Dia das Mentiras: Sinais do Apocalípse Iminente

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The dripping blood our only drink,
The bloody flesh our only food:
In spite of which we like to think
That we are sound, substantial flesh and blood —
Again, in spite of that, we call this Friday good.
— T.S. Eliot

Primeiro, seja dito que jamais — quase jamais — minto no Dia de Mentiras, desde meus dias de colégio.

Eu deveria entrar na brincadeira, mas com a passagem de tempo, caí no habito de esquecer-me desse direito, e agora não sinto mais a vontade. Se bem que eu minta, são mentiras cotidianas, nada de especial r precisando de planejamento ardiloso.

Meus comentaristas, porém, pretendem reclamar esse direito na sua plenitude metafísica.

Sou chamado, por covardes anônimos, de mal instruido, preguiçoso, e com pensamento distorcido por experiências de pobreza na infância e adolescência.

Ora, quanto ao «vai estudar, moleque» (tenho 48 anos):

  1. Tenho bacharel em filosofia e letras de uma faculdade de elite, onde estudei a tradição liberal angloamericana desde Locke e Hume até Rawls e Nozick, passando pelas tendências divergentes de utilitarianismo e todo o mais;
  2. Tenho mestrado e curso de doutorando completo em filologia comparativa e a historia de retórica de outra faculdade de elite;
  3. Tenho uma grande biblioteca desses e muitos outros autores aqui em casa, importada pelo porto de Santos, que consulto com frequência;
  4. Estou fazendo o trabalho de construir uma bibliografia sobre os assuntos que comento, parte da qual consta na página do autor; quem já fez bibliografia para fundamentar um argumento formal sabe que é uma tarefa bem trabalhosa;
  5. Em 2004, herdei uma montante surprendente de grana da minha avó, viúva de um tenente-coronel do Exército;
  6. Antes disso, ganhei o que seria R$115.000 por ano, com a taxa de câmbio de hoje, como jornalista e editor executivo — ou seja, quase 20 salários mínimos, como consta nos formulários W-9 de 2004 e 2005.
  7. Paguei impostos de 39% desse salário, até em pleno governo Republicano;
  8. Sou dono soberano das minhas duas casas, lá e cá, sem hipoteca nem nada, achando imóveis o melhor investimento da minha herança.

Agora, dá para entender minha política «fascistoide» de comentários?

Respondendo ataques ad hominemprovindo de anônimos ou pseudônimos covardes sem justificativa nenhuma para os argumentos  — o «warrant» de Stephen Toulmin — além do livre arbítrio é um gasto de tempo.

Eu prefiro comunicar com meus poucos mais bons e críticos leitores conhecidos por meio de Facebook ou listas de e-mail, ou participando em vários outros foros tanto virtuais quanto «carnudos».

Sou de Nova York.

Falta-me paciência.

Coisa cultural de gringuice urbano.

Vocês antipodos não entenderiam.

O Príncipe de Mentiras e as Manchetes do Dia

Falando no Príncipe de Mentiras, entretanto, o G1/Globo, via EFE, relata:

O papa Bento XVI disse, nesta quarta, durante a Missa Crismal que os cristãos devem cumprir o que prevê o direito, «mas não devem aceitar injustiças, mesmo que estejam previstas em lei, como, por exemplo, quando se trata do assassinato de crianças inocentes ainda não nascidas»

Isso no meio do escândalão de pedofilia dentro da Igreja, durante o qual o Papa se disse vítima de uma imprensa sensacionalista e preconceituosa. Como é do conhecimento até do mundo mineral.

Quer dizer que a Igreja Católica Apostólica Romana está bancando o papel de minoria perseguida e portanto liberando a desobediência civil nos moldes de Gandhi para mostrar seu amor para crianças.

À mesma vez, está sendo vitimizado por uma imprensa dominada pelos ateus e infieis.

Se seguir o modelo de comunicação da campanha do Instituto Millenium à risca, o próximo passo será declarar que a Igreja precisa recorrer à anonimidade de uma contra-imprensa estilo «samizdat» para fazer a sua voz ouvida.

Seria escandolasmente escandalizante, isso de reportagens sobre assuntos do qual o pontifex maximus NÂO falou:

Durante a missa, no dia no qual Cristo instituiu o sacramento sacerdotal, o papa não fez referência alguma aos casos de padres pedófilos.

