Plim-Plim 2004: A Brasilianação do Bom e Velho Partidão

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Fonte da imagem: E Pluribus Media

No Brasil, sempre houve fraude eleitoral. O que as urnas eletrônicas produziram não foi o fim das fraudes. Foi o fim da investigação das fraudes. –Pedro Doria

Quem foi o primeiro a identificar o Partidão com o Estado — deixando ao lado aquele baixinho que disse, «L’Etat, c’est moi.»?

Ainda não consegui uma cópia daquele livro de Paulo Henrique Amorim sobre a tentativa de fraudear as eleições estaduais no Rio para acabar com a raça de Brizola, “de qualquer jeito.”

Além do conteúdo – eu acompanho a tecnologia, e portanto tenho interesse no trabalho desenvolvido pelo foro Voto Seguro (quer saber quanto tempo os paraguaios demoraram para invadir e fraudear a máquina de votação brasileira sem deixar rastros, ao vivo, em rede nacional?) – eu gostaria ver como era o PHA antes de dedicar-se com exclusividade à composição de chavões políticos, com direito a um excesso de trocadilhos e procurando virar a Ariana Huffington (deus me livre!) do Brasil.

Se soubesse da história daquela mulher, corria longe no outro sentido! Mais, a comparação não procede, uma vez que o site de Huffington conta com decenas de colaboradores, muitos deles profissionais de jornaismo, e destaca o trabalho de alguns bons repórteres investigativos dentro da mistura de chavões, piadas prontas, e pautas abertamente partidárias.

Por exemplo, falando em sacanagems informáticas geração 2.0, não perca a nota, na minha tradução livre, a seguir.

Assim como a Rede Globo utilizava dados da Proconsult para divulgar as tendências da votação naquele caso, a autoridade responsável pelas eleições no estado de Ohio em 2004 divulgou a contagem parcial por meio de um site hospedado num servidor controlado por um dos partidos concorrentes — o partido da autoridade em questão.

Ligado ao mesmo caso — uma vez que envolve o mesmo servidor — é a possível indicação do antigo promotor-geral barra ministro de justiça de Bush ibn Bush.

O crime alegado é de sonegar informações de investigadores do congresso nacional. Seria um crime contra a ordem constitucional, se comprovado.

O homem, Gonzales — um juiz texano inexperiente ligado ao Federalist Society, que tinha servido como homem de confiança de Bush quando Bush era governador do estado — pediu demissão no auge do escândalo, para deixar o chefão mudar de assunto.

Aquí, a questão da crescente zona cinza entre o domínio público e o setor privado se reduz aos domínios .gov e .org.

Segundo a estimativa mais recente que eu vi, pode tratar-se de 5 milhões de mensagens eletrônicas não-contabilizadas e possívelmente apagadas — mensagens sujeitas à Lei Hatch, que manda preservar documentos refletindo o trabalho oficial do Executivo, e que criminaliza a destruição dos mesmos.

Mais interessante ainda que o quem, o quê, o quando, o onde e o porque dessa história, para mim, será a questão de como.

Mais vamos aos fatos primeiro, para depois oferecer uma breve história do episódio e resumir acontecimentos mais atuais.

E-mails da Casa Branca: O Elo Perdido?

Fonte: Huffington Post, 28/10/2009

O advogado-geral federal Michael Mukasey [com quefazeres parecidos aos do ministro de justiça e o advogado-geral da União brasileiros –Tr.] nomeou a promotora Nora Dannehy para investigar se o antigo advogado-geral Alberto Gonzales e outros integrantes da prévia administração federal deveriam ser processados criminalmente no caso da demissão de nove promotores regionais. O lançamento da investigação segue o relatório de 358 páginas que cita a falta de cooperação por parte do Departamento de Justiça e autoridades de alto patente na White house com a CPI sobre a expurgação dos promotores.

A denúncia foi que as demissões tivessem obedecidos critérios póliticos e não questões de mérito. Teria sido punição por terem investigado póliticos do GOP ou recusados a investigar figurões do outro lado.

Um elo central ligando o DJ e a Casa Branca às demissões está nos e-mails perdidos da Casa Branca, supostamente expurgados dos servidores localizados dentro da sede do Executivo.

Embora várias autoridades, inclusive Gonzales, terem testemunhados ante a commissão do judiciário da Câmara, existe um homem que ainda não foi interrogado mas pode possuir a chave que abriria os e-mails perdidos – o consultor de TI Mike Connell, um contratado de Bush. Quase ninguém já ouviu falar de Mike Connell. Mas isso não chega a surpreender, uma vez que a natureza do trabalho dele mantem-no longe dos holofotes. Connell é o arquiteto e mestre de chaves dos sites montados pela campanha de George W. Bush, tal como GeorgeWBush.com and GWB43.com — esse último servidor utilizado pelo principal assessor político de Bush, Karl Rove, para 95% das suas comunicações eletrônicas. Connell também é diretor-geral de Govtech Solutions, empreiteira responsável pela construção e gestão dos servidores e segurança informática do Congresso.

