“Rio-Sampa é o Iraque Brasileiro”?

Padrão

ERRAMOS: Não é verdade, como relatamos aqui, que o Harris Interactive (NYSE:HPOL) faz parte do Harris Corporation (NYSE:HRS). É verdade, no entanto, que o HRS tem subsidiário brasileiro e contratos relacionados com HDTV no Brasil, e que recebeu $5 bilhões do governo dos EUA no ano passado. Vou corrigir e ampliar quando der tempo.

Fui lembrado ultimamente de um vídeo amador hilariante feito por cadetes da academia da Aeronáutica e postado no YouTube. Foi o vídeo de uma música chamada “Pirassununga é o Iraque brasileiro.”

“A bandeira fica de quase o mesmo jeito … tem militar em todo lugar ..”

Continuo atravessando as redes dentro de redes no qual se encaixa o Instituto Millenium, a controvertida OSCIP-ONG reunindo empresas e entidades de classe da grande mídia do Brazil, e patrociniado indiretamente em parte pela rede RELIAL, la Rede Liberal de la América Latina — fachada dos lobbies da K Street estadounidense.

Essa última rede tem como afiliados pelos menos sete partidos políticos autodenominados de liberais, entre eles o DEM-PFL do Brasil.

Financiamento vem direto da Atlas Economic Research Center de Washington, um granaduto para lobbies barra-pesadas (petróleo, tabaco) e fundações da extrema direita norteamericana, abastecidas em torno por grandes empresas nacionais e multinacionais.

Tem um novo fio a ser puxado agora.

Lembre-se de que a Atlas contratou o WirthlinWorldwide, consultoria de relações públicas fundada pelo principal estrategista do Presidente Ronald Reagan entre 1968 e 1988.

A Wirthlin foi vendida nos últimos anos para a agência Harris Interactive, divisão de pesquisas mercadológicas da Harris Corporation (NYSE:HRS) — grande empreiteira do Departamento de Defesa e agências de informações dos EUA.

Inverdade. Harris Corporation não tem nada a ver, embora como vendedor de equipamentos à industria de telecomunicações, têm interesses próprios no Brasil.

Harris Interactive, entretanto, consta como fornecedor de propaganda (“advertising”) do governo dos EUA entre 2003-2009.

Em 2004, a Harris anunciou um contrato de $98 milhões para tocar o Iraqi Media Network para o Coalition Provisional Authority, junta militar que substituiu o governo de Iraque ba’atista após a invasão e conquista de 2003.

Uma reportagem do In These Times conta parte da história dessa rede de comunicações sociais. A tradução mambembe é minha.

Um estudo divulgado pelo Centro por Estudos de Comunicações Globais da Universidade de Pennsylvania em 2007 descobriu que Science Applications International Corp. (SAIC), empreiteira do Departamento de Defesa de longa data, recebeu un contrato preliminar de $80 milhões para transformar um sistema de mídia estatal num serviço de notícias estilo BBC dentro de um ano — parcialmente para combater a influência da rede Al-Jazeera na região.

Fiscalizando a SAIC foi um gabinete dentro do DOD especializado um operações de guerra psicológica, e muitos acreditam que o fato contribuiu a percepção entre iraquianos do que a Iraq Media Network (IMN) não passava de uma testa-de-ferro da Coalition Provisional Authority,” o governo militar interino, segundo o relatório de USIP. “O desempenho da SAIC no Iraque foi considerado custoso, amador, e um fracasso quanto à isenção e independência jornalística da IMN.” SAIC acabou perdeno o contrato a outra empresa — Harris Corp.

Nós gringos temos saudades da época quando a Voice of America abalou o mundo comunista com reportagens corretas e isentas sobre a corrupção e queda de Nixon.

Imagine o Pravda fazendo igual!

SAIC não foi a única empreiteira do Pentágono que falhou maciçamente. Numa reportagem de USA Today assinada por Peter Eisler, o site noticioso Mawtani.com foi exposto como um veículo de informações financiado pelo Departamento de Defesa.

Eu acho justo, portanto, acrescentar à rede de Atlas e a RELIAL uma empresa ligada estreitamente à prática de infoguerra terceirizada pelas forças armadas e o corpo diplomático dos EUA.

Não se sustenta.

Agora, portanto, eu vou mudar meu foco para Harris Interactive (NYSE:HPOL), sobre a qual constará mais documentação, pelo menos, uma vez que trata-se de uma corporação pública. Vamos mergulhar nos bases de dados da SEC, a CVM gringa.

