O Instituto Millenium e a Rua K: Sociometria Preliminar

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Mais uma sociometria utlizando a ferramenta CMapTools, que recomendo para vocês, e o uso da qual eu sempre acho muito estimulante.

Traduzindo organogramas hierárquicas em redes visuais, e flexíveis, é um belo jeito de pensar fazendo, eu sempre acho, sobre redes sociais.

Nesse caso, o grande assunto do momento e o Instituto Millenium e o congresso que acaba de realizar com palestrantes como Roberto Civita e Alberto di Franco, aquele do Opus Dei e o Master [sic] em Jornalismo — programa que forma muitos “gestores de conteúdo” do Estado de S. Paulo.

O Masters, por sua vez, é um curso de extensão da Univerdad de Navarra, na Espanha, vários dos professores da qual fundaram a consuloria Innovation International. Fiz uma mapa dos clientes, diretores e sócios da consultoria um ano, dois anos atrás:

Nessa perspectiva parcial (faça clique para ampliar, vemos os sócios, à direita, e os diretores regionais, assim como alguns clientes — entre eles O Globo, USA Today, e Libération (França.)

Se perdeu o escândalo da reforma da Libération — o jornal de Sartre! — você perdeu uma rinha arruaceira.

O concorrente, Le Monde, vivia apontando exemplos de “advertorial” — propaganda fantasiada de jornalismo — nas novas páginas.

Vale notar também duas relações: (1) a pareceria entre o Curso Abril de Jornalismo e o Masters; e (2) a composição do conselho editorial do Instituto Millenium: Euripes Alcântara (Veja) e Antônio Carlos Pereira (Estadão).

Primeiros Passos

O primeiro passo na elaboração de um análise de uma rede social é: mapear as afiliações instituicionais que são divulgadas pela organização sob estudo.

Assim fiz com o Instituto Millenium (acima).

Depois, você começa a buscar para ligações institucionais não divulgadas.

Sempre haverá.

Aqui, por exemplo, no site do Instituto, tem poucas informações sobre alguns dos integrantes do Conselho Fiscal.

(Também tem a possibilidade de relações de parentesco no caso da presidente, Andrade, e o conselheiro fiscal, Constantino. Mais ainda não confirmei. No Brasil, parentesco quase sempre tem algo a ver, não tem?)

Portanto resolvi começar, mais o menos aleatoriamente, com esse tal de Odemiro Fonseca.

O sitioOrdem Livrre.org tem uma entrevista com o “empresário” —  um sitio com ligações a uma fundação chamada da Atlas Research Foundation, que em torno tem ligações com o Instituto Liberal, que tem parceria com o sitio.

O SourceWatch tem um perfil da organização norteamerican, meio desatualizada e incompleta.

Um atalho levando ao sitio da ONG norteamericana aparece no canto direito no alto da página.

Portanto, a trilha leva quase imediatamente à Rua K em Washington, D.C.

Se não soubesse, é a rua dos lobistas.

Sede de um Quinto Poder em pleno processo de fusão com o bom e velho Quarto.

K Street é uma metonomia para a indústria de lobby nos EUA.

Nesse caso, trata-se de uma fundação na Rua L, 1201.

É so virar a esquina.

Atlas Economic Research Foundation:

1201 L St. NW
Washington D.C. 20005
United States of America
Phone: 202-449-8449
Fax: 202-280-1259

Como já foi dito, o sitio no qual nosso conselheiro fiscal é entrevistado, OrdemLivre.org, tem um atalho ao patrociniador na cabeçada da página.

(O engraçado é que nessa entrevista, o mesmo Odemiro e identificado como o entrevistador.)

Assim como alguns integrantes do Instituto Millenium — esse tal de Constantino escreveu um livro comemorando a fumadora histérica de cigarros russa– toma como inspiração o culto de Ayn Rand, autora do romance Atlas Shrugged (Atlas deu de ombros), e uma versão neonconservador dos ensinamentos econômicos do nobelista Friederich Hayek, que os neocons transformou numa metafísica de indivualismo radical.

(Entre os protegidos mais ardentes de Ayn Rand foi Alan Greenspan, ex-presidente do Banco Central de Todos os Gringos — o  «Fed», de  «Federal Reserve Board», e não o F.E.D., como costuma-se ser dado na imprensa brasileira.)

Na verdade, a fundação não serve para muito senão como um duto para canalizar doações de redes dentro de redes de fundações da ultradireita norteamericana — além dos pesos-pesados do lobby gringo, Exxon e Phillip Morris (tabaco) — para estabelecer «think tanks» — institutos de «pesquisa» como o bom e velho IPES — de inspiração Objetivista  (Ayn Rand) no mundo inteiro.

É quase que uma fazenda ou incubadora de «think thanks» — institutos de «pesquisa».

Divulga um «kit» ou guia para fundadores de tais institutos.

E ainda tem ligações com redes maiores de outras tantas fazendas de ONGs internacionais.

