Gringolândia Sempervivens e o Mito-Maoismo do Paraiso Liberal

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Sónia Racy, no Estadão de hoje, demostra o conceito de «maoismo digital» com a coluna Turista acidental.

Um dos feitos de que Carlos Minc se orgulha, ao deixar o governo: a promoção do turismo nas unidades de conservação da União. “Conseguimos aumentar de 3,5 milhões para 4,5 milhões o total de visitantes”, contou ontem à coluna o agora ex-ministro do Meio Ambiente. Graças ao programa Turismo nos Parques.

Ainda assim, lamenta, o Brasil está muito longe do ideal — basta dizer que esse número, nos EUA, chega aos 140 milhões. “Lá a frequência é alta, a proteção também. E a operação dá lucro. Aqui a frequência e a proteção são baixíssimas e ainda dá prejuízo.”

Não custa lembrar: no Hemisfério Norte, os parques são privados, com fiscalização e gerenciamento público.

Sofisma pura, com alto nível de menosprezo pelos fatos.

Cabe mencionar logo no começo, por exemplo, os graves problemas ambientais causados por tamanha frequência — uma situação longe de ideal.

O Vale de Yosemite, por exemplo, está altamente poluido por causa dos carros que levam as turistas para lá, levando à erosão das famosas escarpas. Medidas foram tomadas para aumentar o  uso de transporte coletivo.

Mas o responsável pelas 359 unidades de conservação ambiental e histórica — dos quais 59 parques nacionais — é o National Park Service (NPS), uma agência do Departamento do Interior, do executivo federal..

Existe, é verdade, um sistema complementar de 49 National Heritage Areas — áreas de patrimônio nacional — administrados como parcerias pública-privadas por governos estaduais. Isso é uma inovação muito recente, e talvez bem-vinda.

Essa área de conservação são estabelecidos por legislação federal votado na Câmara e o Senado, com o NPS e outras agências federais servindo de fiscais de última instância.

No contexto de legislação baixado em 2008, essas PPPs recebem verbas federais, apoio técnico, e serviços de planejamento do NPS e da pasta do Interior, com verbas aprovadas pelo Congresso.

A legislação autoriza o Secretário do Interior a fechar contratos com governos estaduais, locais e tribais, assim como a sociedade civil e o setor privado, para identificar e conservar terras precisando de proteção que formam parte do ecosistema de um parque nacional mais à mesma vez ficam fora da jurisdição federal formal.

Para receber verbais federais, esse projetos tem que se encaixarem nos critérios do NPS e a legislação ambiental.

Não pode, por exemplo, declarar a sua fazenda como parque histórico porque George Washington pegou emprestado um cavalo do seu bis-bis-bis-bis-tio-avô. O verme común não conta com espécie em extinção.

Eu acho a legislação boa, equilibrada, prática, e bem-projetada, em geral, sem saber de todos os detalhes ou eventuais brechas — que sempre haverá.

Como antigo escoteiro, com patente de Urso, como é que eu não acharia? A cultura da conservação de patrimônio público vem de longa data, fruta da influência de naturalistas como John Muir e jornalistas pioneiros sobre governos federais de vários partidos.

Ainda está cedo para avaliar como funcionará o esquema na prática, porém.

Ainda assim, eu posso citar um exemplo legal desse tipo de iniciativa.

Logo ali onde eu trabalhava alguns anos atrás, tem a velha taverna onde o General Washington se despediu das tropas. Um prédio do século XVIII, preservado com verbas provindo de várias fontes, governamentais e privadas, ainda funciona como restaurante.

Os mandões de Goldman Sachs, na mesma Rua Pearl, podem ser vislumbrados lá de vez em quando.

O primeiro prédio do Congresso nacional ainda ocupa a esquina com a rua Wall, frente a bolsa de valores.

Durante nossa última viagem a San Francisco, levei a minha mulher para o Bosque de Muir.

Sentir aquela clima quase-religiosa na sombra das sequoia sempervivens é algo  muito impressionante. Se puder, vai lá. Quinze minutos do centro, atravessando a ponte do Golden Gate, a floresta primordial. Mais bacana impossível.

Mas de que a Sónia Racy está engajada em sofismas aqui, ou espalhando-as acriticamente,  não cabe dúvida.

  1. Os parques EUA tem 140 milhões de visitantes
  2. Os do Brazil tem 4.5 milhões
  3. Os parques dos EUA são privatizados e dão lucro (mentira)
  4. Os do Brazil são, ou estão sendo, federalizados, e não dão lucro

Post hoc, ergo propter hoc.

Nossos parques e iniciativas de conservação têm um século de história.

E seus?

Quantos anos tem o SNUC?

