Propaganda Clandestina e o IVC: Contando Mais Casos

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Tõ feliz ver o pessoal lendo aí minha crónica de hoje sobre os autoreguladores-mores da propaganda brasileiro, do IVC.

Como já mencionei, o modelo de governança praticado pelo verificador de circulação é bem diferente do modelo ao qual estou acostumado.

Era uma vez que eu acompanhava a indústria de perto, e ainda estou me atualizando, mas fica claro que o princípio básico da diretoria independente é menosprezado como um «marco regulatório Propaganda 1.0 ultrapassado» pelos generalíssimos do marketing guerrilha brasileiro.

«Vocês não entendem! A Internet muda tudo!»

Como diz nossa advogada-jurista californiana sobre este argumento:

Argumentos encima de eficiênca econômica pela liberação de propaganda clandestina presumem que as informações de anunciantes serão precisas e melhorão o processo deliberativo do consumidor. Mas uma vez que propaganda enganosa continua até em mídias tradicionais, essa premissa não resiste. Propagandistas fazendo uso de práticas enganosas na imprensa ou TV provavelmente optarão para usar práticas parecidas na rede.

Cito como testemunhas alguns outro casos de campanhas clandestinas praticadas pelas agências, anunciantes e vehículos representados no Conselho Superior.

Brasigo, a rede social do Grupo Estado, parece ser uma plataforma de propaganda semi-clandestina, por exemplo:

Uma anônima saudosa quer falar das associações infantis que tem com um produto de limpeza — do integrante do Conselho Supeior Reckitt Benckiser. Em dez meses, porém, só ganhou 28 visitas — inclusive 4 visitas minhas — e três respostas.

Incluem uma pista sobre o patrocínio na navegação da página, é verdade — «brasigo e parceiros barra pesquisas» — mais o personagem perguntando é Joana D’Arc Ninguém.

O Novo Estado Digital é também vislumbrado premiando atos de propaganda clandestina e enganosa no nome de marketing guerrilha. Santa Clara, por exemplo — outro integrante do Conselhor Superior — foi premiado em 2007 como embusteiro do ano.

Moralizando Santa Clara

Outra coisa que me estranha é o caso da diretoria de ética, onde consta

  1. uma agência que representa titãs da industria de automóveis, e
  2. uma editora que faz cobertura dessa mesma indústria

Sem uma terceira parte na sala, podemos ter confiança que jabá não rolara. Tenho, aliás, uma ponte histórica de Brooklyn a venda, a pechincha do milênio, vocês topam?

O dono desta agência, Gilberto dos Reis — o cantor não é — é diretor executivo do Clube de Criação de São Paulo, que em 2007 premiou a agência Santa Clara para brinde «com objeto de valor» distribuído a jornalistas de sem-nomes «vehículos».

Pessoal do Estadão et caterva receberam o brinde também? Pessoal da Terra, que hospede o CCSP no seu portal?

A agência foi premiado pelo Grupo Estado no mesmo ano para um campanha de propaganda clandestina que tentou livrar a cara de SomLivre, gravadora das Globo, da fama de ser «corporativa» demais.

Não deu certo, parece.

Mas quem sabe que o cético não fosse algum concorrente falando mal do estilo pouco alternativa da Globo?

O site da agência Santa Clara põe em destaque uma série de personagens sem cabeça, perguntando «quem gostaria que contasse sua história?»

Juro que vi esse mesmo conceito no site de uma agência guerrilha de Nova York, uns oito anos atrás, mas não tenho certeza.

Parece quer dizer, «nós podemos impersonar qualquer demográfica-alvo sem expor a autoria da sua empresa — dita pelas pesquisas não ser confiada pelo consumidor — dando a impressão de que nossas recomendações vem de pares».

Olhem as camadas que têm que ser negociadas até chegar ao autor da propaganda.

  1. Uma busca de Google que leva a
  2. um foro social no Yahoo! onde
  3. a “resposta mais votada» de Len — uma caricatura anônima — recomenda
  4. um vídeo de YouTube que consta
  5. num canal especial da
  6. marca FunkTube agregando vídeos de funk, dito
  7. do usuário santaclaraalgoalgo, com kkkkks e aquela gíria toda de internautas jovens, que remete o usuaŕio ao
  8. site da gravadora, que está no site da
  9. Vênus Pratinada

Eu, hein?

Autohagiografia por Procuração

Essa agências também parecem promover suas próprias campanhas com vários sites de «notícias sobre o mundo de propaganda», com anúncios de novas campanhas que acabem sendo todos clientes da mesma agência patrocinadora.

O modelo «cadeia de tolos» também consta na moralização mútua que liga vários atores um ao outro nesse cénario.

  1. Meio & Mensagem, com
  2. patrocínio marca Master
  3. este também o nome de um curso da FGV que patrocinia — de
  4. Veja (Abril) e
  5. R7 (Record),
  6. indica Nelson Sirotsky do
  7. Grupo RBS (Globo, em parte)
  8. para seu Prêmio Caboré.

Vende-se Qualidade?

Patria Comunicações, integrante do Conselho Superior — que está prometendo uma certificação ISO 90001 no futuro (hoje só amanhã) — tem como cliente a Fundação Nacional de Qualidade, que certifica um grande número de empresas em certas padrões de excelência que não me são familiares.

O que parece quer dizer: «Não temos certificação ISO mas temos padrões igualmente confiaveis».

A FNQ se diz rigoroso quanto aos conflitos de interesse:

«É rigorosamente vedado aos membros da banca examinadora:

  1. aceitar a designação para participar da avaliação de uma organização candidata, no processo do PNQ, se houver ou puder parecer haver qualquer situação de conflito de interesses, em vista de fatores objetivos e subjetivos que possam ser ou parecer impeditivos de uma avaliação independente e imparcial. … »

Patrocinadores da FNQ incluem

  1. Itaú
  2. Natura
  3. Cemig
  4. Santander
  5. CPFL Energia
  6. Grupo Fleury
  7. Promon
  8. Brasal

CPFL e Brasal forma premiados pela Fundação no ano passado.

De fato, várias subsidíarias da CPFL tem sidas premiadas quase cada ano durante a última década.

Não duvido que haveráo mais casos a contar.

Mas hoje só tenho isso.

Certidão de qualidade só amanhã.

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