Alcântara e a Sombra do Capítulo Especial

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Ainda não temos o texto da decisão, ainda não publícada que eu saiba, contrária ao jornalista Luis Nassif e o iG, mas graças ao Operário de Direito temos o teor da decisão favorável a eles na primeira instância, de abril do ano passado. (Falta rodapés e anexos, porém.)

Ora, eu já escrevi uma baita de uma nota sobre o assunto, mais chegando a hora de enviar ao WordPress, rolou um pane de nossa InterNET e a nota nunca chegou ao servidor de Gringolândia onde ficaria hospedado.

Agora, terei que redigir a nota de novo, uma nota, eu espero, mais sucinta e direta. Pode ser até bom, uma vez que eu tenho o gosto pernicioso de divagar em demasia, caindo em trocadilhos supérfluos ainda que prazerosos para mim.

O que me interessa no juízo do magistrado Carlos Henrique Abrão é o peso dado à questão do fundamento das denúncias feitas pelo jornalista.

Pois o que me preocupava mais ná série O Caso de Veja foram aqueles momentos nos quais Nassif deixou para atrás a leitura das matérias divulgadas pela revista Veja e partiu pela divulgação de hipóteses quanto aos motivos e atos de pessoas nos bastidores dessa matérias.

Eu sempre digo — e sou shiita nessa questão — que atribuição a fontes anónimas, sem ser o mais explícito possível sobre o porque da fé e crédito conferidos a dita fonte, deixa o jornalista vulnerável a ataques hermenéuticos, reflexos de uma epistemologia escolástica devendo muito à lógica dos críticos de Johannes Buridanus (ao qual fica atribuido, indevidamente, o paradoxo do bicho faminto, originário da obra de Aristóteles).

Não é uma prática costumeira de Nassif entrar em lances desse tipo, mais tem algumas passagens no Caso de Veja, sobre o suposto Quareto da Veja, onde ele parece insinuar a presença de Gargantas Profundas com informações sobre os bastidores de determinadas matérias. (Eu também tenho minhas fontes sobre a clima geral dentro da Editora Abril, mais nada sobre a Veja.)

Por exemplo, é possível denunciar uma contradição no seguinte trecho:

Há um princípio básico de jornalismo: quando está configurado que a fonte tentou enganar o jornalista, é obrigação do jornalista denunciá-la. Eurípedes resistiu a divulgar o nome de Dantas. Houve discussão interna. Não havia como fugir do levantamento de Aith mas, por outro lado, Eurípedes queria defender o aliado.

Nassif também recorre a certa altura às fontes anónimas, prática que podia ser utilizada para denunciar uma falta de coerência:

Pelas informações que correram na época, o máximo que Aith conseguiu, como contrapartida ao fato de ter concordado em assinar aquele texto, foi uma matéria na edição seguinte, contando em detalhes como o dossiê chegou à revista: entregue pelo próprio Dantas ao diretor Eurípedes Alcântara

Ora, é verdade qeu estou simplesmente pinçando trechos seletivamente do conjunto aqui, fora do contexto, para mostrar essa suposta vulnerabilidade do argumento de Nassif — assim como imagino que fizessem os advogados da Veja.

Na defesa oferecida por Nassif, portanto, vemos dois argumentos-chaves catados pelo magistrado: (1) que a justificativa das denúncias feitas deve levar em conta o conjunto do argumento da série, e (2) que as fontes nas quais o argumento apoia-se eram confiáveis.

A chave do argumento dando razão ao jornalista: o que o magistrado chama do “capítulo especial” do relatório da PF sobre a atuação de Daniel Dantas junto com setores da imprensa. Assim, o magistrado começa com o resumo da defesa de Nassif (o sintaxe do qual tenho certa dificulade em seguir):

Explicando a procura de justificativa, embora forte e contundente na sua crítica, Luis Nassif se cercou do contexto que tinha em suas mãos para escrever a matéria e não patinar nas informações [e] abordou assunto próprio de sua característica e o desagrado, como não poderia deixar de ser, fora generalizado.

A estrutura básica do argumento da série é indutiva: estabelecr um padrão de atuação da revista em brigas empresariais anteriores para apoiar a afirmação que as semelhanças com sua atuaçãõ no caso de Dantas façam mais provável que esse último caso encaixa-se numa categoria de casos parecidos.