Aí, a questão é se Karl Rove teria mandado o Gonzales demitir os nove promotores federais regionais. Tem documentos comprovando a sua participação no massacre, –que lembra o famoso “massacre de sábado anoite” da administração de Nixon.

Naquele episódio, o presidente mandou o advogado-geral dele demitir promotores investigando o caso do Watergate. Ou advogado-geral, embora um velho aliado político de Nixon, pediu demissão em protesto.

Segundo SourceWatch, Connell também construiu sites para as commissões de inteligência, judiciário, serviços financeiros, orçamento, e administração da Câmara.

Por razões que deveriam ser óbivas, haveria um conflito de interessses nesse fato, uma vez que Connell tem uma longa carreira construindo sites partidários, como RNC.org, o site anti-Kerry swiftboatvetsfortruth.org e o site de campanha do antigo secretário de estado de Ohio, Kenneth J Blackwell, e muitos outros. No momento, Connell é chefe de TI da campanha do presidenciável John McCain.

RNC é a commissão ou comitê nacional do partido Republicano (muitas vezes chamado do GOP, de “grand old party” —  o Bom e Velho Partidão.)

Veteranos dos Barcos Swift foi uma sacanagem incrível.

Percebendo que o serviço militar do oponente de Bush seria problemático — uma vez que Bush evitou serviço de combate na Vietnã, supostamente com a ajuda do pai — montaram uma campanha de calúnia.

Marinheiros que serviam com Kerry em barcos de patrulha no Rio Mekong — as vezes até dentro de Camboja — apareceram para questionar a validade das condecorações de Kerry e tachá-lo de traidor por ter jogado os medais fora durante uma manifestação contra a guerra.

Que Kerry não merecesse a Estrela de Prata por ter voltado, sob fogo intenso, para resgatar um tripulante que caiu na água. Mentiras sem fim.

Assim como o antigo diretor de Diebold, Wally O’Dell escreveu uma carta em 2004 falando do seu compromisso de “ajudar o estado de Ohio a entregar seus votoes eletorais ao President (Bush),” Mike Connell disse à revista Inside Business magazine em 1999, “Sou leal a meus amigos e sou leal à familia Bush.”

Com que será que a Justiça Eleitoral brasileira tem contrato para prestar serviços e materiais de informática?

Com Diebold, uma empresa beirando a falência uma vez que não há mais mercado doméstico para sua máquina de votação. A segurança do qual é comprovadamente risível.

A autoridade responsável de montar as eleições de Ohio, Ken Blackwell, teve ações de Diebold, a máquina da qual passou a ser utilizada com exclusividade no estado.

Uma reunião em outubro de 2006, assistida por Connell, o presidente de GovTech Solutions, Randy Cole (hoje candidato à câmara legislativa estadual de Ohio) e Stephen Spoonamore, diretor-geral de Cybirinth, levanta várias questões sobre essa lealdade à famila Bush.

Na época, Spoonamore, conceituado perito em segurança para sistemas de TI, estava ponderando um projeto conjunto com Connell. Durante a reunião, Connell perguntava ao Spoonamore sobre jeitos de “destruir discos rígidos permanentemente.” Spoonamore respondeu, “Se a pergunta tratar-se do que estou pensando, essa reunião acabou.”

Connell foi contratado pelo Congresso quando responsabilidade pelo contrato passou a commissão de administração da Casa, presidida por um representante Republicano de Ohio, Bob Ney.

Hoje, Ney está servindo 30 meses na cadeia por falsidade ideológica e fraude.

Spoonamore forneceu as seguintes minutas da reunião, cuja existência foi atestada por outra fonte perta da situação.

11/10/2006: 14:30-16:00 Mike Connell e outras pessoas das várias empresas dele reuniram-se comigo na de sede de Cybrinth LLC para conversar sobre tres assuntos:

1 – Incidentes no estrangeiro que afeitava negativamente clientes das empresas de nós dois. Nada a ver com a Casa Branca que eu saiba.

2 – As pesquisas continuadas de Cybrinth sobre a destruição de dados para proteger comunicações do risco de intercepção de [[latency]]. Eles tem interesse intenso nesse assunto, e considerava que Cybirinth tinha melhor conhecimento prático nessa área do quel eles. Estavamos, and ainda estamos, pesquisando esse assunto para vários clientes de elite.

3 – A necessidade que GovTech tinha para atualizar a segurança de e-mail e comunicações com vários clientes. Mike disse explicitamente que isso incluiria sistemas ligados às contas de e-mail da Casa Branca. Não sei se tratavam-se de domínios .gov ou de domínios não contabilizados.

Spoonamore dize agora que, apesar de não saber se Connell participou diretamente na expurgação de e-mails da Casa Branca, ele é essencial para descubrir a verdade sobre as comunicações perdidas. E acrescenta, “Connell sabe para onde as mensagens foram encaminhadas e onde poderiam ser recuperadas, porque foi ele que construiu e mantina o sistema.

