Atlas Deu De Ombros: A Evangélica Liberal

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Acrescento agora mais informações pertinentes a minha análise — corrijo: ao meu análise — da rede social do Atlas Economic Research Foundations (Atlas Deu de Ombros « O Bicho Preguiça).

Lembre-se de que a Rede Atlas apoia a rede interamericana RELIAL, de vários dos institutos de pesquisa do qual o diretor-executivo, Alejandro Chafuen, é fundador-fiduciário ou simples fiduciário.

Eu mantenho que a fundação canaliza dinheiro a institutos de pesquisa ligadas com partidos da extrema direita — inclusive o DEM-PFL do Brasil.

Essa nova conexão, no entanto, é interessante por nos levar no sentido contrário: a o que passa pela oposição da política religiosa-direitista.

Trata-se da coordenadora de alianças da Rede Atlas em 2008, Colleen Dyble, autora do livro Taming Leviathan:Waging the War of Economic Ideas Around The World (Domando o Leviatã: A Guerra de Ideias Econômicas No Mundo Inteiro.)

Meu primeiro pensamento: Seria interessante ler esse livro ao lado de O Ex-Leviatã Brasileiro, de Wanderley Guilherme dos Santos, um dos escritores mais esclarecedores no Brasil para meus estudos. Aprendi muito com a leitura (penosa!) dele.

Meu segundo pensamento: A metáfora de guerra mundial é compartilhada com os neoconservadores, apesar das ligações dessa mulher com igrejas considerados “liberais” no sentido norteamericano: progressista, anti-pobreza, promotores de justiça social — aquelas igrejas tachadas de inspiradas pelo nazismo pelo Reinaldo Azevedo gringo, Glenn Beck.

Eu mesmo sou anglicano, por batismo, e tendo a enxergar a congregação como progressista e socialmente “liberal.”

A última igreja que eu frequentava, de fato — no charmoso e pacato Dobbs Ferry, New York — tinha um sacerdote gay.

Só que naquele mesmo tempo — ca. 1997 — aconteceu a primeira racha dentro da confissão sobre exatamente esse assunto, com uma secessão de igrejas da comunhão por descordarem com a ordenação de sacerdotes gay.

MeU terceiro pensamento, olhando as atividades dessa senhora fora da Atlas — em cujas declarações ao Fisco de 2008 ela não consta — é o provérbio infernal do poeta William Blake:

Extremes meet

Consta até no meu dicionário inglês-português da Editora Porto:

Os extremos tocam-se

Ou a doutrina de Hegel sobre a “identidade de identidade e não-identidade.”

Primeiro, a mulher é bolsista da empresa de direito privado Five Talents, trabalhando com um fundo religioso “ecuménico” que faz microempréstimos no Perú.

Isso me induz a pensar imediatamente no trabalho de Hernando de Soto, do Instituto de Libertad y Democracia.

Li esse livro com grande interesse quando foi lançado. Foi frequente ouvir do candidato Bloomberg, dono do império midiático Bloomberg LLC e hoje prefeito de Nova York no terceiro mandato — citar Soto como inspiração das políticas públicas dele na combate à pobreza.

Só que a atuação política de De Soto em anos recentes tem levantada sérias dúvidas quanto à coerência de teoria e prática.

Além da assessoria económica que de Soto prestava ao Fujimori e fujimorismo, cabe anotar a participação dele no Instituto Cato — dono do site OrdemLivre.org, que hospeda os pensamentos livres do conselheiro fiscal do Instituto Millenium, Odemiro (Omério «Simpson», na verdade? Me escqueci) Fonseca.

E cabe lembrar a missão essencial do Cato Institue: fornecer analistas “independentes” que, com a decadência do correspondente estrangeiro independente, estão chegando a dominar a pauta internacional da mídia corporativa nos EUA, substituindo o jornalista como «guardião do portal».

