Fordlândia e o Efeito Rashomōn (Quer Dizer, Rashōmon)

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Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal.
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
–Chico, “Fado Tropical”

[Em tempo, 23/02/10: parece que não lembrei direto o enredo do filme no seguinte análise-divagação, apoiando-me no resumo na Wikipédia (mal traduzida do inglês). O vilão da peça é o bandido Tajōmaru, por exemplo, o estupro da mulher do samurai sendo o equivalente à tentativa atribuida ao Henry Ford de impôr a vontade sobre a natureza, pode ser. (Depois eu explico, resumindo um estudo histórico do imaginário gringo, The Virgin Land (A terra vírgem)

Também pus o “macron” no lugar errado. E Rashōmon e não Rashomōn.  O trabalho terá que ser refeito nas detalhes, mais as linhas gerais ainda tem certo valor para mim.

Mais também ainda não vi o documentário brasileiro que dara a contrapartida ao livro resenhado. Locadoura não tem. É o livro resenhado demora muito para chegar de Amazon (o site e não o Rio.)]

Nova atualização (14/4/2010): Puxa, tem pessoas lendo essa bagunça. Como sempre ensino em minhas aulas, o primeiro passo e escrever livremente, seguindo qualquer divagação que atraia você. Segundo e reler e buscar a ordem potencial, descartando argumentos becos-sem-saídas e fortalecendo argumentos sustentáveis. Ainda estou nessa fase. Uma vez que as pessoas estão lendo, porém, produzi um mapa conceitual para ilustrar a intertextualidade e interpentração de fatos e ficções pelas veredas da quais ando vagando no texto a seguir.

Ou, pensando melhor:

Com o pedido de uma antiga colega de revista, residente hoje na Turquia, para uma contribuição ao blog dela — onde trata-se da experiência bicultural do exilado e “expat” — eu imediatamente pensei nessa resenha da qual fiz “clipping” umas semanas atrás

Trata-se aqui de um um livro novo que conta a história de Fordlândia, plantação de borracha e cidade-modelo construido por Henry Ford na selva Amazônica em 1928, para inglês ver.

Vocês brasileiros falam muito do fordismo e pós-fordismo enquanto a gente tende a falar do taylorismo e anti-taylorismo —  de F.W. Taylor (1856-1915), que articulou os métodos depois adaptados por Ford. Se Ford era a sintoma, a doença — se bem que você enxergue seu trabalho assim — era a obra de Taylor, adaptas por muitos setores industriais da época. Por exemplo, este livro aqui na minha mesa:

Hans D. Pruijt, Job Design and Technology: Taylorism vs. Anti-Taylorism (Esquemas de trabalho e a tecnologia: taylorismo x o anti-taylorismo), Routlege Advances in Management and Business Studies (Avanços em gestão e estudos empresariais Routledge), 1997.

Achei essa história de Fordlândia muito valiosa para meu propósito pelo fato de tratar do mesmo assunto do que um documentário brasileiro recente sobre o mesmo “delírio perdido de Ford” (IstoÉ, 25 de nov. de 2009), assim como pela observação do seguinte paradoxo observado na resenha do livro:

Muito mais do que uma parábola sobre a tentativa arrogante de um único homem de impor sua vontade sobre a natureza, esse livro retrata uma tentativa desesperada de salvar uma América do passado, à extinção do qual o sistema Ford de fabricação tinha contribuido tanto.

Sendo assim, daria uma bela continuação a algumas das observações anotadas em minha nota anterior,

Essa história de Fordlândia tem a ver, nesse sentido, tanto com questões de pólitica e economia, e globalization quanto com assuntos pessoais, entre os quais surge a pergunta primordial: “O quê está fazendo por aqui, cara-pálida?”

Nota ao meu amor, minha vida, minha privada entupida, a guria Índia Tupia: Veja se consiga o documentário na locadoura.

Não é uma questão de machismo, não: É que ela tem a habilitaçãõ de motorista que eu ainda não consegui. Ir lá à pé? Está brincado? Cair no estado de sem-carro é uma morte social. Sambodia: Onde os pedestres não tem vez!)

A seguir, a minha tradução: A história estarrecedora e inédita da tentativa quixotesca de recriar uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos no coração da Amazônia.