É agora que entra o “capítulo perdido” do relatório da PF. Cabe lembrar aqui que, estando trancado o caso Satiagraha até março desse ano, ainda não temos conhecimento do inteiro teor desse anexo ao qual se refere Protógenes no seu relatório — o famoso arquivo , que não consta mais no relatório Saadi. (Ou temos? Poxa, estou confuso.)

No entanto, o jornalista não está obrigado a agradar, o fundamental, assinale-se uma vez mais, dependerá da investigação em andamento, a cargo da autoridade competente, no modo de ver do réu, se alguns jornalistas da Veja tinham contato com o banqueiro, seus escritos somente poderiam contar com a anuência do diretor de redação.

Agora, qual a fonte segura que na visão do magistrado justifica as afirmações da probabilidade e credibilidade dessa hipótese pelo réu?

Eu estou meio confuso sobre esse ponto. Temos dois documentos divulgados publicamente até agora:

  1. Relatório de Protógenes, Capítulo 5
  2. O documento “4674.doc (relatorio-protogenes.pdf)” com título “Análise de Dados: O Caso Opportunity-Brasil Telecom

O (1) foi deixado fora do relatório Saadi (alguém tem cópia?) por, como diz Protógenese, não configurar crime dentro do Código Penal, ou coisa parecida. E o (2)? Houve, se não me engano, nota de rodapé citando análise de dados sobre a atuação da imprensa que foi um arquivo MS Word (.doc) mais não era 4674.doc. E também citação de um arquio .xls (planilha) de dados crus? Preciso esclarecer isso.

E neste sentido, segundo se extrai de fonte segura, teria constado no relatório da Policia Federal capitulo especial dedicado às relações do banqueiro com a mídia, ou seja, em outras palavras, a exposição não desbordou os lindes exigidos pela Lei maior e de imprensa.

Esse raciocínio é um enthyeme, ou silogismo um dos termos do qual é deixada implícita.

  1. As leis da imprensa e de danos morais vedam a divulgação de denúncias infundadas
  2. Nassif teve, de uma fonte segura, informações sobre o capítulo especial
  3. Essa informação serviu de fundamento adequado às denúncias feitas
  4. Ergo as denuncias não se encaixam no molde de comportamentos vedados pela legislação aplicável …

Não houve qualquer dolo especifico de querer ferir suscetibilidade, tanto que na sua fala derradeira, o próprio réu reconhece, nenhuma intenção de ofender, expressa preocupação com a verdade.

Apontando o caso do boimate, é verdade, teve o efeito de fazer de Alcântara uma figura ridícula, mais sendo verídico o caso, seria o Alcântara o responsável pelo golpe contra seu bom nome de jornalista cuidadoso e competente.

Se eu matasse três pedestres com meu carro em plena Av. Paulist na luz de meio-dia, não posso processar o Detran por calúnia quando me tiram a habilitação. Me jacto de ser ótimo piloto, mais os fatos contradizem.

Aqui, eu perco o fio, e recorro correndo aos meus dicionários para entender as verbetes “douto ângulo” e “despautério” …

Segundo meu Webster’s Portuguese-English, “despautério” seria “maluquice.” Mais “douto ângulo”? Seria ablativo querendo dizer “de um ponto de vista bem informado”?

Deveras pode ter se precipitado ao estampar a matéria sem prévia consulta, mas seria ingenuidade pressupor que haveria confirmação, douto ângulo, sem findar a investigação e esmiuçar toda a teia multifacetária das alianças, não se pode concluir que houve despautério ou mesmo ofensa à honra do jornalista. Reafirma-se, uma vez mais, não caber no cerne deste procedimento a apuração sobre o conteúdo da matéria, mas, diferentemente, na toada da Lei maior e aquela de imprensa, analisar o código de conduta, posturas moral e ética, analisando se o requerido se pautou por critério de avaliação ou tinha, única e exclusivamente propósito ofensivo.

Uai. Que gongorismo! Especialmente o uso generoso do ablativo absoluto latim.

