A Aritmética do Crime: Norte e Sul

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Homicídios 1999-2007

Há tres tipos de mentira: Mentiras, mentiras malditas, e estatísticas — Mark Twain

Fiquei de olho nas mais recentes estatísticas da criminalidade, divulgadas a semana passada pelo governo do estado de S. Paulo. Sei que o estado tem sofrido denúncias no passado segundo as quais os números vêm “cozidos” ou “maquiados.”

Justa ou injusta, a denúncia?

O Núcleo de Estudos de Violência, da USP, chegou a essa conclusão em 2005, quanto à questão de casos de assassinato que são registrados pela polícia paulista como “morte a esclarecer” ou “encontro de cadáver” — assim ajudando a continuar a tendência de queda na taxa de homicídios da qual o governo estadual se orgulha.

O crime cai porque a policia não investiga ou não se esforça para esclarecer os crimes.

Essa prática é seguida propositalmente? Ou não? Ou trata-se de uma mistura de descaso com manipulações propositais da opinião pública?

“[O boletim] engana a estatística, mas conta a verdade para a equipe que vai investigar o caso”, afirma o presidente do IBCCrim. Ele também acredita que a negligência e até a incompetência de alguns policiais podem explicar esses erros. “Mas só um levantamento estatístico completo, com tendências anteriores, poderá esclarecer isso”, afirma.

Para Wânia Pasinato Izumino, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo) e doutora em sociologia, o erro nos boletins é indiscutível e é mais um fator que coloca em xeque a credibilidade das estatísticas criminais em São Paulo. “A polícia não tem padronização para nada.”

Esse ano, a taxa de homicidios mostrou um leve aumento pela primeira vez em uma década — o que levou a Folha de S. Paulo a gritar que o governo não tinha conseguido a meta de tirar esse número da faixa denominada de “epidemia” pela OMS.

Governo falha na tentativa de por fim à epidemia de homicídios! Para ser justo, parece um exagero. Se for medido do mesmo jeito — até se este for enviesado — todos os anos, a tendência geral ainda é de queda.

Manchete para um ano política, apesar do fato da taxa realmente e sem dúvida ter diminuida nesses últimos dez anos. Eu naõ tenho simpatias políticas que me impediriam de reconhecer uma melhoria geral.

Eu achei notável, no entanto, uma pesquisa que vi outro dia sobre a percepção que moradores de S. Paulo tem da cidade, e o grau de satisfação que têm com a qualidade de vida aqui.

O mais notável, para mim, foi a desproporção do sentimento de insegurança, embora os números sobre o crime na cidade dariam muito para comemorar. Segurança continua a maior preocupação de moradores — assim como fica a nossa (eu e a bicha-preguiça, aqui em casa.)

Assim como as mortes por policiais em casos de “resistẽncia seguida por morte” não vêm acompanhando a queda de violência, o sentimento de segurança não aumentou na mesma proporção.

Na luz desses debates sambojanos, eu achei interessante a matéria no New York Times hoje sobre exatamente o mesmo assunto: A confiabilidade de estatísticas oficiais, e um novo estudo que chama em questão essa confiabilidade.

Além do mais, é um ótimo exemplo de jornalismo criterioso, meticuloso, e isento na medida possível. Muito boa a reportagem.

Pois eu resolvi tentar portuguêsá-lo, sem o apoio de dicionários ou tradução algorítmica. Mais um ano e eu posso dizer que sou um tradutor qualificado para traduzir de inglês pro tupiniquinês.

Assina o repórter William K. Rashbawn.

Mais que cem capitães e oficiais de mais alto patente, aposentados do Departamento de Policia de Nova York (NYPD), disseram numa pesquisa que as pressões para produzir uma redução nas taxas de crime cada ano levou alguns superintendentes e chefes de delegacia a manipularem estatísticas de crime, segundo dois criminologistas que estão para lançar um estudo do departamento.

Os aposentados relataram ter vistos mudanças “eticamente inadequadas” em boletins de ocorrência nas sete categorias levadas em conta pela programa Compstat, segundo um resumo dos resultados da pesquisa e entrevistas com os pesquisadores que a realizaram.

