C. Brayton, Bandeirante da Soka Gakkai

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“A grandiosa Revolução Humana de uma única pessoa irá um dia impulsionar a mudança total do destino de um país e além disso, será capaz de transformar o destino de toda a humanidade.”

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,

Vivo e desnudo.

Ô, C. Brayton, nesses estudos informais sobre a rede social do Instituto Millenium, porque tamanha interesse em divulgar os laços entre o Instituto e a direita religiosa?

E por quê esse juizo de valores negativo sobre esses ligações tanto institucionais quanto informais?

Já expliquei que como contribuinte dos EUA, eu não concordo com o uso de dinheiro público para ingerências na política interna de democracias soberanas. Não trata-se de uma posição esquerdista, note-se.

Está formando um consenso de libertários de esquerda e direita nos EUA sobre esse ponto. Por exemplo, eu tenho um correspondente, colaborador da revista Counterpunch, que era secretário-adjunto de alguma coisa importante — a Fazenda, se me lembre direto — no governo Reagan.

Agora, ele acha o Bush Filho um traidor ao movimento conservador.

Por quê? Porque paleoconservadores se opunham a política externa de Clinton exatamente por causa da aventura na antiga Iugoslâvia. Meu correspondente chama isso de nation-building  — a re-enghenharia de estados nacionais — e liga esse tipo do projeto ao partido de Roosevelt após a Segunda Guerra, ao Plano Marshall, a Bretton Woods — ao pecado original dos Democratas e a Nova Cartada-Novo Contrato (New Deal).

Lembra-nos de que a plataforma do Bush Filho incluía uma promessa solene de revertir essa tendência, nos moldes de Reagan — cujos homens fizeram a engenharia do novo El Salvador, achando que ninguém ia saber — além de uma promessa de enxugar a estrutura do Estado e diminuir o cargo tributário.

Esse doutrina conservadora não tem nada de maluca, em princípio. É plausível. Vale a pena debaté-la. Mais o quê deu? Uma nova e maçica e redundante burocracia, Homeland Security, e a invasão de Iraque. E um aumento dos impostos da classe média!

Como conseguiram esconder essa incoerência ideológica total?

Com fortes apelos à emoção religiosa e a manipulação de um corrente apocalíptico-revolucionário histórico na vida religiosa do país. Em português simples: desconversaram contado fábulas dos Irmãos Grimm..

Os exemplos mais notaveis dessa tendência talvez seriam o Unification Church do koreano Sun Myung Moon — tido pelo Messías pelos seguidores — e o Opus Dei.

Os dois tem em común uma forte militância de infiltração e pautação de mídias. A igreja de Moon, por exemplo, é dono do Washington Times, que já perdeu um bilhão de dolares mais continua na ativa.

(Recentemente o Times criticou duramente o Opus Dei por pretender premiar uma jornalista da rede pública que é assumidamentr “pró-escolha” — em favor do direito ao aborto.)

O Opus Dei, como já apontei, tem forte atuação internacional por meio da consultoria Innovation Internacional, com laços diretos e concretos às oligopolias midiáticas brasileiras — Globo, Abril, FSP-UOL, Agência Estado.

Meus Motivos Subjacentes

Mas se insistam em saber de motivos pessoais subjacentes, tenho, sim.

Vou te contar.

Sem nenhuma referência a Gramsci.

Não é de hoje a estratégia de arreiar o fanaticismo de uma seita religiosa para fins pragmáticos políticos.

Meu pai, por exemplo, era adepto do Nichiren Shoshu.

Logo após o fim da Segunda Guerra, o educador japonês, Josei Toda — herdeiro do educador Tsunesaburo Makiguchi, oponente férreo do governo militar durante a guerra e adepto de uma seita budista pequena e escura que seguia a doutrina de um santo medieval, Nichiren — tomou conta da associação láica fundada por Makiguchi, o Soka Gakkai, ou “sociedade de criação de valores.”

O site oficial do fundador dessa síntese politíca-religiosa explicita as pretensões políticas dele, mais com certo revisionismo:

Keenly aware of the realities of the political world, Toda thought long and hard about the question of whether the Soka Gakkai should become directly involved in politics. He knew that any such involvement would invite baseless criticism and speculation, that it could be misrepresented as an attempt by the Soka Gakkai to establish Nichiren Shoshu as a state religion or to somehow seize power. Nevertheless, in the end, in view of the deplorable state of Japanese politics, Toda decided it was necessary to nurture politicians from within the Soka Gakkai who would work in the realm of politics to represent the interests of the common people.

