Manco e Mifu

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Acima: O autor desse blog tá manco memo.

Estou manco. Eu manco. Mancando eu vou.

Arrastando o meu pê esquerdo, que enche quando faz calor.

É quase uma metáfora para o meu pobre português.

Mancar é assim como não poder fechar a distância entre lá e cá, nem com as minhas palavras nem com meus passos lentos – e mancos.

Descendo a escada agora, estou mancando.

Se eu não estivesse manco, ah, eu correria atrás de Corisco (nosso cão, mordedor de ladrão) lá no parque.

Corisco gosta é correr atrás da bolinha amarelinha, peluda e toda babada dele. Alguém topa jogar? De jeito que não caia no côrrrego?

Levamos ele pro campo de tênis e ele vai cheiretando todas as bolinhas perdidas no mato. Talentoso, aquele cão. Ele não passa de um perdigueiro, choramingando o tempo todo.

Aconteceu na praia da Barra do Sahy.

Levemente bêbado (que nem um porco no mundo da lua) eu demostrava para minha fêmea (mim Tarzã, você Jane) a Dança do Sirí, que acabei de ver no YouTube.

(Mais um caso de danos morais causado pelo abuso de YouTube.)

Algo estourou, ou, tecnicamente falando, se estirou.

Tendão. Ligamentos. Infra-estrutura carnal. Foi um estiramento.

A Internet de interligações que comunica minha vontade soberana ao meu pê esquerdo entrou em pane.

Foi como se meu pê tivesse sido terceirizado para Telefônica.

Seguimos pro pronto-socorro de Boissucanga, prefeitura de São Sebastião. Lá onde homens encapuzados queimaram o jornal local, em 2007, salvo engano.

Quem fazia o mais barulho na vila naquela semana para se eleger prefeito foi o Juan, do PPS.

Juan, o Dr. Juan, Juan o sorridente e barbudo. Juan Juan Juan! Fogos e discursos e palavras de ordem até o nascer-do-sol. No fim, perdeu para um tal de Ernane.

Na clínica, olham para a minha pata.

“Infelizmente, o senhor sífu.”

Não disseram isso, não. Claro que não disseram. Magina.

Apesar de sofrerem lá no pronto-socorro de condições precárias, mantinham um certo grau de profissionalismo. Questão de orgulho.

Me lembro que a minha mulher chamou o enfermeiro de “senhorita.”

Engano entendível.

Prefiro não entrar em detalhes.

Ele(a) disse que falava bastante inglês (não falava) e conhecia bem os EUA. Logo em seguida perguntou se a Nova York fica na costa leste ou na costa oeste do país.

Sabia, pelo menos, que era uma cidade portuária. Marujos por toda parte, que nem naquele filme com Frank Sinatra e Gene Kelly.

Talvez teria sido mais honesto dizé-lo, mais teria sido cruel, estragando o que restava do meu fim de semana:

“O senhor sífu.

“Tem meses e meses de agonia, imobilidade e humilhação a sua frente.”

Mifu mesmo.

Três meses depois, ainda manco.

Pela primeira vez na minha vida, até, sou convidado a utilizar o banheiro dos portadores de deficiências.

Foi lá no Consulado Mineiro, onde a gente tem dente de almoçar nos sábados. Leitão pururuca. Tutu mineiro.

(Homem que come mais não pode se mexer ganha barrigão. Mais uma lei da natureza implacável. Mifu.)

Talvez o senhor preferiria entrar por aí em vez de subir a escada.

Prefiro.

Tem maçanetes e alças e bugigangas lá dentro para ajudar a manobrar a bunda sobre o buraco para fazer a cagada certa, certeira.

Assim deve ser a velhice. Que chegue o fim do mundo primeiro.