Cogito Ergo Neoliberalis Sum: A Linha Editorial do Instituto Millenium

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Nova e notável: Instituto Millenium » Linha editorial.

Uma vez que o conselho editorial do Instituto Millenium, que promoveu recentemente seu primeiro foro sobre a democracia e liberdade de expressão, fica nas mãos de Eurípedes Alcântara (Veja, Editora Abri) e Antonio Carlos Pereira (Estado de S. Paulo) — os dois com ligações estreitas com o Master [sic] em Jornalismo (Carlos Alberto di Franco, do Opus Dei, palestrante no evento) — eu achei interessante dar uma olhada da linha editorial definida e defendida pelo Insituto:

Para cumprir sua missão de promover a democracia, a economia de mercado, o Estado de Direito e a liberdade; respeitando seus valores e sua linha pragmática de ação, sem qualquer vinculação político-partidária, o Instituto Millenium elaborou o presente documento que serve de referência para seus editores e articulistas.

Ora, eu defendo o estado democrático de direito, a liberdade, e a economia de mercado. Será que eu podia contribuir ao movimento?

Num primeiro momento, acho que seria difícil.

Eu sempre me esbarro na contradição de que os maiores defesores da economia de mercado sem limites costumam ser monopólios e oligopólios — argumentando que adquirirem sua posição monopolista por mérito.

Padrão Globo de Qualidade, entre os melhores do mundo! Eu, hein?

Existem dois segmentos de Fantástico, por exemplo, no YouTube: um elogiando e promovendo «o poder de magnetismo» e outro atacando-o como «charlatanismo» — ambos com argumentos mambembes sem fatos apurados.

Não faz muito tempo, o Estadão saiu com um editorial segundo o qual a crítica común, de que o mercado de comunicacões no Brasil estivesse sufocado pelo mal de cartelização, seria absurdo.

Então que monopólio é esse que eles querem acabar? Por que ninguém vê a TV Brasil? Por que A Voz Operária é menos lida do que O Estado de S. Paulo? Por que a Carta Capital só tem uma fração dos leitores da Veja? Não se trata de quem é melhor ou pior, é só uma livre escolha do público. E nas escolhas democráticas, às vezes, a maioria está errada, mas o que fazer, acabar com a democracia? Ou com a maioria?

Não sei, não. Parece tipo uma escolha de Hobson. Conhece essa estoria? Dono de um estábulo botou cartaz dizendo, “Vocês podem alugar qualquer cavalo que quiser, uma vez que seja o cavalo mais perto da porta.”

Com a acquisição da Fernando Chinaglia, a Editora Abril agora detem o monopólio sobre a distribuição de mídia impressa às bancas de São Paulo. Não sei porque, mas mal deu no jornal. Se abuse desse poder, não sei. Se o CADE impus condições sobre a operaçõ, ainda tenho que pesquisar.

Sei pessoalmente que certas bancas jamais recebem a Carta Capital.

Da razão eu não consegui saber ainda.

Domingo a tarde: “Ah, ainda não chegou, problema do distribuidor.”

O Estadão pode ter certa razão, porém. Talvez deveriamos enxergar a concentração de mídia no Brasil, não como monopólios ou oligopólios regionais, mais como uma única oligopsonia nacional.

An oligopsony is a market in which there are few buyers, in other words, the converse of an oligopoly. … Six companies own the vast majority of the movie theater chains in the United States.  If you want to distribute a film, you’ve got deal with them

«Oligopsonia se refere a um mercado com poucos compradores, e portanto é o avesso do oligopólio. Exemplo: seis empresas são donas da vasta maioria de cadeias de cinemas nos EUA. Se você queira distribuir um filme, tem que lidar com eles.»

Seria por isso que o cenário cultural do Brasil é um sertão dos mais áridos, a vida do artisa brasileiro uma vida seca?

Não que faltam criadores, mais que falta mercado de trabalho que pagaria o suficiente para fazer da produção cultural um ganha-pão para pessoas que não nasceram entre as elites culturais.

Eu recibo, por exemplo, avisos de vagas do Catho Online, só para ver como é ser jornalista brasileiro. Vagas até para pessoas experientes e com capacitação técnica avançada são oferecidas por dois até três, com sorte quatro salários mínimos.

A profissão também paga cada vez menos nos EUA, mais era uma vez que uma foca entrando num jornal de meio porte podia esperar pelo menos 3,5 salários mínimos — basicamente o salário de um policial novato em Nova York.

