“A culpa pela queda de Arruda é da Veja!”

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Who has ever stopped to think of the divinity of Lamont Cranston?
(Only jack Kerouac, that I know of: & me.
The rest of you probably had on WCBS and Kate Smith,
Or something equally unattractive.) …
What was it he used to say (after the transformation when he was safe / & invisible & the unbelievers couldn’t throw stones?) “Heh, heh, heh. / Who knows what evil lurks in the hearts of men? The Shadow knows.”

–Amiri Baraka

Como acabo de contar pro meu colega e mestre soberano na grande e hermenéutica arte de Abrilologia, Nassif: Segundo o iG Brasília, a culpa pela queda de Arruda é da Veja.

Entrevista de Arruda a revista semanal foi gota d’água para reação de testemunha

O iG manda bala aqui contra a Veja — que vive mandando bala contra o iG, tachando os jornalistas hospedados lá de lacaios do dono, Brasil Telecom, antigo latifúndio do Opportunity invadido pelo MST baderneiro dos fundos de pensão em sinistra parceria com os mafiosos e arapongas da Telecom Italia:

— Documentos apreendidos pela Polícia Federal, aos quais o iG teve acesso, revelam que a tentativa do governador José Roberto Arruda de forjar uma imagem incorruptível para sua equipe e a administração de Brasília aumentou a irritação do jornalista Edmilson Edson dos Santos, o Edson Sombra, e apressou a deflagração do escândalo do DF. De fato, antes de os vídeos feitos por Durval Barbosa, ex-secretário de Relações Institucionais e pivô das denúncias no Distrito Federal, virem à tona, Arruda começava a preparar sua campanha à reeleição, tentando firmar-se como um político limpo e exímio administrador. Chegou a obter índices de aprovação semelhantes aos do governo Lula.

Tal campanha, como notou-se no últimos dias na coluna Panorama Político, d’O Globo, incluia um livro sobre a gestão de Arruda lançado em 2008, com elogios na orelha contribuidos pela mais alta tucanodemocracia:

— O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: “Pela boa administração que exerce no DF, José Roberto Arruda é hoje uma das principais lideranças do cenário político nacional”.

Agora, que teria sido a entrevista com a Vejaedição de 15 de julho de 2009 — que levou o jornalista e homem de mistério Edson Sombra — “O Sombra sabe … rárárárárárárá” — a partir pela deconstrução dessa mercadologia descarada:

— No gabinete de Durval Barbosa, a PF encontrou as páginas de duas reportagens sobre Arruda na imprensa, as duas com anotações de Sombra. Em uma delas, publicada pela revista Veja em julho do ano passado, o jornalista sublinhou um trecho da entrevista onde Arruda fala de ética e de como não permite atos de corrupção em seu governo. “No canto superior esquerdo da página observa-se uma anotação feita por Sombra de caneta azul, no dia 14 de agosto de 2009, direcionada a Durval dizendo o seguinte: “Durval, só hoje me dispus a ler essa entrevista e vi a contradição da história, de ontem e de hoje‘”, registra a PF na análise do material apreendido.

Mais na verdade — isso vai causar polêmica dentro dos açogues do PIG: A ENTREVISTA EM SI NÂO FOI TÂO RUIM.

Nem foi tão puxa-saco assim.

São a manchete, os subtítulos, o lide, e os “pull quotes” — ipsis litteris em destaque, como vocês chamam? — que são. Manchete:

“Ele deu a volta pra cima”

Subtítulo — agente chama-o de “dek,” vai saber porque:

Depois de amargar uma imensa rejeição provocada por medidas de austeridade, o governador do Distrito Federal diz que é possível ser popular sem ceder às tentações do populismo

O lide narra um lugar comun dos mais baratos: o milagre de Lázaro, a salvação de Sindbad o Marinheiro, e coisa e tal.

Em 2002, elegeu-se deputado federal e, logo depois, governador do Distrito Federal. Numa cidade acostumada a conviver com exibições grotescas de todo tipo de privilégio e desperdício de dinheiro público, o governador chegou pela contramão. Demitiu funcionários, pôs as contas em ordem, tirou camelôs e vans irregulares das ruas, enfrentou grevistas e freou um processo histórico de invasão de terras públicas.

Eis o Grande Mago de Oz que transformou com um passe de mágico (e R$3 milhões de dinheiro público) as “exibições grotescas” em desfile da bela e poderosa Beija-Flor:

Da orelha do mesmo livro citado acima:

“Parabenizo o governador José Roberto Arruda por suas ações moralizadoras” – Heráclito Fortes, senador (DEM-PI).

Todos esses elementos da matéria costumam ser acrescentados pelos redatores e não pelo jornalista, que portanto talvez não mereça a culpa aqui.

Ele — Otávio Cabral — pergunta, por exemplo:

— O senhor foi personagem de um dos maiores escândalos da história do Senado, a violação do painel de votações. Por causa disso, o senhor renunciou ao mandato. Há algum paralelo entre a sua situação e a do senador Sarney?

Vão negar que foi uma pergunta dura, justa e relevante? Uma pergunta com cojones? Não pode. Foi. (Só que eu teria dito, ” foi personagem … e assumiu a sua culpa publicamente.”)

As perguntas são adequadas.

O Arruda enforcou-se pelas próprias palavras.

Para mim, essa leitura fortalece o princípio epistemo-deontológico fundamental do Vejaismo no análise nassifiano: são os redatores que interditam qualquer tentativa de fazer jornalismo do qual o profissional pudesse minimamente orgulhar-se.

A Exame, por exemplo, às vezes faz bom jornalismo.

Mais vezes do que a gente talvez pense.

(Às vezes, não faz, mais tem motivo para a esperança, pelo menos)

Versão dessa leitura para inglês ver aqui.

Anotação do Sombra (rárárárárárárárárárárárá) — faz clique para ampliar:

Anotação