A Bolha da TELB3, Sem Fatos Relevantes

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Buemba! Buemba! Buemba!

Boatos valorizam ações da Telebrás em 35.000%

Via Portal ClippingMP.

Marcio Aith — aquele que já era editor executivo da Veja, mas foi para a Folha de S. Paulo em março do ano passado (Reinaldo Azevedo: “MARCIO AITH VAI, MAS FICA“) —  chega com essa estoria de hoje insinuando que gafes nas comunicações do governo sobre o destino de Telebrás estão enriquecendo os acionistas do estatal.

(Aquele, segundo Tognolli que “revela em Veja que fez uso do mesmo Dantas para obter a lista com nomes de políticos, como o presidente Lula, que manteriam contas em dólar no exterior.”

De Frank Holder, foi. Ora, depois contaram outra estoria sobre a chegada do dossiê de Dantas à redação. Né?)

A pior pessoa de ser ouvido sobre o abuso de boatos seria quem vive espalhando boatos, é minha primeira reação.

A segunda é de navegar para o Valor Econômico para ver se repercutirem. A Veja já gastou faz tempo minha capacidade de me interessar em assuntos sem importância. O Valor, não. Sou assinante. Me acorda quando os adultos começam a falar.

Nem posso afirmar com certeza que Aith e Julio Wiziack, o co-autor da matéria, tenham muito experiência com reportagens sobre o mercado de ações. Wiziack

… é natural de Barretos, São Paulo, tem 32 anos e é jornalista diplomado pela ECA-USP. Estudioso dos temas relacionados à homossexualidade …

Autor de Abrindo o Armário (Editora Jaboticaba). Pelo qual o parabenizo.

Previsão: vamos ser regalados com requentada conversa para boi dormir.

No entanto, agora seria um bom tempo para fazer uso daquela ferramenta maneiro de Google Finance (acima; faz clique para ampliar) que sobrepôe o fluxo de notícias sobre dada ação à oscilação do preço de mercado.

Dá para receber um panorámico dos últimos dois anos ou selecionar um periódo menor. Dá para comparar com o desempenho dos principais índices, índices de setores industriais, e tudo mais. Bacana.

A matéria de Aith aponta correlações entre certos eventos (e não outros) e flutuações no preço da ação (BOVESPA:TELB3), mais não dá para confirmar se as datas batam ou se não houvesse outros aumentos no valor de mercado da empresa que não coincidia com tais “boatos” e “vazamentos.”

Infelizmente, a bugiganga só rastreia os mercados estadounidenses e europeus até agora. (Aguardamos para o Bovespa entrar no mercado de dados.)

Para quem acredita que tem uma correlação direta entre o noticiário e o preço da ação, eu tenho uma ponte no Brooklyn para vender, preço de liquidição!

Em tempo: Quem vai ser o primeiro para denúnciar uma esquema de caixa 2 para eleger a Dilma?

Brincando de sudoku

Resumo: As ações se valorizaram 35,000% — aumentando o “market cap” de R$ 3.4 milhões — ERRAMOS: tive que corrigir um bilhão mil vezes errado no original (26/2/10) — para R$2.6 bilhões de 2003 para hoje.

Para dramatizar esses números, uma analogia:

No clima de euforia em torno das ações da Telebrás, o valor de mercado das ações ordinárias da companhia saltou de R$ 3,4 milhões (custo do camarote expresso 2222, no Carnaval de Salvador) para R$ 2,6 bilhões (valor equivalente ao empréstimo do BNDES para a formação da BrT-Oi, maior companhia privada brasileira).

Dentro de outra ótica, no entanto, a cotação fora de R$0.01 para R$2.30 — cotação do momento, oscilação positiva de 3.6% hoje (o aviso de Aith parece não ter surtado efeito) — nenhum dos quais valores compraria uma bilhete para passeiar no Metrô de São Paulo.

Também, chega de afirmações hipotéticas. Se quem tivesse R$10,000 investidos teria agora R$3.5 milhões hoje, a pergunta é: Alguem comprou ações naquela época e não vendeu até hoje? Quem? Quem são os acionistas de TELB3? Cui bono?

Agora, em tom de furo — Teletime News já relatou pedido de suspensão do pregão de TELB3 por causa de oscilaçãoes suspeitas (para baixo, se não me engano) no dia 9 de outubro do ano passado, além de já contar em detalhe várias outras ações da CVM e Bovespa no caso — Aith apresenta casos ditos exemplares:

Dois episódios retratam a forma como os papéis da empresa se valorizaram. No último dia 2, o representante da Associação Software Livre, Marcelo Branco, usou o Twitter para divulgar, em tempo real, um encontro fechado entre o presidente Lula e entidades da sociedade civil interessadas no assunto.

