Propaganda Clandestina: Pseudonomia, Economia, Anomia, Democracia

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<O Brasil sempre foi a casa da mãe Joana de elites sub-reptícias que fazem o que querem. –Paulo Francis>

Vamos começar hoje aprofundando nessa questão de jabaculê.

A melhor tradução para inglês deve ser «payola», termo introduzido nos anos 1950 com referência à prática de subornar apresentadores de rádio para conseguir mais tempo no ar para determinado disco. A prática começou, poŕém, junto com o nascimento da indústria, e foi o base das primeirias grandes carteis de conteúdo — sem mencionar a penûria e morte escura e triste de tantos artistas.

Rolou até uma CPI, em 1959. Como um historiador amador do escândalo contou, o motivo econômico — com concorrência desleal e carterlização, o mercado não operava livremente — misturava-se com pânico moral.

Naquele ano, a commissão do congresso investigando  fraudes em competicões na TV («game shows») passou a ampliar a investigação ao suborno de programadores de rádio.

ASCAP, uma organização representando os direitos autorais de compositores e músicos, acreditava que a investigação mostraria que gravações registrados com o rival, BMI, virou sucessos por causa do suborno. …

Esse pensamento veio do fato de muitas pessoas acreditarem que rock ‘n” roll fosse a música do Cujo; que estivesse corrompendo adolescentes; e que a juventude so escutava essa música após serem iludidos por apresentadores avarentos e corruptos que recebiam para tocar a música repetidas vezes até fazer uma lavagem cerebral do ouvinte.

Allen Freed, o Rei do Hroquenrô, seria processado por corrupção e crime tributário, acabando com sua carreira. Quem ganhava pão de Frank Sinatra, entretanto, continuava vendo Elvis como uma ameaça mortífera, e portanto tentando demonizar branquelos cantando como se fossem negão. A coisa estava feia, como pode-se imaginar.

Hoje em dia, as pessoas começam a falar na prática de «blogola» — a prática de subornar blogueiros em troca de apoio sub-reptício a uma causa ou um interesse.

O Instituto Cato é notório por essa prática — a qual defende, naturalmente, no nome da liberadade.

Ambos partidos políticos hegemônicos nos Estados Unidos já foram flagrados praticando «blogola» ou «ciberjabá».

Howard Dean, presidente nacional dos Democratas até hoje — após duas derrotas! — e pioneiro na exploração política da Internet, pagou dois blogueiros anônimos para notas em apoio à campanha mal-sucedida dele nas prévias do partido dele em 2000. Foi descoberto porque na época, os pagamentos tinham que ser divulgados ao fisco eleitoral.

Na campanha passada, ouvia-se falar de telecentros regionais onde trabalhava blogueiros de ambos partidos, respondendo os boatos dos opositores e espalhando boatos próprios — sem divulgação do contrato de emprego, naturalmente.

Mas foi o Cato Institute, eminência parda do Instituto Millenium e sua «ecologia digital» — RELIAL, UnoAMERICA, Fuerza Solidária, e tantos outras «uniões de redes de associações de agências multimídia globais de entidades de classe» — que realmente abraçou a combinação de ciberjabá e pseudonomia como ferramenta de moblização política no modelo trotskista do movimento neoconservador.

O argumento é sempre o mesmo: Os pais da pátria, no debate conduzido na imprensa de Nova York em 1787 sobre a forma de governo a ser adotada pela nova Constituição, faziam uso de pseudônimos — o mais famoso sendo Publius, nome compartilhado por vários militantes do partido federalista.

Os defesores do anti-Federalismo, em jornais igualmente chapa-branca e financiados por interesses econômicos — principalmente agrícolos, escravocratas e latifundários — faziam a mesma coisa.

O fascinante é que ainda hoje, os «Federalist Papers» — a autoria de vários dos quais ainda está para ser estabelecida — formam o corpus linguístico padrão para quem interesse-se no análise algorítmico de discurso para a identificação de autoria.

(Existem impressões digitais linguísticas tão únicas quanto nossos genes? Uma questão fascinante. Tem USPianos correndo atrás.)

Mas assim como esses textos funcionam como fonte importante da jurisprudência constitucional, a questão de autoria permanece essencial para resolver certos problemas de interpretação — a não ser que aplique-se a hermenéutica bíblica «literal» a textos que são humanos, demasiadamente humanos.

Qual a autoridade de um texto cujo autor permanece desconhecido?

Segundo Jonathan Wallace, porém, num «briefing paper» do Instituto Cato de dezembro de 1999 (acima), o direito de disfarçar ou ofuscar a autoria de pensamento livre seria essencial para a democracia. Escreve (eu traduzo):

Hoje, militantes para direitos humanos em China e muitos outros paises tem reatados a ligação entre anonimidade e livre expressão … Dada a importância de anonimidade como um componente da liberdade de expressão, o custo de proibir expressão anônima na Internet seria enorme. Não faz sentido dar comunicações pela rede eletrônica outro tratamento que aquilo dado a panfletas impressas ou livros.

