Sexta-Feira da Paixão em Nova York: Carne e Osso, Jogado No Lixo

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NY1 é o melhor canal de notícias que conheço.

É o único canal de Nova York que não trata o Brooklyn — é só atravessar uma das duas pontes históricas e bonitas — como país estrangeiro.

Hoje, uma nota sombria.

A prefeitura vai recomeçar a busca pelos restos mortais de vítimas dos ataques contra as Torres Gémeas.

Autoridades começam a trabalhar sexta-feira que vem no depósito de lixo de Fresh Kills, no bairro de Staten Island.

Trabalhadores vão peneirar materiais tirados do site dos ataques durante os últimos dois anos.

Tentativas anteriores de busca foram conduzidas em Brooklyn, uma operação terminada em 2007.

A questão de respeito pelos restos das vítimas é, para mim e para muitos de nós, um ferido aberto.

Para mim, também representa o divisor de águas entre conservadores e neoconservadores.

Nosso prefeito na época, ávido para alavancar a tragêdia em proveito político próprio, apareceu muito e deixou o governo federal utilizar o site como palco político para campanhas de pânico moral infinitamente sem-vergonha. Foi ele que convidou o partido encenar seu congresso de nomeação na cidade.

Foi o próximo prefeito, Mike Bloomberg, também um Republicano naquela época, quem começou a recolher os restos.

Giuliani, sob pressão do «lobby» imobiliário, mandou fechar o sito poucas semanas após os atentados.

A badala Torre de Liberdade, 1.776 pés de altura e projetado por um arquiteto que não consegui entregar um projeto que podia ser construido, era para começar construção imediatamente.

Quase dez anos depois, construiram alguns dez andares.

Esse atitude de Giuliano provocou uma cena que lembru muito o confronto da Polícia Civil em greve e a PM aqui em São Paulo.

Bombeiros — um corpo independente é civil entre nós — recusaram a abandonar o site até achar os restos dos companheiros e as vítimas.

Giuliani mandou sua polícia — chefiada por um cara que, indicado para subsecretário federal de Segurança da Pátria, teve que tirar o nome por causa de ligações mafiosas — tirar os bombeiros.

Rolou uma briga arruaceira.

Uma das coisas mais triste que já — até mudar para São Paulo, quer dizer.

Machões chorando como crianças e brigando como cão de fila.

O pior foi quando a televisão começou a mostrar que pedaços sangrentos de cadáveres, muitos deles, estavam entre o entulho sendo jogado fora.

Imagine isso, se puder. Pode jactar-se dos cadáveres esquartejados de Espirito Santo se quiser, mas estamos falando de milhares de pedaços de milhares de pessoas.

Giuliani: filho de puta do século XXI.

Nem tem que aguardar o nascimento de potenciais concorrentes.

Estou feliz vendo  sua carreira política na lixeira da história ao lado dos pedaços de carne humana.

Marvada carne.

«I Like Mike»

Bloomberg, entretanto, contra os mandamentos do Partidão, criticava os Teatros de Terror maoistas encenados na cidade, para CNN ver, implacevelmente e sempre, em transporte coletivo.

Cada dia, pegando o metrô rumo à Prefeitura, Mayor Mike dava entrevistas à TV, acalmando a população, denunciando desinformação do governo federal, e dando uma avaliação de risco simples, coerente e equilibrada, sem esquivos.

Enfrentado com a greve dos sindicatos de professores da rede pública — sindicatos daquele pessoal comiam seus  pacatos sindicatos para almoço e ainda pediam sobremesa — contra as reformas que ele propunha, o prefeito negociava duramente, e rolou uma baita de uma guerra de palavras — até palavrões — mais não houve violência.

Muito menos houve a infiltração de policias a paisana dentro dos sindicatos — como aconteceu com manifestantes contra o congresso do Partidão em 2004, quando a polícia de Giuliani ainda mandava no pedaço. Houve um grupo de vovozinhas pacisfistas em Oregon infiltrada pelo FBI, que só pude relatar que comiam bastante bolachinhas caseiras e pensava em chavões antiguerra. Que mais fariam? São pacifistas.

Eu estava lá, nas ruas, com meu «camcorder», em 2004

Eu vi o delírio tudo.

Até consegui penetrar o labirinto de segurança até o Hotel New Yorker, frente ao Centro Javits.

Terminado o expediente, andei á pê desde Battery Park, só para sorver o Zeitgeist do dia. Como eu parecia um cidadão qualquer — o que, de fato, sou — a polica me deixou passar, para chegar ao Penn Station e pegar o metrô.

Lá no New Yorker, comi um bife e tomei alguns uisques escoceses da boa, assistindo os discursos na TV

Assisti o Democrata apóstata neoconservador Zell Miller desafiando o áncora de MSNBC a um duelo, ao vivo, em rede nacional.

Papo sério. Porra louca, essa turba.

Ao meu lado no bar, os operadores políticos, com seus ternos negros, três celulares, e gel nos cabelos, além dos técnicos maconheiros «paz e amor»  da CNN e um punhado de viajantes de moda — a freguesia habitual do lugar — meio desnorteados.

Estou muito emociado, pensando naqueles dias.

Saudades de Gotham.

Baita saudades.

Bloomberg — dono de um imperio midiática global quase-hegenônico, e agora desafiliado dos dois Partidões e independente — é em minúsculo democrata e um anti-Berlusconi.

Por isso votei no cara apesar de não concordar com tudo que fazia ou faz.

Achei que a máquina Democrata tradicional da cidade precisava de concorrência séria, para variar.

Estu meio zangado com ele agora, porém.

Isso de terceiro mandato — que nem Fiorello La Guardia — é um pouco além da conta.