A gente fala de BINGOs — «big international non-governmental organizations» (grandes ONGs internacionais).

As fontes de financiamento mostrado no mapeamento da rede social constam num levantamento feito por SourceWatch.

Outra fonte de recursos era a Sociedade Mont Pelerin, estabelecido pelo economist Friederich Hayek, do qual o criador do Instituto Liberal era integrante.

Hayek stressed that the society was to be a scholarly community arguing against collectivism, while not engaging in public relations or propaganda.

Hayek enfatizou que a sociedade deveria ser uma comunidade de estudiosos argumentando contra o coletivismo, mais sem praticar relações pública ou propaganda.

Fonte: Wikipédia, com nota de rodapé que eu boto logo.

Contrariando essa condição imposta pelo nobelisteconomista, porém, esta fundação, Atlas, recentemente contratou a empresa de relaçoes públicas WirthlinWorldwide — agora um subsidiário de Harris Interactive — para consultas sobre como espalhar a sua mensagem, principalmente pela Internet.

Wirthlin Worldwide, fundado por um homem de confiança de Reagan — Wirth servia como pesquisador e assessor estratégico principal do ator de filmes B tornado presidente do mundo livre entre 1968 e 1988 — serve clientes como

  1. Citibank
  2. DuPont Lycra
  3. Pfizer
  4. Syngenta
  5. Pharmacia
  6. Organon
  7. Unilever
  8. Bristol-Myers Squibb
  9. Monsanto
  10. American Petroleum Industry
  11. Mobil
  12. American Plastics Council
  13. International Paper
  14. National Restaurant Association
  15. National Cattlemen’s Beef Association
  16. American Furniture Manufacturers Association

Um dos projetos mais bem-sucedidos da fundação Atlas foi o Manhattan Institute, ligada fortemente ao ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, que deixou o instituto escrever projetos de lei sobre política de educação.

O advogado que estabeleceu o instituto, William Casey,  depois viria diretor da CIA.

Casey dirigiria o apoio clandestino aos mujahedeen de Afeganistão — Osama, inclusive — e a esquema ilegal utilizada para armar os Contras de Nicaragua contra a vontade do Congreso.

Horas antes de testemunhar ao Congresso sobre o escândalo Irã-Contra, Casey ficou doente e perdeu o poder de fala.

O Wirthlin tem especializado em campanhas sub-reptícias contra movimentos ambientalistas.

Paranoia, Nada: Tem Um Livro Sobre Como Fazer

Num livro sobre o assunto, de 2000, Wirthlin descreveu o melhor jeito de atacar o “precautionary principle” (princípio preventivo).

Essa proposta de ambientalistas prega que, existindo indicações de um possível dano à sociedade por determinada atividade industrial, medidas deveriam ser tomadas antes mesmo do estabelecimento de uma estreita relação de causa e efeito.

Conselho de Wirthlin (2000):

“Enlist surrogates who can effectively attack the Precautionary Principle and its misapplications. Language and positioning are all-important. Beware of saying that industry opposes the Precautionary Principle. Activists will seize on that to imply that big business does not care about people’s health and safety,”

Alista [representantes não assumidos] que podem atacar o princípio e suas aplicações erradas com eficiência. Discurso e posicionamento são essenciais. Tenha cuidado: Não diga que a indústria oponha o princípio. Ativistas pegarão aquilo para dizer que o setor empresarial não se preocupa com a saúde e segurança de pessoas.

Meu palpite é que tarde o cedo chegaremos ao USAID e o NED, mais ainda não tive tempo de recolher todos os fios da telaranha.

Mas em qualquer caso, já identificamos uma ligação de apoio ao movimento provindo de lobistas com história aberta de utilizar grupos com ligações clandestina com grandes empresas de comunicação no papel de Contras, para fazer guerrilha midiática contra oponentes que o cliente não pode ser visto combatendo abertamente.

Whois — o comando unix para buscar informações no base de dados de domínios — ordemlivre.org?

Domain Name:ORDEMLIVRE.ORG
Created On:03-Oct-2007 16:22:49 UTC
Last Updated On:05-Oct-2009 11:06:32 UTC
Expiration Date:03-Oct-2012 16:22:49 UTC
Sponsoring Registrar:Gandi SAS (R42-LROR)
Status:CLIENT TRANSFER PROHIBITED
Registrant ID:O-1206448-GANDI
Registrant Name:Diogo Costa
Registrant Organization:Diogo Costa
Registrant Street1:450, Massachusetts Ave. Apt. 929
Registrant Street2:
Registrant Street3:
Registrant City:Washington
Registrant State/Province:Dist. of Columbia
Registrant Postal Code:20001
Registrant Country:US
Registrant Phone:+1.16308023520

O site é hospedado na França:

Tech Organization:GANDI SARL
Tech Street1:15 place de la Nation
Tech Street2:
Tech Street3:
Tech City:Paris
Tech State/Province:
Tech Postal Code:75011
Tech Country:FR
Tech Phone:+33.1
Tech Phone Ext.:
Tech FAX:
Tech FAX Ext.:
Tech Email:support@support.gandi.net

O endereço físico da parte responsável pelo site é do Cato Institute, que o assume com o sucursal lusófono do Instituto.

