Pânico no Brasil do Norte: ACORN e o Dolchstoßlegende

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Fonte da imagem: Wikipédia (EN)

Durante a campanha que levou Obama à “presidência do mundo livre,” o candidato John McCain espalhou, em rede nacional, uma teoria conspiratória sobre ACORN, organização política e social que representa o que seria a classe D urbana no país.

Lembre-se de que nos Estados Unidos, o voto é facultativo e não obrigatório.

Portanto, grupos como ACORN e muitos outros fazem campanhas para cadastrar eleitores entre grupos que não costumam ter alta participação no processo eleitoral.

ACORN é o grupo que mais cadastra eleitores no País.

McCain disse que ACORN

… is now on the verge of maybe perpetrating one of the greatest frauds in voter history in this country, maybe destroying the fabric of democracy.

… está pronta agora para possivelmente cometer um dos maiores fraudes eletorais na história desse país, possivelmente derrubando a estrutura da democracia.

O FactCheck.org deu uma desmentida contundente.

À mesma vez, McCain levantou a velha bolha da suposta traição de militantes anti-guerra, que teriam minados as forças armadas em Vietnã, impossibilitando a vitória.

Obama teria relações estreitas de amizade com um integrante do Weather Underground, Bill Ayers. O grupo praticou atos de terrorismo em protesto contra a guerra, e uma fábrica de bombas na casa vizinha a residência do ator Dustin Hoffman em Manhattan explodiu em  — googleando o ano — matando o fabricante.

Segundo Wikipédia (com notas de rodapé para comprovar a afirmação),

Investigations by The New York Times, CNN, and other news organizations concluded that Obama does not have a close relationship with Ayers

Investigações pelo New York Times, CNN, e outros vehículos concluiram que Obama não tem relaçãoes íntimas com Ayers.

(McCain foi prisioneiro de guerra durante 8 anos, e a campanha Bush ia espalhar durante as prévias de 2000 que enloqueceu por causa das torturas sofridas. Rima bonita em inglês: McCain is insane!)

O mesmo argumento foi utilizado, com sucesso, contra o senador Kerry nas eleições de 2004: Kerry, um condecorado veterano da guerra, foi tachado de traidor por ter militado no movimento anti-guerra após voltar para casa, e sua fama de herói de guerra foi desconstruida pela organização SWIFT Boat Veterans For Truth, com ligações sub-reptícias ao partido opositor. Veja

Isso não passa do Dolchstoßlegende, a lenda da “adaga nas costas,” aproveitada pelos nazistas para explicar a derrota de Alemanha na Primeira Guerra Mundial e fazer dos judeus o bode expiatório pela suposta traição (acima).

ACORN foi inocentado. Não passava de alguns diaristas falsificando cadastros para receber mais dinheiro, uma vez que recebiam por cada eleitor cadastrado. ACORN mesmo identificou os cadastros espúrios e alertou as autoridades.

O grupo respondeu divulgando fotos de McCain e outros marcando presença em congressos do grupo e prometendo apoio.

Acima, por exemplo, um governador estadual do partido Republicano assinando legislação regulando “empréstimos predatórios.” Contrariando a fama de ser da esquerda, o grupo tem história de apoiar Republicanos quando esses propõem políticas públicas que agradam-no.

Agora, o desfecho de mais uma tentativa de demonizar a organização.

Putas, Cafetões e Câmara Clandestina

Um casal entra no escritório de Acorn em Brooklyn — onde eu e a Mina de Letras moramos quando não estamos em Samboja-Belíndia —  disfarçado de cafetão e prostituta. Tentam elicitar dos voluntários lá presentes conselhos sobre como lavar dinheiro. A conversa é gravada. Outras armações desse tipo são feitas e gravadas.

Os vídeos formam o fundamento de uma baita de uma campanha nacional para espalhar que ACORN “apoie uma esquema de exploração sexual de minores de idade.”