Resposta: 10 anos.

Tenho uma sobrinha daquela idade. Ela é bonitinha, mas ainda não sabe quase nada de nada.

Quanto à initiativa privada, entrentanto, vocês tem os RPPNs, estabelecidos por decreto em 1990, antecipando o SNUC por uma década.

Além disso, quanto foi que vocês fizeram a reforma agrária?

Ainda não fizeram.

Nós ainda temos problemas eventuais de natureza fundiária, mas basicamente resolvemos muitos desses problemas com o Compromisso de Missouri, antes da Guerra Civil, estabelecendo o marco jurídico a ser seguido por novos assentamentos e territórios.

Não evitamos todas as confusões — a «guerra dos pastos livres» — boi x ovelha — no fim do século XIX foi feroz e sangrento. Mas considerando tudo, saimos relativamente bem.

Por meio do Decreto nº 98.914/1990, ficou atribuída ao IBAMA a competência de reconhecer estas reservas particulares, a partir da iniciativa de seu proprietário, em áreas onde fossem identificadas condições e caraterísticas que justifiquem ações de conservação, pelo seu aspecto paisagístico, ou para a preservação do ciclo biológico de espécies da fauna e da flora nativas do Brasil.

No Brasil, parece que vocês começaram muito mais muito tarde, e tentaram o caminho da iniciativa privada antes de recorrer ao governo federal. Com quais resultados? Sobre isso eu preciso ler mais.

Fico, no entanto, com um impressão geral de sempre: A MÍDia brasileira costuma alimentar a cabeça do brasileiro com mitos fantasiosos sobre minha amada pátria-mãe.

The Big Rock Candy Mountain

No paraiso do vagabundo de ferrovia dos anos 1930, o paraiso era um lugar onde você nunca teve que lavar as meias, e todos os corrêgos jorravam limonáda. Os tiras são todos perna-de-pau. As galinha dão ovos cozidos. Os cãos de fila tem dentes de borracha:

In the Big Rock Candy Mountains all the cops have wooden legs
And the bulldogs all have rubber teeth and the hens lay soft boiled eggs
The farmer’s trees are full of fruit and the barns are full of hay
Oh, I’m bound to go where there ain’t no snow
Where the rain don’t fall and the wind don’t blow
In the Big Rock Candy Mountains

(O grande Burl Ives fez a gravação mais famosa da música. É uma delícia. Está no YouTube, faz um Google.)

Não menos fantasioso às vezes é a imagem que vocês tiram de nosso pais assistindo as telenovelas de Globo.

Como se Miami fosse todo um grande shopping de luxo e não a barra-pesada que realmente é em alguns bairros.

«Seus Problemas Acabaram»

Durante as eleições de 2006 aqui no Brasil, eu fiquei de olho na campanha virtual, assim como estou fazendo esse ano.

E um dos momentos mais memoráveis foi uma série de depoimentos no YouTube em favor de Alckim.

Num deles, uma moça anônima, loira e atraente e se dizendo estudante de direito em Rio, disse mais o menos o seguinte, parafraseado de memória:

Se o Lula ganhar, não quero mais viver nesse país. Ah, se eu tivesse a sorte de nascer nos EUA. Lá, tem o modelo de governança certa. Lá, o mercado é livre para gerar prosperidade e oportunidade social.

E assim por diante.

Depois, a hipoteca podre do John Doe homem trabalhador dos EUA abalou o mundo.

Olhe, não vou discutir o ponto ad nauseam, mas no meu ver, está formando lá em casa um consenso entre progressistas e conservadores, os dois polos da conversa nacional, de que o governo Bush foi um pesadelo sem precedentes de má governança sistemática e proposital.

Os paleoconservadores estão com raiva por causa da ampliação do governo federal, o intervencionismo sob pretextos falsos — são muito «fecha as fronteiras» e «chegar de jogar dinheiro fora pelo bem-estar de outros países»  — e o aumento de impostos sobre a classe média.

Eu concordo com eles, em geral. Sou mais liberal em relação à imigração, porém. Como disse Michael Bloomberg: «Manda os mexicanos embora e a indústria de restaurantes dessa cidade entraria em colapso na mesma hora». É verdade. Quase a inteira população masculina do estado de Puebla mora na cidade, como li uma vez em Harper’s.

Os progressistas lamentam a ampliação do governo no setor militar às custas de programas sociais domésticos, concordam com os paleoconservadores sobre o intervencionismo, e enxergam a questão de impostos pela ótica da evasão indevida de impostos pelas grandes corporaçãoes. Compartilho parte desse ponto de vista também.

Eu até diria em geral que vocês brasileiros não sabem nada de nós.

Só que tem alguns Índios Tupi que realmente nos entendem bem.