Eu rachava um apartmento com um chinês de China uma vez, e vim a conhecer o homensinho do consulado, sua sombra. Ele namorava um moçinha loirinha missionária do Meio-Oeste que falava o mandarino estupifardiamente bem.

Você, caro Catone, não tem cara de chinês.

Livros tem um código ISBN, se bem que o autor pretende ganhar a vida escrevendo-os. Até o autor anônimo precisa ser conhecido, no mínimo, pela pessoa que assina os cheques.

A incoerência dessa posição com a ética de responsibilidade individual pregada por esse cabal, quando convir, é também marcante.

Que teria a necessidade de anonimato sob um regime autoritário, não duvido.

Mais dentro de uma democracia? Os blogueiros do Cato e o Millenium são impedidos de promover os argumentos de Hayek e von Mises? Uma busca no Submarino mostra que as obras dos economistas são livremente disponíveis — para quem tenha a bufunfa de comprar esse conhecimento esotérico no mercado cartelizado de livros aqui no Brasil.

Os capatazes do Consenso de Washington, minoria oprimida?

Eu, hein?

O Debate Goodman-Goodman

Em 2006, a jurista norteamericana Ellen P .Goodman lançou o estudo «Stealth Marketing and Editorial Integrity» — marketing sub-reptícia e integridade editorial — dito

… the first article in the legal literature to address the normative implications of covert marketing in mass media.

«… o primeiro estudo na literatura jurídica a tratar com as consequências normativas de propaganda clandestina na mídia de massa.»

Está aqui (inglês, PDF):

Uma vez que os argumentos do Instituto Cato costumam ser caricaturas cruas de pensamento sério sobre os princípios envolvidos, eu gostaria de resumir o argumento de Goodman e o diálogo dela com seu crítico, David Goodman, autor de «Hidden Agendas» — motivos ulteriores — «uma resposta à Goodman».

O artigo de Goodman² está aqui (PDF, inglês):

Para fechar, vamos avaliar outro argumento, ainda mais radical, sobre o anonimato como direito da pessoa humana.

Na ótica de Ellen Goodman, o problema é o seguinte:

As práticas de jabaculê, a colocacaçõ de produtos em programas de jornalismo e entretenimento, e o jornalismo patrociniado estão proliferando, espalhando-se para formas novas de mídia como blogs e vídeojogos. A legislação federal tem proibida essas práticas na mídia eletrônica faz quase 50 anos. Mas apesar de controvêrsias recentes sobre essas práticas, a literatura jurídica ainda falta qualquer análise sistemático do problema de propaganda clandestina ou dos valores que a divulgação de patrocínio promove, quer na mídia eletrônica e imprensa tradicional, quer na nova mídia.

Sobre colocação de produtos, já notaram? No filme Lula, Filho do Brasil, sindicalista so toma Brahma, e Lula quase não aparece sem cigarro na mão. Souza Cruz e Brahma financiaram o filme, em parte.

Eu quero um desconto nos ingressos para ver esse filme meio-boca, uma vez que o patrocínio está pagando a conta de luz. Alguém faz um filme cinema povera estilo Fassbinder, com Lula retrado por uma negona e passe o chapéu. Eu jogo um punhado de tostôes.

A solução, resumida para encurtir o relato, segundo Ellen Goodman:

Esse artigo preenche essa falta com uma teoria normativa de legislação sobre divulgação de patrocínio, uma teoria informada pela Primeira Emenda (liberdade de expressão), a lei sobre soborno, e a teoria de informação em geral. Avaliando-me do trabalho do economista Ronald Coase e a teoria social de Jurgen Habermas, identifico o prejuizo causado por patrocínio não divulgado como uma degradação do debate público robusto  necessário numa democracia, um discurso que é possível até num ambiente altamente commercializado. Concluo com uma proposta para a reforma e ampliação das leis sobre divulgação de patrocínio além da mídia eletrônica tradicional, numa maneira neutro em relação a tecnologias específicas e sensível à evolução de tecnologias digitais.

Ora, se bem que eu tento vivir com o mínimo de Habemas necessário, esta mulher é obviamente uma inimiga da liberdade na ótica do Instituto Cato — que foi patrociniado na moita por muitos anos pelo petroleiro Exxon, e ainda hoje continua a promover ceticismo barato e espúrio sobre mudanças climáticas.

O mapa acima — fonte: Greenpeace — dá nomes aos bois quando às diretorias entrecruzadas entre lobistas, entidades de classe industriais, e institutos de «pesquisa» servindo-lhes de laranjas.

Em resposta, David Goodman invoca a «mudança de paradigma» representada pela Nova Mídia — um argumento cansadíssimo que fornece as metáforas fundamentais do que eu chamo do «discurso do sublime tecnólogico» — as novas mídias são apocalípticas, revolucionárias, mágicas, milenárias.

A função mercadologística deste discurso é emprestar uma aura de metafísica ao argumento que novas tecnologias vão «mudar tudo» — a ética de jornalismo, por exemplo.