Os números agregados dessas chamadas crimes-índice são fornecidos a Polícia Federal (FBI), os relatórios da qual sobre as taxas de crime nacionais foram utilizados pelo prefeito da cidade, Michael R. Bloomberg, e seu antecessor, Rudolph W. Giuliani, para comparar Nova York em termos favoráveis a outras cidades e para pintar a cidade como um lugar muito mais seguro — afirmação que o resumo da pesquisa não contradiz.

Deixando a política ao lado, também pode ser dito do crime sambojano. A tendência continua saudável, se bem que as mortes produzidas pela polícia não acompanha a queda.

Segundo Human Rights Watch, a polícia nos EUA matam, em média, um suspeito para cada 37,000 prisões. Em São Paulo: 348. No Rio, 23.

Em entrevistas com os pesquisadores, outros oficiais aposentados citavam exemplo de algo que os criminologista acham uma prática recorrente e periódica entre alguns delegados e superintendentes: Conferindo o eBay, outros sites, catálogos comerciais ou outras fontes para achar valores pelos bens furtados que são menores que os valores citados pela vitima do crime. Depois, eles utilizariam os valores menores para reduzir furtos hediondos — furtos com valor superior a $1,000, os quais são contabilizados como crimes-índice pelo Compstat — a furtos menores, que não são contabilizados, os pesquisadores disseram.

Ainda não conheço o melhor jeito de traduzir “felonies” — crimes maiores — e “misdemeanors” — crimes menores, semelhante à “contravenção”.

Outros aposentados disseram que comandantes distritais ou assessores despachados por eles às vezes compareciam em cenas de crime para persuadir vítimas a não registrar a ocorrência, ou para pressioná-las a mudar sua versão de eventos de modo que o crime pudesse ser contabilizado como crime menor, os pesquisadores disseram.

Aquela gente no Compstat sentiam uma pressão enorme para minimizar os crimes-índice, que determinam a taxa de crime, e à mesma vez sentiam uma pressão menor para zelar pela integridade das estatísticas,” disse John A. Eterno, um dos pesquisadores e um antigo capitão do NYPD.

O colega dela, Eli B. Silverman, acrescentou, “Como disse um entrevistado, o sistema incentivava pessoas a desafiar os limites.”

A sondagem, que utilizou um questionário anónimo, foi feita em parceria com o o sindicato que representa a maioria dos oficiais de alto patente do departamento. Os questionários foram enviados a 1.200 aposentados, entre capitães e oficiais de mais alto patente; 491 responderam, incluindo 323 que se aposentaram após 1995, o primeiro ano no qual o NYPD, chefiado na época por William J. Bratton, utilizou o sistema Compstat.

O sistema mistura um análise meticuloso de boletins de ocorrência com um mapeamento de tendências de crime, identificando áreas de maior risco dentro da cidade e responsabilizando os capitães distritais para a solução desses problemas.

A pesquisa tem suas limitações. Não fica claro exatamente quando os oficiais aposentados deixaram o departamento, o que dificulta qualquer conclusão sobre se a suposta manipulação começou desde cedo ou evoluiu com a passagem dos anos, sob vários governos da cidade. O método Compstat já foi replicado no país inteiro e elogiado por ter melhorado o desempenho de policiais em muitas cidades.

Também, os questionários não pretendiam medir a frequência de qualquer manipulação específica. Nenhum dos respondentes foram pedidos a identificar atos específicos, e nenhum admitiu fazendo isso pessoalmente.. Tampouco ficou claro nos resultados da pesquisa se os oficiais dizendo que tiveram conhecimento de conduto não ético tenham testemunhado esse conduto pessoalmente.

A pesquisa posou perguntas provocativas, porém, e sem dúvida recebeu respostas inquietantes. Os aposentados foram perguntados se soubessem de alterações a relatórios de crimes. Dos 160 que disseram que sim, mas que 75% disseram que as alterações foram contrárias à ética.

O porta-voz do NYPD, Paul J. Browne, que recebeu uma cópia do resumo na quinta-feira, disse que duas outras pesquisas, mais significativas e compreensivas, foram feitas nos últimos anos analisando a integridade das estatísticas de crime mantidas pela cidade — uma em 2006, conduzida por um professor de New York University , e outro pelo controlador do estado — e que ele acha as estatísticas sólidas e confiáveis.