De Soto recebeu o Prêmio Milton Friedman do Instituto em 2004. Do release sobre o prêmio:

From his Peruvian roots, de Soto now can be seen traveling throughout the world, meeting with current and future heads of state. President Vicente Fox of Mexico sought out de Soto for help when he was the governor of the state of Guanajuato, and today de Soto is working with the Fox administration on property rights reform. Egyptian president Hosni Mubarak’s son, Gamal, approached de Soto and today a property rights program is about to be implemented in Egypt. Both Philippine presidents Joseph Estrada and Gloria Arroyo have invited de Soto to help. The New York Timesr eports that African presidents are faxing him.

Para curtar o relato, ele foi procurado pelo goveno PAN de Vicente Fox em México e pelos governos Arroyo e Estrada nas Filipinas, além do ditador vitalício de Egito, Mubarak. Governos africanos — não consta quais — mandam fax.

Na biografía do economista na Wikipédia (inglês), tem um aviso: “Um autor principal desse artigo parece ter ligações estreitas com o biografado.” É uma violação do princípio de “ponto de vista neutro” — aplicado muito seletivamente.

Trata-se do famoso auto-hagiografia por procuração.

Tarefa de casa: Confira as biografias de de Soto na Wikipédia tupifalante e castellanohablante. Tem o mesmo aviso? O conteúdo dos artigos é parecido?

Em inglês, por exemplo, aparece que de Soto assessora o governo de Hamid Karzai em Afeganistão — conhecido ironicamente como “a prefeitura de Kabul.”

Alianças, Contabilizadas ou Não

Mais vamos tratar disso em mais detalhe depois.

Na rede social de nossa coordenadora de alianças — alianças, aliás, não-contabilizadas, que nem a coordenadora — achamos uma bolsa provindo de uma empresa com uma caixa postal num vilarejo de Virginia, patrocinador de um fundo que financia o treinamento de novas lideranças evangélicas-ecumênicas.

Donde veio o dinheiro? Não consta, embora o sitio da empresa pede doações de pessoas físicas. Mas que sustentam-se as atividades da empresa por meio de doações de indivíduos, duvido.

O PBS, TV pública gringa, com orçamentos cortados ao osso durante os anos Bush, não consegue, e na mesma medida tem crescido visívelmente o poder dos doadores corporativos sobre o conteúdo do noticiário da rede, The MacNeill-Lehrer News Hour.

Visívelmente e descaradamente.

Em tempo: Não, ela realmente não consta entre os diretores e funcionários da fundação Atlas em 2008.

Do mesmo jeito, sua associação com a Rede Atlas não consta no release sobre a premiação dela com a bolsa de Five Talents.

Mais consta em vários outro lugares visitados pelo robô de Google — inclusive no anúncio da participação de uma integrante do Instituto Federalista Brsasil — uma página que eu fui obrigado a recuperar do cache de Google, não sendo mais disponível no URL indicado — no livro editada por Colleen.

Trata-se da contribuição da “federalista” Margaret Tse ao livro recém-lançado pela Sra. Dyble, Domando o Leviatã:

Conteúdo: 1. “Introdução” por Colleen Dyble, Atlas Economic Research Foundation (EUA).

Eu sempre tinha a suspeita de uma influência direta da Federalist Society dos EUA — da qual cinco ministros de nosso STF são integantes — no Brasil.

O compartamento de Ministro Gilmar Mendes faria sentido perfeito na luz dessa influência. Ele é o Antonin Scalia — dito um integrante do Opus Dei, embora nega — do Brasil.

A empresa dono dos servidores que hospedam os sites if.org.br e federalista.org.br é um escritório de propriedades, Komarca, cujo proprietário é o responsável e cadastrante dos .orgs.

Margaret Tse — no Twitter, com uma foto dela deitada na rede, parece uma moça legal, que nem a gente — integra o conselho consultativo do IF Brasil e também associa-se no Facebook com o Instituto Liberdade, anunciando, em inglês, o concurso de ensaio Friederich Hayek 2010, da Sociedade Mont Pèlerin:

Topic: Examine whether authoritarian capitalism is a viable alternative to its Western liberal version, to promote long term economic growth and development. … More information at Instituto Liberdade.

