Kassabado? O Efeito Rashomon e o Vilarejo Potemkin

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Kassab and L'il Kassab, 2006 mayoral campaign

A boneca é a pessoa.

Mais um caso do efeito Rashomon.

(O nome vem do filme de Kurosawa no qual várias testemunhas contam histórias contraditórias sobre o mesmo crime.)

E um alegado caso do vilarejo de Potemkin.

(A lenda é que um aristocrata, Potemkin, construiu ruas de fachadas bonitas ao longo da rota quer seria seguida pela imperatriz.

Seu propósito era esconder da Catarina a miséria absoluta que reinava do reino.)

Agora, o PT-SP entrou com recurso especial alegando novos fatos que apoiem a denúncia de abuso de poder econômico.

Recurso improcedente, disso o TRE-SP. O TSE confirma.

Mas por quê? (Por quê tanto sol?)

Segungo o Estadão:

Cármen Lucia corroborou decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SP), que destacou não haver como demonstrar a convocação de funcionários para o evento. Quanto aos gastos com locomoção e promessa de pagamento de hora extra, o TRE-SP salientou que não houve prova de irregularidades.

Agora, a razão divulgada por O Globo é outra:

No entanto, a ministra Cármen Lúcia acompanhou, em sua decisão, o TRE-SP. Segundo ela, para se chegar à conclusão diversa, seria necessário reexaminar fatos e provas, o que não é possível em via de recurso especial.

Estadão diz que NÃO HOUVE provas de abuso no recurso especial pedindo a cassação de Kassab.

A ministra diz que não NÂO HOUVE COMO JULGAR os méritos das supostas provas em regime de recurso especial.

O ConJur confirma a versão do Globo:

Em primeira e segunda instâncias a ação foi julgada improcedente por falta de provas. A ministra Cármen Lúcia afirmou que para derrubar a decisão do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo seria necessário reexaminar as provas, o que não pode ser feito por meio de Recurso Especial.

Provas de quê?

Os partidos alegam que a administração teria convocado servidores públicos para ato de campanha em favor do prefeito, inclusive, com promessas de pagamento de horas extras. …

Entre “não há provas” e “não pode-se examinar as nova provas nesse tipo de processo” tem um mundo de diferença.

Se ”não há provas” foi o equivalente de “não quero examinar as provas,” Paulo Lacerda da PF e ABIN estaria aposentado hoje num castelo na Suiça, com harem de escravas sexuais, segundo a revista Veja.

Quanto às novas denúncias, eu posso testemunhar, de segunda mão — o que não vale muito, seja dito — que quando o prefeito chegou para inaugurar a renovação da praça aqui na vizinhança, chegou acompanhado de uma banda de música de gente.

Quase ninguém do bairro assistiu a solenidade.

Não fomos avisados de antemão.

Fonte: relatos de vizinhos.

Se chegassem em vehículos da prefeitura, ninguém com que conversamos lembrou-se.

Falta ainda um levantamento de mais testemunhas oculares.

O que foi observado, sim, foi que também mandaram uma tropa de gente vestida de macacão da prefeitura no dia anterior par pintar nossa pontezinha e remover obras de arte naive que os moradores colocaram lá para dar um ar festivo a uma construção feiazinha.

Parece que não serviriam como pano de fundo adequado para o “photo op” — gíria nossa para um evento encenado para produzir uma imagem controlada.

Arte naive no espaço público, do qual ninguém reclama, seria sujeira sujando o temático do evento: “Cidade Limpa.”

Fora do alcance da câmara, porém, as obras dos grafiteiros permanecem intocadas.

(Temos um viela aqui com uma série de grafites em homenagem a várias músicas do grande Tim Maia.

Deveria ser preservado como patrimônio cultural.)

A turma de Bush Filho sempre eram craques deste tipo de coisa.

Chegaram ao ponto de negar entrada aos comícios dele a quem não concordava em assinar um juramento de lealdade. Para poder processar depois, se for necessário.

Juro.

A Lei Hatch, por exemplo, proibe atuação política por qualquer servidor público durante o expediente de trabalho. Mais como notou o blog da confederação sindicalista AFL-CIO:

During the 2004 campaign, top honchos at Kirkland Air Force Base in New Mexico e-mailed an invitation to each employee to pick up a free ticket to a Bush campaign rally. According to the e-mail, employees couldn’t attend the rally on government time (that would be against the law). But they had pre-approved leave for anyone who wanted to come.

Durante a campanha de 2004, os mandões do base da Aeronáutica em Kirkland, Novo Mexico, mandaram um convite por e-mail a cada empregado, com direito a ingresso grátis para o comício de Bush. Segundo a mensagem, servidores públicos não podiam assistir o comício durante o expediente (seria uma violação da lei). Os mandões, no entanto, tinham aprovados de antemão um feriado para quem queria marcar presença.

