O Shopping e a Comunidade: A Campanha Digital e o Equilíbrio de Forças Virtuais

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Ainda não confirmei o fato que mereceu duros críticos ontem do blogueiro da Veja: Que o guru e a agência contratados pela candidata — alegadamente uma organização nebulosa engajada em práticas escusas — de continuismo vão trabalhar com Blue State Digital, agência da campanha Obama 2008.

O argumento central do Tio-Rei-Diogo, resumido:

Eles vão praticar a guerra suja na rede, e portanto a necessidade da nossa guerra suja na rede.

É mais uma versão do mito utilizado pela rede de blogueiros anônimos que consta no «blogroll» do Instituto Millenium ou dentro de dois graus de separação:

Os trezentos contra os exércitos de Xerxes do Lulismo

Quanto a «colaboração» com consultores gringos, pode ser verdade — ou mais provavelmente uma meia-verdade, em termos jurídicos — mas por enquanto ainda estou tratando-o como mais um factóide «em observação».

Aze(ve)do faz várias ilações encima desse factóide, com os quais não pretendo gastar meu precioso orçamento de tempo e atenção. O nível de inverdades virais no jornalismo daquela turba sobre um longo período de tempo, praticadas com uma consistência remarcável, faz com que eu só bebo agora de fontes filtradas. Para evitar a vingança de Montezuma. Prática recomendada para qualquer gringo em paises tropicais.

Mas os novos — para mim — fatos, pelo menos, ajudam a avançar um pouco na construção de nosso modelo básico para analizar o uso estratégico de mídias alternativas e a rede nas eleições desse ano (acima).

Lembre-se de que tomamos emprestado um método de categorizar redes segundo dos eixos: (1) hierárquicas ou não hierárquicas e (2) abertas ou fechadas. Este análise — simplificado demais, mas útil como uma orientação preliminar — leva aos quatro «ideal types»:

  1. Círculo de elites (fechada, não-hierárquica
  2. Consórcio (fechada, hierárquica)
  3. Shopping (aberta, não-hierárquica)
  4. Comunidades (aberta, hierárquica)

Dá para ver, entretanto, como funciona a tentativa de polarizar a campanha segundo a dicotomia

  1. Foro de São Paulo
  2. Anti-Foro de São Paulo

Pepper, a agência de Lulismo desde 2006, diz ter assessorado a candidatura bem-sucedida do FMLN — participante no Foro — à presidência de El Salvador em 2009.

Segundo Lula, isso seria um exemplo do trabalho do PT no sentido de transformar esquerdas armadas em esquerdas capazes de assumir poder por via eleitoral.

Para Olavo de Carvalho, isso seria um exemplo da exportação do bolshevismo ao resto do continente pelas hordas de Luiz $talinácio. Mas o filósofo-rei gnóstico da diaspora brasileira nos subúrbios de Washington, D.C., tem uma certa tendência ao exagero.

Eu vou estudar aquela campanha, em qualquer caso.

Agora, olhando o esquema lá encima, se haverá colaboração ou não com Blue State, dá para ver que tem uma certa convergência de interesses e temas de natureza econômica.

Além da campanha de Obama em 2008, os projetos em destaqueno site da agência digital são

  1. Campanha para uma entidade de classe de empresas de comunicações convergentes
  2. Campanha para um sindicato de trabalhadores em comunicações (CWA) representando 700,000 trabalhadores

Ambas entidades fazem campanha contra a cartelização e concentração dos setores convergentes de mídia e TI.

Contatos entre o base sindicalista do PT e o instituto sindical do National Endowment for Democracy, ligado ao AFL-CIO, são possíveis, e até prováveis. Vou olhar quando der tempo.

A campanha do sindicato levou o nome de «Speed Matters» — a velocidade é importante, é o assunto.

Traduzo um trecho do manifesto da campanha:

CWA acredita que a concentração entre fornecedores de acesso à internet apresenta riscos tanto econômicos quanto sociais para nosso país. Perante a crescente corporatização do setor de banda larga, os EUA já caiu ao décimo-sexto lugar no mundo em termos de acesso a redes de alta velocidade, o que faz da questão de acesso igual uma questão também de nossa capacidade de concorrer no palco internacional. Dentro de um marco global no qual atividades econômicas de alto valor-agregado são cada vez mais dependentes da rede, nosso sindicato acredita que a democratização de acesso também é uma questão de equidade econômica e justiça social.

