Pânico Moral e a Veja: Iconologia Para Calouro Fazer

Padrão

Imagem: © Jean Manzon (já morto). Todos os direitos reservados (pelo cadáver).Reprodução proibida (pela alma-penada irrequieta).

Somos um império agora, e quando agemos, criamos nossa própria realidade …

Quando digo que o jornalismo de massa no Brasil é um jornalismo sobretudo de pânico moral, eu tenho em mente a seguinte definição, mais ou menos, do sociólogo Stanley Cohen:

A semi-spontaneous or media-generated mass movement based on the perception that an individual, group, community, or culture is dangerously deviant and poses a menace to society.

“Um movimento de massa, quase-espontáneo ou gerado pela mídia, e fundamentado na percepção que um indivíduo, grupo, comunidade, ou cultura seria perigosamente desviado e uma ameaça à sociedade.”

(Segundo o neonazista autor do Diários de Turner, um judeu com o nome Cohen foi o autor do PL tirando o direito de porte de armas do povo americano, casus belli da grande revolução.

Outro nome judeu común é Goldstein, autor do livro A Teoria e Prática do Coletivismo Oligárquico no romance 1984, de George Orwell.

Eu até tenho vários amigos com os dois sobrenomes. Eu estive no bar mitvah de um deles, filho de um professor de CalTech.)

Outra:

A moral panic is a social condition that becomes defined as a threat to community values and whose nature is presented in a stereotypical fashion by the mass media. The official reaction to the social condition is out of all proportion to the alleged threat. Reporting about a moral crisis involves a continuous exaggeration of the problematic aspects of the social condition and an ongoing repetition of fallacies …

“… uma condição social que chega a ser definida como uma ameaça aos valores da comunidade, a natureza da qual é representada na mídia por meio de estereótipos. A reação a essa condição é totalmente fora de proporção diante o verdadeiro tamanho da ameaça. Jornalismo sobre tal “crise moral” faz uso de um exagero continuado dos aspectos problemáticos da condição social e uma continuada repetição de sofismas …”

Um estudo cuidadoso das capas da revista Veja mostraria em detalhe o mecanismo pelo qual se produz tal percepção.

Eu sempre digo que as capas da Veja podem ser divididas em duas categorias, cada um com seu próprio mito essencial. São

  1. Uma vida serena na Laputa, ilha flutuando no ar (Jonathan Swift), com (a) direito ao consumo ilimitado de soma (Aldous Huxley), (b) uma ideologia de individualismo radical, auto-ajuda, e auto-conhecimento (Ayn Rand, o Bagwan Sree Rajneesh), e (c) um comércio com o mundo real intermediado por redes de computadores que automagicamente filtram fatos negativos, levando a (d) um plano de existência pós-humano, sem decadência física ou morte (Ray Kurweil);
  2. O MST e o movimento negro querem fazer churrasco dos seus bebês brancos e católicos abortos à força pelo KGB de Lula.

Todo resumido na capa seguinte:

Como numa ilusão ótica, os dois mitos são ora em primeiro ora em segundo plano, trocando os papeis de figure e ground — texto e contexto, digamos, ou imagem e quadro..

Aqui, em primeiro plano, o poder de autoajuda.

A forçã da vontade nietzscheana até a infertilidade sara.

No segundo plano, o poder aterrorizante do império das drogas.

Agora, vamos trocar o texto e o contexto:

No primeiro plano: Uma familia branca sufocada, cujos instintos saudáveis de buscar riqueza e e assim criar progresso são abafados.

(Mais eles vivem dentro de uma bolha de vidro, que pretendem ampliar. À Veja falta às vezes um bom senso de ironia.)

No segundo plano: Quem já vive na utopia da época pós-petroleo!

Terrorism Puro

As vezes, abandona-se por inteiro o contrapeso de um ou outro mito.

Aqui, terrorismo puro:

E a grande sacanagem: O olho do Mal é a mesma foto fotochoppeado em outra capa, essa vez ligada com o logotipo do PT e ilustrando “a tentação autoritária.”

Teoria conspiratória: Olhando o formato das sobrancelhas nessa foto, bem podia ser o olho de Diogo Mainardi …

Um bom estudo de mestrado seria enfocando a dialética olhos claros-escuros na infografia da Veja. Lembre um pouco a velha experiência, acho que foi de Milgram.

Essa capa fala para si:

No primeiro plano: O FIM DO MUNDO!

No segundo plano: Dilma, Chávez, e “o monstro dentro de você.”

1+1+1=4.

Os quatro cavalheiros do Apocalípse.

Não tem nada nessa iconografia que não consta nos primeiros capítulos do livro Mitologias de Roland Barthes, que eu li pela primeira vez com 17 anos.

Apocalipse e Revolução: Derrubando a Ditadura dos Fatos

Toda essa iconografia parte da minha freuente observação que a mentalidade apocalíptica é uma mentalidade revolucionária.

Ambos verbetes, do grego e latim, respectivamente, tem a mesma morfologia e sentido: a reviravolta.