Quer dizer que apesar do seu receio — temendo acusações espúrias de opositores de uma tentativa de estabelecer o budismo Nicheren como religião de estado — Toda não podia deixar os interesses políticos do povo común ficar sem representação no parlamento corrupto da época.

Dessa associação da sociedade civil nasceria vários partidos da extrema direita que ainda hoje tem representação significante no parlamento de Japão, entre eles o melhor conhecido, o Komeito.

Pregando o nichirenismo como “o verdadeiro budismo,” enfatizaram a veneração do Dai-Gohonzon — um trecho de uma sutra do Buddha, escrito à mão num pergaminho pelo santo fundador — e a doutrina de nam myoho renge kyo, “a lei mística de causa e efeito por meio de som.”

Nos anos 60, aproveitando o tumulto cultural da época, a seita começou a proselitizar nos Estados Unidos. Meu pai foi um dos primeiros adeptos. Alcançou um crescimento fenomenal, com dízimas indo de volta pro Japão.

A organização láica construiu um templo magnífico, o Sho Hondo, para guardar o relíquio sagrado, o original do Dai-Gonhozon, uma cópia do qual foi distribuido a cada adepto.

No auge do movimento nos Estados Unidos, se produzia um congresso-espetáculo cada ano num centro metropolitano importante, com desfiles enormes e showmícios de uma sofisticação impressionante. O proselitismo veio a enfocar a indústria de entretenimento de Hollwood, para fortalecer o poder de espetáculo da organização. O mais conhecido exemplo disso: a cantora Tina Turner.

(Depois, a Cientologia teria mais sucesso ainda, com a adesão de Tom Cruise e John “Tony Maneiro” Travolta.)

Eu cheguei a participar no mais importante desses congressos, em Seattle, 1972, marcando a primeira vista do presidente da Soka Gakkai, Daisaku Ikeda, então só começando a construir uma fama de estadista global, aos EUA.

Disso, eu falarei logo.

Primeiro, no entanto, é preciso registrar a racha do movimento.

Em [ano?], os sacerdotes da seita excomungaram a organização láica, chamando-a de herética.

E lá começou uma guerra de informações que continua até hoje.

A organização laíca tem uma enorme rede de sites e vehículos impressos dedicados a desmoralização do sacerdócio, chamado de corrupto, luxurioso, materialista, guloso, traidor do “verdadeiro verdadeiro budismo.”

Assim, o Soka Gakkai busca recuperar a autoridade religiosa antigamente fornecida pelo sacerdócio, reclamando-a para si.

São neocalvinistas da velha seita dogmática.

Hoje, é quase impossível fazer uma busca de Google sem receber páginas e páginas de resultados  de uma pléiade de fontes que não passam de fachadas propagandísticas da Soka Gakkai.

(A arte mais estratégica da direita religiosa contemporánea: SEO, o “search engine optimization.” Quer dizer, a otimização dos sites para conseguir uma prioridade mais alta do algoritmo de busca. Para não falar no revisionismo escancarado praticado na Wikipédia.)

Um exemplo aleatório: o release, distribuido pelo PR Newswire, de 2002, sobre um ação de calúnia em que um sacerdote da seita processa o Soka Gakkai:

TOKYO — Following Tokyo High Court chief judge Kazuo Masui’s strong recommendation, on 31 January Nichiren Shoshu withdrew completely its claim accusing Soka Gakkai of libel in the “Seattle Case.” In 1993, Nichiren Shoshu had sued Soka Gakkai for libel regarding coverage of its high priest Nikken Abe’s alleged altercation with prostitutes in Seattle in 1963. In March 2000, the Tokyo District Court found that the incident had indeed taken place as reported, so the Soka Gakkai publications were not libelous. Nichiren Shoshu appealed that decision …

Um juiz julgou a ação improcedente porque o incidente relatado, pelo “tablóide” Shukan Shincho— uma liaison entre o sacerdote e uma garota de programa em Seattle — realmente aconteceu. O sacerdote reclamou de uma armação tosca para desmoralizá-lo. Se mordesse a maçã ou não, não tenho como saber. Altercation seria uma briga, não uma trepada.