Em 1927, Henry Ford, o homem mais rico do mundo, comprou uma extensão de terra duas vezes o tamanho do estado de Delaware na Amazônia brasileira. Ford pretendia criar pé-de-borracha, mas o projeto evoluiu-se, virando uma tentativa ambiciosa de exportar os Estados Unidos na sua essência, com seus campos de golfe, sorveterias, palanques de banda, água encanada e carros modelo T andando pelas amplas ruas. Fordlândia, como o assentamento era conhecido, rapidamente virou a cena de um confronto épico. De um lado o barão do automóvel, magrelo e rigoroso, o homem que reduziu produção industrials as componentes mais simples; de outro, Amazonas, lush, extravagante, o ecosistema mais complexo do mundo. O sucesso inicial de Ford com a imposição de horários fixos e bailes do tradicional square dance, logo desabou quando trabalhadores indígenos, rechaãndo o puritanismo do meio-oeste norteamericano, transformara o lugar em uma lasciva e próspera, mais efémera, cidade tropical. A falha paulatina de Fordlândia como plantação de borracha prenunciou as práticas que ainda hoje estão devastando a floresta.

Muito mais do que uma parábola sobre a tentativa arrogante de impôr a vontade de um indivíduo sobre a natureza, esse livro retrata uma tentativa desesperada de salvar a América do passado, à extinção do qual o sistema Ford de fabricação tinha contribuido tanto. Como mostra Greg Grandin nessa história intrigante e mordaz, o grande engano de Ford não foi que a Amazônia pudesse ser domada mais que as forças do capitalismo, uma vez desencadeadas, ainda pudessem ser domesticadas.

Greg Grandin é o aturo do “Empire’s Workshop” (A oficina de império), “The Last Colonial Massacre” (O último masscacre colonial) e o premiado “O Sangue de Guatemala.” Professor associado da Universidade de New York e premiado com uma bolsa Guggenheim, Grandin serviu na comissão de verdade da ONU que apurava a guerra civil de Guatemala, e já escreveu para o “Los Angeles Times,” “The Nation,” “The New Statesman,” e o “New York Times.” Esse livro foi indicado para o National Book Award (Prêmio nacional do livro).

O Efeito Rashomōn I: Fordlândia Para Inglês/Tupi Ver(em)

O publicitário norteamericano Richard Edelman, herdeiro da empresa de comunicações Edelman Worldwide e lamaçal sem fundo das piores besteiras imagináveis, definiu o efeito Rashomon, no blog dele, assim:

Joe Nocera do New York Times falou da história de Rashoman [sic], o conto talmúdico sobre a incapacidade de alcançar a verdade por causa de um matriz de fatos contraditórios entre sem. Sugeriu que não existe verdade única.

A mesma lógica que levou Póncio Pilato à lavar as mãos.

Edelman está enganado tanto quanto às fontes do roteiro — que são dois contos japonêseses pelo mesmo autor moderno, escritos nos anos 1950s —  quanto à lição epistemológica da história.

(Isso não quer dizer que o Talmudo não pudesse conter ensinamentos parecidos, ou que os japoneses são impedidos de ler o Talmudo).

Vamos a uma definição um pouco mais adequada (da Wikipedia):

… é o efeito da subjetividade de percepção sobre a lembrança, que pode levar observadores de um único acontecimento a produzirem descrições bem divergentes, mais igualmente plausíveis, dele. Um exemplo útil disso nas ciência é o artigo “O Efeito Rashomon: Quando Etnógrafos Discordam,” de Karl Heider (American Anthropologist, March 1988, Vol. 90 No. 1, pp. 73-81).

Os dois, o publicitário e Wikpedia, porém, caem na armadilha de um Cartesianismo fácil e intelectualmente preguiçoso.

Como o filósofo nortemericano C.S. Peirce argumentou em 1868 — antecipando por quase um século a teoria de Karl Popper sobre a comunidade de pesquisadores científicos como modelo para a “sociedade aberta”:

“… o critério Cartesiano …  pode ser resumido assim: “Aquilo do qual estou claramente convencido é verdade.” Se eu estivesse realmente convencido, eu teria chegado ao fim do raciocínio e não teria mais a necessidade de qualquer teste de certeza. Mais fazer de indivíduos isolados juizes absolutos da verdade deste jeito é muito pernicioso. O único resultado possível é que os metafísicos dirão que a metafísica já alcançou um nível de certeza muito além daquela alcançada pelas ciências físicias — só que não conseguirão concordar em mais nada. Mas nas ciências nas quais os homens buscam chegar a um acordo comun, quando uma teoria é lançada, é vista como se gozasse de liberdade condicional até esse acordo ficar fechado.”

Esse Cartesianismo naive é uma forma de individualismo-sujeitivismo radical (e logicamente absurdo) que Peirce considera uma “auto-enganação.”

Como indivíduos, não temos nenhuma esperança razoável de alcançar a filosofia absoluta que procuramos; portanto, o único lugar onde existe essa esperança é na comunidade de filósofos. Assim, quando mentes disciplinadas e francas têm apuradas cuidadosamente uma teoria, para depois recusar a aceitá-la, isso deveria levantar dúvidas na mente do autor de dita teoria.