O Biscoito Fino e a Massa — uai, por que estou recebendo a informação de que a conta do blog foi discontinuada? — explica o caso assim:

Faça clique para ampliar. Tive que fazer um “screenshot” da página tirado do “cache” de Google, uma vez que a nota original não está mais disponível.

O critério parece ser que as afirmações tomadas como ofensivas tivessem propósito exclusivamente ofensivo. O ônus fica com o reclamante de comprovar a intenção do réu, o que é um fardo pesado.

Mais, tira da defesa o ônus de responibilidade para efeitos não pretendidos ou previstos.

Eu podia ouvir do G1/Globo que não vai chover hoje e espalhar isso pelo Twitter.

Quando Dona Fulana, minha seguidora assídua, fica com as saias enlamadas e o chapeu de palha estragado pela pancada imprevista, não pode mandar a conta de lavagem à seca para eu pagar.

G1 costuma dar previsões razoavélmente certas, dentro dos limítes da meteorologia.

Não foi despautério por minha parte me apoiar em informações do site.

Neste mundo de informações e velocidade de mudanças, precisamos ter a compreensão, a humildade suficiente para descobrirmos que cada um desempenha o seu papel e todos formam um conjunto indispensável à normalidade democrática, norma programática da imprensa livre e soberana.

Remete a citação de Norberto Bobbio lá no começo da opinião.

Destarte, observadas as regras normativas, reputo que a matéria encerrada no procedimento, escrita pelo jornalista Luis Nassif, não se apegou única e exclusivamente, portanto, à visão particularizada e subjetiva sobre o tema, mas na linha editorial adotada pela Veja, a qual, de seu ângulo, suscitou dúvidas e lançou séria preocupação sobre o papel da Abin e da própria Policia Federal. Ao desacreditar do papel exercido dentro do regime institucional, expondo a nu a operação, houve completa ridicularização do serviço público, [a]o qual, é lógico, falhas humanas são naturais, deslizes, mas o próprio Senado Federal, recentemente, a ela emprestou total adesão.

Quando o Senado acatou — quando? por quem? — a legitimidade do relatório da PF — qual? — o fato reforça à credibilidade da fonte citada por Nassif.

Não se emite, é preciso reforçar, nenhum juízo valorativo ou crítico, em especial quanto ao papel livre e soberano da imprensa principalmente face ao semanário, que ao longo dos anos, de forma meticulosa, rotulou assuntos de interesse publico, abraçando causas verdadeiramente justas, porém a liberdade de imprensa tem parâmetros e traços inseparáveis.

Aqui, a palavra “tessitura” expõe os limites do meu pobre português mais uma vez:

Expressa a tessitura que rasga inteiramente a tese da ofensa, ou de qualquer incompreensão, e baseado no principio da moralidade relativa que hoje preside a imprensa, o espírito do nosso tempo, segundo os alemães, os ataques não podem ser verberados como pessoais, ou humilhantes, mas sim linha definida conforme a perspectiva de campo.

Verberados?

v.t. Açoitar, fustigar, flagelar.
Repreender com energia; censurar, criticar.

Tessitura:

  1. s.f. Música Conjunto de sons que melhor convêm a uma voz ou instrumento: tessitura grave, aguda.
  2. Conjunto de notas que se repetem numa peça ou num trecho e que constitui, por assim dizer, uma espécie de média do registro em que foram compostos.
  3. Fig. Organização, contextura.

Aqui eu perco o fio de novo, por tratar-se do conceito hegeliano-heideggeriano de Zeitgeisto tempora! o mores!

Gostaria de saber mais desse entendimento de “moralidade relativa.”

E para sepultar com pá de cal a pretensão, o próprio diretor do grupo Abril, de forma elegante e serena, apesar de sua divergência em relação à matéria, proclamou que o autor não sofreu qualquer retaliação, repercussão patrimonial ou de qualquer natureza, continua na sua função e devemos entender que, na atualidade, as idiossincrasias fazem parte do árido terreno que ocupa a imprensa, em jovial regime democrático, desafiando liberdade e responsabilidade.

Até se Nassif pretendia causar danos materiais ao Alcântara, não conseguiu. (Não contabiliza a perda do meu $7.90 por semana quando deixei anos atrás de ler a revista, que não reclama de queda alguma na circulação que eu saiba.)

