Fim de Semana Culturadical

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A imagen mais impressionate do filme, segundo a Mina

Durante o fim de semana, como costuma fazer, minha professora da historia do Brasil contemporâneo, a Mina de Letras, me leva para assistir todo que é corrente, badalada, esdrúxula, bacana, e maneiro, pra inglês ver.

Até me dissuadiu do meu propósito original para hoje — que foi de blogar a partida Corinthinians-Fla e as eleições hondurenhas ao vivo enquanto fumava charutos cubanos sem tregua — para assistir alternativamente uma palestra de João Ubaldo Ribeiro hoje durante a Balada Literaria da Vila Madalena

(A Vila Madalena, do qual o Ricardo Berzoini do PT anda falando mal no twitter, aliás — chamando a Folha de São Paulo do <melhor jornal local da Vila Madalena da cidade> quando ele twitiu (twiteu? twitou? twitara? twitava? twitaria? twitasse?) seu desgosto com a Folha sobre o estupro supostamente cometido pelo thidadão máximo.)

Primeiro, foi o documentário Alô Alô Terezinha.

Segundo, foi o documentário Cidadão Boilesen.

(Representando dois polos da arte do documentário no Brasil de hoje, eu diria.)

O genial da programação da Mina, como ela explicou durante nossa volta pra casa, pela Heitor Penteado, no Esputniquim — nossa Celta não-flex anónima soviética 60,000 km — é que aqueles dois documentários se explicam mutuamente.

Como assim?

Alô Alô Teresinha é um exercício quase puro de nostalgia, que lembra, mais não realmente pretende explicar ou interpretar, o fenômeno do palhaço sádico e psicodélico do Globo … o equivalente brasileiro, se puder exisistir qualquer equivalente gringo, a uma mistura do Gong Show, Bozo the Clown, Hee Haw, e Marat:Sade.

Eu não o achava muito bem feito — é Globo explorando o valor comercial dos seus arquivos, foi a minha impressão. Mais a Mina insistiu, com razão, que eu precisava de uma bela dose do panis e circenses vivido pela geração sua lá na Mooca — se só para entender o que pode parecer a curiosa passividade do povo brasileiro face à ditadura naqueles tempos.

Cidadão Boilsen, entretanto, de Chaim Litevsky (a Mina teve problems com o tal de ch, que vale um rr Português muito puxado) é um síntese brilhante de forma e conteúdo — entretenendo e instruindo, misturando uma técnica e perspectiva idiosincrática com rigores factuais, pesquisa pesada, e fatos brutos direito da boca de quem sabe.

Eu fui um elemento da CIA, claro.

Então eu me aproximei à sarjeta para dar o tiro da misericordia.

(A musica tema do filme é tão dançável que eu quase baixei o santo lá na auditoria 2 da Reserva Cultural. Eu sou um fã doido do orgão Farfisa.)

A Mina conta que seu pai — recém-falecido, Deus o abençoe (ele legou em testamento as obras completas de Monteiro Lobato à gente) e advogado na época de uma empresa peso-pesada alemã — foi convidado uma vez pelo chefe dele a substituí-lo quando convidado a assistir um concerto da notória pianola na Rua Tutóia.

Conta ela como ele contou o fato fatal à famíla — conseguiu driblar a situação — tremendo de medo.

O quê mostra, entre outras coisas, que o povo brasileiro estava muito longe de estar preparado para a temida cubanização — como também é a premissa central de Elio Gaspari na série Ilusões Armadas.

Foi um delírio coletivo da classe empresarial (dos filhos do qual surgiu os movimentos clandestinos, aliás), alimentado por uma mídia que preconizava o terror do desconhecido e o conforto da cafonice em medidas iguais (como a mídia hoje em, p.ex., Venezuela. Vocês já assistiram a RCTV? Caracaca!).

Lembre-se o slogan do Globo na época: <Informação, emoção, alegria, amor: Tudo de bom está no Globo.>

Noutras palavras, foi uma engenheira cultural pesada — do qual a Globo continua sendo o Camargo Corrêa — composta de três partes EMOÇÂO — triplicadamente redundante — e uma única parte de INFORMAÇÂO.

Condicionava o telespectador a só querer as notícias boas, as noticias que traziam aquele calor de bem-estar.

E continua assim até hoje.

Veja só a Veja dessa semana: O Poder de Autoajuda.

Quando não espalhando escândalo, escârnio, calunia e pânico moral, Veja sempre insiste maciçamente nas satisfações do narcisismo, do auto-envolvimento e auto-perfeiçoamento — do jardim hermeticamente fechada e rodeada de PM fazendo bico com metralhadora no bolso — de um espirito, em fim, que só pode ser chamado de radicalmente anti-público.

Em vez de amar o próximo como se fosse vôce mesmo, prevalecce o <boas cercas fazem bons vizinhos> do (reverenciado) bardo de nós iánquis, Robert Frost. (Sem notar a ironia, e polisemia,  do qual.

Eu acho que algum calouro da USP podia fazer um análise bem sério sobre as capas da Veja, mostranda como ela tem martelada com admirável consistência nas duas teclas dessa pianola, dessa samba de uma nota só: (1) o medo do real (uma família num globo de vidro, assolada pelos ventos de mudança e petistas raivosas, foi uma capa do que me lembro bem) e (2) esse estado de alegria quase infantil, só disponível no reino do virtual.

Por exemplo: O iPhone é mágico!

Com ele, eu tenho o mundo virtualmente aos pontos dos dedos (sem ter que tocá-lo e sujá-los).

Isso também foi capa de Veja (e a revista Time também, na mesma época, seja dito.)

Falando do qual, fechamos notando duas manchetes do G1/Globo, publicada na mesma página na mesmíssima hora:

  1. Eleições hondurenhas começam em clima de tranqüilidade (um longo e errante discurso pelo telefone do enviado a Tegucigalpa.
  2. Eleições hondurenhas começam em clima de medo (colou isso do Associated Press).

Tranquilidade é medo.

Guerra é paz.

Não há sucesso como fracasso, é fracasso não é sucesso nenhum (Bob Dylan).

Compara-se:

  1. Eleições hondurenhas começam (o Estadão vem com o fato simples)
  2. Eleições hondurenhas começam entre discussão sobre legitimidade (a Folha, colando dos fios internacionais, vem com o fato e o contexto).

A imprensa brasileira tem jeito, às vezes. Às vezes, não.

Em fim: Na zona de prazer infantil, o cafonice e breguice, o amigável crueldade de Chacrinha, espelha o romântico e utópico. E essa zona ambígua em si espelha outra zona ambígua, a da ansiedade infantil — as trevas e fantasmas de notícias desagradáveis lá fora do ninho.

Na visão de Chacrinha, nós somos (o povão é) bobos, feios e (Ultraje à Rigor) inúteis. Aceita com bom humor. Conheça o seu lugar e fica nele.

Nas manchetes do Jornal Nacional, o desagradável, discutido, barulhento, bagunçado e alarmante — Direitos Já! — vira uma inócua demostração de unanimidade no contexto de ufanismo cívico (o aniversario do São Paulo), por exemplo …

Próxima tarefa culturadical da Mina: Devo ler as Memórias de um Sargento de Milicia par poder entender melhor as Memórias de um Sargento de Mulatas.

Como disse Harold Bloom, a significado de uma obra literária é sempre uma outra obra literária.

Aguardem que eu volto logo.