Quando dizemos de antemão que uma “verdade única” seria algo inalcançavel, damos uma justificativa (furada) para omitir a apuração dos fatos..

Além do mais, no fim do filme de Kurosawa, aliás, como eu vivo apontando, o mistério é resolvido, sim.

Não existe versões sobre os fatos que são “igualmente plausíveis.” Talvez estão em determinado momento, faltando outras informações, mais com a chegada dessas informações, o que parecia acreditável antes não se sustenta mais.

Nem os dois juízos de valor possíveis na ótica do monge — o otimismo-pessimismo sobre a natureza humana — são “igualmente plausíveis.” Com cada dado novo, ele vacila entre as duas opções, inclinando-se ora para uma, ora pra outra.

Ele é o asno de Buridan, nesse sentido.

Mais aos fatos! Aos fatos!

O lenhador testemunhou o assassinato do samurai estuprador corno pelo marido corno bandido estuprador da moça, num duelo anti-heróico incentivado por ela, e depois roubou o adaga do cadáver do estuprador. Confessadamente. Ponto final.

(Se não fosse o hermetismo da justiça brasileira, a admissão de Arruda que ele, sim, mexeu com o painel do Senado teria sido o suficente para cassá-lo na hora.)

Note-se tambẽm que não trata-se aqui de nenhuma comunidade de pesquisadores imparciais que não conseguem chegar a um acordo común.

Das quatro testemunhas, duas são partes interessadas — a mulher do samurai e — psicografado por Chico Xavier — o samurai-estuprador morto.

As outras duas — o lenhador e o plebéu — são transeuntes inocentes — ou parecem ser, antes de sabermos que um deles aproveitou e assim se envolveu na situação (o roubo). Nas cenas finais, o plebéu atua como promotor de justiça; o lenhador, o réu; e o monge, o magistrado.

(Mais o plebeu é também roubador que tenta justificar seu roubo com a velha lema brasileira: “ladrão não tem moral para chamar ladrão de ladraõ.”)

No templo, o lenhador, o sacerdote e o plebeu são interrompidos das discussões sobre o relato do lenhador pelo choro de um bebê. Eles encontram a criança abandonada, e o plebeu pega tanto o quimono quanto um rubi que serve de proteção para o bebê na cesta. O lenhador repreende o plebeu por roubar pertences de uma criança abandonada, mas o plebeu o questiona sobre a adaga da mulher; o lenhador não responde e, dessa forma, o plebeu junta as peças do quebra-cabeça e percebe a verdade: aquele lenhador é um ladrão, tendo roubado a adaga utilizada no assassinato do samurai.

Fica, no entanto, uma segunda e distinta questão, a de um juízo de valores sobre esses fatos, com o espectador no papel de jurado.

A perplexidade do monge surgirá da vacilação dele entre os dois juízos de valores que ele acha possível sobre os fatos, opções que parecem igualmente plausiveis — até o surgimento de novas informações que marcarão a diferença entre os dois atos de roubo.

O lenhador insiste em mentir sobre suas ações:

Essa série de mentiras e decepções abalam a fé do sacerdote na bondade da Humanidade. Ele é trazido de volta para seus sentidos quando o lenhador tenta alcançar o bebê nos braços do sacerdote. Após inicialmente repreender o lenhador (“Você está tentando tomar tudo o que ele tem restante?”), ele demonstra piedade quando o lenhador explica que ele tem seis outras crianças em casa, e que a adição de mais uma (o bebê) não tornaria a vida mais difícil. Essa simples revelação passa a limpo a história do lenhador e o roubo subsequente da adaga em uma nova perspectiva. O sacerdote entrega o bebê ao lenhador, dizendo que este o deu uma razão para continuar tendo esperança na humanidade.

(Vislumbrado aqui é o que podia ser enxergado como o mesmo processo narrativo geral de esperança-ilusão nos termos do qual o Peirce descreve a escolha metodológica fundamental.

A escolha daquela esperança razoável que leva os homens a buscarem “acordo comun” — o qual demorará para ser fechado ou, bem possívelmente, jamais se fechará por inteiro, mais no sentido do qual, pelo menos, enxergamos a oportunidade prática para um grau de progresso valioso.)

Fordlândia: “Sweet Land At Last!”