Dá para se estabelecer em Astoria, em Queens, ou Brooklyn, com hipoteca ao 5.5575% por ano. E metrô lá perto.

Oligopsonies often generate oligopolies.  You can’t negotiate very well if the company you are talking with is enormous and you are tiny.

«Oligopsonias frequentemente geram oligopólios. Você não pode negociar efetivamente se a empresa com que conversa seja enorme enquanto você é um nanico».

.Dono de banca, por exemplo: Pode escolher livremente o que quer comprar de Abril-Chinaglia e o que não quer comprar? Pode recusar a participar em promoções especiais e campanhas publicitárias? Vamos fazer uma sondagem.

(Já tentei uma pesquisa-piloto e encontrei bastante cara fechada e receio.)

Nos esbarramos logo no começo no problema da liberade de escolha no mercado dominado por monopólios, oligopólios ou oligopsonias, face o ideal liberal do livre mercado.

In both environments, consumers have little choice but to buy the products or services offered by the one or few companies and complete the transaction at whatever price was set by the organization. An ideal free market economy, the type commonly associated with capitalism, puts the consumer in charge by eliminating the influence of major monopoly or oligopoly players.

«Em ambos ambientes, consumidores tem pouca escolha senão comprar os produtos em oferta pelas poucas empresas que há, e comprar ao preço estabelecido pela organização. Um libre mercado ideal, tipicamente associado com capitalismo, faz do consumidor o mandante, eliminando a influência de participantes monopolistas ou oligopolistas.»

Aqui na vizinhança, é ou NET ou Telefônica para usuários intensivos de banda larga como a gente.

Minha mulher não quis me ouvir sobre os maus de ADSL e assinou Speedy por alguns meses. Eu disse, não disse?

Até ligaram a minha sogra e a informou que tinha instalada Speedy na casa dela — serviço que jamais encomendou. O processo de cancelar foi tão penoso que ela chegou a chorar.

A senhora tem marca-passo! É viúva indefesa!

Agora, estamos com NET de 8 MB, o qual é incrivelmente caro relativo aos serviços disponíveis nos EUA, quando ajustado pelo custo de vida relativo, e além disso, esse papo de 8 MB é enganoso.

Eu fiz o SpeedTest — ironicamente, não consigo baixar o site hoje — e descubri uma assimetria marcada entre o vai e o vem dos dados.

O que diferencia Internet de cabo do ADSL é que pode oferecer taxas de transferênias simétricas. Corre 120 por hora até  Santos, Roberto Carlos na volante, e 120 por hora de volta pro São Paulo. Belo sonho, não?

No Optimum Online, por exemplo, em Brooklyn, New York, tanto o envio como a recepção de dados tem taxa confirmada independentemente de 10 MBps.

NET: Quase 8 MB vindo (baixando), mais a décima parte disso indo (enviando dados).

O serviço é tecnicamente inferior e sobrefaturado.

Apanhando e-mail, por exemplo, o cliente tem que ir lá e voltar do servidor com o conteudo. A lentidão da volta faz com que a taxa de transferência líquida fica bem menos do que um serviço simétrico. E transferência por FTP? Esqueça.

Eis nossa liberdade de escolha.

Seguindo a Linha

Vamos levar em mente essa duas considerações enquanto passamos a analisar a linha editorial definida e defendida por Alcântara e Pereira.

O Conselho Editorial do Instituto Millenium define como TEMAS PRIORITÁRIOS

  1. Política
  2. Economia
  3. Conjuntura nacional e internacional
  4. Sociedade
  5. Cidadania
  6. Justiça

Enquanto veículo, o Instituto Millenium se reserva o direito de optar ou não pela publicação de artigos que tratem de temas que não se enquadrem nos temas prioritários supracitados, não estejam de acordo com os nossos valores ou que não respeitem os requisitos abaixo indicados.

Tudo bem, até chegarmos à questão de valores. De gustibus non disputandum, como o culto de Hayek Para Todos Nós costuma dizer quanto quer desconversar.

Obviamente não vou propor uma matéria sobre a cura de carequice ou o constrangimento de brochar à revista Cláudia, nem sobre chás que amenizam a cólica e enxaqueca de TPM à Men’s Health.

Todos os assuntos pautados são assuntos tão abrangentes que são quase vazios.

São glittering generalities — generalidades brilhantes.

