Sobre a “Emoção-Flaneur do Estrangeiro”: Uma Divagação

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Disney's Celebration Down South American Way

Estava à toa na vida …

E estando assim, naturalmente eu naveguei — é preciso navegar — até o Twitter.

E lá, na primeira entrada na lista de Trending — tendências atuais — para São Paulo, encontro o hashtag — #hashtag, sabe? — #publicitários.

Acontece que hoje é Dia do Publicitário. Além disso, é uma data palindrómico: 01/02/2010, que lê-se igual de começo ao fim que  do fim ao começo.

(Tem algo cabível no factóide da coincidência. Acendo um charuto — como meu ídolo, o Mandrake de Rubem Fonseca — e começo a ponderar o quê poderia ser.)

Dos resultados dessa tendência atual, eu recibo uma dica: Navegue ao site do EBook Brasil, onde tem livros disponíveis em formato PDF para baixar de graça.

Lá, encontro a recém-lançada obra de P. Celso, entitulado Walt Disney’s Celebration City: Reflexões sobre comunicação e cidade.

Acho intrigante o título, antes de mais nada, por ser bilíngüe — condição da qual eu mesmo padeço, mais ou menos.

Como tradutor, obviamente, faz tempo que me interesso por esse assunto.

Talvez começou com minha leitura, no começo dos anos 90, do The Literary Speech-Act, or, La Scandale du Corp Parlant, de Shoshona Felman — livro que tenta construir uma ponte de Niterói ligando a tradição intelectual anglo-norteamericana com a françesa,  acabando com a incompreensão mútua que predominava na época. Uma bela, bem-humorada e profunda reflexão sobre as barreiras de linguagem e cultura.

O título também me intrigou por tratar de um assunto que eu conheço bem: a história de Walt Disney e sua comunidade planejada, Celebration, lá no Florida (– o vigésimo-sétimo estado da República Federativa do Brasil).

E finalmente, aberto o livro a um trecho aleatório, ele me despertou a curiosidade por me prometer uma viagem (tanto metafórica quanto real) vislumbrada pelos olhos da “emoção-flâneur do estrangeiro ” — um frase feliz que o autor toma emprestado de algum teórico francês, catalá, ou norteamericano, são muitos mais muitos (demais) que são citados.

Primeiro, eu gosto da figura do flâneur.  Xico Sá, por exemplo, eu considero, de certo jeito, um grande flâneur paulistano. Eu gostaria de me considerar um flâneur também. Eu gostaria de ter mais tempo para sair flânando.

(O problema: IPTU. Eu moro aqui, sou dono no cartório dessa casa aqui, é acabam de aumentar meu IPTU. Compromissos desses acabam estraganda aquela emoção-flâneur.

No fim das contas, é isso que será o aspecto mais irritante do livro: Dentro da metáfora do leitor-viajante e o autor-guia — consagrado pelo menos desde que Dante entrou no Inferno com Vergílio como seu anfitrião de RioTur — temos nesse livro um Vergílio que nos leva em muitos becos sem saída e divagações pessoais.)

Mas ao final, aqui sou eu, natural de California do Sul e cidadão de Brooklyn, em Nova York, sempre falando dos meus palpites gringos-ignorantes-ingénuos sobre coisas suas, caro leitor tupiniquim.

Seria justo me calar, pra variar, e ouvir o que um de vocês pensa de coisas nossas.

Portanto, eu resolvo fazer das minhas labutas quase-diárias no sentido do melhoramento de minha prosa portuguesa a leitura e resenha de tal dito livro –descoberto quase por ocaso.

Ressalva crítica preliminar

Ora, tenho feito um voto de Ano Novo: Quero parar de falar somente do lado ruim do babado.

Tudo mundo que conheço aqui vive fustigando a grande imprensa, o elite cultural, o latifúndio eletrônico da televisão e rádio  — do último dos quais o Estadão alega, o em editorial de hoje, que inexiste:

Tomemos como exemplo a proposta, presente em todos os eventos citados, contra o “monopólio dos meios de comunicação”. O que querem dizer com isso? Estão descrevendo uma realidade? Evidentemente que não. As grandes redes de televisão mostram precisamente o contrário. A competição entre a Globo, a Band, a Record, o SBT, a RedeTV, a Rede Brasil e os inúmeros canais culturais e educacionais regionais é acirrada. Temos empresas privadas e públicas, católicas e evangélicas, num claro espectro não monopolista.

