O Discurso do Contra-Golpe

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Eu vou repetir o que disse para inglês ver outro dia.

Marco Auréilio Mello, defenestrado da Globo pela mão de ferro em luva de pelúcia de Ali Kamel e abrigado pela rede Record, virou um autor de samizdat tanto interessante quanto irritante.

Pela segunda vez que eu saiba, ele oferece uma dica intrigante, embora divulgada em tom conspiratória.

Diz ter recebido, em envelope deixado na parabrisas do seu carro, o que parece ser uma apresentação tipo PowerPoint do Instituto Mellenium, com cabeçadas típicas de um e-mail.

Ele diz ter reunido com amigo hacker e mostrado o documento para ele. O hacker conseguiu saber várias coisas sobre o autor da mensagem. Mais ele não compartilha nem a mensagem nem o análise conosco.

Essa drama toda de romance de 007 é muito Globo, muito Caco Barcellos de «Globo Repórter».

Virou um lugar común nos últimos anos dramatizar o trabalho do jornalista, fazendo o processo de apuração parte do enredo da reportagem — especialmente em veículos com falta de credibilidade. O repórter é telenovelizado como protagonista romántica.

Eu sempre acho que quando o repórter vira parte da reportagem, corre o risco de perder a capacidade de relatá-la. Pergunte ao Dan Rather.

Em fim: podes tirar o homem da Globo, mas dificilmente tirarás a Globo do homem. É por isso que Record parece cada vez mais um anti-Globo nos mesmos moldes da Globo, só com viés diferente.  Podes crer.

Ainda assim, podemos dizer, no mínimo, que o teor do manifesto é consistente com todos que sabemos sobre o discurso e as táticas do Instituto Millenium. Portanto, eu o reproduzo para fins analíticos.

1. A criação imediata do Instituto Millenium, que reuna pensadores capazer [sic] de forjar um discurso de forte apelo emocional, preferencialmente atemorizando a opinião pública.

Sugere que o documento pode ter saído do IEE, uma vez que o presidente do primeiro é o presidente do último.

2. A criação de meios de reduzir o campo de ação dos guerrilheiros (regulamentação severa, censura e manipulação).

A rotulação das forças de continuismo de «guerrilheiros» é meio ridícula.

O CONFECOM foi um processo deliberativo por meio de consulta pública absolutamente típico de uma democracia desenvolvida.

Quando a SEC — a CVM de Tio Sam — está ponderando uma nova regra, por exemplo, abre um período de comentários, que são divulgados no seu site. Todo mundo, desde os lobbies até professores e investidores individuais, externam suas posições. Você pode aprender bastante lendo os documentos enviados.

É totalmente normal.

Mas os do Millenium fizeram que nem a oposição em Venezuela: boicotaram o processo.

Poxa, amigos, a oposição lá podia ter montada uma bancada a prova de veto, assim freando  moderando o processo ao qual opõem-se. Isso é a garantia dos direitos da minoria que nós nos EUA temos, por exemplo. Se Chávez tentasse acabar com o mecanismo, a oposição teria meu apoio.

Optaram para bancar a vítima e partir pela guerrilha e golpe.

3. O esgotamento da capacidade do adversário de renovar as forças para uma nova ação (sufocamento).

Discurso de TERNUMA.

Mas a estratégia vai exigir de todos esforço considerável e, se a duração for muito longa, o tempo pode ser fator insuportável.

Bancoop já sumiu das manchetes, apesar de que o juiza Fausto de Sanctis mandou quebrar o sigilo da cooperativa que ainda não entregou o triplex de Lula. Palpite: vai achar-se gestão bagunçada — causa justa para uma ação civil por parte dos compradores — e nada de criminoso.

Ora, o exagero do perigo como justificativa para práticas clandestinas e subversivas. «Precisamos de nosso anonimato porque somos uma minoria perseguida!»

O passo seguinte seria uma Guerra de Libertação, popular e de forte apelo emocional. Este será o novo cenário, caso nada seja feito a tempo. E as consequências serão a revisão da lei de concessões e a nova dinâmica de distribuição de verbas públicas para comunicação.

O Palocci foi lá e assegurou todo mundo que não era bem assim, mas Palocci, é claro, e «gente que mente».

Isso nos deixa com «distribuição de verbas públicas para comunicação».

Eis o empreendedorismo brasileiro: sem verbas públicas, a coisa não anda.

No caso Mino x Veja, me lembro — causa ganha pelo paisano elegante e velha-guarda que fala com os botões — foi demonstrado que a Veja chegou a receber mais páginas do governo federal do que a CartaCapital — o veículo preferido do governo de Pará, é verdadeem alguns casos.

Se não me engane, o que eu entendo é que o GDF de Arruda passou a maioria de uma verba de comunicação de R$250 milhões para o Correio Braziliense, que anunciou resultado líquido de R$ 10 milhões no mesmo ano.  Décimo-terceiro para todo mundo!

Ja. Ba. Cu. Lê. A coisa está feia.

Eu tenho a solução: Acabem com verbas públicas para propaganda governamental. Para divulgação de atos de orgãos do governo, imitem o modelo de C-SPAN — um serviço público dos operadores de TV a cabo, de baixo custo. Eles simplesmente montam uma videogravadora na sala, ligam, e pronto. As gravações são disponíveis a qualquer jornalista.

Confesso: sou liberal.

Deixa o mercado livre determinar os ganhadores e perdedores.