Deveria ter espaço para minha colaboração. Quem não defende liberté e fraternité hoje em dia? (Igalité perante a Lei, lá entram os problemas de hermenéutica).

Também deveria haver espaço por tratar-se aqui de um instituto de pesquisa. Sou mestrado e doutourando e compartilho os valores da chamada “reality-based community” de pesquisadores livres das ciências, antroposociociências e humanidades.

Posso fornecer referências.

Além disso, se a obrigação de defender os valores definidos pelo Instituto começa a cheirar de patrulhamento ideológico e juramento de adesão aos artigos da fé, numa primeira leitura, não passam — nominalmente — dos mesmos valores democráticos que eu aprendi na escolha, esboçados nas dez primeiras emendas à Constituição dos Estados Unidos:

Os artigos enviados ao Instituto Millenium devem estar alinhados aos valores defendidos pelo Instituto, como segue:

  1. ESTADO DE DIREITO
  2. LIBERDADES INDIVIDUAIS
  3. RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL
  4. MERITOCRACIA
  5. PROPRIEDADE PRIVADA
  6. DEMOCRACIA REPRESENTATIVA
  7. TRANSPARÊNCIA
  8. EFICIÊNCIA
  9. IGUALDADE PERANTE A LEI

Eu defendo todos o valores enumerados acima, em geral.

Não sou cristão novo desse velho testamento. Sou filho de Tio Sam.

Eu acho a metáfora do “livre mercado de ideias” — levando em consideração os limites de metáforas em geral — uma bela de uma analogia.

Mercados são fascinantes, e realmente representam um mecanismo com o poder de gerar conhecimento e filtrar verdades de inverdades, e fazer juizos de valores quantativos que transcendem a capacidade de qualquer indivíduo. Mercados surgem espontáneamente até em culturas primitivas. Troca-troca na esfera pública parece ser uma função biológica do simio pelado.

São, de fato, belos exemplos do poder da coletividade de indivíduos livres. Mais também padecem de todos os maus aos quais a carne é herdeiro. Pânicos podem ser induzidos. Boataria corre como sangue encarregando uma droga até of cérebro. Mercados rasos, sem massa crítica, podem ser voláteis, como vemos no caso da TELB3.

O diabo nos detalhes, portanto, quase sempre reside em questões hermenéuticas de definição — para não falar dos malabarismos e chavões semânticos pós-modernos que, como eu vivo apontando, nasceram daquele capítulo da Lógica de Hegel, onde ele propõe o princípio da identidade de identidade e não-identidade.”

Eis o momento quando o Aufklarung aproximou o cano da pistola à tempora e puxou o gatilho.

Term certa semelhança entre essa lógica e a lógica da teoria conspiratoria, aliás:

Não há provas do que A
A falta de provas comprova a sonegação de provas
Ergo, A

Mais será que essa lógica também opera aqui?

Os valores do IMIL-Alcântara-Pereira:

… a defesa perene da liberdade de escolha, em todos os seus desdobramentos: liberdade de expressão; liberdade religiosa; liberdade econômica; liberdade de imprensa; liberdade de reunião e assembléia; liberdade de empreender; liberdade de ir e vir; liberdade de contratar; liberdade de pensamento; liberdade política; livre circulação de bens, pessoas e capital.

Meu Direito de Livre Escolha

Nesse jardim de sendeiros multifurcados, vamos optar para seguir o fio de direitos individuais.

Até agora, eu topo.

Mas peço um esclarecimento.

Está em pauta um debate aberto sobre os direitos humanos de pessoas jurídicas?

Nos EUA no momento, uma decisão do STF nesse sentido — que pessoas jurídicas gozem do mesmo direito à liberdade de expressão que pessoas de carne e osso — está gerando a maior polêmica, por exemplo.

Mais polêmica ainda é a controvertida interpretação de transações econômicas — em português simples, doações de dinheiro a partidos políticos e QuaNGOs — como exemplo do que foi cogitado com o direito de “free speech” (liberdade de expressão.)

Já existe o direito de facto de pessoas jurídicas à liberdade de associação, obviamente.

Não estariamos aqui discutindo o Instituto Millenium, um instituto bancado por entidades de classe corporatistas, se não fosse o caso.

Mas se você não consegue enxergar a ironia de um coletivismo pragmático que reza o rosário de uma dogma radicalmente anti-coletivista — o que remete diretamente ao estado corporativista fascista, idealizado como o “aperfeiçõamento” do anarco-sindicalismo — falta-lhe senso de humor.