Agora, no caso do “efeito Rashomōn” visível em nossa primeira e provisória leitura bilíingue do moral da história de Fordlândia, segundo as  duas fontes citada aqui — bem pode haver outras fontes que faltam para completar essa leitura — a influência subjetiva que cora a interpretação dos fatos, assim como o jeito pelo qual os fatos são lembrados, podia ser resumido como algo parecido com os seguintes interpretações meio hegelianas:

  1. Para os gringos, a Fordlândia teria sido uma tentativa de reconstruir um passado extinto mais ainda enxergado como recuperável; enquanto
  2. Para os brasileiros, trataria-se de um futuro tantalizador, por ser comprovadamente possível — uma expectativa apoida em bastantes razões concretas — mais ainda não realizado até hoje.

São os dois lados da moeda, apresentando dois tristes tópicos-trópicos-tropeços: “esperança-desespero” e “passado-futuro” — ou melhor, “culpa/desespero/esperança/força da vontade/fracasso” e “passado pluperfeito/presente indicativo/presente subjuntivo/futuro pluperfeito.”

Sebastianismo (a idade de ouro está sempre por vir) e Proust (a idade de ouro ja’passou e precisa ser recuperado).

(Prefiro Wordsworth sobre esse último ponto.)

Shiita (a ocultação do imam invisível)-Sunnita (a reprodução-manutenção da comunidade perfeita que existia durante a vida do Profeta).

Ou que seja.

Mais primeiro, aos fatos!

Aos Fatos

No ideas but in things
(Não tem ideias senão em coisas)
–William Carlos Williams

O site da empresa turistica — voltamos a nosso turista-flâneur — Conexão Oeste Produtora tem um ótimo e meticuloso relato dos fatos do ciclo de Fordlândia, dentro do ciclo mais amplo de borracha, desde um ponto de vista preponderamente económico e jornalístico:

… a história da aquisição dessa área em julho de 1927, um milhão de hectares, é meio intrincada, onde aparecem as figuras de Jorge Dumont Villares, herdeiro de uma afortunada família cafeeira de São Paulo, e W. L. Reves Blakeley.

Segundo Warren Dean, no seu livro “A Luta Pela Borracha no Brasil”, Henry Ford pagou 125 mil dólares a Villares para ficar com a terra que o Estado poderia ter-lhe cedido gratuitamente se tivesse tratado diretamente com ele.

O governo pagaria $250,000 — as dívidas trabalhistas da empresa — para expropiar as terras, além de todos os melhoramentos, quando a experiência acabou em 1945-6. Estimou-se que a Ford perdeu um investimento de uns US$20 milhões nos 18 anos da experiência.

Todas as versões dessa história — desde o lenhador até o monge — parecem reconhecer, no entanto, o papel-chave jogada por uma force majeure de natureza biológica:

Fato é que o Microcyclus praticamente dizimou o seringal implantado nos primeiros anos, obrigando que em 1934 a Companhia formalizasse com o Estado a permuta de uma área de 281 mil hectares, localizada nos fundos da gleba anteriormente adquirida, por outra de igual tamanho, no município de Santarém, margem direita do Rio Tapajós, onde edificaram outra cidade, Belterra, e começaram novo plantio racional de seringueiras. Seis anos depois de ter chegado a Fordlândia, a Companhia reiniciava do zero seu projeto de produzir borracha na Amazônia.

Assim, talvez uma outra versão da história enfocaria a Belterra, e não a Fordlândia, uma vez que constitui um recomeço de zero esperançoso apesar de ter passado por um recomeço de zero fracassado, seja por force majeure ou pela falta de critério na escolha original.

A Ford aprendeu a lição da primeira tentativa — melhor receber a concessão de graça, do Estado e chamar peritos próprios na questão do fungo  — faz a permuta do milhão de hectáres, e acaba completando o processo até o ponto de produzir borracha acabada em 1941.

Belterra, pelo menos, ainda existe hoje como um município sustenido e independente, saindo da jurisdição de Santarém em 1997.

Nesse caso nosso mito de um catástrophe na selva perde força.

Temos não somente uma cidade-fantasma cara-pálida e extraterrestre, mais tambem uma cidade viva e cabocla, tropicalizada e sobrevivente.

(Depois, visitaremos uma cidade-múmia, preservada como uma cidade-museu.)

(Critícos do imperialismo iánque dirão aqui que o governo da época tirou da Ford qualquer incentivo à cuidadosa gestão de risco, assumido o ônus desse risco no nome do contribuinte. Eu não necessariamente discordo por inteiro.)

Mais agora às testemunhas oculares do episódio (nosso lenhador, os transeuntes inocentes do acontecimento):

O agrônomo Eymar Franco, no seu livro de memórias “O Tapajós que eu vi”, relembra a chegada dos americanos em 1928, na época, ele um garoto de sete anos de idade, morando na comunidade de Urucurituba, numa fazenda localizada em frente de onde foi se estabelecer a Companhia Ford: “A chegada dos americanos ao Tapajós causou uma verdadeira revolução em todo o rio. Aqueles homens muito brancos, louros, de olhos azuis, falando uma língua diferente era a mesma coisa que a Terra fosse invadida por seres de outro planeta

Para Eymar, é uma história de esperança sólida acabando em desilusão:

“… pra tudo acabar na quarta-feira.”

