O Rei da Tailândia e o Corretor Suicido, ou, Navegar Não é Possivel

Padrão

//i113.photobucket.com/albums/n216/cbrayton/Stuff/propagandaseizedby.jpg?t=1228832463” cannot be displayed, because it contains errors.

Acima: “Propaganda comunista apreendida pela policia após a derrubada de Jango.” Revista Time (EUA), abril de 1964

Deu na Gazeta Mercantil:

A edição desta semana da revista The Economist foi proibida de circular na Tailândia. O motivo alegado para impedir a venda da publicação foram artigos críticos ao rei Bhumibol Adulyadej, disseram funcionários de livrarias do país, embora não tenha ficado claro de quem partiu a ordem para a proibição.

Quem é rei desse pedaço?

Quem dá as órdens? Ninguém sabe.

A Carta Capital, numa matéria o título da qual — “Marcha pela família com Buda” — lembra a Marcha da Familia Com Deus pela Liberdade, acerta quanto às pretensões da direita rabugenta daquele país miserável:

Apoiada pelo rei, pelos militares, pela burocracia judiciária e estatal, a APD, incapaz de ganhar pelo voto, continuará a puxar o tapete até que o povo desista de votar ou se imponha aos militares.

São os DEM-PFL de lá. O papel do varão de mídia Sondhi Limthongkul, tipo um Roberto Marinho tailandês, é um capítulo a parte …

Mais para falar de anarquia em países chuvosos tropicais …

Um belo dia, eu seguia de carro rumo a um endereço na Moema.

Caia uma chuva infernal na Avenida Faria Lima.

Eu devia ter evitado o Largo da Batata naquela hora da tarde.

No meu colo, a versão impressa da mapa produzida pelo Google.

Uma maravilha, as mapas que Google faz, com as instruções detalhadas sobre como chegar aonde vai.

Até num caos como São Paulo, o Google com sua frota de satélites consegue reconstruir a ruta, passo por passo.

Só que aquele retorno que eu tive que fazer para chegar onde eu ia não existia mais.

Se já existia uma vez.

A mapa não é o terreno, segundo se diz.

Eu continuo até a esquina, então, na procura de outro retorno.

E sumo num jardim de sendeiros que bifurcam.

Só chego de volta em casa quatro horas depois.

Me lembro de ter sentido um certo alívio quando percebi que eu estava no Minhocão. Ah, é, o Minhocão eu conheço. Foi o Maluf que fez!

São Paulo é assim: mão única sem retorno, cheia de contracorrentes que arrastam você longe do seu destino.

Com a chuva tão pesada, e a escuridão tão forte, nem conseguia ler a placa da rua para saber onde eu estava.

Durante a campanha eleitoral, a prefeitura começava a substituir as velhas placas com as novas, mais legíveis.

Em vez de Rua Dr. Arnaldo Antunes Daquela Banda Que Fez Tanto Sucesso, em letra minúsculas, lê-se agora Rua Dr. Arnaldo, com grande destaque.

Uma beleza.

Daqui adiante não seria só necessário, mais também possível, navegar.

Só que só conseguiram substituir uns 0.5 porcento das placas. Já notou?

E depois acabou a campanha eleitoral, e com ela, a cruzada das placas legíveis. A cidade permanece aquele palimpsesto quase borrado de sempre.

Em certa altura, e nem sei como, acabei mais uma vez atravessando a ponte Otávio Frias, aquele cartão-postal da nova São Paulo.

Um daqueles Urutus blindados tão queridos hoje em dia da alta burguesia paulistana passa ao meu lado, deflagrando sobre minha Celtinha fofinha uma onda de agua suja de um baita ponto de alagamento no leito da via daquela maravilha de engenharia tupi.

Com a minha para-brisa todo enlamada, não consigo enxergar nada por uns bons 15 segundos. Penso em parar o carro no meio da pista, mais penso, absurdamente, naquela velha música de Raúl:

Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!

Naquela tarde, cheguei a testemunhar também um daqueles momentos bem paulistanos.

Estamos parados em trés pistas, eu no meio, aguardando o farol mudar para procedermos.

Quando o farol muda, o louco na pista a minha esquerda começa a tornar a direita, enquanto o louco a minha direita começa a executar uma guinada desesperada à esquerda.

Eu querendo seguir em frente.

Só quero seguir em frente e chegar aonde vou.

Falando no qual, olhá só: me convidaram a ser o colunista de açúcar e etanol.

Duas vezes por mês.

Pagam mal.

O valor da palavra, que nem o preço da arrouba de boi gordo ou do barril de petróleo cru, vai caindo.

Assim como o valor da vida humana, aquele commodity, como parece.

Deu no Jornal do Commercio do Rio:

Comenta-se, na Bovespa, que a crise já fez sua primeira vítima fatal por aqui: um funcionário da corretora Gradual se suicidou com um tiro, quinta-feira. O rapaz teria procurado o departamento de recursos humanos da empresa no dia anterior, a fim de saber, hipoteticamente, como ficaria a situação trabalhista de um colega que estava pensando em se matar. Foi dito a ele que aconselhasse seu amigo a procurar um advogado.

Só no Brasil: A pessoas se preocupam com a situação trabalhista após a morte.

Percebo que meu texto de hoje vagava meio sem rumo.

E daí?

E assim que eu existo nessa cidade.

Meio sem rumo.

Navegar é preciso.

Navegar é impossível. Nem com a ajuda de Google.