O Nome-do-Pai: Hayek e “Falso Individualismo”

Mas e o Hayek, o Nome-do-Pai dessa turma neoliberal? (O filho sendo Greenspan, além de Nossa Senhora Ayn Rand a Hagiógrafa.)

Que diria Hayek, fosse vivo ainda, sobre a metamorfose de um individualismo metodológico — assumido como hipótese a ser testado sistemátciamente — para um individualismo dogmático — um cogito ergo neoliberalis sum?

Que pensaria sobre o condicionamento de participação num instituto de pesquisa à adesão aos “valores” desse instituto?

Quando fundou o Institute for Economic Affairs em Londres, e a Sociedade Mont Pelèrin, o nobelisteconomista não quis engajar em relações públicas ou propaganda, segundo SourceWatch:

F. A. Hayek stressed that the society was to be a scholarly community arguing ideas against collectivism while not engaging in public relations or propaganda.

Hayek enfatizou que a organização deveria ser uma comunidade de pesquisadores desenvolvendo argumentos contra o coletivismo e desistindo de participar em relações públicas ou propaganda.

Falta atribuição desse fato, porém, o que não é típico do projeto.

Eu vou pesquisar mais sobre isso.

Ora, eu confesso ser um principiante na leitura de Hayek, economia sendo uma das aulas que mais matei na faculdade. (Só havia palestra as 8:00 da manhã, e na época eu curtia a balada noturna.)

Conheço ele principalmente como o interlocutor de Karl Popper, autor do livro “The Open Society,” inspiração da fundação e rede de institutos de pesquisa de George Soros.

A conversa Popper-Hayek é, sim dúvida, umas dais mais importantes do último século, e continua viva e pertinente.

Já fiz uma bibliografia geral de Hayek e gostaria de começar com uma pergunta que me parece fundmental, sem chegar embrulhado em economiquês gongorístico: Como diferenciar “individualismo falso” de “invidualismo (metodológico) verdadeiro.”

According to Hayek, false individualism postulates the existence of isolated or self-contained individuals whereas the true one starts from men whose whole nature and character is determined by their existence in society. Apart from such form of false individualism as ”constructivist rationalism” described by Hayek there exist various other forms of it, namely irrationalistic false individualism (which can be found in all versions of existentialism) and especially that form of false individualism which is a necessary consequence of post-modernism with its basic creed ANTHROPOS METRON PANTON.

«Segundo Hayek, o falso individualismo postula seres isolados ou auto-suficientes, enquanto o individualismo verdadeiro começa com seres humanos cuja inteira natureza e carácter é determinada pela existência social. Além do falso individualismo descrito por Hayek como “racionalismo contrutivista,” são várias outras formas, como o falso individualismo irracional,  presente em todas as formas de existencialismo, e especialmente aquela forma que decorre do pós-modernismo, com seu credo fundamental, ANTHROPOS METRON AUTON — “o ser humano é a medida de tudo.”»

Fonte: Ján Pavlík: “On Hayekian ‘False Individualism’ and its New Sources.”

A vir: um exemplo de uma capa da Veja illustrando a propaganda continuada promovendo esse tipo de individualismo ilusório — que não passa de um tipo de pensamento mágico.

A Relativação da Responsibilidade Individual

Outro paradoxo que me deixa roendo as unhas: a ética de responsibilidade individual apregoada pelo IMIL.

Nos anos dourados da empresa de energia Enron, o Andy Fastow foi festejado como uma figura nos moldes dos heróis da romancista Ayn Rand.

Mais acabou na cadeia.

É comprovadamente um criminoso común, exaustos todos os recursos. O cara ferrou todo mundo que confiava nele. É um canalha.

(Segundo a Veja, tanto o tesoureiro do PT quanto o promotor que quer responsibiliza-lo como indivíduo pela má-gestão do Bancoop deveriam fazer companhia ao genial de Enron.

Mais haviam executivos de Enron — eu cheguei a entrevistar alguns — que não tinham nada a ver com as falcatruas, pessoas admiráveis, entusiasmadas e íntegras que agora tem que conviver com um currículo manchado por sua passagem pela empresa. )

Em resposta, nosso Congresso baixou a Lei Sarbanes-Oxley, que infelizmente até vocês tupiniquins tem que entender, se tiver ou quiser lançar ADRs no NYSE-Euronext.