“Mike é muito mais partidário do que eu … e foi involvido na construção e programação de sites para muitos das mesma pessoas que me preocupam e com as quais eu gostaria conversar.”

O último encontro dos dois homens aconteceu quase dois anos atrás, mas os caminhos deles continuavam a cruzar-se de maneira inesperada.

Spoonamore, Republicano desde sempre, é a testemunha-chave num processo denunciando que o GOP devious a contagem de votos da sede oficial da eleição de 2004 em Ohio para servidores de SmartTech em Chatanooga, Tennessee, antes de encaminhar os dados ao gabinente do secretário de estado Ken Blackwell, responável pela realização do pleito. O processo alega que Karl Rove, ajudado por Mike Connell, arquitetou e gerenciou uma estratégia para manipular eleições utilizando computadores.

Se a denúncia parece elemento de uma teoria de conspiração, deve notar-se que os servidores de SmartTech também hospedava os sites e contas de e-mail de GeorgeWBush.com e GWB43.com.

Spoonamore liga GovTech ao SmartTech num e-mail com data de 12/6/2007:

“Não há diferença entre GovTech e SmartTech.

“Randy Cole e sua mulher, além de seus irmãos e amigos, são donos de um pléiades de empresas, todas de direito privado, que são constantemente mudando de nome.

“Ele tem dois empregados de longa data que eu conheço, responsáveis para os clientes mais importantes.

“Mike Connell (planehamento de operações)

“Michael Gaines (arquiteto principal de TI em muitos desses projetos)

“Todas essas empresas tiveram participação nos projetos seguintes:

“Campanha nacional do partido Republicano (Bush pai 2000, equipe de transição de Bush pai, Bush filho 2004, mais que 40 candidaturas Republicanas ao Congresso, mais que 25candidaturas do partido ao Senado, etc.)

“Apoio técnico para operações do partido (algumas muito asquerosas)

“Computadores de grupos anti-aborto (faz o trabalho de graça em troca do desconto sobre impostos que ele recebe por meio das igrejas patrocinadoras desses grupos.)

“Computadores para igrejas radicais e fascistas (mais uma vez em troca do desconto fiscal.)

“Contratos com agências do governo(inclusive várias commissões da Câmara e Senado entre 2001 e 2006)

“Computadores para campahas de correio e de telemarketing do partido Republicano.

“Todos saõ empresas controladas por Randy Cole, quer abertamente quer por meio de ligações políticos ou de parentesco.

“SmartTech

“SmartTech Solutions

“New Media Communications

“New Media Solutions

“GovTech Solutions (Eu sei que esse construiu monte de sistemas no Congresso.)

“Government Technology Systems

“Government Technology Solutions (Também tem/tinha contratos no Congresso)

“Technomania

“TechnoSmarts

“GOP-Technology

“CampaignTech

“SmartTouch Technologies

“Christian Computer Services

“New Life Technologies

“The Message Technologies

“Também tem algumas empresas de telemarketing, mas eu nunca apurei esse lado dos negócios dele.

“Até tentaram no ano passado contratar Cybirinth para aumentar segurança para clientes chamados dos ‘mais sensíveis.’ Entre estes clientes, a commissão nacional do partido Republicano (RNC), mais nada de clientes no Congresso..”

Connell foi intimado a depor e produzir documentos ligados ao caso. Respondeu com a contratação de três poderosos advogados com ligações estreitas com o GOP, tal como Bill Todd, consultor jurídico da campanha de Bush-Cheney em 2004. Os advogados de Connell entraram com pedido de arquivamento da intimação e um depoimento alegando que essa informação seria sigilosa. Cliff Arnebeck, um advogado em Ohio [e consultor jurídico da ONG Common Cause Ohio] tenta conseguir um liminar para fazer valer a intimação, na convicção de Connell ter informações indispensáveis sobre SmartTech e a eleição de 2004.

Eu entrei em contato com Connell várias vezes para perguntar-lhe sobre a reunião com Spoonamore, os e-mails da Casa Branca, e o processo em Ohio, mas não recebi resposta.

Talvez Nora Dannehy terá melhor sorte.

Embaixo, uma sociometria dos clientes de duas empresas do grupo, propriedade da mulher do Mike Connell (faz clique para ampliar).

Pior é a notícia de  que, segundo o site de New Media Communications,

Our political practice group consults for Republican campaigns and party organizations in the United States and center-right parties around the world, continuing to pioneer new initiatives in online politics.

“Nossa prática oferece consultoria a candidatos e organizações Republicanas nos EUA e partidos do centro-diretia no mundo inteiro …”

Onde no mundo inteiro? A lista de clientes não dá nome aos bois.

Em fim, a mixôrdia promíscua toda resume-se nos domínios gop.gov e gop.com.

«O Estado é (a Empresa d)o Partidão.»

GOP.GOV