Questão: Se o capitalismo autoritário seja uma alternativa viável ao modelo liberal ocidental para promover crescimento e desenvolvimento no longo prazo

Bela de uma pergunta.

Primeiro pensamento: o milagre econômico dos generais-presidentes do Brasil.

Eu cito as palavras do sábio Elio Gaspari, se só para mostrar que nem todo ser considerado livre-pensante e independente por mim idoliza o Lula:

O Milagre Brasileiro e os Anos de Chumbo foram simultâneos. Ambos reais, co-existiam negando-se. Passados mais de trinta anos, continuam negando-se. Quem acha que houve um, não acredita (ou não gosta de admitir) que houve o outro.

Eu me lembro de ler sobre essas maravilhas todas nas páginas da revista National Geographic, uma assinatura a qual eu sempre ganhei de presente de Natal.

Décadas depois, me casaria com a filha de um advogado bossanovista-tropicalista que fez os contratos para as turbinas de Itaipu.

Capitalismo sem Democracia

Parece que Paulo Uebel — “advogado e associado do IEE,” sem mencionar ele ser presidente do Instituto Millenium e passado presidente do IEE,no perfil dele na revista Leader — diria que sim, capitalismo sem democracia seria mais eficiente.

E só olhar Dubai, Singapura — cidades-estados menores que a cidade de São Paulo. Muito menores. (São Belo Horizontes globais, digamos.)

De tudo o que foi exposto, é importante ressaltar que a democracia não é absoluta. Como todos os regimes e sistemas, ela possui falhas e está sujeita a graves distorções. Dessa forma, em que pese ainda não exista um sistema melhor para gerar prosperidade e desenvolvimento humano, isso não significa que se tenha de aceitar todas as decisões democráticas como legítimas.

Uai.

Se isso não seja discurso golpista, mostre-me o discurso que realmente é.

Mas lembre-se, já assisti os discursos de ACM no plenário do Senado.

Ele, ou mais provávelmente Neto, divulgou e arquivou tudo no YouTube.

As minorias perseguidas nesse caso seriam os grandes concentradores de patrimônio e renda — uma concentração que representa a pior ameaça a democracia que há, segundo muitos economistas longe de serem marxistas.

Em vez de “um homem, um voto,” um dólar em Miami, um voto.”

Em fim: Anota-se também que a Colleen é fã no Facebook da Atlas Economic Research Foundation, Five Talents International, e o Institute for Liberal Studies.

(A foto no perfil dela no Facebook tem a ver: uma manada de lhamas sendo tocada por um pastor — lhamadeiro? — que só aparece em parte, com a cara escondida. A mão invísivel-santo do maiúsculo Mercado, não duvido.)

Pedi amizade dela, externando, com toda sinceridade, o desejo de discutir as ideias e prática de Hernando de Soto.

E se ainda coube dúvidas sobre as ligações entre todos esses focos de organização, o último tuite da Srta. Tse:

I`m a speaker @ Cádiz; seminar organized by Friedrich Naumann Found/RELIAL/Liberal Intl. “Liberal Econ Policies combating Poverty” 03/20/10

“Sou palestrante em Cádiz: Um seminãrio organizado pela fundação Friederich Naumann, RELIAL e Liberal International: ”Políticas liberais combatendo a pobreza.”

RELIAL e Friederich Naumann sendo patrocinadores do encontro histórico do Instituto Millenium.

Portanto, não queira chegar com conversa de teorias conspiratórias.

Essas redes são públicas, embutidas nas grandes redes sociais gerais, bem dentro de nosso alcance.

É só a gente procurar, e, acima de tudo, cruzar os dados.

Não fique no primeiro resultado de Google.

Há grande probabilidade que quem vier primeiro pagou para vir.

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