O Shukan Shincho também tinha perdido, em 1995, dois processos impetrados pela Soka Gakkai. O jornal noticiou que integrantes da organização láica tivessem feito negócios escusos de especulação imobiliária.

Em outro caso parecido, uma matéria do Shukan Shincho sobre a morte de uma vereadora da cidade Higashi Murayama, Akiyo Asaki.

Na Wikipédia, parece que crentes da seita chegaram a desmoralizar o gênero de revistas shukanshi (週刊誌), ou “revistas semanais”:

As noted by Watanabe and Gamble in the Japan Media Review, the genre is “often described as bizarre blends of various types of U.S. magazines, such as Newsweek, The New Yorker, People, Penthouse, and The National Enquirer.” …Allegations have been made to the effect that Shukanshi’s content is widely controlled by the interests of the LDP of Japan, and their business interests (1). This practice is alleged, in A Public Betrayed to be widespread.

Seria um gênero de revista bizarro, misturando elementos de várias revistas norteamericanas, um gênero inteiro que seria controlado por um partido político, o Partido Liberal Democratico — hegemônico até 2003, quando uma reportagem da revista Time relatou:

Because of its religious ties, which help create an obedient rank and file, the New Komeito has one of the last great vote-gathering machines in Japan. Political analysts estimate that the New Komeito delivers between 20,000 and 30,000 votes in every major constituency (and many elections have been decided by only a few thousand ballots). Some 80% of LDP candidates who received New Komeito endorsement this time around were elected.

“Graças às suas ligações religiosas, o que ajudam a criar uma base obediente, o Novo Partido de Governo Limpo tem uma das últimas máquinas políticas de Japão. Analistas estimam que o partido ganha 20,000 a 30,000 em cada distrito principal, onde muita eleições são decidadas por poucos milhares de votos. Perto de 80% dos candidatos do velho Partido Liberal endossados pelo Komeito ganharam a eleição [contra 55% não endossados].”

Voto de cabresto religioso.

Entendo que em 2005 chegaram ao governo, em aliança com o velho (e quando convenha, corrupto) Partido Liberal Democrático.

(Meio parecido com a hegemonia PSDB-PFL em São Paulo, né? Só que não durou muito.)

(A qualificação caluniosa na matéria de Wikipédia caberia à Veja, com aquela mistura estranha de projeto gráfico de uma revista de qualidade e um jornalismo de tablóide dos piores. Com pauta ditada por partidos neoliberais cheio de seguidores de Ayn Rand.)

Os parentes da mulher incriminou a Soka Gakkai, rejeitando a hipótese oficial de suicidio, e o jornal divulgou as denúncias.

O corte japonês julgou a denuncia caluniosa por falta de provas — segundo fontes da própria Soka Gakkai. Os parentes também entraram com ação pedindo a dissolução da Soka Gakkai.

Mrs. Asaki, a vocal critic of the Soka Gakkai, died from injuries after she fell from a building in the Tokyo suburb of Higashi Murayama on September 1, 1995. Two official inquiries–one conducted by the Tokyo Metropolitan Police Department and the other by the Tokyo District Public Prosecutor’s Office-have since concluded that Mrs. Asaki’s death was a suicide and there is no evidence of any crime.

Finalmente, dos casos mais notórios, o presidente vitalício da Soka Gakkai foi acusado de assédio sexual, o que também gerou um tsunami de propaganda chamando a denúncia de caluniosa.

A Soka Gakkai é fortemente associada com o partido político Novo Komeito — o novo partido de governo limpo.

Minha Vida Como Bandeirante do Verdadeiro Budismo

Quando minha avó morreu em 2003, eu deixei o Brasil e voltei para Los Angeles, lugar onde nasci, e cheguei a receber a visita de um velho amigo e correligionário do meu pai, hoje em dia diretor de uma escola pública.

Ele é entre os adeptos que levaram a sério as denúncias dos sacerdotes, continuando na fé, mas rejeitando a militância política do Soka Gakkai. Sofriam perseguições, me disse.

A visita trouxe muitas lembranças da minha infância e mocidade. Meu pai foi um homem aflito, alcóolatra e sofrendo de um transtorno bipolar que passou muitos anos sem tratamento. Ele acreditava que a fé dele foi a solução, o caminho à paz interna, à derrota dos seus demônios, à autoridade e dignidade moral da qual ele sentia tanta falta.