O relatório do professor constatou: “Concluímos, assim como o controlador do estado concluiu cinco anos atrás, que autoridades da cidade e da policia, e o público também, pode ficar razoavelmente certo que as estatísticas do NYPD são precisas, completas, e confiáveis.”

Os pesquisadores da nova sondagem enfatizaram que as respostas — os questionários foram enviados pelo correio em setembro de 2008 e mandados de volta no começo de 2009 — mostraram que a maior dos oficiais acreditam que Compstat é uma inovação valiosa na gestão do departamento. Nem os críticos do departamento argumentariam com seriedade que a cidade não ficasse muito mais segura do que estava no começo dos anos noventa, com homicídios cortados por 80 porcento e muitos bairros, desde os notoriamente violentos até os mais ricos, transformados.

Nosso bairro vai transformando-se também, mais no primeiro ano que viviamos lá, minha mulher testemunhou um tiroteio entre traficantes jamaicanos logo ali na esquina …

Paulatinamente, o varejo de drogas vai mudando para outras partes da cidade, e agora temos uma viatura permanentemente estacionado na rua … vai lá pegar uma rosquinha e cumprimenta os policiais.

O sistema Compstat foi instalado por Bratton, primeiro dos três comissários de policia do prefeito Giuliiani. Versões do sistema foram licenciadas a centenas de departamentos de policia, além de serem exportadas a dezenas de outros países. Foi adotado e em alguns casos modificado pelos sucessores de Bratton durante a administração de Giuliani, Howard Safir e Bernard B. Kerik, e também pelo comissário de polícia da administração Bloomberg, Raymond W. Kelly.

Kerik foi processado por ligações com a mafia após ser indicado por Bush Filho para chefiar o departmento federal de Homeland Security. Confessou oito delitos e recebeu 36 meses de cadeia.

Ele admitiu recebendo como presente uma reforma na casa dele por uma empresa de construção, com ligações à mafia, no valor de $250,000. A empresa procurava contratos com o governo da cidade.

O escândalo abalou as ambições políticas de Giuliani, um presidenciável nas prévias do partido republicano em 2008. Giuliani tinha ganhado notoriedade como um implacável promotor da justiça federal que encarava o crime organizado.

Mais enquanto a cidade reportava uma redução em crime ano atrás ano, ceticismo surgiu de certos cantos — de vários sindicatos de polícia além do sindicato que ajudou com a pesquisa, de póliticos eleitos, de moradores de certos bairros — questionando se a contabilidade do NYPD não estivesse sendo maquiada.

A preocupação com estatísticas de crime não é somente de Nova York. Policias tem enfrentado denuncias de terem manipuladas os números em Atlanta, Baltimore, Dallas, Novo Orleans e Washington, D.C..

Kelly, entretanto, anda dizendo desde um tempo considerável que ele instituiu um sistema rigoroso de auditoria para manter a integridade do sistema. Browne também relatou na sexta-feira que os dados de todos os distritos são o objecto de uma auditoria duas vezes por ano, “e quando erros são descobertos, são corrigidos e estatísticas revisadas são publicadas.” Acrescentou, “Em casos onde fica determinado que os erros foram resultados de manipulação feita de propósito, as pessoas responsáveis são punidas.”

Browne diz que sob a tutela de Kelly houve 11 incidentes nos quais comandantes distritais foram disciplinados, inclusive um caso em que o oficial foi rebaixado e três outros nos quais os oficiais foram removidos de comando do distrito. A semana passada o NYPD confirmou numa matéria no jornal The Daily News que está investigando se o comandante do 81° Distrito em Brooklyn minimizava crimes ou recusava a registrar occorrencias para artificialmente reduzir os números de crimes-índice.

Browne criticou vários aspectos da pesquisa, sugerindo, por exemplo, que muitos dos respondentes podiam ter repetido coisas ouvidas de outros ou tiradas de reportagens na media sobre os “casos relativamente raros que ganharam notoriedade.”