Entre as provisões da lei foi a responsibilização dos diretrizes de empresas públicas (quer dizer, com ações vendidas e compradas no mercado) como pessoas físicas pela divulgação de informações completas e precisas sobre o desempenho e saúde financeiro da empresa.

Criou-se o PCAOB — conselho de fiscalização da contabilidade de empresas públicas. (Foi esvaziado pelo Bush.)

É o que chamamos de D&O: deveres e obrigações fiduciárias de diretores e gestores.)

Agora, vamos discutir a justiça ou injustiça dessa legislação do ponte de vista libertário, e na luz da questão se pessoas jurídicas tenham ou não tenham os mesmos direitos que pessoas físicas.

A Batata Quente de Risco

Nesses casos, tanto de Enron como de Bancoop, do ponto de vista da gestão de risco, seria muito melhor se a responsibilidade caisse nos ombros da pessoa jurídica, assim como seria melhor se pessoas jurídicas gozassem dos direitos à liberdade de expressão de pessoas físicas.

Mais tem uma asimmetria ou desequilbrio na distribuição de risco aqui.

Enquanto a responsibilidade individual apresenta um risco aos diretrizes de empresas, com a vigência de SOX, a responsibilidade coletiva difusa também apresenta riscos.

O iG, por exemplo, recentemente foi responsabilizado “solidiiaramente” para afirmações divulgadas no sitio de Luis Nassif.

Portanto, o princípio de responsabilidade individual é uma proposta meio ambígua para empresas de mídia, que buscam sempre minimizar seu próprio risco, passando-o para terceiros. (Consumidores, por exemplo. Ou assessores de imprensa.)

Com esse propósito de livrar-se da batata quente de risco quanto antes, é preferível manter a responsibilidade coletiva no caso de relações com investidores, mais recorrer à responsibilidade individual no caso de conteúdo divulgado ou eventuais delitos praticados no nome da empresa por seus subordinados.

Somos responsáveis, salvo quando seria mais pragmático não ser.

Pergunte ao Google, que já teve executivos responsabilizados pessoalmente por conteúdo criado por terceiros, tal como pornô infantil, e divulgado na sua rede. Ou pergunta ao jornalista defenestrado pelo New York Times pelo desvio de conduto de plágio e mitomania.

Por isso, na prática — e lembramo-nos da “caráter plural e pragmático” dos textos requisitados pelo Conselho Editorial do Instituto — uma relativação radical é visível no discurso de quem defende esse princípio de responsabilidade individual.

Tome, por exemplo, o caso Bancoop. Nesse caso, o fundamento da denúncia presupõe que o tesoureiro do PT seria pessoalmente responsável pela gestão temerária da empresa.

Mainardi e Azevedo também são responsaveis pessoalmente pelo escrito, uma vez que a Editora Abril respeita sua liberade de expressão (e paga suas multas, como Mainardi admitiu uma vez num podcast com El Tio Rey.)

Quanto à meritocracia, é facil demais apontar o absurdo do que a eugenia explicaria a posição ocupada hoje por Civita ibn Civita, e Frias ibn Frias, e Magalhães ibn Magalhaẽs (ibn Magalhẽs), e Marinho ibn Marinho, e Constantino ibn Constantino, e Maia ibn Maia, e Borhausen Bornhausenovsky, e Neves Nevesovich das Neves, e até Covas ben Covas  …

(Um exceção, justiça seja feita, é o Serra. Talvez é por isso que eu mantenho certa simpatia pro careca em chefe do Estado. Eu também — ou no caso de Serra assim reza a lenda — era bolsista solitário, fazendo bicos para bancar as despesas pessoais, enquanto os ibns dos ibns– uma colega de faculdade foi filha de uma alta autoridade nos governos Reagan, (abu) Bush e (ibn) Bush — livres e soltos e sem maiores preocupações. E sempre serei. Isso marca uma pessoa para sempre.)

Quanto à transparência, basta olhar a página contando o histórico do Instituto:

Aqui entra o conteúdo

É como aquelas mapas antigas que rezam, sobre zonas desconhecidas: hic sunt dracones.

E a prestação de contas ao Fisco?

Dá para eu baixar?

O Efeito Kassab-Kassabinho

Aforismos baratos e uma nova piada pronta para fechar esse texto; meu tempo está quase esgotado.

