A Puta-Fantasma do Governador: O Desfecho

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New York Times finalmente divulgou uma denúncia contra o governador do estado de Nova York, que virou assunto de uma onda de boatos e especulações antes mesmo de ser apurada pela reportagem.

Veja

E falando na Veja: O caso tem muito em comun com a campanha da revista contra o Senador Calheiros.

Vamos nessa mais para baixo.

Primeiro, no entanto, resumindo o caso: Tem provas amplas e confiáveis de fontes identificadas por nome que o governador ligou à vítima de um assalto alegadamente cometido por um assessor dele, tentando convencé-la a não proceder com a queixa-crime que pretendia.

Após as ligações, a mulher desistiu de aparecer no tribunal para formalizar a queixa.

A mulher também alega que noutra ocasião, agentes da policía estadual responderam a uma chamada ao 911 (o 190 gringo) e pressionavam a mulher, que alegou ter sido sufocada e jogada contra um espelho, quebrando-o, pelo namorado, que também teria impedido a mulher, com força, de chamar a polícia.

O normal seria a polícia do município, o NYPD, responder.

O governador desistiu da reeleição, suspendeu o assessor, mandou o promotor-geral do estado investigar, e diz agora que não pedirá demissão antes do fim do mandato, ainda negando impropriedades por sua parte.

Numa tentativa de antecipar a denúncia do Times, porém, a assessoria de imprensa do governador entrou em contato com a reportagem para apontar uma testemunha ocular de outro incidente, no qual a mulher alega que apanhou do punho do assessor, na cara, logo em frente do escritório do governador em Manhattan.

A testemunha disse que só viu discussão barulhenta e acirrada, acrescentando que não permaneceu no local até o fim da discussão.

Last week, after Mr. Paterson suspended Mr. Johnson without pay, his top criminal justice adviser, Denise E. O’Donnell, resigned, saying it was “unacceptable” that Mr. Paterson and the State Police had made contact with the woman and that she could not “in good conscience” remain in the administration.

Na semana passada, após o governador suspender Johnson sem direito ao salário, sua assessora júridica principal, Denise O’Donnell, pediu demissão, chamando de “inadmissível” o fato do governador e a polícia estadual terem entrados em contato com a mulher, e dizendo que não podia, “em consciência,” continuar na administração.

Agora, assim como fez Renan, o governador apontou a cobertura antecipada “histérica” do assunto — e com toda razão.

On Monday, speaking at the breakfast in Manhattan, he emphasized that he would not resign. “I think there is an hysteria that I’ve been the victim of over the past couple of months,” he said. “I’ve been resigning about five times before this weekend..

Discursando durante um café de manhã em Manhattan na segunda-feira, o governador enfatizou que não ia pedir demissão. “Eu acho que há uma histéria da qual tenho sido vítima nos últimos dois meses,” disse. ”Minha demissão já foi relatada deve ser cinco vezes até o fim de semana passado.”

Não consigo localizar a capa do New York Post sobre os boatos do novo escândalo. mais lembre-se que fez uma comparação-insinuação de que o governador teria mentido quando negou boatos de novo caso amoroso. Como escreve o ombudsman do New York Times:

“Eu Não Fiz Sexo Com Aquela Mulher,” gritou a capa do New York Post, enquanto Paterson, visívelmente frustrado, achou-se obrigado durante uma coletiva a negar boatos sem fundamento que aliás jamais identificaram qualquer mulher.

As palavras são aquelas do Clinton quando mentiu sobre seu caso com a estagiária da Casa Branca, a coitada da Mônica Lewinksy.

Agora: Quase não cabe dúvidas aquí de que o governador abusou do poder oficial para influenciar um caso de polícia. Pessoalmente, eu acho esse comportamento totalmente imoral, antipático e antiético.

No caso de Renan, também houve questões de moralidade misturadas com indícios de improbidade administrativa.

Mas também houve uma onda de denúncias espúrias, improcedentes e nunca devidamente fundamentadas.

A primeira capa da Veja sobre o assunto serve de exemplo do que viria depois.

“O fio das operações anticorrupção ja cortou Zuleido e Rondeau e agora chega perto do pescoço de Renan Calheiros, presidente do Senado.”

Mentira.

O referido caso de polícia tinha a ver com denúncias de influência indevida por parte da empreiteira Gautama, na Bahia. (Isso numa época na qual Veja ainda achava implausível a teoria do Estado-Policialesco e o KGB de Luiz $talinácio da Silva.)