(O que eu acho ridículo. A concentração de um mercado se mede por meio de receitas, preços — como indício de concorrência — market share, e IBOPE, se dê pra confiar. Ponto final. Caso de CADE.)

É facil demais, e cansada demais, essa moda de só falar mal, entregando-se assim à raiva de outro #hashtag na tabela de tendências atuais do twitter hoje: #FODA.

Eu, no entanto — talvez por efeito daquela campanha publicitária sobre educação no trânsito que passa na TV — quero falar bem de coisas suas de vez em quando. Eu amo o Brasil — apesar de passar por días de vez em quando quando meu único desejo é deixá-lo quanto antes.

(Já descumprei o voto, confesso de livre vontade, chamando David Brooks em tradução no Estadão de “babacão.”

Minha desculpa é que ele é babaca nosso. A ótima tradução do jornalão ainda não consegue captar as nuanças irritantes do estilo e a erudição barata desse gringo. Assim como eu jamais entenderei o Roberto Carlos, continuo a insistir com a minha mulher que ela não entende nada de Elvis.)

Omissão inexplicável

Infelizmente, porém, eu devo someter o livro escolhido por ocaso a algumas crueldades antes de mais nada.

Depois, eu espero oferecer umas críticas mais úteis e construtivas.

Primeira coisa: Um análise que procura localizar a cidade planejada de Celebration (FLA, EUA) dentro de todo um contexto cultural — contexto apresentado por nosso autor por meio de breves ensaios, principalmente sobre desenhos norteamericanos dublados, vistos em redes só disponíveis na TV a cabo, que ele chama de “mensageiras” (emprestado do teórico francês Michel Serres — não pode deixar de levar em conta o filme The Truman Show, conhecido aqui no Brasil como O Show da Vida.

Pesquisa no texto para o frase Truman

Como observou a coluna ZAZ Cinema (Terra) na sua resenha do filme na época (1998):

É aqui se pode traçar outro parâmetro, desta vez com o antagonista do filme, o diretor Cristof, que pode ser comparado com o grande maestro de massas Walt Disney. Foi ali mesmo na Flórida que Walt Disney criou seu mundo de sonhos, uma cidade inteira de diversão: a Walt Disney World. Dentro da Walt Disney World está a cidade Celebration, uma cidade real, construida para os funcionários da Disney Company, que muito se assemelha à Sea Haven de O Show da Vida, mais uma amostra de que o filme não está tão distante da realidade.

(Um rápido google levantou quase 20,000 referências a “Truman Show” +Celebration +Disney.)

Um site que promove a comunidade nega a semelhança, porém.

Some compare Celebration’s appearance to that of the town of Seaside, Florida (which was used in the filming of the movie The Truman Show). Other visitors find such comparisons to be blown out of proportion, viewing its appearance and homeowners association rules as typical of those of numerous neotraditional subdivisions in other parts of the United States

Alguns visitantes acham tais comparações desproporcionais, uma vez que a aparência da cidade e as regras para proprietários são típicas das de um grande número de projetos imobilários neotradicionais em outras partes do País …

Existe, então, um debate: Se ou Celebration seja típico ou não.

E tem todo um contexto teórico, com uma extensa literatura acadêmica, sobre esse debate.

Tanto Seaside quanto Celebration são amplamente e frequentemente citadas, faz anos e anos, como exemplos do chamado “novo urbanismo” – the new urbanism.

Referências de uma pesquisa Google em “new urbanism” (com aspas): 796.000. Referências a +”new urbanism” +celebration: 37.400. Referências ao “novo urbanismo”:  15.600. A Folha de S. Paulo tem escrito bastante sobre essa escola de pensamento.

