Calcanhar de Aquile: Meu Pobre Portuguêx

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Eu li uma vez, num manual sobre como comentar em blogues antitéticos às posições defendidas por você e seus correligionários, o seguinte conselho:

Faltando argumentos, desvie o debate para qualquer outro assunto no qual você tem mais moral, mais autoridade.

Recibo um comentário.

É educadamente elogioso das minhas especulações aqui no blog, mais grosseiramente crítico do meu “pobre portuguêx.”

Começa um discurso sem fim e altamente pedante sobre cada pecado ortográfico, sintático, semântico e pragmático que pratiquei no texto sob análise.

Sugere que não divulgo meus pensamentos antes de uma rigorosa revisão do texto, se não quero ser tomado como um gringo pretencioso mais ingorante.

Era para eu liberar esse comentário e responder a cada ponto levantado por ele.

Não liberei.

Geralmente não libero comentários, salvo no caso de trackbacks automáticas.

O procedimento é você mandar um e-mail, e se tratar de um erro meu, eu corrijo. Me desculpe, mas estou ocupado demais para lidar com as ondas de múltiplas inverdades que recibo quando boto o dedo em algum ferido.

Nesse caso, não houve e-mail do comentarista, o URL do site dele foi anonimizado, e que tratava-se de uma tentativa de me desmoralizar, e de desviar minhas energias para um assunto sem importância, foi bastante óbvio.

Em geral, muito embora dos pedantes das elites, os brasileiros são loucamente entusiasmados quando você mostra a mínima dominação da língua, uma generosidade que me ajuda muito.

Mais ainda falando que nem o alemão no conto de Guimarães Rosa — “O recado do morro,” conto que tira o fôlego — eu acho que se (1) eu pretendo pedir uma pizza, e (2) emito rosnares de pato parecidos mais o menos com um português bem burlesco, mais (3) a pizza ainda chegar tal como eu pedi, portanto (4) eu deveria poder falar o português melhor do que eu pensava.

Confesso, porém, que duas coisas ainda me derrotam sempre.

  1. O gênero de nomes
  2. Esse subjuntivo seu parecido com o subjuntivo latim (PT amasse, LT amavisse)

O programa? O programa? PQP!

Esse subjuntivo latinizado não existe na língua castelana, nem na catalá, que eu sei ler.

Deve ser óbvio que eu aprendi a bela língua portuguêsa do Brasil pensando nela como uma versão esquisita do espanhol mexicano que aprendi na juventude — ora-le, esse, dós burritos de carnitas, por favor — misturada com a língua provençal e o velho galego que eu estudava no pós-graduado.

Mais olhe, se eu não falasse arriscando o constrangimento de falar besteiras, eu nunca falava mais nada.

É isso que sempre digo à minha mulher, ainda tentando dominar a puta da língua danada inglesa.

Ela aprendeu bastante morando comigo em Nova York, mais agora tem uma professora inglêsa de Inglaterra que ralha com ela cada vez que ele produz um informalismo norteamericano.

Otra dia ela disse durante a aula:

It’s very easy to get to Manhattan. You just jump on the subway.

Não, não, não! O correto seria

It is quite easy to reach Manhattan. You simply board the subway train.

Tá certo, e certamente se você ia tomar chá com a Rainha Elisabeta, aquilo seria melhor.

Eu mantenho, porém, que se haver gringo mais odiado mundo afora do que o “ugly American,” é o inglês pedante.

Classistas rabugentos que são, ainda menosprezam o sotaque cockney de Covent Gardens — o CEAGESP de Lóndres. Mas não estamos mais no seu império, viu?

Nossas línguas americanas todas, desde o sotaque cajun de Nova Orleans até o sotaque “cabeça de queijo” de Minneapolis, tem uma ginga própria e uma riqueza de vocabulário e folclore que faltam-lhes aos inglêses dos mais inglêses dos inglêses.

Vê se te enxerga!

Nós mesmos, no entanto, não somos sempre muito acolhedores a quem não domina a idioma.

Coitada da Neuza desenvolveu um complexo por causa disso.

É desagradável dizé-lo, mais nos EUA, vocês brasileiros — muito amiúde as vítimas de um ensino de idiomas de pessíma qualidade — não são diferenciados pelos preconceituosos nativos de qualquer outro tipo de “spick.”

O insult, tomado de muito ofensivo pelos los Latinos, vem do tratamento que vocês constuman dar ao vogal longo na palavra “speak.”

Leitura recomendada: Diario de um cucaracha, de Henfil (acima).

Houve uma vez que minha mulher e uma amiga sua entraram num café no Upper East Side.

Entra aí uma perua da mais alta peruada e diz em voz alta ao proprietário do lugar que ele perderá sua freguesia se admitir “pessoas dessas” — inclinando a cabeça no sentido das meninas — no futuro.

Bitch!

Se eu tivesse estado presente, para dizer algo cortante, seria uma melhor história.

Mais infelizmente, eu não estava.

Como vingança tardia, porém, eu vou traduzir em trecho do novo romance de Jonathan Lethem, autor de Brooklyn que antigamente trabalhava na livraria de Moe em Berkeley enquanto estudava as obras de Philip K. Dick, o mestre soberano dele.

Trata-se de Chronic City, e o cenário é o mesmo bairro, the Upper East Side:

If one of money’s laws is that it can never buy taste, here is where it went after it failed, and here’s what it bought instead.

“Se uma das leis do dinheiro é que não se compra o bom gosto, esse lugar e para onde fugiu após falhar, e isso é o que comprou no seu lugar.”

Toma aquilo, sua piranha!

E mais uma memória do meu saudoso Brooklyn.

A gente está passeando pelo parque após a primeira nevasca. A minha mina está realmente impressionada. Neve é mesmo muito legal.

Fort Greene Park, construida com um morro no meio: lá encima, o monumento aos prisioneiros de guerra dos ingleses durante a revolução. Tipo um Abu Ghraib do século XVIII.

De repente, morro abaixo, um recado:

Eu sou brasileiro e posso dizer que todo mundo aqui é bem filho de puta porque ninguém entende o que estou dizendo!

Pois não.

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