Até bem demais, especialmente em questões que levam ao maior constrangimento, sujando nosso bom nome e infinita auto-estima.

Sobre Memes e Maoismos

Portanto, estou pondo esse meme em observação, e estabelecendo um Observatório de Memes.

«Meme»:

Termo inventado pelo zoólogo e geneticista Richard Dawkins no seu livro O Gene Egoísta. Designa uma ideia isolada que se reproduz a si própria utilizando como veículos pessoas e redes tecnológicas como a Internet.

Fonte: Glossário do Weblog.

Eis a falácia antropomórfica de novo, atribuindo vontade e poder de ação a pedras, palavras, computadores, redes.

Sem os pulmões humanos, a palavra não nasce. Sem o meu polegar, essa máquina não ligava-se hoje de manhã. (Verdade que eu posso programá-la para acordar a determinada hora, mais ainda precisa-se de um intervenção human incial.)

Se a ideia tivesse o poder de multiplicar-se sozinho, não seria necessário montar a rede MobilizaPSDB e reclutar milicias de «multiplicadores» para espalhar mensagens.

Isso é um exemplo perfeito do que Jaron Lanier chamou de Maoismo Digital — um ensaio que estou traduzindo para português para Tupi ver.

Na tradução-tropicalização, pudesse também ser chamado de «sebastianismo tecnológico» — uma versão do discurso que eu costumo chamar da «retórica do sublime — ou digamos transcendental — tecnológico.»

Reproduzo alguns trechos do meu primeiro rascunho embaixo.

O exemplo que Jaron usa é um site velho de agregação de conteúdo chamado popurls, para mostrar o vão entre a promessa e o resultado de tecnológias mágicas que superariam a capacidade do cérebro humano.

E popurls? É bom? Estou escrevendo esse texto no dia 27 de maio de 2006. Nos últimos dias um novo método de gestão de diabetes foi anunciado que pode impedir danos neurais. É uma notícia de enorme importância para milhões de norteamericanos. Não aparece no popurls. Popurls relata o seguinte: “Estudante estabelece novo recorde mundial de comer sorvete, sofre a pior enxaqueca de sorvete na história.”

Hoje, na minha contagem, propaganda de empresas de TI constitui 55% das notícias em destaque no site.

A mídia corporativa toda destacava um terremoto em Java. Popurls menciona o evento em alguns lugares, mas enterrado muito fundo dentro da agregação de agregadores de notícias como Google News. A razão por essa mínima menção so pode ser descoberta excavando todas as camadas de agregação para em fim chegar as fontes originais — que são aqueles raros exemplos de reportagens criadas por profissionais que assinam embaixo. No nível de popurls, no entanto, o comilão de sorvete e o terremoto são, no máximo, tratados como igualmente importante, sem contexto nem autoria.

Algoritmos não fazem o papel do «circúito crítico», que dependem de «input» humano para produzir seu «output».

Usuários são quem fazem esse papel — uma vez que não fiquem persuadidos que o algoritmo pode substituí-los, poupando-lhes o trabalho necessário.

Mostrando como é perigoso aquele bicho, Preguiça.

Não é por ocaso que consta entre os pecados mortais.

Jaron bota o dedo no ferido.

Fotocrédito: Ninguém — apesar da referência à sociedade secreta Skull and Bones, da universdade Yale, ao qual pertence tanto Bush abu Bush quanto Bush bin Bush. Cotas pare filhos de antigos graduados estão destruindo a Liga de Hedra.

Como confirmação disso, é só conferir os resultados do concurso annual que sujeita inteligências artificiais ao teste de Turing.

Era uma vez que eu brincava bastante com os «bots» disponíveis na rede, programas que tentam simular conversa humana.

Até os mais brilhantes são vencidos, de longe, por meu gato, com aquele poder que ele tem de fazer um «mão» valer tanto para «abre a porta, porra» e «alimenta-me, seu sádico» quanto «gosto de você» e «aquela mariposa me põe nervosa, posso comé-la?»

Jaron (tradução mambembe minha) —

Leitores dos meus desabafos anteriores darão conta de um paralelo entre meu desconforto com a chamada inteligência artificial e com esta corrida para apagar a agência da pessoa humana e assim ganhar o título do «mais Meta» — o último agregador de agregadores de agregadores de conteúdo. Em ambos os casos, parte-se da premissa que algo bem parecido com inteligência humana está para aparecer em qualquer momento, ou que já apareceu. O problema com essa premissa é que as pessoas são dispostos demais a baixar seus padrões para fazer a inteligência artificial aparecer inteligente.

