição do Harvard Business Review Brasil — que jamais falou de nem um só exemplo de um negócio brasileiro, que eu sei.

Nada do qual me ajuda muito.

O que eu preciso é para o New York Times começar a traduzir cobertura da Bovespa ou do Brasileirão pra inglês ver.

Porque as reportagens de Leandro Fortes não aparecem no Guardian, bem traduzidas?

Se quiser uma reportagem bem-feita sobre o Brasil, pague um jornalista brasileiro — e depois um bom tradutor (como eu, por exemplo).

Dá para ver que a Gazeta Mercantil e o Valor Econômico estão começando a pensar em conquistar leitores inglês-falantes.

Ou que falta para isso, porém, são tradutores inglês-falantes.

Me perdoem. Mais falo verdade.

Ah, mais tudo isso é uma longa (e uma chata) história, que vou deixar para outra hora.

Depois de exercitar a lusofonia, chega a hora de exercitar a cachorrada.

São todos cachorrófonos.

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