A desilusão de uma promessa não paga:

“Em 1928 chegou a Companhia Ford Industrial do Brasil e trouxe uma era de prosperidade que prometia ser duradoura. Em fins de 1945, princípios de 1946, a Ford retirou-se do Tapajós e ele mergulhou novamente no silêncio e no esquecimento, ficando ainda mais pobre do que antes”, afirma Eymar.

Nosso testemunho está exagerando.

Belterra continuava após o fim de Fordlândia, em outro ponto do mesmo Rio, mais perto de Santarem.

Ser for próspero hoje em dia, não sei. Deve haver emprego no novo porto de Cargill em Santarém.

Em qualquer caso, a historia contada aquí, pelo ponto de vista economica, tem pouco do elemento-chave do livro resenhado, o “confronto” que faz entre uma cidade planejada uma anárquica “boomtown” — eu traduzo como “cidade próspera mais ulitmamente não sustentavel e portanto efémera” — e a natureza.

Acharam como combater o fungo. Leia lá. Conseguiram.

Na falta de sustentabilidade do “boomtown” são as sementes do futuro “ghost town” — e também as do futuro cidade-caboclo-sobrevivente.

IstoÉ, entretanto, numa bela crónica curta e resenha do filme documentário sobre Fordlândia, registra o que seria o ponto de vista de moradores da região nos dias de hoje:

Mas há quem, quase 80 anos depois, ainda acredite na utopia. O casal Wiliton dos Reis de Freitas e Brígida Izaias vendeu tudo o que tinha em Mato Grosso e resolveu tentar a vida nas terras compradas por Ford nos anos 30. O baixo preço dos lotes na região os levou até ali. Em Fordlândia, eles pretendem plantar e criar gado. Desejam construir um futuro num lugar que parecia encomendado ao passado.

Faltando a afirmação ipsis litteris dos entrevistados que o fato da terra pertencer antigamente a Ford influenciaram a escolha do lugar, porém, ficamos com um fato bem fundamentado —  o preço de lotes — e uma interpretação imposta de fora, sem apresentar fundamento tangível algum — que o casal são exemplos de “quem acredite” — subjuntivo — “em utopia.”

Talvez so acreditam numa relativa melhora. Falta perguntar.

Eis o ventriloquismo, vício recorrente da imprensa nativa.

Atribuir um certo “Sebastianismo” não passa de um lugar común folklórico.

As lembranças de Eymar tem mais valor por serem formuladas espontaneamente nas próprias palavras, mais ele também “romanceia” a história, populando-a com OVNIs e outras maravilhas.

O Efeito Rashomōn II: Paranapiacapa

Portanto quero viajar agora a um lugar parecido no Sudeste no Páis, do qual eu mesmo posso ofercer minha testemunha ocular: a cidade de Paranapiacaba, na região ABC(D).

Paranapiacaba, motor do primeiro ciclo de café — que depois financiaria o ciclo de borracha instaurado com Fordlândia, como vimos — e pátio principal da ferrovia Santos-São Paulo-Jundiaí — antigo São Paulo Railway Co. — que também seria vendido ao governo brasileiro pelos inglêses em 1946, noutra transferência não muito equilibrado de risco.

Um belo de um sábado, subimos no Eaputniquim — nossa Celta de kilometragem 60 mil, agora — e fomos lá, com mapa de Google Maps na mão. (Navegando assim em São Paulo nós lembra constantemente que a mapa não é o terreno.)

Onde a infraestrutura da Fordlândia, hoje em dia …

… se encontra abandonada, quem a visita vislumbra somente vestígios da “era de prosperidade” a que se refere Eymar Franco …  o patrimônio material de Fordlândia … [ficando] dilapidado pouco a pouco, através de sucessivos leilões públicos e outros tantos não oficiais, que mais poderiam ser chamados de saques contra o patrimônio construído pela Companhia e adquirido pelo governo brasileiro …

… a cidade planejada de Paranapiacaba — outro exemplo do “company town” norteamericano — fica bem preservada como uma cidade-muséu ou talvez uma cidade-múmia. (Além de turismo, a única atividade própria à comunidade que não era patrociniado pelo SESC e o MiniCult que vimos era uma grande concentração meio barra-pesada de motoqueiros bêbados.)