Renan foi acusado de relação parecida com um lobista de Mendes Júnior, que teria pago a pensão alimentícia de Mônica Veloso, ex-jornalista de Globo virada consultora política do PMDB, amante do Senador, e mãe da filha natural do Renan.

Como boa jornalista e colega do ator-jornalista (!) Pedro Biale, Mônica teria gravada as conversas íntimas do casal.

Um dia —  se eu me lembre direto –após a denúncia da Veja, atribuída a uma solitária fonte anónima,  o Jornal Nacional entrevistou o advogado da Mônica, que repetiu a mesma história. O teor da entrevista foi tido por alguns observadores como indício forte do advogado ter sido a fonte da Veja. Eu acreditava nessa verão na época e ainda acredito.

Depois, o mesmo advogado negociou a “revelação da verdade nua e crua” da quarentona gostosona na revista-irmã da Veja, Playboy Brasil.

Eu, hein?

Um caso do que chama-se entre o empresariado de “captando sinergias.”

Busco e busco e busco em vão, porém, para qualquer referência a uma operação da PF que realmente envolveu Méndes Júnior. Tem isso, de 2002, de um clipping do IstoÉ no OI:

Todos os veículos de fim de semana destacaram, com clareza, a nova denúncia de superfaturamento em obras de Paulo Maluf na prefeitura de São Paulo. As acusações são gravíssimas e partem de funcionários da Mendes Júnior, que controlavam o caixa 2 das obras. Não são fatos novos. IstoÉ não esqueceu de relacionar o surgimento das denúncias ao fato de, na semana anterior, Maluf ter despontado nas pesquisas muito na frente de Alckmin.

Deve existir, mais a maioria dos resultados de googlear +”policia federal” +”mendes júnior” +operação são repercussões sem fim da matéria da Veja. Abandono a busca, exausto pela mesmice total.

Concluo, ainda que provisóriamente, que a empreiteira citada tem fama de safada de longa data, associadada com as maladragens faraônicas e inescrutáveis de Maluf, aproveitada aqui para fazer uma associação espúria entre dois escândalos (por enquanto, juridicamente) distintos.

Verdades Nuas e Cruas

Yo, Ho! Ho!

No caso do antecessor do presente governador de Nova York, entretanto, também vimos a verdade nua, crua e exclusiva (quer dizer, paga) da prostituta frequentada pelo mandatório na capa do New York Post (acima).

Virou até enredo de uma série de televisão, The Good Wife, apresentado com legendas e dublagem aqui no Brasil pelo Universal (para nós, canal 43 da NET.)

Minha mulher gosta da série e consegiu me infecionar. Tenho preguiça de levantar do sofa após uma cerveja e o mais recente episódio de House M.D.

Pelo menos o New York Post não vem travestiado de uma publicaçaõ de “qualidade” com vem a Veja. O Lauro Jardim tem pretensões de seriedade, enquanto o Page Six festeja seu papel de fonte sem fim da mais pura e descontrolada fofoca.

A Veja custa uns R$8, não custa?

O NYP: $0.25 — preço menor que os custos de produção, e subsidiado pelo Wall St. Journal, numa tentativa de derrubar a concorrência local, The New York Daily News ($0.50).

Trocando em Miúdos

O Grande Golpe

Para encurtar o relato, confesso que ná época eu compartilhava o sentimento de Nassif sobre o caso:

Confesso que, na época, o caso Renan Calheiros não me interessou muito. Sabia que havia factóides, mas que provavelmente deveria haver também irregularidades, formais ou mais graves, sabe-se lá.

Ainda assim, eu andava fazendo anotações numa série chamado de “Veja Mud-Wrestles the Sex Senator!”

(Nos EUA, temos uma forma de entretenimento adulto onde homens pagam o privilégio de, digamos, praticar jiu-jitsu brasileiro numa piscina de lama com uma mulher quase nua.)