Assim como pessoas são prontas a fazerem qualquer malabarismo necessário e bancar o idiota para fazer um interface de IA aparecer inteligente — como acontece quando você interage com o notório grampo animado de Microsoft –, as pessoas também estão dispostas demais a virarem acriticas e tolas para fazer de conta que esses agregadores de agregadores sejam coerentes.

A redução de participação política ao papel de «multiplicador de mensagens» do comitê central do Partidão — o cerne da estratégia MoblizaPSDB — é um bom exempĺo.

Há uma lição común a ser aprendida dessa comparação entre a cultura de IA e a atração estranha de coletivismo anônimo na rede. As vastas fazendas de servidores de Google e a Wikipédia são citados com frequência como a reserva de memoria inicial para inteligências artificiais do futuro.

Larry Page e citado hoje, numa matéria apresentada hoje pelo popurls — quem sabe sé a informação proceda ou não — dizendo que uma IA pode aparecer dentro de Google em poucos anos. George Dyson já especulou se tal entidade não existisse já, na Internet, talvez alojado dentro de Google. Mas não quis entrar aqui num debate sobre a existência ou inexistência de entidades Metafísicas. Só quis destacar o quanto é prematuro e perigoso baixar desse jeito as expectativas que temos de intelectos humanos individuais.

A beleza do intelecto humano é que cria ligações entre pessoas. O valor-agregado vem de outros seres humanos. Se começarmos a acreditar que a rede em si seja uma entidade com algo significativo a comunicar para nós, estamos menosprezando esses seres humanos e fazendo idiotas de nós mesmos.

Ele chama a aceitação desse mito como o momento …

… em que o uso da rede ultrapassa os limites da realidade e entra no reino da histéria de massa.

Observatório de Mitomano-Maoismos

Em fim: vamos começar nossa lista de memes dessa temporada eleitoral, recolhidos dos vários lados.

  1. Uma versão mítica dos EUA é o modelo a ser seguida

E o «meme» de vez do continuismo?

Não estou atualizado — esses «memes» não costumam aparecer com destaque na grande mídia, e ainda não acompanho a rede mais discreta de militantes (isso será Fase II desse projeto)  — mas podiamos começar com

  1. Os do Instituto Millenium são «falsos democratas»

Este presupõe, eu diria, o contrário do meme de mudança: que o Brasil precisa de modelo próprio, adequado a sua história e sua situação única geopolítica e determinada por seu povo. Acho que daria para fazer um argumento coerente a partir dessas premissas.

Ainda não vi muitos mitos continuistas anti-EUA nas redes dos petralheiros, embora o Foro de S. Paulo consta como um projeto gritantemente anti-ianquemperialista.

Enrte a blogosfera das petralhas, porém, uma discussão notável recentemente sobre a história da CIA em América Latina, aproveitando a premiação recente de Noam Chomsky. Vamos ficar de olho nas vendas de Moniz Bandeira no Submarino.

Argemiro Ferreira, por exemplo, está fazendo uma série de resenhas de livros norteamericanos sobre essa atuação, a qual está emergindo das trevas após décadas e décadas.

Está emergindo dos porões graças a diligência e civismo de jornalistas trabalhando com o FOIA, a legislação regulamentando acesso público a documentos do governo, e também com a publicação de livros de memórias por velhos arapongas agora aposentados..

Se quiser criar um demônio folclórico poderoso, a CIA presta pela própria natureza — merecidamente ou não.

Está ficando cada vez mais claro hoje em dia que a má fama é bem merecida, infelizmente.

Não consigo ver, como contribuinte, como o estupro e execução súmaria de freiras pelos Contras seria o ato de homens «equivalentes aos pais da nossa Pátria» — alguns dos quais, é verdade, notórios terroristas no sentido moderno.

Esse ato fez uma diferença na minha vida por bem ou mal?

Só uma: em qualquer conversa de boteco, tenho que definir meu atitude logo no começo o arriscar sendo hostilizado. «Faz de conta ser canadense», aconselha a minha mulher. Triste.

Aberto para exploração política, portanto, é o que chamo do Efeito Goya.

«El sueño de la razón produce monstruos»

Consultoria-Cidadão Código-Aberto

Se eu fosse o consultor político dos tucanos, eu diría «afasta-se quanto antes de qualquer discurso e qualquer tática que ecoa o 1964». Ao Olavo de Carvalho, «vade retro, Cujo, Não-Diga, Diogo».

Incrivelmente, aparece que nenhum gênio do marketing brasileiro aprendeu a lição de casa de 2002, 2005 e 2006, após sucessivas derrotas feias.

Aécio, caras, Aécio, e um novo publicitário em chefe.

Brasileiro nem sabe onde fica a Venezuela, a não ser que ele mora no Roraima.

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