Referências, ou ao frase em inglês, ou em português, nesse texto:

Pesquisa para "urbanism*"

Por exemplo:

The town of Celebration, Florida, along with the town of Seaside, Florida, are the focal points for a new style of urban living known as “new urbanism.” New urbanism is a catch phrase referring to the retooling of American cities into small, close-knit communities where all the neighbors can be friends and everyone keeps their lawn mowed. In practice, this general involves turn-of-the-centry looking houses build closer together, garages behind the house, and alleyways to access them.

Se a razão de ser de um tése e resumir o conhecimento sobre um determinado assunto para poder acrescentar algo a esse conhecimento, a omissão desse conceito, muito corrente na imprensa e os jornais académicos, é uma falha signficante.

Num livro que cita copiosamente a Folha de São Paulo, é igualmente estranho que o autor não recolheu esse clipping do jornal, de 2007:

Essa omissão faz do Walt Disney’s Celebration City o equivalente de uma tentativa de explicar a Tropicália sem reconhecer a influência dos Beatles, ou analisar a obra dos Beatles sem levar em conta o papel de John, ou embarcar numa interpretação do romance A guerra do fim do mundo, do presidenciável peruano Mario Vargas Llosa, sem levar em conta a vida e obra de Euclides da Cunha.

Caberia também, num análise mais profundo — fundamentado numa estadia mais longa na cidade do que foi permitido ao nosso flâneur-turista emocional–  as semelhanças entre a visão do filofascista Walt Disney e a ideologia da Familia, Tradição e Propriedade — uma exportação brasleirra pros Estados Unidos, alías, onde o movimento mantêm um site em inglês promovendo as obras de Plínio Corrêa de Oliveira.

O autor no seu labirinto

Segunda: O livro já tem, dentro de si, a crítica mais severa possível  quando à organização do argumento e o estilo de escrever. Faz clique para ampliar:

Em português grosso e direto, o autor comete aqui o pecado  capital de muitos que lançam tése doutoral como livro: Não o re-escrevem para o leitor geral. (Nem atualizou, aparentemente, nesse caso.)

Fica com aquele mesmo formato rígido de tése, com a metodologia apresentada exaustivamente logo no começo, ao lado de uma bibliografia com mais comentário marginal do que um trecho de São Tomas de Aquino.

Como nos aeroportos do Brasil em anos recentes, a viagem a ser empreendida não começa sem demoras burocráticas, cancelamento de vôos, e informações incompletas ou erradas vindas dos funcionários da empresa aérea.

Me chamem de reacionário se quiserem, mais eu ainda quero que meus livros respeitarem as unidades aristotelianas.

Têm que ter começo, meio, e fim.

Primeiro, a coisa a ser analisada, com uma explicação da importância da mesma. Por que deveriamos prestar atenção? Quais a perguntas levantadas que o análise visará esclarecer?

Depois, a descrição da coisa, e o esboço da problemática levantada pela coisa.

Próxima, lá no meio, a interpretação da coisa, onde se faz o trabalho mais duro.

Aqui pode introduzir-se as ferramentas de análise adequadas à tarefa, uma por uma, explicando a sua relevância à problemática sob estudo.

Em conclusão, as conclusões — as respostas, até que provisórias, às perguntas que norteavam nossa viagem pelo texto.

O Dr. Celso de Silva, como toda uma geração de críticos culturais, faz aqui das divagações decomprometidas e aleatórias uma virtude, uma técnica de pesquisa  — quase um fim per se. Com o apoio dessa noção das “mensageirias” (os anjos-mensageiros do filósofo francês Michel Serres) faz muito caso da metáfora viagem-leitura, mais o ónibus jamais chegará ao destino escrito lá no painel. Bem-vindo aos sertões do real, companheiro Neo.

O Elógio ao Barulho

Como disse o filósofo francês Merlau-Ponty, “Minha identidade é a soma das rotas do meu corpo.”

Extendida a metáfora, minha formação intelectual,  o equilíbrio entre  meu conhecimento e miha ignorância, pode ser visto como a soma dos caminhos percorridos, e não percorridos, por meus olhos dentro dos textos.