Bem, às vezes o silêncio fala alto.

Se bem que identifiquemos o modelo de assessoria de imprensa utlizada pelo Vaticano nesse momento,  Opus Dei estaria bem dotado de recursos para fazer tal campanha.

Sua Univerdad de Navarra tem sido um dos mais entusiasmados pregadores do evangelho da blogosfera desde o começo. (Eu comecei fazendo cobertura de blogues em 2000, como revisor-chefe de uma falecida revista sobre e-commêrcio.)

Eu até correspondia um pouco com um dos mais destacados pesquisadores desse ramo, o professor Orihuela, autor do blog E-Cuaderno.

Gostei do cara. Cheguei a discordar com quase tudo que ele propunha, mas só porque ele articulava as suas ideias com grande honestidade e clareza. Foi um bom debate. Ele continua uma voz importante dentro do meu conselho deliberativo interno.

Orihuela é comprovadamente uma pessoa de carne e osso, com as diplomas que reclama, e  que defende as suas posições em foros académicos abertos, alguns disponíveis no YouTube. Para Orihuela, eu paro para jogar conversa fora.

Abençoado foi o dia, porém, em que eu nasci mais ou menos protestante — apesar de ser casado hoje com uma católica bem católica, na verdade, embora pratica meio na moita. Ou talvez por causa disso.

Não sou analfabeto medieval. Eu posso ler o Livro sozinho. Tenho uma certa prefêrenica para as bíblias com os entre-aspas do próprio Cristo rubricados. Meu livro preferido, de longes, e o Ecclesiastes, no latim de São Jerônimo.

Nihil sub sole novum est

Em matérias de religião, eu confesso, eu sempre identificava, como criança, com o papel do pistoleiro Hipshot Percussion no velho HQ faroeste «Rick O’Shay», que aparecia diáriamente na secção de Artes do Los Angeles Times.

Na cidadezinha do quadrinho, Rick era o xerife e Hipshot um pistoleiro sinistro, misterioso e meio triste. Mas ainda assim, eram amigos e aliados.

Cada domingo, enquanto Rick levava a familia à igreja, o Hipshot, solteiro e sozinho e atormentado, cavalgava mata adentro até chegar a um lugar ermo e majestoso. Lá, no catedral da natureza, ele falava com o Patrão, do jeito dele, chapeu na mão. Eu sempre identificava com isso. O que é dito entre mim e o Patrão não é da conta de ninguém.

Fui criado por pessoas que acreditavam numa regra velha-guarda e boa: Nada de religião ou política na mesa de jantar.

A Volta do Indivíduo

Entretanto, temos relatos contraditórios sobre as afirmações do exorcista do Vaticano sobre a presença do Cujo dentro daquela pequena teocracia masculina-celibata ilhada no meio da cidade de todos os pecados carnais.

No dia 12 de março, o exorcista foi citado textualmente dizendo que o Vatican tivesse sido infiltrados por adeptos do Capeta entre bispos, arquebispos e cardeais.

No dia 28 de março, apareceu de novo dizendo que curas em conluio com o Manfarri, o Coxo, o

Oculto, o Tal, o Que-Diga, o Não-sei-que-Diga, o Que-não-Fala, o Que-não-Ri, o Que-nunca-se-Ri, o Sem-Gracejos, o Tristonho, o Muito-Sério, o Sempre-Sério, o Austero, o Severo-Mor, o Galhardo, o Romãozinho – um diabo-menino, o Rapaz, o Homem, o Indivíduo, Dião, Dianho, Diogo, o Pai-da-Mentira, o Pai-do-Mal, o Maligno, o Coisa-Ruim, o Tendeiro, o Mafarro, o Manfarri, o Canho, o Coxo, o Capeta, o Capiroto, o Das-trevas, o Tisnado, o Pé-Preto, o Pé-de-Pato, o Bode-Preto, o Cão, o Morcego, o Gramulhão, o Xu, o Temba, o Dubá-Dubá, o Azarape, o Dê, o Dado, o Danado, o Danador, o Arrenegado, o Dia, o Diacho, o Diabo, o Rei-Diabo, o Demo, o Demônio, o Drão, o Demonião, Barzabu, Lúcifer, Satanás, Satanazim, Satanão, Sujo, o Dos-Fins, o Solto-Eu, o Outro, o Ele …

… para desmoralizar a lideranças da Igreja.