Em fim: Um x-duto alimentado por fundações da ultradireita norteamericana e aparentemente desembocando agora nas páginas de O Globo.

Na gráfica, utilizo cores diferentes para pessoas físicas, pessoas jurídicas (empresas), ONGs, instituições do governo, e instituições académicas.

Vehículos da imprensa corporativa são pretos.

Vehículos da “mídia alternativa,” tal como blogs, foros, jornais eletrônica, listas de e-correio, e nhemnhemnhem, são cinzas.

Doadores estrangeiros são verdes, honrando o bom e velho dólar.

Palpite: a atuação dessa campanha de «mídia alternativa e independente» terá apoio financeiro e coordenação vindo de fora do pais.

Assim como em 2006, a Televisa — a Globo mexicana — conduzia uma campanha declarando o candidato do centro-esquerda de «un peligro para Mexico», vão voltar a uma velha campanha da Veja:

(Depois, a chamada Ley Televisa, que garante o monopólio da empresa.

Ela controle 75% do mercado.

Quando um senador do PAN, partido beneficiado pela campanha ilícita, denunciou troca-troca ilícita nos bastidores da lei, foi atacado na imprensa como o secretário de governo que deu passaporte a um grande traficante chinês durante os anos Fox.

Aquele Fox que já foi presidente de Coca-Cola no México, cabe lembrar.

IBOPE foi contratado pelo IFE, o Instituto Electoral Federal, para monitorear ilícitos nos “spots” — propaganda curta na TV — mais falhou.

Não houve fiscalização efetiva dos “spots.”

IFE depois — muito depois — julgou os spots «peligro para Mexico» ilícitos.)

Se não conseguirem segurar a onda de Dilma, vão no mínimo querer fazer mais um Ministro de Comunicações vindo do empresariado, como foi o caso de Hélio Costas (Globo).

Vamos ver o que acontece.

Astroturf: “Diplomacia Pública” Semi-Clandestina

O Departamento de Estado de Bush teve um programa  de “nova mídia” desse tipo — “diplomacia pública,” epíteto de propaganda semi-clandestina — patrocionado por USAID e NED (IRI) mais escondido atrás camadas de testas-de-ferro para aparecerem “independentes” e originárias da sociedade civil.

Chamamos isso de “astroturf.”

Movimentos de cidadões espontáneos são “grassroots” (raizes do caipim).

Astroturf e aquela gramada faux utilizada em estádios fechados, de plástico.

O Observatório de Fontes

Estou escrevendo com pressa, mais falando no projeto de SourceWatch: eu montei um Observatório de Fontes no meu domínio pessoal. Menos como un projeto viável como um projeto-piloto, na tentativa de elaborar um guia simples de como fazer esse tipo de trabalho investigativo.

Dêm uma olhada.

Saideira

Eu tenho uma teoria: que a marca inconfundível da presença dessa consultoria, Innovation International, seria aquele dispositivo no alto da página que convida você dar uma nota à matéria.

As escolhas são enviesadas. (Alguns vehículos de mídia já mudaram essa situação, seja dito.)

Tem uma escolha só que seria negativa: “ruim.”

Duas estrelas seria “normal.”

Três estrelas é “bom.”

As últimas duas estrelas convidam o leitor a escolher entre “o melhor possível” e “além do maior possível.”

Uma avaliação negativa, uma neutra, e três positivas. “O leitor adora nosso trabalho!”

Tampouco fica claro se a marca seja uma avaliação do assunto — Fidel morreu! Além de ótimo! — ou da qualidade da matéria sobre o assunto. É uma farça, mais recolhe dados úteis para marqueteiros.

Do Globo:

Do El Pais:

O El Espectador e El Tiempo(Colombia) já tinham, mais descontinuaram, se não me engano.

O Estadão também tem.

Libération ainda não sofreu a indignidade.

USA Today não usa, mais tem outra característica da consultoria: a integração com as redes sociais comerciais:

Há outro detalhes do estilo de elaborar o sitio característico do clientes de Innovation International. Caixas para “mais lidos” e “mais comentados,” por exemplo.

Estadão? O Globo? El Espectador (Bogotá). El Tiempo também usa.

Todos esses elementos — e tem outros, por exemplo a divisão do noticiário em secções (a “ontologia” de assuntos) muito parecido entre clientes da consultoria — indicando uma padronização internacional do projeto de sitios jornalísticos pertencendo aos clientes da consultoria da Universidad de Navarra.

Algum estudante deveria fazer uma apuração rigorosa.

Eu tenho preguiça demais nesse momento.

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