A Organização x O Sistema: Os Homens-Bombatómicas de Gringolândia

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Os Diários de Turner

Notícias Google/Zero Hora: Os Osamas bin Laden da ultradireita norteamericana.

“Irritado com o IRS, a Receita Federal dos EUA, o americano Joseph Andrew Stack decidiu se vingar de forma violenta e inusitada: jogou seu avião contra a sede do órgão em Austin, no Texas, sul do país.”

Imaginem o que podia ter acontecido se estivesse um pouco mais do que simplesmente “irritado.”

Além disso: “inusitada” é sua vovozinha. Vamos mais pra baixa a uma aula de história que mostrará que não trata-se aqui de um fato isolado. De jeito nenhum.

(Cabe lembrar, por exemplo, que a cidade de Austin, capital estadual de Texas (eu sou descendente da mesma familia Austin, sabia?) foi a cena de um ato de terrorismo logo na década dos anos 1960s, quando um franco-atirador, Charles Whitman, matou 14 e feriu 32 pessoas de cima da torre central da Universidade de Texas. Foi revelado depois que ele sofria de um tumor cerebral. Ele escreveu numa carta ao seu irmão, após matar a sua mãe: “Tenta fazer melhor do que eu fiz. Não será difícil.”)

De volta ás notícias inéditas:

“A colisão do pequeno monomotor Piper Cherokee PA-28 contra o edifício de sete andares provocou um incêndio, e pelo menos duas pessoas ficaram feridas.”

O ataque não levou aos 3,000 mortos do 11 de setembro, felizmente, mais o simbolismo dele, e a lembrança que existe essa franja radical no país, são muito preocupantes porque tem, sim, precedentes, além de profundas raízes cuturais, históricas e sociais.

Faz décadas que nós lidamos com “milícias” no interior do país — o estado de Idaho tem fama de ter a maior concentração — que misturam supremacismo racial, antisemitismo, e xenofobia em geral com teorias de conspiração, reclamações pelo  estabelecimento de uma teocracia (o estado láico e o “humanismo secular” são partes de um complôt do Foro de S. Paulo; Obama é o anticristo) e o recuso de pagar impostos por considerá-los inconstitucionais.

Até o 11-Set, o pior ataque terrorista na história do país foi cometido por um dos “lobos solitários” dessa franja ultradiretista, Timothy McVeigh, sargento-mestre aposentado do Exército e veterano do primeira guerra contra Iraque. (O termo “lobo solitário” também se aplica aos franco-atiradores que executam médicos que praticam aborto.)

Ele, com a ajuda de um comparsa, explodiu um prédio do governo federal em Oklahoma com bomba-caminhão, ativado por controle remoto. O pior da explosão atingiu o crêche do prédio. Recebeu a pena de morte e foi executado pelo governo federal. É tido como mártir do movimento.

A inspiração dele, como ele mesmo explicitou numa entrevista com a grande imprensa, foi um romance, escrito por um supremacista racial, chamado Os Diaŕios de Turner (acima).

Trata-se de uma revolução nos EUA, utilizando técnicas de guerra assimétrica, que leva ao golpe de estado, a guerra nuclear e o extermínio de judeus e não-brancos (“mud people”: povo de lama).

O gatilho do crise: Um senador judeu consegue passar um projeto de lei (Lei Cohen) tirando o direito de possuir armas de fogo da cidadania (contrariando a controversa Segunda Emenda).

(Olha, um dos meus mais caros amigos e colegas é Mike Cohen, redator-chefe de um jornalzinho sobre tecnologia e contabilidade.)

Começam com a conquista de California do Sul e a base aérea de Vandenberg, com seus mísseis atómicos. Lançam-nos contra Nova York, Israel e a URSS. (Me lembro de assistir os lançamentos de teste nos anos 1960 e 1970, visíveis (espetaculares) da cidade de Los Angeles.)

Em fim, para derrubar a junta militar que toma conta do pais, mandam um homem-bombatómica num avião pequeno para driblar o radar e acabar com o Pentágono e o capital do país.

O livro continua livremente disponível no Amazon, p.ex., apesar do FBI (polícia federal) ter chamado-o da “bíblia do neonazismo.” Está livremente disponível também, em português:

http://www.natvan.com/portuguese/turner-diaries/

Agora:

cbrayton@carmenmiranda:~$ whois natvan.com
...
Administrative Contact, Technical Contact:
Gliebe, Erich erich@resistance.com
National Alliance
PO BOX 90
Hillsboro, WV 24946
USA
304-653-4707

O National Alliance sendo a organização racista antigamente liderada pelo autor do romance.