Agora, como resume Stephen Crocker, na viagem da mensagem entre autor e recipiente, não há como driblar a influência do meio, que sempre introduz um elemento de barulho na mensagem, apesar de todo esforço para minimizar o barulho no canal:

In our usual notions of communication, noise is an unwanted third thing that interferes in what would other wise be a clear connection between a sender and a receiver. On closer reflection, though, noise is more complex. To being with, it always indicates the wider context, or milieu in which communication takes place. Any given message must pass through a medium. The medium generates effects that attach to the message. Noise, therefore, is an ineradicable feature of any communication. Noise is the presence of the medium through which the message must pass.

O barulho é inevitável, e será preciso reconhecer sua presença quanto ao entendimento de qualquer mensagem. Mais é outra coisa comemorar o barulho como uma virtude, como faz, por exemplo, essa profisional das “novas relações públicas.”

I think that as organizations seek to nurture community, to create and sustain strong networks, they need to embrace noise, not try to limit it. This phrase from an essay by Michel Serres … on noise is very interesting. To Serres, noise is the foundation of everything — chaos. Information rises from this noise. “Form — information that is phenomenal — arises from chaos — white noise. What is knowable and what is known are born of that unknown.” To Serres, noise is multiplicity — “possibility itself.” Furthermore, “it is not strength, it is the very opposite of power, but is its capacity. This noise is the opening…”

No mundo das Novas Relações Públicas, no entanto, o barulho significa, em prática, o spam, o marketing viral, o “stealth marketing,” a “cámara de ecos” — enchendo o canal de barulho para atraer a atenção do consumidor.

O canto das seréias, na interpretação de Adorno, e tudo que nos distrai de nossos propósitos e projetos de vida. O sábio Ulysses enche os ouvidos de algodão e arrama-se ao mastro. O equivalente na era da internet: esse processo rodando agora na minha máquina Linux: O SpamAssassin, o assassino de spams.

Chegando ao Ponto de Encontro

Para nosso autor, sob essa ótica, a escolha de mensagens dentro do espectro de barulho branco, a fixação de atenção, sempre tem algo do arbitrário e aleatório.

É por isso que ele escolha, como modelo metodológico do estudo dele, o telespectador “zappeando” pelos canais na sua instalação de TV a cabo.

Melhor teria sido mais trabalho com bases de dados usando a ligação banda-larga dele — disponível nos pacotes “triple play,” com TV a cabo, banda larga, e telefonia VoIP.

Porque qualquer navegador nessa época de Google Maps sabe que é necesário pesquisar, fazer reconhecimento do terreno, antes de navegar por  terras incognitas.

Quantas vezes nossa trajetório desde São Paulo até o Litoral Norte já esbarrou nas ruas de Mogi das Cruzes, por exemplo?

Esse texto é um Mogi literário — indeciso entre a formalidade e a informalidade, construida não somente com falta de planejamento, mais resistindo sistematicamente a possibilidade de planejamento.

Talvez por esse compromisso com o descompromisso — com a emoção do flâneur-turista — os primeiros tres quartos desse texto não passam de um ensopado de citçações de autores heterógenos,  águado com os pós-modernos malabarismos verbais de costume, no qual flutuam — o espaço, como o tempo, e também um fluxo! — escassos pedacinhos da carne do palpável: Um texto interpetado, um lugar visitado,  observado escrito e mapeado, com algo parecido com um método simples e reproduzível … um trabalho feito.

Me sinto iludido pelo jeito com que o texto entra no lúdico e recusa sair (como nosso sobrinho no playground às vezes faz).

Frases como o seguinte pecam pelo uso barulhento de gíria académica para requentar pensamentos elaboráveis — ou muitos vezes já elaborados — por uma linguagem muito mais simples. Um exemplo trivial:

O território compartido impõe a interdependência como práxis.

De certo jeito, não foi isso, e muito mais, que Sarte conseguiu dizer?

Quando escreveu: L’enfer, c’est les autres?

Como leitor-passageiro dessa metafórica viagem, eu acordo da balada teórica da longa noite anterior, que mal consigo lembrar, num beco sem saída, com ressaca danada, e acabo vagando pelo texto como um carroceiro pelas ruas de Mooca ou Brás, procurando catar algo de valor no meio da confusão mal-estruturada.

