A Folha no Haití: Matéria de Destaque Sobre Assunto Sem Importância

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Capa FSP 31 de janeiro 2010

Leio na Folha de S. Paulo de hoje — com uma baita de uma propaganda invadindo a primeira página, uma vergonha para um jornal de “qualidade” —  sob a manchete “Mobilização anti-Brasil ecoa no pós-tremor“:

Acuada e radicalizada, uma franja da sociedade haitiana aproveita o caos pós-terremoto para aumentar o volume de uma demanda que completa seis anos: brasileiros, voltem para casa!

Para completar, os subtítulos reforçam o juizo de valor:

Minoritários, radicais aliados ao presidente deposto Jean-Bertrand Aristide se opõem às tropas estrangeiras no Haiti

Em bairros pobres, parte da população desdenha ação das forças de paz da ONU, crítica que ganha volume no caos pós-terremoto.

Em outras palavras, somente uma fracção de uma fracção da população se opõe à presença militar de Minustah.

Eu desisto de ler.

(É fato documentado que, aliás, que jornalistas brasileiros em Haiti agora estão sendo hospedados pela Batalhão, que até rede sem-fio fornece. Não há surpresa nenhuma, portanto, na convergência das reportagens produzida com o ponto de vista da assessoria de imprensa militar.)

Mais: É que simplesmente não confio numa reportagem que utilizaria tres adjetivos logo no primeiro frase do lide para editorializar os fatos que vêm depois … se bem que haverá fatos que virão depois.

(O nome do partido político Fanma Lavalas não chega a ser citada nenhuma vez, apesar de continuar em atividade, por exemplo.)

Estamos falando, segundo a matéria, de uma franja acuada, radicalizada, aproveitadora do caos e gritando em alto volume —fazendo barulho em desproporção aos números reais, é o subentendido.

Tudo tende a minimizar a importância do fenómeno e impor um juizo de valores para nortear a recepção dos fatos que vêm — se houver — pelo leitor.

Portanto, eu lhe pergunto: Eu deveria me interessar num assunto tão marginal e sem importância assim, segundo a própria Folhapor quê?

Assim como o New York Times promete “todas as notícias que valem a pena imprimir,” a Folha só imprime as notícias não dignas de ser lidas?

Ecos de gritos vazios não dignos de serem ouvidos ou acreditados?

Até o ombudsman da Folha vive reclamando da editorialização das notícias:

A reportagem sobre negócios no futebol, nas págs. B13 e B16 tem problemas. O primeiro é a editorialização do lide em “Modelo de negócios impede evolução de times brasileiros”: “A vitória do México contra o Brasil na Copa América, na semana passada, teve outras causas além da falta de entrosamento dos jogadores ou das limitações do técnico Dunga”. Não costumo ver referência à “limitação” de empresários e executivos no noticiário de Dinheiro. Os procedimentos que vigoram no jornalismo econômico em geral também devem presidir o econômico-esportivo. Opinião tem espaço próprio no jornal. — Mário Magalhães, 02/07/007.

Essa é opinião que compartilho.

Para os redatores da Folha,porém parece que o espaço próprio de opinião existe em cada página do jornal.

Views e News

Mais sejamos realistas: existe uma forte corrente no jornalismo de hoje que valoriza o que se chama em inglês de viewspaper — o jornal de opiniões — sobre o (antiquado e rimante) newspaper — o jornal de fatos apurados.

Parte disso vem do fato econômico — como se auto-denomina o site do jornal inglês The Guardian — que “comment is free.”

A opinião deve ser livre, todos nós concordamos nisso, né?

Mais também tem o trocadilho: opinião é de graça.

Eis a x da questão: Opinião todo mundo tem, portanto não custa nada.

Um primo desse dito na tesouria de lugares comuns da língua inglêsa: “Talk is cheap.”

Palavras são baratas, ações custam trabalho.

É das últimas que se produz o valor agregado.

“Money talks and bullshit walks.”

Como observou recentemente Amy Wilentz na revista The Nation, muitos dos comentaristas da imprensa norteamericana nunca estiveram em Haiti.

Mais que têm uma forte opinião formada sobre ela: Têm.

(Nesse caso, trata-se do enviado especial Fábio Zanini, presente no país — mais provávelmente morando com a Batalhão. Escrevi pro ombudsman pedindo um esclarecimento sobre essa possibilidade.)

Mais: O tempo vale dinheiro porque a vida é curta.

Deste jeito, o viewspaper, que valoriza adjetivos — acuada, radicalizada, franja, marginalizada, na minoria — sobre nomes, patentes, estados civis, profissões, idades, datas, horas, quantidades exatas– de pessoas, de sedimentos no rio, de toneladas de alimentos, de mortes, de munições gastas —  para não falar na diversidade de pontos de vista, sai muito mais barato.

No viewspaper, você paga o mesmo preço e recebe menos informações.

O trabalho de apuração, que custa, não é feito, assim como nessa matéria as conclusões não tem apoio em pesquisas ou outros dados demográficos.

É por isso que não pago os R$2.50 pela Folha — a assinatura é de minha mulher.

Fiz uma leitura mais ampla da matéria — li, sim; menti — no Susófono Lusófono. Pra inglês ver.