Me lembro de quando a gente morava numa pequena cidade nas montanhas de Colorado, onde meu pai era mestrando em botania. (Tinha ganho uma bolsa para fazer pesquisas para o Departamento de Defesa em Princeton, mas se ferrou quando comeu a mulher de seu orientador de tése.)

A gente passou todas os fins de semanas viajando pelo estado inteiro num combi, até no inverno polar da Cordilheira Rochosa, fazendo um proselitismo descabido nas praças públicas de Greeley, Fort Collins, Boulder, Black Hawk, Cripple Creek …

Não infrequentemente, a gente enfrentava pregadores de rua evangélicos, sacudindo a Bíblia enquanto meu pai sacudia o livro de gongyo — uma oração que adeptos cantoralava, em japonês, ao gohonzon duas vezes por dia. Bate-bocas ferozes. Vade retro satanases de ambos os lados.

Minha emoção predominante durante esses encontros: constrangimento e medo intenso. (Mais principalmente fome. A gente passava fome naqueles dias.)

Os pregadores, todos vestidos de preto, como Johnny Cash — o herói cultural do meu pai após a heregia de Dylan, trazendo a guitarra elétrica para a velha música folklórica tradicional, em 1966.

(Até hoje, Dylan é meu mestre soberano de poesia, meu Vinicius. Até o disco “evangélico” dele. Escute “Gonna Serve Somebody.” Realmente escute.)

Uma vez que meu pai sumia periódicamente durante toda minha infância e adolescência, porém, eu tinha outras influências religiosas, morando com meus avôs em Pasadena, subúrbio próspero de Los Angeles.

Só para citar um exemplo: Meu talento musical foi descoberto pelo mestre do coro da igreja metodista que frequentavamos. Eu adorava cantar, fui pro coro de adultos, que chegou a ser premiado, e até fui convidado a integrar o famoso coro de meninos de Pasadena. Só que minha voz quebrou naquele mesmo tempo.

Eu sempre achei a igreja acolhedora e amigável, apesar de não entender muito bem os ensinamentos religiosos. Depois, passariamos a frequentar a igreja congregacionalista da cidade — por causa de um preconceito étnico que ainda hoje não entendo muito bem.

Meus avós nasceram em Missouri.

O novo regente da banda do colégio público veio de Oklahoma, estado vizinho, e fez grande questão de buscar destaque na igreja. Mais o pior medo da minha avó era ser confusa com os Okies que veio para California durante a Grande Depressão — que chegaram a ser um grupo altamente demonizado e oprimido.

Leia John Steinbeck, As Uvas da Ira.

Ela e seu marido, porém — um galês de uma familia de fazendeiros de porcos, fato que a família escocesa puro-sangue, com paterfamilias pastor protestante, jamais perdoaria — se formaram na faculdade estadual, meu avô com bolsa de ROTC. Esse programa do governo pagou a faculdade de candidatos pobres en troca de treinamento militar e serviço de oficial de reserva.

(Devido à Depressão, meu avô faria uma carreira militar, muito contra a sua vontade, chegando a invadir Europa  derrubar um avião nazista, capturando a tripulação e levando a pistola Luger do comandante. Aposentou-se coronel de reserva e trabalhava no programa especial para o Pentágono.)

Por isso, e por causas dos conflitos familiares sobre a religião — minha mãe recasou-se com padre anglicâno — eu acabei sendo meio um freelance nessas questões. Continuo sendo.

Mais a pressão vindo do meu pai para seguir a religião dele foi terrível.

Foi assim que com 10 anos de idade eu virei um Junior Pioneer — um bandeirante jovem — da Nichiren Shoshu e a Soka Gakkai.

Cada capítulo regional e local da organização era separado em divisões, cada um com sua própria atividade. Crianças e adolscentes eram jovens bandeirantes, e montava uma banda de música simples, flautinhas e glockenspiel, vestidos de marujos. Os jovens tinha uma banda de metais e sopros tradicional, martelando as marchas patrióticas de Sousa (um Português, aliás.)

As jovens eram porta-estandartes e, como se chama? Malabaristas de bastão? Os homems maduros, meu pai inclusive, formaram bandas de gaita-de-fole, vestindo saias escocesas e fazendo aquele som brabo, cru e emocionante.

Foi assim que chegamos à cidade de Seattle em 1972 para o apoteose do presidente vitalício mundial da Soka Gakkai, Daisaku Ikeda.