“A maior falha da pesquisa é que cem respondentes bem podiam estar lembrando-se do mesmo caso do que todo mundo estava falando quando disseram que sabiam de casos de manipulação de relatórios de crimes,” disse. “Mais, respostas anónimas são problemáticas porque é difícil determinar se venham de aposentados que se sentem injustamente privados de promoções ou tenham outra reclamação.”

Browne disse que somente 37 dos 323 aposentados na pesquisa tinham funcionados como comandantes de delegacia, argumentando que só esses teriam experiência com o Compstat. Mais os pesquisadores dizem que a pesquisa incluía assessores dos comandantes de delegacia, assim como oficiais de mais alto patente que fiscalizava o trabalho dos comandantes.

Eterno chamou a sugestão de que 100 oficiais aposentados seriam falando do mesmo caso “risível,” enquanto Silverman disse que a crítica sobre o anonimato indicou um entendimento muito limitado dos métodos das ciências sociais por parte do departamento.

O resumo da pesquisa, de sete páginas, mostra sem dúvida que muitos dos aposentados acreditam que o sistema entrou em caminhos desviados.

De fato, os pesquisadores disseram que as respostas tendem a confirmar preocupações de longa data quanto aos problemas potenciais inerentes no Compstat. Os aposentados dizem que foi a imensa pressão sofrida pelos 76 comandantes de delegacias da cidade em reuniões da programa Compstat duas vezes por semana — nas quais estão interrogados e às vezes humilhados na presença de pares e subordinados, e onde carreiras e promoções podem ser ganhos ou perdidos — que levou alguns a introduzir mudanças “anti-éticas” e “altamente anti-éticas” nos relatórios.

“Compstat foi uma boa ideia, em tese,” escreveu um dos respondentes. “Mas o processo tem controle demais sobre as decisões do gerente. Não praticamos gestão para servir a cidadania mais para baixar os números de qualquer jeito porque sua carreira depende disso.”

Os dois pesquisadores estão escrevendo um livro marcado para ser lançado no verão desse ano. Provisoriamente entitulado “Desmascarando Compstat: A Verdade Nua e Crua,” uma cópia do resumo do livro e as perguntas do questionário foram fornecidos ao New York Times. No entanto, os autores não quiseram divulgar o relatório completo até o presidente do sindicato com que trabalharam mostrá-lo pro NYPD.

Quando Eterno era um capitão de policia, trabalhava na secção de análise e planejamento do departamento até 2004, quando deixou o NYPD. Ele serve agora como diretor de estudos de justiça criminal na faculdade Molloy College, que financiou o estudo. Silverman estudou Compstat e escreveu um livro sobre o sistema em 1999, antes de aposentar-se do John Jay College of Criminal Justice em 2003.

Roy T. Richter, presidente do Captains Endowment Association, que representa os oficiais aposentados, disse que os desafios que seus membros aposentados encaravam— e que seus membros ainda em atividade continuam a encarar— são significantes, enquanto o crime diminui e comandantes de delegacias devem continuar a ultrapassar os números do ano anterior, tudo isso numa força que já demitiu milhares de policias.

Ele chamou os resultados da pesquisa “preocupantes,” e disse que, se Compstat pode ser uma ferramenta eficaz, na medida que seja “utilizada como uma espada de Dámocles para humiliar um comandante diante os pares dele, eu não acho tão eficaz assim.”

Mais que um ano antes da publicação de um estudo do professor de NYU em 2006, que elogiava Compstat , uma comissão municipal estabelecida para fiscalizar as tentativas de encarar a corrupção dentro do NYPD tentou avaliar a integridade das estatísticas do departamento. Na época, o departamento colaborou com o professor mais recusou a cooperar com a comissão.

E apesar dos esforços do seu presidente, Mark F. Pomerantz, um respeitado ex-promotor federal, a comissão não conseguiu o poder de intimar testemunhas e requisitar informações, e portanto nunca foi capaz de apurar denuncias de que ocorrências tinham sidos minimizadas.

O NYPD mantém que essas denuncias, assim como denuncias de abuso de horas extras e atos de violência domestica cometidos por policiais, as quais a comissão também tentou, e falhou, a investigar, não encaixariam nos trabalhos da comissão por não tratar de corrupção.

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