A outra campanha, T4US, realizada para um coalização liderada pela ATT, é descrito assim (tradução minha):

Para razões históricas, o setor de TV a cabo tem um regulamento distinto do regulamento de outras indústrias de comunicações. Um sistema de franquias, tipicamente operando ao nível do munícipio, mantêm o monopólio sobre mercados locais.

Esse sistema protege os interesses de certas partes entrincheiradas — notávelmente a meia-dúzia de grandes empresas de TV a cabo, que tem enormes investimentos em infraestrutura a amortizar — mas dificulta a entrada de outros fornecedores, grandes ou pequenos, de maneira sustentável.

Uma coalização de 30 grandes e pequenas empresas de telecomunicações, liderada pela AT&T, mobilzou para tentar mudar o marco regulatório. Por razões diferentes, provindo das circumstâncias divergentes dos participantes, todos acreditam que uma combinação de regulamento uniforme, livre concorrência no fornecimento de conteúdo, e o desligamento do conteúdo de infraestrutura (como acontece no caso de outras utilidades públicas) faria possível entrar nesse mercado ou concorrer com mais eficácia para franquias de cabo.

Ora, do ponto de vista do consumidor, não é difícil entender o assunto.

Nós vivemos agora  num bairro onde tem duas opções — NET ou Speedy.

Speedy chegou a derrubar o e-governo do estado se São Paulo uma vez, e além disso, fez uma sacanagem com minha sogra — viúva e cardíaca — que a gente não perdoa.

Abriram uma assinatura de Speedy para ela que ela não pediu, dizendo que foi a responsabilidade dela navegar o labirinto de burocracia necessária para cancelar.

Então, o que a gente sente é que é ou NET ou nada — apesar da asimetria do serviço que faz dos 8 Mb prometidos uma meia-verdade menosprezível.

Em Brooklyn, saudoso Brooklyn, temos a sorte de viver num bairro one o concessionário é uma empresa ótima — 10 Mb, indo e vindo, confirmado independentemente com Speed Test.

Mais se não tivessemos essa sorte, voltavamos ao império do mal — não cito nomes — que controlava nosso velho bairro.

Portanto, o argumento de que Nova York não é mais uma cidade controlada por gangues e mafias de bairro funciona bem conosco.

Próximos Passos

Assim como comecei com o palpite que achariamos as impressões digitais do NED na campanha do Instituto Millenium — as quais de fato desubrimos — tenho o palpite que acharemos as impressões de George Soros na contra-campanha.

Como observei, a partir de um relatório preparado por CIMA, o braço de «desenvolvimento de mídias livres e independentes do National Endowment for Democracy, Soros hoje é o grande contrapeso entre doadores privados nessa área.

Esta soma cresceu a $50 milhões no ano seguinte, enquanto a fundação Packard — de Hewlett-Packard — entrou em cena com $3 milhões, fortalecendo a aliança TI-Jornal 2.0.

Está na hora de mandar a aranha explorar a teia institcional do OSI — os exércitos de Karl Popper contra os exércitos de (uma versão distorcida de) Hayek.

Aposto que Skaf, da FIESP, conheça George.

Talvez seria interessante começar com o projeto Discover the Networks — um grupo anti-Soros responsável pelo orgão neoconservador Front Page. Essa semana: «Obama é amigo de jihadistas »

O projeto divulga uma lista de redes globais na qual o grupo Soros cotovela al-Qaeda e Hamas.

O site tem uma lista de «quinta colunistas» que almejariam a derrota dos EUA na Guerra Contra o Terror. Entre eles

  1. Noam Chomsky
  2. Ramsey Clark
  3. A turma de Counterpunch
  4. Institute for Public Accuracy
  5. Center for Constitutional Rights
  6. John Pilger
  7. Michael
  8. Eu

Pode falar mal de Michael Moore o quanto que quiser: eu acho os filmes dele manipulativos.