Em qualquer caso, o que me empolgava desde entrar no vale onde o pátio fica situado foi que ali, perfeitamente preservada, era um exemplo funcional do panopticon de Bentham!

Panopticon

Aquilo que Foucault descreve como símbolo sinistro do olhar (fraudulento) autoritário mais que Bentham apresentava como de grande utilidade — era utilitário, em fim — e eficiência: Sendo o vigia invisível aos presos, os presos iam comportar-se bem ainda na ausência do vigia, na dúvida se ele estiver presente ou não.

Assim, trata-se de uma mistificação que poupa dinheiro em salários — se bem que o vigia tem que seguir um horário aleatório para a mistificação surtar efeito — muito diferente do dia de oito horas na semana de 5 dias. (Se fosse comigo, eu reclamava ao sindicato. Eu preciso de regularidade para dormir bem.)

Finalmente, algo que lia durantes meus anos de doutorando sofrido com aplicação a e manfistação no mundo real!

Atravessamos a ponte e subimos até a Casa do Engenheiro-Chefe — eu pensando o tempo inteiro daquele conto de Kafka, “In The Penal Colony” (tr. Max Brod; Na colonia penal) …

Agora estou realizando um sonho: ocupando o espaçõ do globo ocular que não pisca! O que meu velho professor de fenomenologia sempre dizia impossível!

Outra impressão que surge espontáneamente à memoria: O guia da prefeitura que orientou nossa passagem pela casa do Engenheiro, insistindo muito no fato do que os ingleses faziam de tudo, mais tudo, para evitar a transferência de tecnologia.

Deu para perceber que tratava-se de uma prefeitura petista, pensei.

[…]

Casement: O Anti-FitzCarraldo da Amazônia Peruana

Ops, perdi o fio.

Deixa eu ver: Comecei com uma certa curiosidade sobre a figura mítica do gringo como é enxergado no Brasil, dando continuidade a minha irritação com a figura daquele “flâneur-turista” na minha nota anterior. Eu pago IPTU, porra!

Então, identifiquei o que parecem ser dois mitos do signficado do (des)encontro cultural e econômico supostamente representado pela Fordlândia.

A Fordlândia, segundo nosso historiador gringo, é tipo um projeto de FitzCarraldo, no filme de Werner Herzog — aquele alemão desequilibrado que sonha com trazer o grande Caruso para o coração das trevas.

Lendo mais sobre os fatos históricos de Fordlândia — a experiência de Belterra não era um fracasso total, no sentido de que aprenderam com o tempo lidar com o fungo — eu acho a comparação meio fraca, por ser um exagéo.

Positando — sob hipótese — o filme de Herzog, no entanto, como narrativo do mesmo gênero de romance que Fordlândia dá uma dica de como fechar essas considerações com referência ao terceiro exemplo escolhido: A resenha de um livro sobre uma figura central na luta contra os genocídios do Congo e Putamayo, resenhado por nosso autor (gringo) de Fordlândia (versão gringa)?

A tema principal aqui tem sido, ou pretende ser, como o efeito Rashomon ajuda a explicar os (des)encontros culturais.

Vimos que esse efeito tem uma estrutura interna muito mais complexa do que os sonhos de Richard Edelman — um dos publicitários mais anti-éticos dos EUA, aliás, mas meia-boca em relação ao Márcio Chaer — lhe permitem enxergar.

O que me interessa mais nessas ponderações, talvez, seria a construção da figura do estrangeiro e as transformações dela ao longo do tempo.

Pode-se dizer, talvez, que a trajetória desse homem remarcável — condecorado pelo Rei para pouco depois ser enforcado como traidor ao Reino — faz contrapartida aos pontos de vista identificados com a visão norteamericana e a visão brasileira de uma trajetória semelhante e comparável, dentro do mesmo processo histórico-econômico: o ciclo de um commodity na mesma cadeia produtiva– nesse caso a cadeia de desmatamento-carvão-ferro-aço-automóvel e o de desmatamento-plantio-seringueira-borracha-pnéu-automóvel.

Tomando emprestado — com muito cautela, com se maneuasando um cascavel — uns conceitos da psicanálise, podiamos falar de uma fixação-ficção compartilhada por essa versões complementárias desse percurso — o recuo-recuso da tarefa de apurar os fatos históricos sem a muleta de aforismos mortos e piadas prontas — de um lado, e o jeito que essa figura trágica, como fica descrita por nosso autor, tinha que enfentrar contradições antes impensáveis, fazer juízes de valor, e atuar encima deles.

Mais uma vez, ao fatos, tal como são narrados.