David Goodman narra uma mudança dupla com as novas tecnologias: (1) o poder do consumidor de filtrar mensagens indesejadas — desde TiVO até meu querido SpamAssassin —  levando à necessidade de embutir mensagens commerciais ou ideologícas no conteúdo digital, e (2) uma mudança cultural nas expectativas sobre independência editorial e a confiabilidade de informações.

Diz ele:

O outro baluarte contra propaganda clandestina sempre era a resistência do consumidor. Até os anos 1960s, ninguém queria usar roupa fazendo propaganda de um grife — a não ser uma etiqueta discreta de Levi’s no bolso dos jeans.

Essa resistência ao comercialismo, porém, foi pífia em comparação com o desdenho do grande público para propaganda clandestina. A opinião pública foi escandalizada quando soube que apresentadores de rádio tocavam certas músicas porque as gravadoras os subornavam.

Quando leitores do Los Angeles Times descubriram que o jornal divulgou uma secção especial sobre o novo estádio de basquete, paga pelo patrocinador do projeto sem divulgação, o bom nome do jornal tomou um golpe do qual jamais recuperou até hoje. Escândalos desse tipo destruiram carreiras, reforçando as normas profissionais que mantinham propaganda fora das artes e o jornalism.

Um mais-vendido dos anos 1950s foi o estudo de propaganda para o leitor popular de Vance Packard: «os persuasores escondidos.»

Ao meu ouvido, a próxima frase deveria ser o grande «hoje, no entanto»  …

Hoje, no entanto, a resistência do público vem amolecendo. … [em consequência], a erosão de padrões profissionais é dificil a resistir, por ser apresentado como um imperativo financeiro …

O consumidor, derrotado, rende-se ao poder do maiúsculo e platônico Mercado.

Para quem entende o direito a liberade de expressão como uma garantia de capitalismo laissez-faire no mercado de informação, a propaganda clandestina não é enxergada como um problema. Simplesmente reforça sua crença que não há diferença viável entre  expressão em geral e expressão comercial, e portanto fortalece seu argumento que esse último merece as mesma proteções.

Se há mercado para independência editorial, esta sobreviverá, e senão, adaptaremos a um mundo no qual não saberemos quem fala.

Basicamente, Goodman diverge com Goodman quanto à possibilidade técnica de fazer valer qualquer proibição de pseudonomia e propaganda clandestina.

Enforçando limites sobre propaganda clandestina é especialmente problemático. Produtores de conteúdo que aceitam dinheiro para embutir mensagens no produto podem ser anônimos, ou figuras ardilosas capazes de sumir e reaparecer numa pisca dos olhos numa  nova incarnação, e às vezes ficarão fora da jurisdição da reguladora.

Eu acho esse argumento uma mistificação.

Os mesmos meios técnicos de ofuscação servem para desvendar o grande e terrível Mago de Oz, expondo o velinho cordial e meio patético atrás a ilusão.

Aprendida a lição de casa — identidade virtual é uma metáfora altamente manipulável, e não deve ser confundida com a riqueza de identidade humana — mantendo um ceticismo saudável torna bastante fácil.

Basicamente, é só lembrar os famosos cinco dâbbiús do jornalismo gringo:

  1. Quém?
  2. O quê
  3. Quando?
  4. Onde?
  5. Por quê?
  6. Como?

Junto com

  1. Como se sabe?
  2. Cui bono?

Se qualquer fonte de informações sonega ou ofusca as repostas, fique com pé atrás.

Considerações Inconclusivas Não-Científicas

Aqui, eu quis fazer uma conexão conceitual entre pseudonomia e anomia. Não vou lançar uma grande palestra, mas basta dizer que o recuso de engajar na esfera pública e assumir a responsibilidade para os atos consta entre os sintomas de um transtorno de personalidade antisocial.

Não gosto de psicologizar em excesso, mas eu também lembro quando, com 15 anos, minha namoradinha me apresentou com os romances de Ayn Rand.

São cheios das emoções descontroladas próprias à adolescência, mas eu realmente não topava. Me lembrava demais do culto da Soka Gakkai no qual eu tinha crescido.

Minha sorte era descobrir as obras de Charles Bukowski de antemão.

A literatura da marginalidade como questão de princípio — para mim, levou direto ao movimento punk e minha admiração para bandas como X, Black Flag, os Dead Kennedys — foi um potente antiveneno contra o heróico narcissismo e Wille zur Macht nos romances daquela russa tabagista — morta de cáncer — que deu tanta inspiração aos anônimos covardes que recebem para desvendar as «mentiras« da profissão médica sobre os perigos da bituca.

Eles so querem tirar de vocês a liberdade de ser um viciádo!

Libere o craque, e na mesma hora, transforma Cracolândia em Nova Luz.

Eu, hein?

Mercados só funcionam sem indevidas vantagens furtadas por conventículos sub-reptícios  e rasteiros de atores que pretendem monopolizar a informação e impedir o livro fluxo de conhecimento.

Se mercados sejam mecanismos maravilhosos e suprapessoais pelo processamento de informação — algo que eu acredito  — essa anomia, esse desdenho da dimensão social, com seus reciprócos deveres e direitos, seria altamente anti-mercado minúsculo.

«Você é quem o computador dizer você ser.»