Mas já assisti uma palestra de Pilger, leio a Counterpunch, e tenho uma cópia de Manufacturing Consent. Conheço alguns críticos sensatos de Chomsky, porém, e não me chamaria de um Chomskista da linha dura no sentido político, apesar de respeitar profundamente seu trabalho de campo midiático.

(Na linguistica, também, embora aquilo ser outra praia.)

Essa turba barulhenta e assumidamente trotskista é a fonte original do discurso de Mídia sem Máscaras de Olavo de Carvalho, segundo o qual a mídia brasileira tem um viés esquerdista que os bons soldados como Ali Kamel precisam reprimir com «mão dura em luva de pelúcia».

(A frase é de Gilmar Mendes após as eleições de 2006, quando presidia o TSE.)

Um jornalista egresso da rede CBS que milita agora no movimento do qual a Front Page serve de Pravda escreve, por exemplo (minha tradução):

A valididade do velho argumento de que as emissoras e outras «elites da mídia» tem um viés «liberal» é tão gritante que não vale a pena discutí-lo mais. Não, não nos escondemos em cantos escuros para planejar nossas estratégias para manipular as notícias. Não é preciso. Entre a maioria dos jornalistas, é um instinto natural.

Uma pesquisa lançada recentemente aqui pretendeu mostrar um corpo de profissionais do jornalismo brasileiro «pró-Lula», mais os números não fundamentam essa conclusão — são muito menos aptos a chamar o governo de «bom» ou «ótimo» do que a população em geral.

Compare:

MÍDIA SEM MÁSCARA é um website destinado a publicar as idéias e notícias que são sistematicamente escondidas, desprezadas ou distorcidas em virtude do viés esquerdista da grande mídia brasileira. Embora sem recursos para promover uma fiscalização ampla, MÍDIA SEM MÁSCARA colhe amostras, que por si só, bastam para dar uma idéia da magnitude e gravidade da manipulação esquerdista do noticiário na mídia nacional.

Esse discurso, e o discurso do movimento Millenium como um todo, é «made in the USA».

Não cabe dúvida.

Veja também:

A turba atrás desse projeto, que concentra muitas das figuras-chaves da linha dura do neoconservadorismo, é também responsável pela campanha Campus Watch — patrulhamento ideológico pró-Israel nas grandes faculdades.

Um reflexo disso foi o orgão samizdat pioneiro do movimento, Heterodoxy — folhetim que plantou as primeiras mudas da doutrina do «Choque de Civilizações», tão útil depois na campanha justificando a invasão de Saddãolândia.

Semanas antes do começo da invasão, tres tercerios do público americano achavam Saddam o responsável pelos ataques do 11 de setembro.

Como arabista-latinista-romancista medieval, eu já encarei esse movimento — apesar de apresentar tanto os livros mais divertidos e comoventes do Velho Testamento quanto as Mil e Umas Noites em minhas aulas de literatura mundial para calouros.

(Eu comecei a estudar o hebreu, mas não consegui a bolsa de que eu precisava para realmente aprofundar meus estudos. Ainda tenho a gramática aqui.)

O departamento de Estudos da Oriente Média era rachada, fisicamente, entre uma Cisjordânia (hebreu) e uma Transjordânia (árabe). O Rio Jordão era o salão de café — sempre vazio. Não houve convivio.

Eu sempre ficava longe do lugar.

Próximos Passos e Perguntas

Embaixo, um mapa um pouco mais elaborado:

Para mim, o grande interesse é o reprise de uma batalha de 20 anos atrás, essa vez na arena eleitoral, entre o modelo da Revolução Reagan e os rebeldes anti-ianquimperialistas do Sul Global.

E para mim, a grande pergunta é como a ciberguerilha — ou talvez melhor seria chamá-lo de contra-insurgência — do continuismo será conduzida.

Como ja disse, se a política editorial do blog de Claudio Weber Abramo pode ser lido como uma previsão de táticas, a campanha deveria ser uma militância assumida, sem clandestinidades de «aloprados».

Uma questão ligada a esta será a Hipótese Aze(ve(ja))do:

Eles, tal como nós, importam modelos de organização «made in the USA»

Verdade ou não?

Como julgar?

Só lendo blogs de todos os lados, no contexto das redes nas quais vêm embutidos, hemos de saber.