A fantasma de puta-sacanagens impressas, passadas e presentes

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Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciência ancestrais …
— “O Corvo,” de Edgar Allan Poe (traduzido por Fernando Pessoa, 1924)

Na minha estante no momento, entre outros vagos curiosos tomos, consta Chatô, O Rei do Brasil.

Eu tenho desenvolvido últimamente um gosto para história e biografia. Vai saber por quê.

Quase não leio ficção mais, a não ser, no momento, A Guerra do Fim do Mundo de Vargas Llosa, que eu teria preferido ler no espanhol original em vez da tradução para o português.

Aqui não se produz boa ficção, me perdoem, mais é assim. Rubem Fonseca tem uns 120 anos, e tem Garcia-Roza, tambèm. Ubaldo. Scliar. Isso não quer dizer que não existem bons escitores de ficção. Deveria haver. Olha só, que puta país interessante que tem por aí. Muitos escrevem muito bem sobre ela, imagino (tenho certeza). É só que ninguém além dos nomes consagrados consegue publicar.

Agora, muito do zumbido na imprensa essa semana emana de uma segunda condenação do grupo de Daniel Dantas, por ter suposta e alegadamente caluniado e tentado subornar a juíza Márcia da Cunha, além de someter ela a um calvário na imprensa.

Plágio! Corrupção! Enriquecimento ilícito!

Como se a meritíssima fosse tipo uma Imelda Marcos da turma togada tupi.

Luis Nassif está indignado com o caso, e dedicou um capítulo inteiro do seu Dossiê da Veja ao assunto. Confira.

Portanto, na minha leitura sonolenta de meia-noite, eu ficava mais antenada a atitudes parecidas por parte do varão dos Diários Associados — o responsável para fazer do francês Jean Manzon o Leni Riefenstahl da Revolução do Dia das Mentiras e o orgulho da Rede Globo, e de Carlos Lacerda o governador de Guanabara, entre outras coisas.

Na biografia não-autorizado do varão de imprensa colombiano Julio María Santo Domingo, dono do jornal El Espectador e a TV Caracol, Gerardo Reyes do jornal El Nuevo Herald atribui a pérola seguinte ao varão da mídia:

“Los periódicos son como los revólveres: se los tiene para sacarlos cuando se necesita disparar” …

Pois é. Como bramava The Who:

Meet the new boss
Same as the old boss

(Conheça o novo patrão, o mesmo que o velho patrão.)

O impressionante é ver como essa tradição se mantem viva hoje em dia – no Brasil, entres os clãs Marinho, Frias e Civitá, especificamente. Dos Mesquita, estou recolhendo uma bibliografia e pretendo debruçar sobre o caso no futuro.

Lá na altura da página 437, então, na segunda edição da Companhia das Letras (1994) eu achei o que podia ser a pior puta sacanagem já impetrada por meio do poder da imprensa.

E tudo, parece, por uma mera questão de ódio mesquinho e pessoal.

Deixa eu resumir.

Duas irmãs italianas estão casadas com dois ilustres cavalheiros: uma com Andrea Hipolito, secretário nacional do Partido Fascista de Italia, e outra com um tal de Francisco Matarazzo, ilustre antepassado de Andrea, hoje eminência parda de Gilberto “Vagabundo!” Kassab.

(Será que o supersubprefeito de todas as subprefeituras – menos Mooca, onde tem mafia de fiscal, Deus me livre — leva o nome como homenagem ao seu tio-avô?)

Para encurtar o relato, o que Chatô fez foi mandar divulgar uma telegrama que noticiava o linchamento e morte humilhante e dolorosa do nobre fascista às mãos de uma turba enraivecida na cidade de Milão.

Divulogou com destaque no Diário da Noite.

A telegrama foi forjada e espúria.

Nada disso tinha acontecido. O bom, querido e valente capo fascista continuava vivo, sem compartilhar o destino dantesco do chefão dele, enforcado e pendurado de cabeça para baixa.

Assim, para fazer uma sacaganem sádica com um punhado de oligarcas fascistóides, seu Chatô passou informações erradas a toda vivalma no Brasil.

É assim mesmo, eu apostaria, com o grampo-fantasma da Veja e o uivo assustado da revista segundo o qual “ninguem está a salvo.”

Não passa de uma telegrama-fantasma forjada pelo novo Chatô.

Eu estou a salvo, sabe por quê?

Porque eu não leio a Veja.

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