Inexistente o dano moral, faltante nexo causal, a demanda comporta o insucesso, isto porque a matéria nela ventilada, apesar de representar conteúdo forte, frutificou pensamento ao longo do tempo, irradiado por fatores e circunstancias formadoras da análise jornalística. E, se a lide é julgada improcedente, sendo os contendores patrícios, no mínimo esperamos que cerrem fileiras, ainda que ocupem trincheiras distintas, com suas invulgares inteligências, em prol da sociedade, da informação responsável e, sobretudo no aprimoramento e aperfeiçoamento da informação, para consolidação democrática, preenchendo a imprensa seu papel verdadeiro. É o quanto basta do contexto examinado, pluralmente.

Se Veja acha as denúncias inverídicas, deveria reclamar o direito de resposta para rebaté-las com fatos novos, desmentindo as conclusões no foro de debate público.

A Campanha Difamatória Encomendada: Casos e Fontes

Porque ainda paira sobre a Veja e o Alcântara, como responsável da redação, as dúvidas sobre o teor deste ainda desconhecido (?) capítulo especial do relatório da PF sobre a Satiagraha, segundo o juiz.

Que pelo menos um profissional fala abertamente do “prazo” de uma “campanha difamatória encomendada, num e-mail reproduzido no relatório versão 1.0. Clique para ampliar.

O falecido colunista do Globo, Moreira Alves?

Ainda falta nome para acompanhar o sobrenome desse boi.

Também tem a testemunha de Ricardo Boechat — chega de chamar o terceiro careca da República de “boi chato”! — sobre o factóide de que Demarco espancava a sua mulher:

É pesado o jogo contra Luiz Roberto Demarco, antigo sócio do banqueiro Daniel Dantas e hoje seu adversário em várias ações judiciais.

Semana passada, vários jornais receberam notícias inexatas sobre o processo de divórcio do empresário, tentando atingi-lo moralmente.

A manobra foi conduzida junto às redações por uma assessoria de imprensa a soldo do Banco Opportunity, do qual Dantas é proprietário.”

Boechat não chegou a mencionar que ele foi um dos jornalistas que divulgou a notícia sem apuração devida.

E assim adiante, caso por caso. E tudo isso sem revelar o inteiro teor do anexo, que só ConJur diz saber, mais não divulgou.

(Ou divulguou? Estou desatualizado aqui, mais pelo menos não tinha sido divulgado na época do processo original, que eu saiba.

Depois, seria divulgada e atacada fortemente pelo ConJur quanto à plausabilidade dele.)

Em qualquer caso, Nassif apoia-se num padrão de comportamento generalizado na imprensa brasileira, mostra casos do mesmo comportamento por parte da Veja, e assim defende a hipótese que o Caso da Veja seria só mais um caso desse fenómeno, uma vez que que tem provas do comportamento em outros casos.

Non Liquet; ou, Se a Crença Justificada e Verdadeira = Conhecimento

O princípio filosófico cabível nesse caso remete ao famoso paradoxo de Edmund Gettier comprovando a insuficiênca da definição de conhecimento como uma (1) crença que seja (2) justificada e também (3) verdadeira.

Num ensaio de 1963, Gettier apresentou contra-exemplos de casos no qual o sujeito pode ter a mais perfeita e impeccável justificativa para acreditar em alguma afirmação sem que a afirmação seja a verdade.

Entre as lições maiores tiradas desse paradoxo é que o conhecimento seria uma construção social, dependendo do cruzamento de várias perspectivas inevitávelmente subjetivas, o qual o juiz parece invocar aqui. A busca da verdade pelo método de controvérisa, aliás, é a fundação do direito.

Como disse o C.S. Peirce (1868):

O mesmo formalismo surge no critério Cartesiano, que pode ser resumido assim: “Aquilo do qual estou claramente convencido é verdade.” Se eu estivesse realmente convencido, eu teria chegado ao fim do raciocínio e não teria nenhuma teste de certeza. Mais fazer de indivíduos isolados juizes absolutos da verdade desse jeito é muito pernicioso. O único resultado possível será que os metafísicos dirão que a metafísica faz tempo alcançou um nível de certeza muito além daquela alcançada pelas ciências físicias; — só que não conseguirão concordar em mais nada. Nas ciências nas quais os homens buscam chegar a um acordo comun, quando uma teoria é lançada é considerada como se gozasse de liberdade condicional até o acordo ficar fechado.