A Lei Mística de Causa e Efeito Por Meio do Som

Quero voltar por um momento à prática da religião como eu vivia-a naquela época.

O procedimento foi o seguinte: todos os adeptos do capitulo local — divido em grupos liderados pelo honcho, que meu pai chegou a ser — foram às ruas.

Cada um não voltava sem pelo menos um convidado. A aproximação foi mais ou menos o mesmo em qualquer lugar do país:

“Oi! Tudo bem? Já ouviu falar do gohonzon? Não? Cara, mudou a minha vida! Não soube que só entoando nam myoho renge kyo, todos seus desejos se realizarão?”

Era para impressionar o alvo — o otário, o alma-perdida, ou  qualquer pessoa portando o perfil de anomia e confusão espiritual — com a energia e alegria de quem fazia o prosélito.

Depois, os fieis e os convidados voltaram à casa do honcho, onde tudo mundo estava entoando nam myoho renge kyo repetidamente, ajoelhados perante o gohonzon.

Quando o líder da oração bateu no gongo, acabou a entoação, e o líder virava aos convidados dizendo, “Olhe, que loucura, né? Mais quer saber uma coisa? Mudou a minha vida!” E dos fieis, risos e aplausos.

Era a hora das “experiências.”

Adeptos contavam casos de mudanças milagrosas nas suas vidas.

Não era muito longe do papel de testemunhas nas igrejas da teologia de prosperidade de hoje.

Meu pai sempre contava a mesma história, e eu sempre fiquei constrangido — sabendo que era pura mentira.

Contava como ele, desesperado, não tinha dinheiro para botar gasolina no carro dele, do qual precisava para buscar emprego e poder tomar conta de mim — na época, eu estava no sistema estadual, morando com uma familia negra no gueto de Watts.

Então, dizia ele, ele resolveu testar o poder de nam myoho renge kyo.

Rezava que não acabaria o combustível antes dele conseguir emprego.

Segundo ele, desafiando as leis do universo físico, a carro andava uma semana inteira com o indicador colado a “vazio.”

(O indicador estava com defeito, segundo meu tio-avó, ao qual meu pai vendeu o carro, um Corsair, depois.)

Quando o combustivel finalmente acabou, foi logo em frente de um posto, minutos após ele ganhar novo emprego e liquidar um cheque que ele nem sabia que estava chegando.

Eu conto isso para ilustrar o que, no anos seguintes, eu chegaria a enxergar como o atibuto común de toda tentativa de atrelar a fé religiosa a um projeto político.

A infantilização do crente, ou, se quiser, o pensamento mágico, surgindo de emoções primitivas.

Não é outro o apelo do guru de marketing político Drew Westen, e seus plagiadores brasileiros do Instituto Análise e o Instituto Millenium, e do fundador da consultoria Maranhelli Associados, que prega o evangélio do “cérebro político” no site dele no YouTube.

Insiste no apelo às emoções primitivas.

Cria um ambiente totalizante imbuido por esse apelo, vindo de todas as mídias.

Accesse essas emoções espalhando mensagens que incitam esperanças grandiosas e terror existencial, levando a uma frustração descabida — Cansei! — e de lá a um ódio pré-racional em busca de um bode expiatório — a definição da dinámica de pânico moral.

A lei mística de causa e efeito por meio da entoação da mantra não é outra coisa.

Só isso.

Na faculdade, eu ia estudar a religião comparativa com destaque para budismo para tentar entender melhor essa experiência.

Segundo minha professora, o budismo puro nem religião é, uma vez que o Buddha não era deus e não falava de deuses.

Mais de santos, tem: os boddhisatvas.

Uma doutrina central da seita era que todos os adeptos virariam boddhisatvas da terra — santos puros e esclarecidos e focos da “revolução humana.”

(A música “Boddhisatva” do grupo Steely Dan tem a ver com a doutrina de “boddhisatvas da terra” da seita Nichiren Shoshu, a qual um dos caras aderiu por um tem. Aquele som arrasa, não arrasa?

Mai eu prefiro “Do It Again.”)

Qual então é mesmo o verdadeiro budismo? Não sei? Peguei um gosto permanente para as palestras de Alan Watts no rádio e os koan dos mestres de zen.

P: Qual o som de uma mão batendo palmas? R: O mesmo que o audio do livro Os Pensamentos Resumidos de William Bonner.

Mas budista não virei.