O Diabo e o Mr. Casement

Império de Selvageria na Amazônia

Por GREG GRANDIN
February 12, 2010

“A doutrina de progresso pregada durante o século XIX considerava a escravatura e o capitalismo incomensuráveis. A coerção, segundo os liberais da época, era contrária aos ideais de direitos naturais e trabalho livre. Trabalho assalariado, asseguravam os marxistas, entretanto, ia render mais do que trabalho forçado, o que por si só acabaria com a escravidão.

Logo no ano 1904, quase quatro décadas após a rendição das forças da Secessão no tribunal de justiça de Appomattox, Roger Casement, irlandês por nascimento e diplomata de carreira no Gabinete de Assuntos Estrangeiros de Inglaterra, escreveu seu relatório sobore o Congo, revelando que Leopoldo, rei da Belga, enriqueceu-se comandando um comércio de borracha fundando na mais pura crueldade. “O que tem sido a civilização para eles?” indagou Casement quando questionado sobre as vítimas congolesas de Leopoldo, das quais 10 milhões, segundo algumas estimativas, tinham morridas no curto espaço de duas décadas. Ele mesmo forneceu a resposta: “Uma coisa de horrores.”

— Trecho de “O Diabo e o Senhor Casement”

Seria esse horror a inspiração para a personagem de Kurtz no romance de Joseph Conrad — mestre meu por ter escrito numa língua que não era sua língua-mãe — O Coração das Trevas.

Ilustrado. 322 pp. Farrar, Straus & Giroux. $30

“O Diabo e o Senhor Casement,” por Jordan Goodman, autor de vários livros de historiografia, reconstroi o Inquérito Casement sobra a região Putumayo de Amazônia, que segiu nos passos do seu famoso Relatório Sobre o Congo. Aí em Putamayo, o peruviano Julio César Arana reinava sobre um império de borracha de uns 2.6 milhões de hectáres. Entre 1910 e 1913, Casement trabalhava até a exaustão, tentando forçar o governo britânico a tomar medidas contra Arana e a Cia. Peruviana Amazônica, incorporada e cadastrada em Lóndres. Viajou duas vezes à Amazônia, recolhendo provas de chicoteamentos, torturas, estupros em massa, multilações, execuções e a caça aos povos indígenos da região, a população dos quais Casement calculou caiu de 50 mil em 1906 para 8 mil en 1911.

O livro de Goodman aumenta a fama de Casement como pioneiro das táticas do movimento para direttos humanos: a fiscalização-relámpago, o recolhimento de depoimentos de vítimas, e a alavancagem da indignação pública para impulsionar reformas. Casement foi um dos primeiros a falar de“crimes lesa-humanidade,” e julgou Arana culpado ”não somente de escravidão mais de extermínio” — o que depois seria chamado de ”genocídio.”

A trajetória moral de Casement, porém, andava na contramão daquela de muitos militantes modernos de direitos humanos. O ministro francês de relações estrangeiras de hoje, Bernard Kouchner, por exemplo, deixou pra trás o apoio dele aos movimentos de liberação nacional na juventude para abraçar o que alguns chamam de “imperialsimo humanitário.”

No começo, Casement também tentava utilizar canais políticos e diplomáticos oficiais para aliviar o sofrimento. Depois, porém, ele desviou-se do que ele chamava do “caminho alto que só levava ao ‘jingoismo’ imperial.” O tempo dele no Congo e na Amazônia levou ao aprofundamento do seu sentimento de soliariedade anti-imperial. “Eu estava olhando essa tragédia,” disse, da escravidão congolesa, “com os olhos de outra raça” — os irlandêses— “que também tinha sido caçada.” Condecorado como um Cavalheiro do Reino em 1911 por seu trabalho humanitário, foi enforcado pelos inglêses cinco anos depois por ter conspirado com os alemães em prol da independência da Irlanda.

A história de Irlanda, ocupada pelos inglêses na virada do século XVI pro século XVII, é pouca conhecida além das manifestações modernas do conflito — a emigração aos EUA no século XIX, o terrorismo-guerrilha do IRA e o terror de Estado do RUC, no norte ainda colonizado e profundamente sectário da ilha, no século XX.

Pessoalmente, eu fui criado para sempre guardar a memoria da nossa herança escocesa — uma avó foi da clã McIntyre, outra da clã Duncan (personagem na peça Macbeth). Esta herança celta fizemos de nós primos-irmãos dos irlandêses e nos deixamos achando o inglêses, no mínimo, chatos quando não bem filhos da puta.

(Tem muito disso no filme Trainspotting: “Eu não odeio os inglêses. São meros punheteiros. O pior é nascer num país COLONIZADO por punheteiros.”)