O padrão de certeza requirida pela Veja nesse caso chega a ser virtualmente metafísica, nesse sentido, assim como o argumento segundo o qual não deve-se divulgar denúncias de crime até o caso ser julgado na última instância, não cabendo mais recursos — o “argumento Fernando Sarney” contra o Estadão, se não me engano.

Mais não é um padrão que Veja requere de si mesmo.

Tomem o famoso caso da autenticação do dossiê Dantas.

Someteram o dossiè a um perito com resultados chamados de “inconlusivos.” “Não dá para confirmar nem  negar.” As razões dessa avaliação não foram divulgadas. Nem o nome do perito foi divulgado, muito menos os métodos empregados ou o teor textual do relatório dele.

Argumentaram

  1. que jamais tiveram endossados a autenticiade do dossiê, mas
  2. que outros fatos faziam com que eles acharem a história das contas suiças de Paulo Lacerda, et al, plauśivel.

Textualmente:

A revista deixou claro que não pôde comprovar a autenticidade dos papéis, que podem ser todos eles uma fraude. Mesmo assim, é custoso acreditar que o banqueiro tenha gasto tanto tempo e dinheiro na contratação e instrumentação dos melhores espiões internacionais e tenha saído da operação com um monte de documentos de fantasia. Fosse tudo fantasia, teria o ministro Márcio Thomaz Bastos se abalado a, arriscando o próprio cargo, encontrar-se secretamente com o banqueiro Dantas?

É plausível por que explicaria o comportamento de Bastos — o qual seria inexplicável sem presupor a presença de algo verídico no dossiê de Dantas.

No caso McMartin, porém  —  muito parecido com o caso Escola Base aqui no Brasil — a teoria de abuso sexual ritualizado praticado por um culto satánico foi acatada pelos promotores  e pelo tribunal como plausível, verosímil, discutível, uma vez que explicaria a testemunha recebida de crianças de 4 e 5 anos de idade.

Mais a testemunha também poderia ser explicada pelo efeito de transferência nos exames psicológicos feitos para apoiar essa teoria da promotoria.

E de fato, foi o último que aconteceu. Foi um caso de profecia auto-realizante.

Eu não consigo pensar em melhor exemplo que isso da falta de compromisso com a verdade que reina da redação da Veja.

Para nossos inimigos, rigor epistemológico. Para nós, o princípio Nietzscheano:

A vontade de verdade e a vontade de engano são a mesma vontade, só que observadas de duas perspectivas diferentes.

Ou — cantando agora o samba-enredo de outra escola — tem analogia também no ensaio de William James, “The Will to Believe — casus belli da disputa que o Peirce travava com seu antigo protegido, chegando a desassociar-se do chamado “pragmatismo” de James, Dewey, Santayana, et al.

“The Will to Believe” was a lecture delivered by William James, first published in 1896, which defended the adoption of beliefs as hypotheses and self-fulfilling prophecies even without prior evidence of their truth; James … extends this idea to argue that, using this doctrine, adopting beliefs like God, freewill, possibility, and morality would cause evidence to come into existence, thus verifying beliefs that could not have been verified otherwise.

“A vontade à crença” … uma palestra no qual James defendeu a adopção de crenças como hipóteses e profecias auto-realizantes até sem provas anteriores da sua verdade … James extende essa noção ao argumento de que, segundo essa doutrina, a adopção de crenças como Deus, o livre arbítrio, possibilidade, e moralidade causaria as provas a existirem, verificando crenças que de outro jeito não teriam sidas verificáveis.

Entre os discípulos de James, cabe lembrar: Mangabeira Unger, autor de Pragamatismo sem Limites (e consultor jurídico de Dantas)  o que deveria ser a lema na capa da Veja.

Um exemplo que sempre acho útil apontar — o debate na Wikipédia sobre o sífile de Nietzsche.

Tem quem argumentava nesse debate que, uma vez que seria desagradável a hipótese de algum efeito degenerativo sobre o cérebro do filósofo, visível no percurso do seu pensamento, então ele não podia ter sofrido daquela condição.