Deixando de lado questões de culpa, que não me interessava, enfoquei a qualidade técnica da cobertura, e cheguei a concordar com o Senador quando discursou,

Neste calvário regido por mãos que atiram pedras e se escondem, encontrei amparo nas reflexões do ex-deputado e brilhante filósofo Roland Corbisier um libelo que está completando 52 anos, mas cuja atualidade é desconcertante. Disse ele:

“Essa mania de denunciar, de acusar, de julgar e de condenar, antes de ouvir a defesa dos acusados, essa obsessão do inquérito, da devassa, essa complacência no escândalo, na publicação do escândalo, esse gosto em comprometer e desmoralizar o poder público, os homens que o exercem ou que aspiram a exercê-lo, essa precipitação, essa leviandade em atacar e condenar, sem o menor respeito pela justiça e pela verdade, essa sofreguidão, essa impaciência em fazer justiça com as próprias mãos, em dizer a última palavra a respeito de pessoas e dos assuntos em debate, essa atitude moralista e farisaica, pretensiosa e auto-suficiente, é uma atitude que, a prazo longo, se revela a mais nociva à formação política e mesmo à formação moral do país. Porque é impossível dissociar, na acusação, na agressão aos homens públicos, aos homens que exercem o poder, os próprios homens, enquanto indivíduos, dos cargos que ocupam e a função que exercem …”

Cabe uma ressalva aqui: a necessidade de proteger o indivíduo que exerce o poder para não desmoralizar a instituição no qual o exerce ecoa o princípio jurídico de desacato.

Num episódio dos Simpsons, Marge atende a baile de formatura com o cara mais esperto da escola. Quando ele começa com frescuras no carro, ele joga ele na rua.

Ele: “Não conte para ninguém o que aconteceu. De tão respeitado que sou, a informação prejudicaria a cidade inteira.”

Eis a lógica de desacato.

No entanto, eu sempre achava que o Senador Sensual contava com competente assessoria sobre “crisis communications” (comunicações de crise) no caso.

Assim como nosso  (cego, literalmente, como Oedipo) Governador, Renan tentou reduzir o caso a questões de detalhes concreto.

A documentação da venda de gado que Renan apresentou como prova da fonte dos recursos que pagavam a chantagem de Mônica foi autenticada mais julgada insuficiente para comprovar ou desmentir essa afirmação ao conselho de ética.

No contexto mais amplo, porém, podemos dizer que os dois casos mostram a criação midiática de uma expectativa delíria de grandes revelações que no fim, no máximo, acabam sendo casos relativamenter banais  e ambíguos de improbidade.

Têm a seriedade que têm — a ingerência no direito da moça de receber proteção contra a violência não é pífia — mas não são o quarto cavalheiro do fim do mundo.

O Senador Sensual acabou largando a mesa do Congresso — para ser substituido por Sarney, aliado histórico do Globo nas guerras de TV por assinatura — mas não perdeu o mandato.

No caso do governador, desistiu de reeleição mais vai até o fim do mandato.

Nos dois casos, vislumbramos a mesma artimanha do vigarista que leitores do grande livro The Big Con (O grande golpe, 1940) conhecerão como “bait and switch” — oferecendo uma isca tantalizadora e irrestível para depois trocá-la por outra coisa de pouco, ou sem qualquer, valor.

No começo, relações espúrias com empreiteiras Malufistas, além do ângulo moral do esposo infiel e da promiscuidade (literal e figurativa) entre jornalista-marqueteiras e políticos do PMDB! Que coisa!

No fim, trocando em miúdos sobre recibos de gado e duas rádios pé-de-chinelos do sertão de Alagoas. (Peço desculpas aos leitores alagoanos. Peguei este vírus de arrogância sãopaulocéntrica.)

No começo, promessas de putas, cocaína, e surubas e quem sabe mais na sede do governo!

No fim, abuso de autoridade meio banal, trocando em miúdos sobre se o teor das conversas do governador com a coitada da mulher — que teriam incluidas até expressões de solidariedade e apoio emocional — buscava influenciá-la indevidamente.

A Inverdade Múltipla

A estratégia básica aqui é a chamada “inverdade múlitpla.”

The Multiple Untruth consists of presenting so many statements that they are impossible to keep in the mind at once. It may be possible to select a small number of statements and show them to be false, but this will give the impression that only those statements are false.

… consiste na produção de tantas afirmações ou denúncias que fica impossível manter todas presentes na mente ao mesmo tempo. Pode-se selecionar um número pequeno e mostrar a falsidade delas, mas permanece a impressão que só aquelas afirmaçãos seriam falsas.

Eis a chave para a criação de um folk-devil (demônio-folclórico.)

Pode ser que Zé Dirceu fez mal e será julgado e condenado, por exemplo.