Só uma amostra do teor desse romance, do Epílogo:

Um grande número de Judeus, com ajuda de brancos conservadores e liberais, tiveram tempo para montar um plano de subversão. A conseqüência foi que as tropas do Sistema, ajudadas por uma quinta coluna no interior do enclave, recapturou Pittsburgh. Os Judeus e Pretos iniciaram então uma enorme e selvagem campanha de assassinato em massa, lembrando os piores excessos da Revolução Bolchevique instigada pelos Judeus na Rússia, 75 anos antes. Até que a orgia sangrenta terminasse, praticamente todo Branco na área ou tinha sido dilacerado ou tinha sido forçado a fugir. Os membros da Organização sobreviventes que eram responsáveis pelo comando de Pittsburgh, cuja hesitação em lidar com os Judeus tinha trazido a catástrofe, foram reunidos e executados por um esquadrão disciplinar especial que agiu sob ordens do Comando Revolucionário.

Noutros lugares, fala-se da aliança do Sistema com “gangues de Pretos narcotraficantes, estupradores e espoliadores.”

Ora, repito: “inusitada” é conversa para boi dormir.

O mais interessante, talvez, é a aparente incoerência do apoio sem limites de setores desse espectro ideológico ao Israel.

Explica-se pelo fato de que esses grupos acreditam em profecia bíblica que supostamente prevê uma guerra final entre o Judaismo e Islã que precipitará o Rapture (“rapto” mais também “alegria mística”) no qual todos os fieis de Cristo ascenderão ao Céu enquanto os infiéis (tanto judeus quanto muçulmanos e budistas e tal) serão exterminados.

Bem-vindos à solução final.

Trata-se também de um fio narrativo que passa por todos os fases da história dos EUA, o chamado “Manifest Destiny”:

… um conceito muito utilizado no século XIX para sugerir que o país era destinado, ou até mandado por Deus, a tomar posse do continente inteiro desde a costa do Atlântico até o Pacífico. Alguns interpretava isso mais amplamente para sugerir a inclusão de Canada, México, Cuba e América Central. Quem pregava essa crença acreditava que essa expansão era não somente ética mas também claramente revelada (“manifesto”) e inevitável (um “destino”).

Fonte: Wikipedia, ponto de encontro de toda sabedoria com toda besteira. (Nesse caso, resume o que consta em todos os livros escolares da minha época, pelo menos, e continua a ser analizado sériamente pelos historiadores. Era o hegelianismo da época, depois combatido por C.S. Peirce e Russel & Whitehead.)

Mais recursos  para principiantes na história e a atuação corrente da direita religiosa, racista e apocalíptica — aquela cortejada abertamente por Reagan e Bush Filho (e lotado em cargos de confiança no governo federal do último, às vezes com resultados desastrosos — Furacão Katrina) — que agora se sente traída por Bush II em especial (poxa, ele até aumentou meu imposto de renda, agora de quase 40%):

  1. Religious Right Watch
  2. Southern Poverty Law Center
  3. SourceWatch

Em tempo: o destino manifesto manifesta-se expressivamente na história sagrada dos Mórmons:

… o termo Mórmon inicialmente era o nome de um local onde o profeta Alma ensinou o Evangelho de Jesus Cristo ao povo do Rei Noé que vivia na terra de Leí-Néfi próximo ao ano 146 a.C. Mórmon também se refere ao profeta historiador que viveu nas Américas aproximadamente no ano de 321 d.C.

Quer dizer: os ensinamentos de Cristo foram recebidos pelos homens brancos que dominava o Novo Mundo antes de Cristo, muito menos antes do “descubrimento” pelo Cristóforo (Gr. “encarregado de Cristo”), Colombo.

Negritude, polemicamente, é enxergado nas escrituras da igreja como o marco de Caim.

Fonte: ibidem.

Na Salt Lake City, capital estadual de Utah e capital espiritual do Mormonismo, o cruzamento de Igreja e Estado.

Eu até morava lá perto em 1985, em Federal Heights, trabalhando como bibliotecário médico num hospital.

Igreja e Estado na encruzilhada à meia-noite

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