Essa lei foi aplicada com dois peso e duas medidas durante os anos Bush:

The Federal Times in October 2004 reported the case of Air Force machinist Donald Thompson who forwarded an e-mail he received criticizing President Bush. He saw nothing wrong with passing on to 70 friends and acquaintances a lampoon of the president’s qualifications from the union office in Warner-Robins, Ga., where he served as president of the American Federation of Government Employees’ Local 987.

O Federal Times relatou o caso do torneiro mecánico Donald Thompson, que encaminhou um e-mail que recebeu, criticando Bush. Não viu nada de errado em encaminhar uma tiração de sarro sobre a falta de preparo do presidente a 70 amigos e conhecidos. A mensagem foi enviada do escritório do sindicato local de servidores público, onde trabalhava como presidente.

Fora do expediente, presumimos.

But the Office of Special Counsel claimed Thompson violated the Hatch Act and threatened him with suspension or termination. As in losing his job.

A promotoria especial reclamou de uma violação da Lei Hatch, e ameaçou o sindicalista com suspensão ou demissão.

O caso mais polêmico, talvez, foi o “photo op” mostrado aqui:

Bush, um piloto de reserva durante a guerra na Vietnã — assim, evitou servir em zona de combate, e tem indicações (tem base de dados com todos os documentos públicos sobre o episódio) que ele nem fez seu treinamento — aterrisou numa porta-aviões vestido de piloto de caça, e depois fez um descurso no convês do nãvio.

Missão cumprida!

Mentira: manifestação espontánea de apoio ao comandante-chefe pelos marujos!

Verdade: projetada, produzida e posicionada por operadores políticos do partido Repubicano na Casa Branca.

Até dá para ver que trata-se do mesmo projeto gráfico utilizado na campanha de Bush.

O momento assombraria o presidente depois, quando as poucas centenas de soldados mortos durante a invasão virou os 5,000 mortos no combate à insurgência. Contra os conselhos dos generais, não acharam necessário mandar tropas suficientes para segurar cada paiol de munições no País — do qual havia milhares.

O Vilarejo Potemkin

Falando no Novo e o Velho México, esses momentos cuidadosamente encenados — constam no primeiro cápitulo do livro Mitologias de Roland Barthes, leitura compulsória nas faculdades de hoje — me lembram da prática centenária de manifestações de massa em favor do PRI — chamado por Vargas Llosa da “ditadura perfeita” quando gozava do monopólio sobre política eleitoral — em México.

Na revista Proceso — ótimo vehículo de jornalismo investigativo — houve entrevista uma vez com um vendedor de rua do distrito federal que explicou como funciona. Ou você assista o comício e chacoalha a bandeira do partido lá no Zócalo, ou o sindicato mande você embora e você perca sua habilitação

O sindicato nacional de professores da rede público, o SNTE, é notório nesse sentido. A grande chefona é Esther Elba Gordillo, dissidência do PRI que garantiu a entrega do seu curral eleitoral ao Felipe Calderón do PAN nas eleições de 2006, em troca de “facilidades lá encima.” (Tem conversas gravadas com um governador do PRI comprovando essa atuação.)

Quando o sindicato local do estado de Oaxaca quis combater a corrupção do sindicato nacional, deu que deu.

Tem vídeos de policias estaduais trocando de roupa dentro de viaturas, emergindo como milicianos encapuçados que assassinavam integrantes do movimento dissidente. As rádios de Televisa e Azteca divulgavam desinformação demonizando o movimento e exaltando o governado, Ulíses Ruiz.

O grande erro deles foi matar um gringo, Brad Wills, fotógrafo do Centro de Mídia Independente.

O Brad era de Brooklyn, Nova York.

E nós de Nova York não gostamos quando terroristas matam nossos concidadões.

Qualquer terrorista, porrra!

Como minha mulher observou na época: “Tem que morrer gringo para as coisas mudarem.”

Triste, mais tem muita justiça na observação.

Espalhou-se depois a versão — até na AP, uns dos maiores agências de inforação do mundo, e no Washington Post — que os milicianos estavam tirando no ar, e que o Wills foi atingido nas costas por um manifestante da dissidência.

Loucura.

Olhem esse foto aquí, atestadamente verídica e tirada durante o confronto em questão:

O home foi identificado por várias testemunhas como um sargento da polícia estadual.

Que eu saiba, ainda não foi julgado.

Não perguntem quem fica na mira do pistoleiro.

Vocês que ficam.

A Praça: Tarefa de Sísifo

Em tempo: a reforma da praça é bonita.

Ninguem reclama — só que aa pista de cooper, levemente inclinada, tem borda de areia. Com as chuvas, a areia corre ladeirinha abaixo e amontoa-se no pé da pista.

Tem funcionário público que chega com pá cada vez que chover para pó-la de volta.

Tarefa de Sísifo.

A reforma do corrêgo, no entanto, ninguém conseque entender.

Tem leito fundo natural e não chegou a transbordar na memória viva até da Dona M., que mora aqui desde o tempo de manadas de boi na Praça Panamericana …

Justiça seja feita, no entanto: Os testes de Sabesp para identificar drenagem informal (um liquido colorido passado pela privada) foram sensatos e bem-vindos, e conduzidos de forma eficiente.