Ou transtorno.

Na literatura, é o princípio ou tópico central do carnavelesco de Bakhtin, por exemplo. A inversão de valores num espaço efémero e liminar.

Talvez a revolução mais radical é a rebelião contra a ditadura dos fatos — das leis da física, da morte e do envelhecimento, da dor e do sofrimento, da condição humana.

Lembre-se a famosa entrevista de Ron Suskind, em off, com um assessor de confiança do Bush ibn Bush:

The aide said that guys like me were “in what we call the reality-based community,” which he defined as people who “believe that solutions emerge from your judicious study of discernible reality.” … “That’s not the way the world really works anymore,” he continued. “We’re an empire now, and when we act, we create our own reality. And while you’re studying that reality—judiciously, as you will—we’ll act again, creating other new realities, which you can study too, and that’s how things will sort out. We’re history’s actors…and you, all of you, will be left to just study what we do.”

«O cara disse que eu e pessoas como eu seriam da “comunidade com base na realidade,” definida por ele como “quem acredita que soluções resultem do estudo judicioso da realidade tangível … mais o mundo não funciona mais assim. Somos um império agora, e quando agemos, criamos nossa própria realidade. E enquanto vocês estudam aquela realidade — judiciosamente, como sempre fazem — agiremos de novo, criando outras, novas realidades, que vocês também podem estudar. Somos os atores da história …”»

O contrário dessa comunidade, como consta em inúmeros discursos dessa escola de pensamento, seria «a comunidade de fé».

O cerne dessa fé: o princípio aristoteliano da «suspensão da descrença».

Como diz o jornalista no fim do filme The Man Who Shot Liberty Valence (no Brasil O home que matou o facínora, perdendo o valor — o valence — simbólico do nome do facínora):

Quanto a realidade não bate com a lenda, é a lenda que dá no jornal.

A Volta dos Marcianos

Tem um caso corrente.

Deu nos clipping de hoje: A questão do sequestro das imagens —  Amir Labaki, Valor Economico (Portal ClippingMP).

Documentários podem chacoalhar o mundo ou ao menos realidades locais imediatas?

Bem, parece que raramente conseguem isso (dez exemplos estiveram numa retrospectiva que exibimos no festival de 2008 sob curadoria de Mark Cousins). Mas e falsos documentários? Na República da Geórgia, no fim de semana passado, a resposta foi sim.

Às 8 da noite de sábado, um “mockumentary” disfarçado de jornal televisivo apresentou uma invasão do país pela vizinha Rússia, precedido por um aviso de que se tratava de ficção. Quem perdeu esse alerta assistiu a uma simulação de emergência nacional – e um princípio de pânico se espalhou. A transmissão teve de ser interrompida por um pedido de desculpas da emissora.

Como informou Andrew E. Kramer, de Moscou, para o “The New York Times”, a rede privada Imedi encenou tudo no cenário tradicional de seu telejornal, usando um âncora conhecido. Ele fingia nervosismo, mexendo em papéis, enquanto anunciava conflitos já nas ruas da capital, Tbilisi, com tanques e bombardeiros russos a caminho do país.

Imagens do confronto real ocorrido em agosto de 2008 foram apresentadas como flagrantes da hora. Até Barack Obama entrou na dança. Uma imagem de arquivo dele ao microfone foi editada com um texto lido em off dizendo estar ele preparando sanções contra a Rússia. Um político oposicionista georgiano, Nino Burjandadze, teve reciclado um registro cumprimentando líderes russos, na esteira de um encontro real recente que teve com o neoczar, hoje primeiro-ministro, Vladimir Putin.

A referência imediata é a transmissão radiofônica de “A Guerra dos Mundos” por Orson Welles, que levou pânico aos Estados Unidos em outubro de 1938. Mas uma coisa é radiodramatizar uma invasão da Terra por marcianos; outra, ficcionalizar sob a forma de reportagem um ataque ao território nacional por um vizinho hostil cujo domínio imperial foi superado há menos de duas décadas.

O Beisboleiro Tcheco

Falando nisso: Nos anos 1980s, anos de faculdade, eu dividia uma casa com alguns amigos durante o verão.

Um dia, chegou um moço arremessador de beisból que acabou de fugir do time nacional do antigo Tchecoslováquia. Estava na clandestinidade aguardando o desfecho do processo de asilo político.

O pai dele era companheiro do cineasta Milos Forman, e queria que seu filho curse o pós-graduado de cinema de UCLA.

Não podia deixar a casa, e portanto a gente passou muito tempo alugando vídeos.

Um dia, eu aluguei o “mockumentary” This Is Spinal Tap — com umlaut sobre o n — uma paródia hilariante sobre a pior banda de rock no mundo.

O tcheco-arremessador achava tudo real.

Partiu por cima de mim com um discurso raivoso sobre o deserto cultural que eram os EUA. A decadência! A burrice! O público anestesiado!

Pode tirar o arremessador do bloco soviético, mas não pode tirar o bloco soviético do arremessador.

Juro.

Isso realmente aconteceu.