Não que não achei alguns, seja dito.

Na bibliografia, principalmente. Por exemplo:

Enrique Gil Calvo, El miedo es el mensaje. Riesgo, incertidumbre y medios de comunicación [cite]

A anagrama de ES “medio” e ES “miedo” é gostosa — e contribui uma possibilidade nova à brincadeira lingüística de MacLuhan (para quem o meio era naõ somente a mensagem mais tambem a massagem, vale lembrar).

Uma possibilidade não disponível na minha língua-mãe.

A promessa não paga

O sentimento mais forte que tenho, como leitor, em fim, é de promessas não pagas — promessas implícita no título bilíngüe, promessas de um diálogo cultural. Que chegariamos a um encontro num espaço de diálogo compartilhado, que o flâneur vai voltar pra casa com histórias inéditas.

A possibilidade do qual os princípios que norteam o análise chamam em questão desde o começo. Tenho simpatia para o crítico que escreve de um dos livros de Serres:

Serres, a professor of the history of science at the Sorbonne, is no amateur. ‘History of science’, he has said, ‘that’s my trade’. So it may be, yet many, hearing of his forays into the history of angelology, the natural rights of trees, the iconography of Tintin and the moral status of airport terminals, are entitled to ask whether Serres is to be trusted. Put another way, should one take Serres seriously? The question is worth asking at the outset, for there is little more aggravating than intellectual energy and enthusiasm one feels with hindsight to have been misplaced.

Tem pouco mais irritante do que gastar energia e entusiasmo intelectual para depois sentir que foram gastos.

Falando, p.ex., do “contrato pragmático fiduciário … que, em seu contexto original, trata do trabalho dos jornalistas e da credibilidade entre estes junto aos leitores …”

Em ocasiões, este contrato pragmático fiduciario e, portanto, a confiança pode ficar em suspenso. Assim, o 28 de dezembro de cada ano, no dia dos Santos Inocentes, os meios de comunicação podem introduzir uma informação inventada. Neste dia, há uma mudança de regras, sem que se questione a credibilidade geral do meio, este publica uma notícia falsa. Há uma suspensão parcial do contrato pragmático fiduciario e estabelece-se uma espécie de contrato pragmático, lúdico pelo que o leitor tenta descobrir qual é a notícia inventada. Isso se pode fazer porque o destinatário conhece o jogo proposto. Em qualquer caso, a confiança é necessária para que a informação dê lugar às emoções que lhes são próprias: enfado, alegria, medo, etc. Se não se dá esta confiança, as emoções que se encadeiam podem ser diferentes. Poderíamos considerar a confiança como uma metaemoção, no sentido que é uma emoção que permite o desenvolvimento de outras emoções …

A viagem proposta, porém, parece ficar nessa indecisão — esse recuso  de escolher entre o sério e o lúdico, o barulho ea tenativa de descobrir um significado, ambos ententidos como falsas dicotomias.

O fluxo espaço-temporal da leitura fica congelado entre o último segudo de Terça-Feira Gorda e o primeiro de Quarta-Feira de Cinzas.

Logo no começo, por exemplo, Celso de Silva parece sugerir que vai fazer uma dupla leitura: uma leitura da  cidade planejada EcoVille, no estado de S. Paulo, na luz da Celebration, e da cidade Celebration na luz de EcoVille.

Mais não passa a fazer esse serviço. E uma possbilidade entre as muitas que não chega a ser o foco de atenção. Zappeamos até o próximo canal.  Pena. Saimos do Brasil e nunca voltamos de Florida — como uma remessa que nunca chega à atenção do Fisco, arranjada por um doleiro.

(Eu, pessoalmente, teria constatado a ironia do Alphaville –a melhor conhecida cidade planejada de cunho utópico e exemplo do Novo Urbanismo no Grande S. Paulo, talvez — ter pegado o nome de um filme de Godard que retrata um futuro distopia.)

Além disso, o autor só começa a descrever a Celebration e a sua viagem pra lá na página 81, mais ou menos, de 115 páginas.

A narrativa da viagem é ilustrada como uns 12 páginas de fotos e reproduções de propaganda para o projeto, que vêm dos anos 90 — sem que a narrativa comenta o conteúdo de muito dessas imágens.