A morte de Casement não é o momento climático do livro, porém, porque esse livro não chega a tal momento. Vai se dimuindo aos poucos, como um pensamento não terminado,  sem resolução. Os diretores inglêses da companhia de Arana são interrogados por parlamentários. Relatórios são produzidos e divulgados, sermões são pregados, políticos são indignados. Arana e indicado a marcar presença ante a CPI de Putumayo … para depois embarcar num vapor de volta para Peru sem mais consequências. Ao leitor é deixado a ponderação do destino das suas vítimas indígenas.

A CPI que acaba em pizza: brasileiros de hoje talvez se identifiquem.

É um jeito apto de concluir um ótimo e meticuloso livro, porque um tipo de escravatura ainda vinga na Amazônia. Milhares de trabalhodores, por exemplo, sem saida alguma de condições quase iguais àquelas documentadas um século atrás em Putumayo, fazem o carvão utilizado para produzir o ferro-gusa comprado por multinacionais para fabricar o aço utilizado em produtos de nosso dia-a-dia, como marcas populares de automóveis.

No fim, Arana perdeu sua empresa e morreu quebrado. Mas o Diabo continua contando vantagem do “Mister” Casement.

Considerações Finais (Por Enquanto)

Para onde andamos ultimamente?

Do passado perdido ao País do Futuro eternamente adiado, com paradas em vários rodoviários caipiras intermediárias.

Da apocalípse de uma cidade-efémera virada cidade-fantasma, para uma cidade-sobrevivente e caboclo, e depois para uma cidade-museu, parando em fim no parlamento para lamentar mais uma CPI que acabou em pizza.

O elenco: dois historiadores gringos; um historiador tupi e o memorialista Eymar Franco; o Engenheiro-Chefe; Henry Ford e Villares; FitzCarraldo e Mr. Casement.

Quem mais?

Eu e você, caro leitor.

O elenco de Rashomon.

Versões do gringo nos tristes trópicos, na ótica tupi:

  1. Salvador da pátria, descendo de um OVNI, que aliás evita a qualquer custo a transfêrencia de conhecimento-tecnologia
  2. Sacaneador e saqueador da pátria, levando os brinquedos dele embora quando já cansou do velho jogo e vai atrás do novo (levando o Miss Brasil para um apartamento em Miami)
  3. Exemplo a ser seguida, tanto que a bandeira de São Paulo e um xerox preto-e-branco de nossa e surge-se a noção (efémera? ou duradoura apesar de tantas mutações?) dos Estados Unidos do Brasil.

Versões gringas do gringo nos tristes trópicos:

  1. O do destino manifesto, perseguido por aquela culpa calvinista e pela percebida perda de um passado pastoral, mais resolvido a tentar, repetidas vezes, reestabelecer esse passado dourado em mais uma Terra Nova, até fechar o círculo do equador e os meridianos e depois o quê fazer?
  2. O turista-flâneur-otário comprando dos espertalhões nativos o que podia ter possuido de graça, mais aprendendo desse primeiro engano para depois fazer sua própria permuta esperta …
  3. O herói e mártir que morre seguindo seus princípios e, nas contradições das suas alianças, pondo em cheque os  innúmeros lugares comúns e chavões sobre a civilização que vem substituindo os princípíos na consciência da manada …

E até um visão de si do historiador nativo, em fim. Os turistas-flanêur

… chegam atraídos pelo que representou a borracha na economia mundial do século XIX e metade do século XX, e a importância da Região nesse contexto. Vêm em busca de conhecer uma História que nesse período influenciou diretamente a economia brasileira e mundial, mas que nós brasileiros ainda não conseguimos entendê-la suficientemente para evitar que se reproduza.

Eis o pessimismo de boteco que tanto me constrange: Esse país não tem jeito! O povo não sabe vorar! Inútil! A gente somos inútil!

Ora, não tem fábrica de Ford fazendo carros aqui na selva nos dia de hoje?

Até nosso Esputniquim é um carro feito para atender as necessidades do consumidor brasileiro — modesto, eficiente, verde (flex), barato e durável.

A caravela ainda não naufragou-se, porra.

Aí, cansei.

Perdi minha mapa Google Maps.

Vou ter que parar no posto para perguntar ao rapaz no macacão como chegar ao Índio Tiribiçá … ou pior, como sair de Mogi das Cruzes …

A ser feito: achar esse documentário brasileiro sobre Fordlândia sem o qual não posso fazer o confronto-encontro que pretendo fazer. Rever o Rashōmon, uma vez que os resumos do enredo dele nos Wikipedias Gringa e Tupi sofrem do efeito Rashōmon!

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Um comentário sobre “Fordlândia e o Efeito Rashomōn (Quer Dizer, Rashōmon)

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