O Apoteose de Daisaku Ikeda

Voltando ao anno mirabilis de 1972, porém — com o eventual vitória de Nixon — eu quis fechar com uma impressão que ainda está muito vívida na minha memória.

Foi o apoteose de Daisaku Ikeda.

Primeiro viajando de Los Angeles para Seattle no ônibus de Greyhound — monopólio de transportes até pior do que o notório São Geraldo.

Na chegada, o desfile pelas ruas principais de Seattle. A banda de metais e sopros tocavam “The Stars and Stripes Forever,” enquanto os gaitas-de-fole bradavam “Scotland the Brave.”

A gente, os jovens bandeirantes, faziamos uma buzinadela da música de Disney, “It’s a Small World (After All).”

Houve contigentes do pais inteiro, inclusive a ex-namorada do meu pai (ele quebrou seu nariz e mandíbula, e portanto o ex-) travestiada de boiadeira e representando o espirito do Velho Faroeste.

Tudo o mais democrático-patriótico-ufanista possível.

Depois, entramos no estádio.

Faz tempo que virou um lugar común comparar comícios de massa com os comícios de Nuremburg nos filmes de Leni Riefenstahl — mais a comparação ainda procede.

Tudo um crescendo engenhosamente orquestrado, levando à aparição do sensei.

E quando apareceu, tudo mundo, com abandadores japoneses embaixo da cadeira, abanando-os e cantando, em Japonês, a musica “Sensei” — japonês para “mestre, senhor.”

Fogos de artimanha.

Bandeiras e confetti.

Uma música grave, lento, emocionante.

Que coisa.

O Apoteose Profano de John Lee Hooker

Se quiser uma analogia que não é um argumentum ad Nazium, posso oferecer o seguinte — confessando, no mesmo momento, que na juventude houve um período em que me drogava.

1984 ou 1985. Marin County Fairgrounds, a grande gramada ao lado do edifício do governo da condade, projetado por Frank Lloyd Wright, e cena, depois, do filme Gattaca.

Eu e minha namorada, com nosso companheiro Chico o Espanhol. Cachimbo de haxixe de Londres, onde Chico morava.

John Lee Hooker, com Bonnie Raitt.

É uma velha artimanha dos grandes artistas de blues, o crescendo “lento, gradual, e seguro.” O talvez não tão seguro assim, porque a intenção é levar a plateia à beira de loucura.

James Brown foi mestre dessa arte, com o teatro que costumava fazer da música “Please, Please, Please.”

Ele implora a moça a não deixá-lo, até a exaustão.

Um assessor sai dos bastidores com uma capa, implorando o cantor a abandonar essa dor de cotovelo e descansar. Ele parece se resignar, andando no sentido dos bastidores, suado, curvado, derrotado, embrulhado na capa. Mas de repente, acorda de novo, joga a capa no chão, e corre de volta o microfone, agarrando-o com desespero, apoiando o peso do seu corpo cambaleante nele, gritando em voz rouca:

Please! Please! Please! (Don’t go …)

A versão de John Lee Hooker era mais simples. Após cantar o verso e coro, ele manda a banda cair num riff, bem quietinho, quase inaudível.

Aquele colado pelos Rolling Stones para “Shake Your Hips.”

E ele começa a dizer à plateia:

I want you to boogie
I said, I want you to boogie

Quero que vocẽs balancem, em bom português.

Note-se que o homem era muito velho nessa época e portanto estavava confinado a uma cadeira. E um homem muito religioso, que não xingava.

Começa o crescendo, durando o que parecia uma eternidade. Cada vez mais insistente:

I said, I want you to boogie
I said, I want you boogie

Mofando e sacaneando a gente: Vocês chamam isso de ginga? Bando de patetas!

Passando por todo um espectro de emoções até explodir na mais obscena raiva, levantado-se da cadeira em pernas cambalantes, como alguém levantando-se do leito de morte, e gritando:

I said I WANT YOU TO BOOGIE! GOD! DAMMIT!

E se você achava que já estava gingando com toda a força do seu corpo e alma antes, engano seu.

Foi nesse momento que percebeu que você mal começou!

Aí entra Bonnie com o pescoço da garrafa, torturando o trem, que uiva.

Uai.

Se for fascista, esse poder do cantor de mexer com meu coração (e bunda) seria o fascismo de bem. Eu acho.

Confissões de um gringo fumador de haxixe (reformado faz décadas.)