Alimentação e Cuidado dos Fatos, Aquela Espécie em Extinção

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Um projeto digno de ser imitado — tropicalizado, digamos — é esse, o blog Regret the Error (Lamente o erro).

Trata dos erros, faltas com a verdade, falhas de ortografia e matemática, distorções, furos furados, e outros peidos cerebrais da imprensa diária.

Erramos do ano, segundo o blog:

A Nov. 26 article in the District edition of Local Living incorrectly said a Public Enemy song declared 9/11 a joke. The song refers to 911, the emergency phone number.

Uma matéria … disse que uma música do grupo de rap Public Enemy chamou os atendados do 11 Septembro (9/11)de uma piada. A músicia, no entanto, se refere a 911, o número de telefone para serviços de emergência.

O 190 de lá. Dá para ver como é facil o trocadilho.

Mostrado acima é uma lista de quefazeres para verificadores de fato divulgado pelo site, que agora virou um livro. (Clique para aumentar a imagem.)

Durante a reportagem

  1. Peça que as fontes confirmarem a grafia de nomes e títulos
  2. Grave ou transcreva entrevistas
  3. Verifique fatos alegados com fontes confiáveis
  4. Guarde URLs e outra matéria de pesquisa
  5. Pergunte às fontes sobre eventuais erros de outros vehículos e reportagens

Tudo lógico, né?

Mas aquele último passo é muito importante.

Verificando fatos antes de divulgar

  1. Números e cálculos
  2. Nomes
  3. Títulos (de pessoas, livros, etc.)
  4. Localização de acontecidos
  5. Compare as notas com gravações de entrevistas
  6. Atribuição de citações textuais
  7. Definições
  8. URLs
  9. Ortografia
  10. Resultado do spellcheck automático

Na minha experiência — pois lido muito com jornalismo empresarial — falhas na verificação de números são muito frequentes e a causa de muitas polêmicas. Por exemplo:

A rede de televisão Fox (EUA) produziu essa tabela de resultados de uma pesquisa sobre a reação do público à pergunta, será que os cientistas falsificaram dados para apoiar a teoria de aquecimento global?

Problema: A pesquisa parece ter sondado a opinião de 120% do público, né?

Não existe nada além de tudo.

Vai ver com foi a explicação dos editores. Foi ridícula o bastante para pensar que talvez foi uma malvadeza matemática com o propósito de exagerar a desconfiança do público quanto ao aquecimento.

Voltando à lista, seguem umas entradas em branco para diligências peculiares à reportagem em questão.

Com frequência, a legislação pertinente e o estado de jurisprudência podem ser importantes, e a causa de falta de clareza, por exemplo.

Hoje, O Globo informou que um vereador carioca preso pela polícia goza de fóro privelegiado:

Como tem foro privilegiado, o vereador foi denunciado em segredo e teve a prisão pedida pelo procurador-geral de Justiça do Rio, Claudio Soares Lopes.

Agência Brasil contradiz:

A Constituição Federal garante imunidade parlamentar a deputados federais e estaduais, além de senadores, mas não aos vereadores. No caso dos integrantes das Câmaras Municipais, o benefício limita-se a atuação parlamentar; ou seja, os vereadores só não podem ser processados por crime de calúnia, difamação e injúria, manifestações produzidas verbalmente em plenário. Para outros crimes, o parlamentar pode ser processado na Justiça Comum.

Pode, ou deve?

Quem teve razão?

É meio complicado, mais tem isso, por exemplo, recentemente decido:

O Tribunal de Justiça do Piauí, depois de, na apreciação da denúncia do Ministério Público, considerar constitucional a instituição de foro privilegiado para vereador pela Constituição Estadual, em conformidade com jurisprudência do STF [veja aqui], volta atrás, analisando exceção de incompetência apresentada pelo mesmo MP, para concordar com julgados mais recentes do STF e do STJ.

Qual o texto constituional?

Do ConJur:

Na Reclamação, os advogados do vereador argumentam que “pela Constituição Federal (artigo 29, VIII), os vereadores estão acobertados pela chamada imunidade material e quanto à processual, como vimos, forte, basicamente, no seu artigo 22, I, o STF, em liminar, considerou inadequada a sua instituição pela Constituição estadual, por ser tal matéria de competência privativa da União Federal”.

(Pois envolve a questão de federalismo e a supremacia da Carta Magna federal, um assunto meio polêmico. Mais o STF ainda não permitiu divergências ou exceções.)

Pelo que leio, então, O Globo errou … ou talvez antecipou um argumento do advogado de defesa.

(Pode argumentar-se que esse assunto cabe sob a cabeçada de definições. Se não fosse a influência daquele bicho, preguiça, eu teria ligado a um advogado que sabe dessas coisas.)

Checagems e Verificações

Dica: Nunca confia no spellcheck como se fosse alem do bem e mal.

Em inglês, por exemplo, este não vai identificar o erro se você escreve penis (pinto) em vez de pens (pl. canetas).

Imagina as encrencas possíveis. Tem exemplos disso em Portuguêx? Fariam um poste engraçado.

E agora, uma vez que existe legislação mandando as pessoas deixarem o uso de inglecismos (spellcheck), qual seria a tradução certa dessa palavra (spellcheck)?

O Open Office — escritório aberto? (mas marcas registadas não se traduzem) — dá o nome Ortografia e Gramática para essa ferramenta, omitindo aquele substantivo meio gringuificado de checagem. …

Infelizmente, a melhor traduçaõ de check é verificação, uma palavra meio comprida …