Non liquet: Faltando Jurisprudência, Não Posso Opinar

Também pode-se dizer que trata-se aqui do uso sofístico do princípio jurídico de non liquet, explicado com admirável clareza aqui por Fabrício Cardoso Oliveira Póvoa:

A expressão latina “non liquet” é uma abreviatura da frase “iuravi mihi non liquere, atque ita iudicatu illo solutus sum”, que significa mais ou menos isso: “jurei que o caso não estava claro o suficiente e, em conseqüência, fiquei livre daquele julgamento.”

Livre no sentido de “não ter o dever o obrigação de” julgar o assunto.

(Também cabe apontar os significados negativos do particípio solutus:

solutus -a -um, [loosened, unbound, free, unencumbered, independent]; in bad sense, [unrestrained, unbridled; lax, lazy, negligent]; of style [solte] loosely, freely, carelessly

“Solto, desatado, desabrido, independente, livre,” mais no sentido negativo, “dissoluto, licencioso, preguiçoso, negligente, indolente.” Escrever solte: um estilo livre, descontraido, e solto.)

Tem um tipo de non liquet na decisão nesse caso: Na cabe a mim resolver a verdade das afirmações de fato contrárias nessa disputa, pois a liberdade da imprensa faz com que o “livre mercado de idéias” funcione para resolver questões de fato, na plenitude do tempo (uma vez que ninguém sonega informações, como fez a ditadura militar.)

A Veja também alega uma conclusão por parte de Nassif que, pode-se dizer, non liquet, mais reserva para si o direito de julgar até quando a verdade do caso — a autencidade do dossiê — não pode ser determinada (segundo eles, que sonegam informações sobre esse juízo de valor.)

Fabrício critica uma tendência paralela no judiciário brasileiro quanto à proibição de empregar o non liquet:

A proibição de “non liquet” não abre espaço para que os juízes exercitem a humildade intelectual. Em conseqüência, o juiz, inconscientemente, transforma essa obrigação de julgar tudo em uma falsa crença de que sabe tudo e que é, portanto, capaz de ser o senhor onipresente e onisciente da verdade e da justiça.

Veja vai mais longe ainda, reclamando para si a autoridade do senhor onipresente e onisciente da verdade, até admitindo (ou fingindo de) que não saiba nada.

Considerações Chatas e Pedantes (Pule Quem Quiser)

Ora, também é plausível que exista um projeto sigiloso do governo norteamericano: um portal que possibilita viagens quase instantâneas para planetas anos-luz distantes da Terra .

É o enredo básico do filme e a série Stargate.

Atráves o espelho, o mundo de maravilhas

Aceitando essa possibilidade, suspendemos nossa descrença para poder curtir a ficção e a imaginação dos roteiristas, que desenvolvem as consequências dramáticas dessa premissa.

É gostoso imaginar isso. Abre a imaginação a novas possibilidades.

É gostoso quebrar o princípio de realidade de vez em quando para sentir o poder criativo da imaginação.

Mas esse poder não abrange a magia, o poder de fazer existir só porque eu quero que exista.

MAGIA s.f. Arte tida como capaz de produzir, por meio de certas práticas ocultas, efeitos que contrariam as leis naturais

Baixe um decreto-lei declarando nulas as leis da termodinámica. (No jogo Second Life, por exemplo, seu avatar poder voar à vontade.)

Ascenda uma torre alta, e pule.

Terá um microsegundo para perceber que essa lei da natureza independe da sua vontade — antes de descobrir se houver uma vida após a morte ou não.

Além disso, há quem acha a existência de OVNIs bem plausível.

O fato deles acreditarem, por definição, significa que tal crença e acreditável. Há, de fato, quem acredita nela. Mais o fato de acreditar não tem nada a ver com a verdade dela.

E assim por diante, nhemnhemnhem.

O Campo Semântico

Ao dicionário agora.

O que quer dizer EN plausible e PT plausível?

São cognatos?

Importante saber, porque, por exemplo, a palavra propaganda tem uma conotação negativa em inglês que não tem no português do Brasil. Interessante seria saber o porque desse fato semântico, que eu suspeito ter uma explicação histórica, política, antropo- e sociológica.