Uma ova! Conheço esse grupo. São um bando de vovozinhas conservadoras que frequentam a igreja batista e compram cartilhas de bingo para pagar ajuda ao Haiti cada quarta-feira anoite.

(Moramos ao lado de uma igreja evangélica haitiana, com vovozinha tocando baixo na banda de rhythm ‘n’ blues religiosa (gospel) que têm lá. Arrasam.)

Fonte: Salon.com.

WASHINGTON — A four-month investigation by the Brooklyn district attorney found no evidence that the local ACORN office had engaged in any criminal conduct, despite the hype conservative media gave to tapes of a fake prostitute asking for help from the organization.

Uma investigação de quatro meses pelo promotor distrital não achou provas de que o ACORN local teria cometido qualquer crime, apesar do golpe publicitário que a mídia conservadora pretendia fazer dos vídeos de uma falsa prostituta pedindo ajuda da organização.

“They edited the tape to meet their agenda,” a law enforcement source told the New York Daily News, which reported the investigation’s results on Monday.

“Editaram a fita para validar uma pauta preconcebida,” uma fonte dentro da polícia disse ao Daily News, que relatou os resultados do inquérito na segunda-feira.

The Brooklyn office was one of several ACORN sites visited by James O’Keefe and Hannah Giles for their hidden camera report that, they claimed, “proved” the organization was helping prostitutes and pimps engage in child sex slavery.

O escritório em Brooklyn foi um entre vários visitados por James O’Keefe e Hannah Giles para uma reportagem de câmara escondida, a qual, alegavam, “comprovou” que ACORN estaria ajudando prostitutas e rufiões a explorar a escravidão sexual de crianças.

(Though Breitbart seems to like pretending otherwise, there was no actual prostitution involved.)

(O Breitbart aparentemente gosta de fingir que o fato fosse outro, mas não houve prostituição de verdade no caso.)

Andrew Breitbart é um militante neoconservador residente de Brooklyn que mantém um site de “mídia alternativa” que divulga esse tipo de “jornalismo cidadão.” Parece que tem um parente, Joshua, que é cineasta e empresário de mídia, também em Brooklyn.

But as the decision by prosecutors not to file any charges underscores, the only thing O’Keefe really proved is that ACORN employed some people who were easily duped into playing along with his stunt.

Mas como mostra a decisão da promotoria de não fazer denúncia, a única coisa comprovada foi que ACORN empregava pessoas facilmente enganados para participarem na farça.

Dois empregados da ACORN acabaram no olho da rua, demitidos.

Breitbart, meanwhile, has refused to release the full videotapes of any of the ACORN visits. He says his critics may not “have the stomach to deal with” what’s on the tapes. But if Brooklyn authorities are any guide, there may not be all that much there, anyway.

Bretibart, entretanto, recusa a divulgar os vídeos não editados de qualquer visita. Diz que os críticos dele “não teriam a coragem de lidar com” o conteúdo das fitas. Mais se a promotoria sirva de indicação, provavelmente não tenha muito de revelador nelas.

Como desmoralizar essa nota

No interesse de transparência, eu deveria divulgar algo do meu próprio passado criminoso.

Em 1985, eu trabalhava de 2359 para as 0801 num posto de gasolina na Rua Lombard, em São Francisco, California (cidade dos meus sonhos).

Cada noite, um cafetão me pagava $20 para estacionar seu Cadillac de vermelho, azul e branco, todo forrado de pele de urso polar faux, com calotas parecidas com discos voadores, no lote do posto. Uma personagem do filme Shaft ou Superfly ou outros do gênero.

Portanto, eu tenho ligação histórica com a prostituição, da qual recebi vantagens indevidas, e não tenho moral para defender a ACORN.

(Naquele mesmo ano, trabalhando na bilheteria de um cinema ao lado de um bar de travestí, testemunhei o esfaqueamento de um traficante de cocaína. San Francisco era mais barra-pesada naquela época.)

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