Entretanto, a matéria do In These Times, começa a esboçar um pouco do histórico e estrutura de programas bancadas pelo contribuinte que buscam influenciar jornalistas e veículos estrangeiros.

Jeremy Bigwood escreve:

Campanhas governamentais de propaganda doméstica como o caso dos “Peritos do Pentágono” já foram desmascaradas e denunciadas. Naquele caso, veículos da mídia corporativa contratou oficiais militares aposentados de alto patente para fornecer comentário sobre a guerra no Iraque.Foi descoberto que esses oficiais tinham ligações com empreiteiras com interesse direto na continuação da guerra.

Na moita, outro escândalo jornalístico desse tipo está por aparecer: O governo dos EUA está financiando veiculos e jornalistas estrangeiros na clandestinidade. Agências governamentais– entre elas os o Departamento de Estado, o Departamento de Defesa, a Agência Para Desenvolvimento Internacional dos EUA (USAID), o National Endowment for Democracy (NED), o Broadcasting Board of Governors (BBG) e o Institute for Peace (USIP) — apoiam “desenvolvimento de mídia” em mais de 70 paises. In These Times descubriu que esses programa incluem o financiamento de centenas de ONGs estrangeiras, jornalistas, formuladores de política pública, entidades de classe de jornalistas, veículos de mídia, institutos de treinamento e faculdades de jornalismo. O tamanho dessas doações vai de poucos milhares até milhões de dólares

“O fundamental é que estamos ensinando a mecânica de jornalismo, seja imprensa, televisão ou rádio,” disse o porta voz da USAID, Paul Koscak. “Como preparar uma reportagem, como escrever com equilibrio … tudo que você esperaria de uma reportagem profissional a ser publicada.”

Mais alguns, especialmente fora dos EUA, enxerga esse projeto de outro jeito.

“Nos achamos que a questão verdadeira aqui é os objetivos políticos atrás desses programas,” disse um diplomata Venezuelano de alto patente, que pediu não ser identificado. “Quando o objetivo e mudança de regime, esses programas revelaram-se instrumentos da desestabilização de governos eleitos democraticamente que os EUA não apoiam.”

Isabel MacDonald, diretora de comunicações do Fairness and Accuracy in Reporting (FAIR), observatório de mídia sem fins lucrativos em Nova York, também critica. “Esse sistema, apesar do apego professado às normas de isenção, tem trabalhado frequentemente contra a verdadeira democracia,” disse ela, “sufocando dissidência e ajudando o governo dos EUA espalhar desinformação amena aos objetivos da política externa do governo.”

Mostra-me a agência

Medir o tamanho e a abrangência do desenvolvimento de mídias ditas independentes é dificil, porque tais programas existem sob rubricas divergentes. Algumas agências consideram “desenvolvimento de mídia” um campo de atuação distinto, enquanto outras o categoriza sob “diplomacia pública” our “operações psicológicas.” O fato dificulta o cálculo de quanto dinheiro vai para esses programas.

Em dezembro de 2007, o Center for International Media Assistance (CIMA) — financiado pelo Departamento de Estado e administrado pelo National Endowment for Democracy (NED) — divulgou que em 2006, USAID distribuiu $53 million para desenvolvimento da mídia estrangeira. Segundo o estudo do CIMA, o Departamento de Estado gastou uns $15 milhões nesses programas. O orçamento do NED para projetos de mídia foi $11 milhões. E o nanico Instituto pela Paz em Washington, D.C. pode ter contribuido até $1.4 million mais, segundo o relatório, que não levou em conta gastos da Defesa ou da CIA com mídia no estrangeiro.

O financiamento pelo governo dos EUA é de longe o maior fonte de patrocínio para desenvolvimento de mídia no mundo, doando $82 milhões em 2006 — sem contar dinheiro da Defesa, da CIA ou de embaixadas em paises recipientes de apoio.

Complicando o quadro é que muitas ONGS e jornalistas recebem dinheiro de mais de uma fonte governamental. Alguns recebem dinheiro de vários empreiteiras e “ONGs independentes internacionais,” enquanto outros recebem diretamente da embaixada americana do seu pais.

Três jornalistas que recebem financiamento desse tipo do governo americano informou a In These Times que presentes desse tipo não afetam seu comportamento ou mudam suas reportagens. Negam a prática de auto-censura. Nenhum, porém, afirmaria isso para publicação com identificação de e atribuição à fonte

Gustavo Guzmán, antigo jornalista e hoje embaixador de Bolivia aos EUA, diz, “Jornalista que recebe presentes desse tipo não é mais jornalista. Vira mercenário.”