Mais ainda se for inocentado, a impressão permanecerá que esse anticlimax seria somente a ponta do iceberg das malvadezas desse safado sem-vergonha tão frequentemente chamado de “maquiavélico” — um desserviço, seja dito, ao filófoso italiano.

Caveat

Cabe lembrar aqui também, sob a cabeçada de diferenças, que a popularidade do Governador começou a cair um ano antes desse episódio.

Fonte: All Over Albany, tipo um Congresso Em Foco estadual de lá.

A aprovação do governador chegou ao ponto de equilíbrio-indiferença em fevereiro de 2009. Portanto, atribuir a queda do governador aos fatos narrados pelo Times seria um exemplo de post hoc ergo propter — após isso, e portanto, por causa disso.

(Albany, onde jamais estive na vida — para nós, é quase Canadá! — é o capital estadual.

Como no caso do Brasil, mais diferentemente do caso de São Paulo, os pais da pátria achavam melhor localizar o capital num lugar ermo e neutro, equilibrando assim a hegemonia do metrôpole.)

Diferenças notáveis

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Ora, se houvesse interesses econômicos maiores atrás da queda de Paterson, não sei.

O setor financeiro, o qual o novo Wall Street Journal de Rupert Murdoch — o filho dele toca o New York Post — pretende radicalizar ainda mais, jamais gostava de Spitzer nem do seu vice, Paterson.

Dá para olhar nos sites de transparência sobre doações de campanha para ver quais grandes bancos apostaram tudo no Bush e quais fizeram apostas equilibradas e seletivas — como costumava ser o caso com Goldman Sachs, por exemplo, o direto-geral do qual virou o governador Democrata de Nova Jersey após o escândalo (homo)sexual que derrubou seu cumpadi partidário.

Se houvessem, pelo menos não são tão escancarados como a disputa comercial no cerne do caso de Renan — que ameaçou montar uma CPI da TVA-Abril-Telefônica para revertir o negócio já aprovado com ressalvas pela Anatel.

Aprendi muito sobre essa guerra de cem anos entre os impérios da TV por assinatura com o artigo de Daniel Herz (!) de 1995:

Dá nomes aos bois.

Recomendo a leitura.

Pelo menos com a reportagem do New York Times temos um trabalho tecnicamente impecável, com diversas fontes identificadas por nome e citadas textualmente e generosamente entre aspas, além do direito à reposta e uma transparência comendável quanto ao processo de apuração.

(Meu chute, sem informações concretas para fundamentá-lo: O promotor-geral do estado vai sair da investigação do caso como o nome mais viável dos Democratas.

Ele é, cabe mencionar, o filho do saudoso governador Mario Cuomo, tipo um Mario Covas de Nova York. Mas Cuomo abandanou as ambições nacionais por causa da ligação do nome dele com mafiosos.)

No caso de Veja, ficamos com uma defesa que so pode ter sido escrita com um sorriso irónico nos lábios:

A editora também afirma que as reportagens sobre Calheiros foram “rigorosamente apuradas” e que “as confirma integralmente”. Segundo a empresa, “aflições e problemas do senador derivam de suas condutas” e as ações do senador foram consideradas “suficientemente problemáticas pelos seus pares e pelo Procurador-Geral da República, que as encaminharam para investigação, de um lado, para o Conselho de Ética do Senado Federal e, de outro, para o Supremo Tribunal Federal”.

Foi com argumento parecido que o tribunal da primeira instância deu razão ao Nassif na ação de Eurípedes Alcântara por danos morais, lembra?

Apesar das falhas técnicas inúmeras — e a promiscuidade descarada entre redatores-marqueteiros, fontes-interesseiras e jornalistas-gostosonas-maquiavélicas — Veja é boa pelo mero fato da Veja se dizer ser boa.

Quantos às duas mulheres envolvidas, a Mônica de Renan acabou aparecendo na Playboy Brasil em outubro de 2007, alguns meses após a entrevista com Diogo Mainardi na mesma revista (mais sinergias.)

Acabou, como eu li depois num noticiário rural, presidindo uma leilão de boi zebu em Mato Grosso como a celebridade convidada.

Leilão de bichos carnudos: metáfora apta pelo episódio todo.

Tomara que essa outra mulher, a servidora pública de Nova York, que se diz vítima de assalto, poderá manter a privacidade e dignidade e obter justiça caso as denúncias de violência estejam verdadeiras.

Moral Igual das Duas Estórias

“Os homens são porcos” –comentário atribuido à Sra. Calheiros