Mas uma coisa é certa: Ambas derivam do latim plaudibilis, do verbo plaudere: “merecendo aplausos.”

Meu dicionário de mesa dá as seguintes definições:

1. Seemingly or apparently valid, likely, or acceptable; credible: a plausible excuse.

1. Aparentemente válido, provável ou aceitável; acreditável: uma desculpa plausível.

2. Giving a deceptive impression of truth or reliability.

2. Dando uma impressão enganosa de ser verídico ou confiável.

Disingenuously smooth; fast-talking

3. Enganosamente bem-falado e suave; quem fala muito rápido [como um vigarista]

Sinónimo: EN specious.

Traduzido pelo serviço Babylon (meu preferido):

especioso; plausível; de boa impressão (enganosa); ilusório

Exemplos de uso:

Plausible, specious describe that which has the appearance of truth but might be deceptive. The person or thing that is plausible strikes the superficial judgment favorably; it may or may not be true: a plausible argument (one that cannot be verified or believed in entirely). Specious definitely implies deceit or falsehood; the surface appearances are quite different from what is beneath: a specious pretense of honesty; a specious argument (one deliberately deceptive, probably for selfish or evil purposes).

Plausível e especioso descrevem aquele que tem a aparência da verdade mais pode ser enganoso. A pessoa ou coisa plausível faz uma impressão superficial mais agradável sobre o julgador; pode ser ou verdadeiro ou falso, como um argumento plausível (que não pode ser comprovado ou acreditado por inteiro). Especioso implica abertamente a intenção de enganar, ou falsidade; a aparência pode ser bem diferente dos fatos que esconde; uma pretensão especiosa de honestidade; um argumento especioso (propositalmente enganoso, provávelmenter por motivo de egoismo ou maldade) …

Em fim, porém, talvez seja possível a palavra plausível, como propaganda, não ter conotação negativa no seu lusófono falar.

Houaiss

plausível
que merece aplauso, aprovação
que se pode admitir, aceitar; razoável

Michaelis:

Digno de aplauso ou aprovação.
Crível, provável, verossímil.
Razoável, aceitável: Pretexto plausível. Antôn: inadmissível.

Talvez a possibilidade de má-fê e malandragem foi expurgada dos dicionários brasileiros pela ditadura. Pra frente, Brasil! O poder do pensamento positivo!

Tese ainda não comprovada, e posso imaginar muitas outras hipóteses que explicariam o fato, mais pelo menos plausível — tão plausível quão a capa da Veja avisando da “tentação autoritária” do PT, que seria interessado em “controlar a cultura, a mídia e a TV.”

(Isso de uma empresa que apostou pesado no MMDS — concessões recebidas de ACM, Ministro de Comunicações — como vehículo de TV por assinatura.)

Mas que existe o mesmo conceito lógico de [mera e portanto insuficiente] plausibilidade entre os índio tupí no alto do Xingú, tem várias indicações que exista. Uma delas:

Para Cláudio Abramo, diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, o estudo produzido pela organização Transparência Internacional não tem fundamento. “Qualquer discussão a respeito desse ranking é vazia porque ele não significa nada. Quando você tem um indicador, existem argumentos de plausabilidade que o justifiquem. Se você procurar o documento metodológico desse levantamento, não encontra nenhuma justificativa. Ou seja, não há critério racional por traz do ranking. Ele é meramente opinativo”, contesta. As considerações dos entrevistados, segundo Abramo, podem inclusive ter sido infladas por questões internacionais, como a conquista pelo Brasil de eventos esportivos de relevância, como a Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e os Jogos Olímpicos, em 2016.

Nesse caso, concordo com Cláudio — que uma vez me mandou e-mail informando o fim da afiliação da TB com a TI, eu tendo observado o que eu considerava o sabor de sem-vergonhice intelectual nessa pesquisa.

Trata-se de impressões subjetivas de executivos e gerentes de multinacionais sobre o nível de corrupção em determinado País. E a população do País, que não acabou de chegar descendo de paraqueda?

Não tem nada a ver com a incidência de corrupção, que a TI acha impossível, ou difícil demais, de medir.