Globobo: Guido Acusa Krugman de Delito!

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Mais um exemplo mesquino de como Globo sempre enquadra notícias com uma dose forte de opinião (nesse caso, hipérbole) no lide:

Se na quinta-feira o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, fora diplomático ao comentar as declarações do economista americano Paul Krugman sobre riscos de bolhas no Brasil, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, adotou um tom para lá de diferente ao acusar o prêmio Nobel de ter interesses pessoais na estabilidade da economia brasileira ….

Está vendo?

A primeria frase da notícia funciona para chamar atenção a (mais uma suposta) gafe de Mantega.

Se trata de uma tática comun: lembre-se, só para dar um exemplo, da suposta gafe da Marta que ocupava os jornalões de S. Paulo por semanas, o famoso episódio do suposto SERÁ QUE ELE É? quanto ao Kassab.

Aquí, O Globo canaliza a atenção do leitor a um juízo de valores sobre o fato, antes de dar o fato mesmo, e assim muda o assunto da política económica para as supostas qualidades pessoais de figuras políticas.

Mais qual de fato foi o fato nesse caso? Manchete do Globo:

Mantega: Krugman tem conflito de interesses no Brasil

E o quê realmente disse o às vezes falastrão e pouco diplomático Tio Guido?

Paul Krugman não estava só preocupado com a economia brasileira. Ele tinha feito aplicações no Brasil. Mas digo ao economista Krugman: não vamos permitir bolhas na economia brasileira. Estamos atentos – afirmou Mantega.

Famous last words (famosas últimas palavras), como nós gringos costumamos dizer. Mas vamos aguardar para ver.

Agora, à pergunta: Esse frase constitua uma acusão, como insiste O Globobo?

Ora, falar bem e alto de uma ação enquanto você mantem uma posição vendido em segredo é pura canalhice, ou pior, em alguns casos um delito, isso é verdade. Manda a CVM ver!

Mas Krugman não fez isso, e Mantega não accusou ele de tal.

Ao final das contas, não tem nada de errado em vender uma ação e dizer porque vendeu. Assim que não tem nada de errado em dizer que, sei lá, eu prefiro o Estadão à Falha de S. Paulo.

Eu recentamente vendi NYSE:EWZ, por exemplo — mas só porque nós precisavamos de capital de giro (reformas em casa, doenças nojentas da cachorrada). Ganhei bem, comprando às 19 e vendendo às, sei lá, 70? Nada mal, se bem que eu não investi muito.

Igualmente, não tem nada de errado se um economista gringo de peso externar o ponto de vista de estrangeiros olhando o Brasil desde o estrangeiro, estranhamente.

É até natural Krugman falar pra inglês ver. Inglês sendo a maior audiência dele.

Mais uma vez, então, o quê disse, de fato, nosso sempre nervoso e às vezes atrapalhado cumpanheiro Guido?

Dá para interpretar a fala dele, como eu acabo de sugerir, como dizendo simplesmente que Krugman falou do ponto de vista do investidor estrangeiro, e não de quem teria preocupações ou medo de um colapso do gigante pela própria natureza.

O manchete do Diário Económico (Portugau) sobre dita palestra de Krugman, aliás:

Krugman vai vender investimentos no Brasil

Segundo nosso primos peninsulares, o nobelista disse que disse o seguinte:

O prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, disse esta quinta-feira que está a planear vender alguns dos seus investimentos no Brasil «por causa do que está a acontecer». «Não é que eu antecipe uma crise, mas os investidores parecem estar a gostar demasiado» de apostar naquele país, explicou Krugman citado pela Bloomberg.

Só alguns, até.

Ainda na etapa de planejamento.

Quer dizer que Krugman esclarece seu ponto de vista — dado, cabe dizer, a uma plateia de investidores, os assinantes de Bloomberg — e Guido anota essa calificação da previsão para enfatizar que a economia continua fundamentalmente sã.

Como cabe a alguem com aquele cargo enfatizar.

Ora, eu não sou nenhum genial de escolher ações, mais não veio muito de controvertido naquilo tudo. O Globo usou hipérbole (confira o dicio.com.br) para tentar gerar um sentido de conflito e discussão braba e maleducada que inexistia.

Os mercados brasileiros são, são sim, meio rasos (olha só o preço de Globex ápos a compra das Casas Bahia) e por isso tem risco — diminuindo, pode ser, mas ainda presente — de volatilidade.

Por causa desse nuvem de adjetivos sensacionais — O Padrão Globo de Qualidade — a matéria adquiriu uma tonalidade altamente ideólogica, simplista, e partidária: O homem da Fazenda –um cargo político, de confiança — cometeu gafes grosseiras e insultou um nobre nobelista, enquanto o chefe do BC — apolítico (deixando ao lado o governo de Goias em 2010) — foi sereno, diplomático e educado. (Supostamente: O Globo não cita as suas palavras sobre o assunto.)

Os homens de Lula faltam edução, como o presidente mesmo.

Olha só a ralé que tomou conta desse País!

Caro leitor, que cê acha dessa análise? (Aceita o anglicisimo lide, que também pode significar litígio, questão forense?) Pode aplicar-se a outros exemplos?