A CVM puniu o diretor de relações com investidores em setembro de 2009.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) aplicou, por unanimidade, a penalidade de advertência a Jorge da Motta e Silva, diretor de relações com investidores da Telecomunicações Brasileiras S.A. – Telebrás, pelo suposto descumprimento da obrigação de diligenciar, perante o acionista controlador, a obtenção de informações a respeito de notícias publicadas em 9 de abril sobre a exclusão da companhia do projeto de banda larga.

Qual foi a notícia do 9 de abril e quem noticiou? Não faça que eu tenha que entrar no site da CVM. É chato.

Agora, mais uma vez em tom de furo:

A Folha apurou que a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) faz, desde 2008, uma ampla investigação sobre o assunto, por meio de uma equipe que inclui não só fiscais do órgão como procuradores.

Ponto final. A investigação seria ampla. Inclui tantos fiscais como procuradores. Que apuração, hein?

Nada do teor ou gravidade da investigação.

Como vamos saber se os acontecimentos narrados pelo Teletime e outros não seriam frutos dessa mesma investigação?

Tal como podia ter sido a advertência — só advertência por enquanto — ao diretor de RI?

Que a CVM fica de olho, eu podia ter apurado sozinho, lendo cobertura mais adequada do assunto.

Diagnóstico: Até agora, uma notícia requentada, com falta de novidade e sintomas de papo para boi dormir.

O novo fato relevante: sem relevância

Marcelo e Julio também omitem o mais novo episódio na suposta drama — uma notícia que até oferece um exemplo da não-correlação, ou correlação negativa, entre o fluxo de informaçãoes públicas e o preço de uma ação:

O tuite que lançou mil apostas

Mas agora entramos na x da questão, que seria o descontrole sobre informações por parte de autoridades.

Requenta-se aqui aquele episódio do cara do movimento Software Livre que fez um tuite durante uma reunião com o governo. Aconteceu dia 3 de fevereiro.

Dizendo-se autorizado pelo Planalto a usar um telefone no encontro, Branco relatou, citando palavras do próprio presidente Lula, nunca desmentidas pelo palácio, que a Telebrás seria, sim, reativada, na esteira do PNBL.

Credita-se às “tuitadas” de Branco uma valorização de 33% em apenas dois dias.

A voz passiva do verbo é o primeiro recurso do malandro.

Quém foi que lhe creditou à conta de Twitter de Marcelo Branco a valorização das ações?

Ademas, recorre à sofisma de geralização prematura, fazendo de conta que os dois ou tres casos contados são representativos de uma tendência mais ampla:

Dois episódios retratam a forma como os papéis da empresa se valorizaram.

Duas pingas de chuva retratam a forma de como atuava a pancada que abalou a vizinhança ontem, quando a luz faltava para várias horas (e a ação de AES Eletropaulo hoje?)

Convergência Digital escreveu na época do “vazamento” de Twitter:

Nesta quarta-feira,03, espera-se uma nova movimentação atípica com as ações da Telebras na Bovespa, as quais desde 2007 vêm sofrendo oscilações, à medida em que alguma informação é publicada na imprensa. De lá para cá, jornalistas têm sido constantemente assediados por investidores, sempre interessados em divulgar informações de bastidores que possam de alguma forma contribuir para manter a cotação desses papéis em alta.

Tem uma bolha formando desde 2007, com a CVM ficando de olho desde 2008, nas ações da empresa.

Eu já soube disso.

Do gafe — suposoto — durante a reunião no Planejamento, já soube.

Que todo é ato falho do governo dos terroristas na ótica de Márcio Aith e Olavo de Carvalho, já fiquei sabendo:

Após discussões entre os dois ministérios, muitas travadas em público, quase sempre [?] inflando o valor das ações da empresa, Lula decidiu delegar o assunto a Cesar Alvarez, assessor especial do presidente e coordenador dos programas de inclusão digital do governo.

Post hoc, ergo propter hoc?

Mais: “quase sempre”? Precisamos aqui da ferramenta de Google par poder mapear e contar notícias e subidas.

Jornalista do mercado nunca recorre aos “números moles.” É sempre “números duros.” Em 7 dos dez casos apurados, digamos.

Mais: Então, são os boatos que são inflando o valor, e não os operadores de mercado que vem sitiando jornalistas?

Boatos não enganam.

Pessoas enganam-se acreditando em boatos espalhados por enganadores.

Quanto ao Cesar Alvarez, Nassif e Cia. estavam debatendo o assunto no fim de novembro do ano passado quando o navegante Gilberto Braz informou:

Cesar Alvarez e Rogério Santanna elaboraram um Plano Nacional de Banda Larga estruturado desta maneira:

Utilização das redes de fibra óptica da Eletronet, Eletrobras, Petrobras, Furnas, Eletronorte, etc… que compõem imensos backbones que cobrem quase todo o país, mas que estão subutilizados e ainda não integrados entre si.

A idéia é integrá-los todos sob a gestão da Telebras, que seria reativada.

Em fim, um assunto sério, tratado com leviandade, exagero sub-literário, e pouco trabalho de apuração.

Como café requentado na microondas: Não tem a mesma graça.