Perú: Dono de TV Corrupto Volta à Cadeia

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«Os sinos contando a morte da sua ética foram tocados pelos donos de suas organizações, que optaram para alinhar-se como projetos políticos … O que fica claro para mim é que vocês estão perpetuando uma política partidária corrosiva que destroi nosso país e mata nossos soldados, que estão em guerra.» Tenente-General Ricardo Sanchez, Exército dos EUA, comandante em chefe da Coalização no Iraque, discursando aos correspondentes militares da imprensa nacional

Jornalismo nas Américas anota: a casa do ministro de justiça de Perú caiu.

O escândalo: a soltura do dono de TV Canal 4, preso por ter recebido propinas de Vlademiro Lenin Montesinos, o Novo Rasputin de Alberto Fujimori.

Vladimiro ainda hoje se diz o homem da Cia. no governo do condenado criminoso lesa-humanidade.

Num dos últimos «vladovídeos» ele está reunido na casa dele com um attaché da embaixada dos EUA, e pede que o homem «mande lembranças dele aos amigos de Langley.» (Especula-se até hoje se tratasse de uma encenação mitomana dele ou não.)

O Roberto Marinho de lá recebeu indulto por conta da sua idade (77 anos), e portanto seria tipo um Lalau ou Maluf peruviano:

“Alguns meios de comunicação e políticos de oposição pediram a renúncia de Pastor por ele ter defendido o indulto a Crousillat, ex-proprietário do Canal 4”, diz a AP. “Crousillat foi sentenciado em 2006 a oito anos de prisão por receber propinas do ex-chefe de inteligência Vladimiro Montesinos, atualmente preso, para publicar notícias favoráveis sobre o presidente Alberto Fujimori na década de 90.”

Que história cabeluda era tudo aquilo, e continua sendo.

Hoje, no jornal La Republica de Lima:

Como lo difundió un diario local, el ex presidente Toledo sostuvo que detrás del indulto otorgado al ex empresario Crousillat habían intereses económicos, y que hasta se habría financiado con intereses políticos ante una eventual captura de canal 4.

En dicha entrevista Toledo sostiene que el presidente García debe explicar lo dicho por el abogado de Crousillat, quien lo amenazó con sacar videos en su contra, por haber dejado sin efecto el indulto al ex empresario.

O governo de Alan Garcia, com a discrição apropriada, limitou-se a pedir as provas fundamentando tais denúncias.

O gênero do «vídeo-escândalo» alcançou um auge histórico — nem superado pela «oração da propina» — com os famosos «vladovídeos» de Montesinos, mantidos para punir as eventuais traições de quem já fechou com ele.

Veneno Burro e Brutal

No passado, tanto o Toledo quanto o jornal tem sidos alvos de escândalizações toscas e venenosas. Da tendência política dos dois, não entendo muito, mas da qualidade dos seus opositores na aliança com o APRA, os casos falam altos.

O primeiro escândalo se deu nas vésperas de uma resolução de censura contra a ministra do governo responsável pela custôdia de Fujimori, na época ainda aguardando a abertura do processo contra ele.

Ela andava externando na imprensa a tese da inocência do ex-presidente. A cass dela caiu, se me lembro bem.

Carlin — o Angelí de Lima — é genial.

Na mesma época, rolou uma tentativa sub-reptícia de lotear o Corte Constitucional com ministros favoráveis a Fujimori.

O esquema foi desmontado por uma foto mostrando o candidato principal reunido com um conhecido agente de Montesinos, além de militares de ativa.

O candidato, acusado de corrupção e paramilitarismo durante o governo Fujimori, e inserido na lista por meio de uma manobra parlamentária escusa, desistiu de concorrer a vaga.

Contra Toledo, entretanto, nas vésperas de tudo isso, a denuncia de que estuprasse uma moça durante uma suruba num mar de cocaina.

La República correu atrás e apurou que a denunciante era prostituta de rua, que o Toledo nem estava em casa na hora e dia denunciados, e que após as denuncias a moça foi sequestrada e mantida fora do alcance da imprensa.

(Nesse mesmo gênero de escândalo, cabe lembrar o Erramos da Folha de S. Paulo:

Tratava-se de mais uma suruba com putas.

Mais o Erramos não era que a suruba jamais rolou.

Photoshop, disse o ministro de Evo.

Mas nesse caso, a casa do ministro de águas caiu, parece ter sido por outras razões.)

Contra o jornal, denúncias que ele mesmo tinha recebida propina de Montesinos — denúncia que combatia ferozmente, com uma capa di tutti capa, mostrando as inúmeras matérias de capa denunciando Fujimori.

A denúncia conta La Repúblico foi uma campanha exemplar de “putas somos nós,” estilo Diogo Mainardi.

No fim, o jornal consequiu um «vladivídeo» autenticado no qual Montesinos confessa que falhou na tentativa de subornar o dono do jornal, um certo Sr. Mohme Llona.