Me parece que nessa guinada no sentido contrário ao projeto original do Institute of Economic Research, abandonando o processo progressivo e sempre aberto de pesquisa  para construir redes de redes de propaganda promovendo chavões mortos e piadas prontas — contando com os conselhos de empresas de relações públicas altamente comprometidas ideologicamente — observe-se um fenómeno común aos movimentos neoliberais e neoconservadores.

Eu vou chamá-lo, para agradecer leitores paulistanos, do “efeito Kassab-Kassabinho.”

Kassab and L'il Kassab, 2006 mayoral campaign

Do Efeito Kassab-Kassabinho

Kassab é o prefeito da cidade.

Kassabinho foi uma boneca inflável representando uma cariacatura do prefeito-candidato.

Meu palpite é que muitos de vocês votaram no Kassabinho.

Foi um golpe de mestre do publicitário da campanha. Kassab o homem e político: complicado, no mínimo, como somos todos nós. Tem mostrado qualidades pessoais desagradáveis a algumas pessoas no passado.

Kassabinho o desenho inflável, apesar de oco, em compensação é simplificado e fofo.

Assim foi que Leo Strauss, o pai do movimento neoconservador, simplificou a obra de Platão, tirando dos textos platónicos sua ironia dramática.

Trata como monólogo, como doutrina e sistema metafísico, por exemplo, o grande discurso sobre o filósofo-rei na República (originalmente Πολιτεία). Mais tem várias vozes discutindo a natureza do bem común e a justiça no texto. O texto é polifónico.

Ainda assim, é comun ouvir dos comentaristas que “Platão argumenta ..”  que isso ou aquilo.

Harold Bloom tem escrito muito sobre esse e parecidos momentos de exclusão ou omissão — o que ele chama de “creative misprision” — malentendimento criativo — mais no meu parecer tem que ser diferenciado cuidadosamente de Humpty Dumptyismo.

Depois eu explico.

Agora com o filme Alice nos cinemas, talvez teremos a referência cultural em común.

Fazendo, do projeto aberto de continuar as pesquisas de Hayek, uma coletânea de dogmas, e polarizando o diálogo Hayek-Popper no boço narativo de uma Guerra Fria que já acabou faz décadas, apesar dos dois pensadores partirem de algumas das mesmas premissas fundamentais, e outro exemplo do efeito Kassab-Kassabinho.

O maior exemplo desse efeito, talvez, é a reificação de mercados, plural, na sua variedade antropológica — o objeto do crescente campo de estudos conhecido como economia experimental, ou antropologia economica — na forma platónica de O Mercado, com M Maiúsculo.

O efeito Kassab-Kassabinho também marca essa farsa de um “instituto de pesquisa” que não aceita ideias contrárias aos seus supostos “valores.”

Uma farça que, no lugar da rede de pesquisadores livres que apresenta, é uma hierarquia rígida de financeiros e os torneiros simbólicos que labutam na fábrica de argumentos deles, produzindo factóides e sofismas — ou até fatos e raciocínios válidos, não importa qual — para sustentar objetivos “pragmáticos” preconcebidos.

A Máxima Veloso

Cabe lembrar aqui a reformulação do imperativo categórico de Kant por C.S. Peirce.

Kant, segundo Wikitupídia:

“Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza.”

Esta é uma péssima tradução.

Um pouco melhor seria: “Só age segundo aquelas regras gerais que você aceitaria voluntariamente como regras universais.”

(Isso serviria depois como base da ficção metodológica da Venda da Ignorância e a Posição Original na teoria de justiça de John Rawls.)

É muito parecido à pregação de Mateus 7.12, como Peirce observou nos anos 1860:

“Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas.”

Aqui entramos no labirínto da Dilema do Prisioneiro — a melhor solução do qual é, em fim [põe nota], tratar o oponente como você gostaria que ele tratasse você, até sem reciprocidade imediata.

Para Peirce, então, a única máxima capaz de satisfazer essa condição seria uma negativa:

Não queira colocar impedimentos no caminho da pesquisa livre.

Ou, como disse o poeta:

É proibido proibir

E o contrário do qual seria

Faça como eu digo, não como eu faço

ou

Para nossos amigos, tudo; par nossos inimigos, a Lei

ou

… os artigos enviados ao Instituto Millenium devem estar alinhados aos valores defendidos pelo Instituto …

Que valores?

Com isso, estou falando agora de contabilidade e não de metafísica.

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