Historia labiríntica

O financiamento pelo governo dos EUA de mídia estrangeira tem um longa historia. No meio dos anos 1970, na esteira do escândalo Watergate, duas CPIs– as comissões Church e Pike, presidida pelo Sen. Frank Church (D-Idaho) e o Rep. Otis Pike (D-N.Y.) — fizeram uma devassa nas atividades clandestinas em outros paises. Confirmaram que, além de jornalistas, tanto domésticos quanto estrangeiros, financiados pela CIA, o governo também subsidiava imprensa, rádios e televisões — algo que a URSS também fazia. Por exemplo, a revista literária anti-comunista Encounter, vendida na Inglaterra entre 1953 e1990, revelou-se ser uma operação da CIA em 1967. E assim como acontece hoje, organizações aparentemente benévolas, como o Congresso pela Liberdade Cultural, também eram fachadas da CIA.

As CPIs descobriram que financiamento clandestino da mídia estrangeira com frequencia jogou um papel decisivo, especialmente no Chile no começo dos anos 1970.

“A maior operação de propaganda da CIA, conduzida nas páginas do jornal oposicionista El Mercurio, contribui diretamente ao golpe sangrento contra o governo Allende e democracia chilena,” diz Peter Kornbluh, analista chefe do National Security Archive, instituto independente de pesquisa não governamental.

In These Times perguntou se a CIA ainda financie jornalistas estrangeiros. O da CIA, Paul Gimigliano, respondeu, “A CIA, como pratica costumeira, não afirma ou nega tais alegações publicamente.”

Inimigos do (Departamento do) Estado?

Dia 19 de agosto de 2002, a embaixada. dos EUA em Caracas, Venezuela, mandou uma telegrama para Washington. Leu-se:

“Esperamos que a participação do Sr. Lacaio como recipiente de apoio financeiro será refletida nas suas reportagens sobre assuntos políticos e internacionais. Enquanto avança na sua carreira, nossos laços melhorados com ele podem produzir um amigo com influência editorial.” [Nota do redator: O nome do Sr. Lacaio foi mudado para proteger a sua identidade.]

O Departamento de Estado (DOS) escolheu o jornalista para uma visita aos EUA como parte de um programa conhecido de “Bolsa IV”– programa de intercâmbio que começou em 1961. No ano passado, o DOS trouxe 467 jornalistas aos EUA, gastando uns $10 milhões, segundo uma autoridade do Departamento de Estado que pediu anonimato.

MacDonald, de FAIR, diz que “as visitas servem para construir laços com os jornalistas visitantes e com instituições que são extremamente amigáveis à política. externa do pais e os interesses corporativos que serve.”

O DOS financia o desenvolvimento de mídia por meio de várias gabinetes internos, como o Bureau of Educational and Cultural Affairs, o Bureau of Intelligence and Research (INR), e o Bureau of Democracy, Human Rights, and Labor (DRL), assim como burôs regionais e embaixadas no mundo inteiro. Também financia jornalistas estrangeiros pela secção de diplomacia pública e relações públicas (Office of Public Diplomacy and Public Affairs.) O mais importante é que o DOS costuma decidir onde outras agências, como a USAID e o NED, deveriam investir seus orçamentos de apoio à mídia.

(O departamento não respondeu a nossas pedidas de informação sobre seu orçamento de desenvolvimento de mída, mais o estudo do CIMA de 2007 CIMA mostra que o DRL, por exemplo, recebeu quase $12 milhões por tais projetos em 2006.)

O caso de Bolivia é um exemplo revelador de um pais no qual os EUA vem financiando a mídia. d a página de Internet do DRL, patrocinou 15 congressos sobre liberdade de imprensa e expressão em 2006. “Os jornalistas e estudantes de jornalismo do pais discutiam ética, boas práticas de reportagem, e o papel da mídia numa democracia,” segundo o DRL. “Esse programas foram enviados a 200 rádios em áreas remotas do país.”

Em 2006, Bolivia elegeu Evo Morales, o primeiro presidente indígeno do país, a emergência do qual o governo americano e a mídia corporativa de Bolivia já tentaram várias vezes impedir. Morales e seus apoiadores argumentam que o governo americano esteja por trás do movimento separatista nas províncias do leste, com seus ricas jazidas de gás natural, e alegam que reuniões com a mídia formam parte desse projeto, segundo jornalista e antigo porta voz presidencial Alex Contreras. Koscak da USAID nega a denúncia.

Anúncios