A história tem uma história, admiravelmente apresentada em forma visual pelo Google News:

Umas das primeiras menções foi no fim de fevereiro, com os comentários do Padre Amorth sobre a presença de satanistas dentro do Vaticano. Deu no jornal espanhol La Razón. A página como ela foi apanhado por mim agora mesmo:

Um mês depois, recebemos a nova versão — o novo testamento.

Infelizmente, ainda não consta no cronograma de Google, que acaba no dia 15 com as repercusões dos  primeiros comentários do Padre Amorth. Dia 28, porém, o seguinte, da mesma fonte:

Cidade do Vaticano, 28 mar (EFE).- Os ataques contra o papa Bento XVI devido ao grande números de acusações contra padres pedófilos são sugestões de Satanás, ao menos foi o que afirmou neste domingo o sacerdote exorcista Gabriele Amorth, de 85 anos.

Amorth, um dos mais famosos exorcistas do mundo, disse a rede de televisão “News Mediaset“, que “não existe dúvida alguma” que os ataques da imprensa internacional ao Pontifíce nos últimos dias “foram sugeridos pelo demônio”, já que se trata de um papa maravilhoso, digno sucessor de João Pablo II”.

Ele acrescentou que o demônio “utiliza” os padres para atacar a Igreja, pois a odeia de morte por ser “a mãe dos santos”.

Antes disse, textualmente, em reportagem divulgada, como se diz, por «agências»,

« Muitos prelados não crêem no demônio e inclusive chegam a dizer em público que o inferno e o demônio não existem. E, contudo, Jesus, no Evangelho, fala disso abundantemente, pelo que caberia se perguntar se não leram o Evangelho ou se absolutamente não crêem nele! »

« Sacerdotes, monsenhores e também cardeais. Sei por pessoas que conheceram isso diretamente. E além do mais é uma coisa “confessada” em outras ocasiões pelo mesmo demônio, sob obediência, durante os exorcismos », explica.

Não acreditar no Meu Nome e Legião seria a mesma coisa que militar no exército do Solto-Eu.

É quase a mesma lógica da diplomaica de Bush ibn Bush: «se não estivestes conosco, estás com os terroristas.»

Em fim: O locus de responsibilidade mudou dramáticamente no intervalo, desde os generais até os sargentos, não mudou?

Parece uma repetição da greve dos controladores aéreos, não parece?

Entre o primeiro momento e esse último, o Vaticano descolou outro exorcista, o Padre Fortea, para reclamar fatos concretos para fundamentar as denúncias.

ROMA, 02 Mar. 10 (ACI).-El conocido sacerdote y exorcista español Juan Antonio Fortea, respondió a la afirmación de otro famoso exorcista, el italiano Gabriele Amorth, de 85 años, quien señaló hace unos días que “dentro del Vaticano también hay satanistas“. El P. Fortea dijo que este tipo de afirmación tiene que probarse y que si bien entre los purpurados puede haber algunos “más terrenales”, “de ahí a afirmar que algunos cardenales son miembros de sectas satánicas hay un trecho inaceptable”.

En una entrevista concedida al diario italiano Il Foglio el pasado 28 de febrero, el P. Gabriele Amorth dijo que la existencia del satanismo en el Vaticano es algo que sabe por “personas que lo han conocido directamente. Y además es una cosa ‘confesada’ en otras ocasiones por el mismo demonio, bajo obediencia, durante los exorcismos”. Asimismo indicó que esto es algo de lo que el Papa Benedicto XVI “ha sido informado. Pero hace lo que puede”.

Um dia a autoridade resta nos alicerces dos mistérios da Fê.

Acredite porque acreditando, salva-se.

Outra dia resta nos alicerces da Razão.

Não acredite cegamente, senão você cai na arapuça do Sempre-Sério.

Uau.

So here I am, in the middle way, having had twenty years—
Twenty years largely wasted, the years of l’entre deux guerres
Trying to learn to use words, and every attempt
Is a wholly new start, and a different kind of failure
Because one has only learnt to get the better of words
For the thing one no longer has to say, or the way in which
One is no longer disposed to say it. And so each venture
Is a new beginning, a raid on the inarticulate
With shabby equipment always deteriorating
In the general mess of imprecision of feeling,
Undisciplined squads of emotion.