Na mesma época, a condecoração de um jornal pró-Fujimori pelas forças armadas (La República, 11/12/2007):

El despacho del comandante general del Ejército, general EP Edwin Donayre Gotzch, confirmó que el martes 11 de diciembre condecorará al director del diario “La Razón”, Uri Ben Schmuel, y al editor general del mismo, Plinio Esquinarila Bellido, por haber contribuido a que la institución castrense haya logrado el cumplimiento de sus objetivos.

La República: não trata-se aqui de um jornal esquerdista própriamente falando. Chávez apanha com regularidade, especialmente na época quando o RCTV, de Granier, não teve renovada a concessão pública.

Knight: Cavalheiro da Revolução Global

O blog citado é um projeto trilíngue do Centro Knight, da fundação associada com a empresa de jornais Knight-Ridder.

Outra nota da blog hoje registra “o debate importante” sobre “o futuro dos meios” acontecendo no Brasil, mais não registra os protagonistas desse debate — como se fosse um embate puramente intelectual:

Um debate importante sobre o futuro dos meios de comunicação está se travando no Brasil. De um lado estão os que defendem sua democratização, por mecanismos que vão desde o controle social do conteúdo até a proibição do monopólio. De outro, estão as empresas de comunicação e outras organizações que se dizem preocupadas com os efeitos das mudanças propostas sobre a liberdade de imprensa no país.

Para mim — sou basicamente liberal (sem o “neo-“) — controle social e o mercado livre são, o podiam ser, quase a mesma coisa, porém.

Esse jeito de descrever o debate, portanto, sofre de uma falsa dicotomia.

Sem monopólios, com um mercado livre, diverso, aberto e competitivo de mídias, não precisa-se uma intervenção maior do Estado.

Se Mainardi diga que o mundo é quadrado, outros tantos jornalistas apresentam a curva do horizonte como prova do contrário — sem serem processados por calúnia.

O verdadeiro problema aqui é o combate à cartelização desse setor. É isso que a dupla Veja-Globo temem, e isso que fundamenta suas denúncias de um Estado supostamente totalitário.

Combatendo carteis não é exatamente uma ideia vindo direto das páginas do Anti-Duhring de Engels.

Caso: Microsoft x União Europeia.

(Quando o histórico jornal francês Libération foi deconstruida pela consultoria Innovation International, rolou uma baita de uma polêmica sobre uma matéria de duas páginas que papagaiava a propaganda institucional da empresa sobre seu novo Xbox:

O Xbox traz a artilharia pesada

A redação de “inovação” do Jornal 2.0 só soube desconversar sobre o assunto, lançando uma campanha ad hominem contra seus críticos no entretanto.)

Da Fundação Knight, tenho palpites contrários.

O ombudsman do New York Times, Clark Hoyt, por exemplo, veio de Knight-Ridder, que foi entre as únicas empresas de comunicação a questionar as supostas provas utilizadas para justificar a invasão de Saddãolândia.

Tenho enorme respeito pelo Sr. Hoyt.

Na outra mão, quem ganhou o prêmio Knight para “inovações em jornalismo” em 2006 foi o Global Voices Online.

Já contei os porques da minha desconfiança quanto à turma de Harvard, mas repito: Quando eu perguntei se tivessem fontes financeiras governmentais, eles disseram-se impedidos de negar ou confirmar, por razões contratuais.

É propaganda semi-clandestina.

Até se eu concordasse com o teor da propaganda, a semi-clandestinidade dela me incomodava muito.

Como notei na época,

GVO’s feeds are featured on U.S. government Web sites, such as Radio Free Asia, which is operated by the Broadcasting Board of Governors, a body within the State Dept. — I think, I forget — appointed by the POTUS to oversee overseas propaganda broadcasts.

«Os fluxos de RSS apareciam com destaque em sitios do governo, tal qual o sitio da Radio Free Asia, operada pelo BBG, do Departmento de Estado.»

Os conselheiros do BBG, que cuidam da propaganda institucional dos EUA no estrangeiro, são nomeados pelo presidente da república.

Houve uma baita lotação de integrantes da «comunidade da fê» durante os anos de Bush ibn Bush.

Pior ainda foi quando a presidente do BBG foi indicado para chefiar o sistema PBS, a emisora pública.

Foi então que você via as técnicas de propaganda viradas contra o “inimigo interno.”

Na época, entre a diretoria da fundação Knight constava um daqueles fundadores da consultoria Innovation International, da Universidad de Navarra (Opus Dei.)

Deixa-me consultar as minha anotações …

Talvez as coisas tivessem mudadas, com nova lotação de cargos decorrendo do novo equilíbrio de poder.

Fico, porém, com polegar atrás a orelha até eu saber mais sobre a questão essencial: Qui parle?

E para quem fala?

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