14 de outubro de 1988, mma quarta-feira cinza … (Capítulo 7, p. 82 ff.)

Numa obra de bastante sofisticação, é como se — como avisou o Lula — presumia-se que as imagens falassem para si.

Do mesmo jeito, os textos de propaganda da Disney apresentados — todos de dez anos atrás, data da viagem narrada — não são traduzidos por inteira, nem interpretados em termos de um análise metódico do discurso.

Em fim, tem brincadeira demais e pouco trabalho.

Vai trabalhar, vagabundo

Esgotaram-se as horas a serem dedicadas à minha lição de português, que depois a minha mulher vai corrigir para mim.

Eu fecho a lição com mais dois pequenos comentários sobre brincadeira e trabalho, lazer e labuta, compromisso e a falta dele.

Celso de Silva escreve:

Outra possibilidade da virtualidade do humano é a de ser “tocado” e, também, manipulado a qualquer hora, quando estou ‘gravado e salvo’ no computador de alguém, como parte de um programa qualquer de imagens e, mais recentemente, no ambiente Second Life, um simulador da vida real, em um mundo virtual totalmente em três dimensões, no qual se pode interagir com jogadores de diversas partes do mundo em tempo real, pode-se ainda criar objetos …

Na minha curta estadia no Second Life, após fugir dos clubes de sexo virtual — onde se pode comprar comportamentos sexuais mais sofisticados para seu avatar — acabei descubrindo, por puro ocaso, enquanto eu voava sobre o mar, uma ilha chamada, se não me engano, de Ilha da Favela.

Lá, alguém tinha deixado um esconderijo cheio de armas reservada ao uso das forças armadas, com inesgotáveis estoques de munição.

Tudo de graça, subvertindo o mito da economia virtual do “Linden dollar” que impressiona tanto nosso autor.

Eu mudei minha forma para uma mulher nua, gorducha e negra e voei de volta para a São Paulo virtual, com sua redação virtual — e sempre vázia — de Globo.

Descubri que umas emendas as regras de física foram implantadas no lugar — que aliás nos dão a liberdade de desafiar a graviedade — para não permitirem que as balas surtirem efeito.

Voltei pro mundo de café de manhã, gatos famintos, IPTU e convênio médico a ser processado, convencido do que as leis da física  — em particular, a Segunda Lei da Termodinámica — são e sempre serão o que decide a querela do virtual como o real (ou o peso, ou iene, se quiser). E nunca voltei.

Quando ao trabalho:

Pelo que vemos hoje, em nossas experiências cotidianas, a tendência futura, parodiando o Marx do Manifesto do Partido Comunista, a libertação do homem das atividades rotineiras, possíveis de serem executadas pelas máquinas, com ganho de tempo para o convívio social humano, porém, ao mesmo tempo permitindo e exigindo um “estar” contínuo em nossas atividades de trabalho, ultrapassando a barreira das horas máximas de trabalho vividas no período fordista, às oito horas, por exemplo. ….

Para mim, alguns dos momentos mais intensos de convívio social da minha vida tem acontecido nos ambientes de trabalho: Na redação de revista e jornal, no sindicato, na sala de aulas com estudantes, nas redes sociais, angariando recomendações e pistas de possível trabalho futuro, na mutirão para construir aquela casa maluca do meu amigo lá em Utah …

Até nesse mesmo momento, brincando de lusófono, estou trabalhando, alimentando e treinando os neurônios responsáveis pelo fala e a compreensão de fala.

Ao respeito de paródias de Marx, recomendo a leitura de Cyber-Marx, de Nick Dyer-Witherford. Também baixável de graça. Uma trabalhosa leitura, mais recompensa o trabalho, e dá para acompanhar a evolução do argumento, pelo menos.

Em fim: se você vai quebrar o contrato pragmático fiduciário, na próxima vez, me avise quanto antes. Para eu cair fora.

Meu tempo tem valor, e — até porque — a vida é curta.

Portanto não brinco no serviço.

Mais obrigado pelas dicas bibliográficas, viu?

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