«Primeiramente as Fontes Oficiais»: Mais Uma do SINDREPORTAJABAGANDA Brasileiro

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Em um base — corrijo: banco — de dados de blogs passados meus, eu tenho dois documentos que dizem tudo ao respeito da profissão de jornalismo, traduzidos para inglês ver.

Um é uma entrevista com Antônio Carlos Magalhães na qual o Rei da Cocada Branca é indagado sobre seu jeito de lidar com perguntas impertinentes ou desrespeituosas de jornalistas.

Basta um olhar, diz os homem que violou o painel do Senado e morreu um homem livre.

Um momento grotesco.

O outro é um estudo sobre a profissão feito por formandos do Curso Abril de Jornalismo, feito encima de um questionário anônimo distribuido a jornalistas tupiniquins.

Cotovelando as notas de rodapé é um parágrafo fazendo textualmente a seguinte afirmação: «O jornalista brasileiro tem medo de escrever». Dize que seguindo a linha editorial do veículo é menos trabalhoso do que a constante pressão de interesses empresariais e políticos.

Quando eu voltei à página onde o texto foi divulgado par conferir minha tradução, tinha sido retirada do ar.

Estou fazendo agora um programa de pesquisa sobre entidades de classe do complexo política-propaganda-relações públicas no Brasil. Tenho robôs infiltrados nos sites de ABRACOM, SINCO, ABRANET, ABRACOP, e tudo mais.

Não sei como vocês chamam isso — após tanto tempo no Brasil, é impressionante o quanto ainda não sei — mais eu penso nessa atividade como construindo um «beat» — uma área de especialização.

Se vai fazer cobertura de futebol, tem que conhecer os técnicos e jogadores.

Se vai comentar o beiseból, tem que entender as regras — está me ouvindo, ESPN dublado, fonte sem fim de comédia não pretendida?

Está rolando uma baita campanha de promoção do MLB.COM no Brasil hoje em dia, mas na minha primeira viagem pra cá, em Floripa, fiquei surpreso a ver a molecada jogando taco — «cricket»!  — na rua.

Sem você entender a significância das horas e horas de tensa inatividade, o beisebol é a coisa mais chata no mundo!

A mesma regra aplica-se da cobertura de instituições e organizações.

Não passam de grandes equipes jogando um jogo — bonito, espera-se, e muitas vezes é verdade, mas em qualquer caso cheio de sutilezas e nuances.

Tirado do fluxo dos dados entrando em carmemmiranda@macunaimachine (sdb1) essa manhã, o guia mostrado acima, preparado em conjunto por FENAJ, ABRACOM, e UBRAFE.

Dele, eu tiro a conclusão de que a subserviência do jornalista brasileiro é a letra morta de um arranjo institucional.

Não posso ler o trecho seguinte sem sentir um arrepio.

… o jornalista deve buscar primeiramente as fontes oficiais … a compreensão do contexto do mercado, importância do setor, números de segmento, representatividade e perspectiva são informações concentradas em quem representa o setor como um todo.

«Escrevam o que mandamos escrever».

Putz, e aqui eu sempre entendia que a chave de sucesso era divulgar fatos inéditos que não constam no release.

Vivo uma vida inteira com esse ledo engano. O gasto de energia!

Eu errôneamente achava que era para chegar no evento com uma mestria anterior de todos os fatos ditos concentrados na assesoria de imprensa, filtrando a joia na busca de trigo para nutrir o leitor com alguma novidade.

Não tinha que ser um novo caso Enron. Bastar destacar uma empresa nova cujo sucesso ou fracassso dirá algo importante sobre o equilbrio de forças no mercado.

Era uma vez que Linux na fazenda de servidores era novidade, e Wall Street um pioneiro nos usos mais avançados dele, por exemplo. Putz, contrataram pessoas que planejaram missões a Martes para calcular o ágio do câmbio. Literalmente. Empolgante.

Hoje, o pinguim detem a mesma participação desse mercado que o Microsoft detém do mercado de desktop e produtividade.

E falando no pinguim: e possível hoje em dia mandar robôs para concentrar informaçãoes sobre o setor e sua autodeclarada importância.

Deixando o robô rodar mais seis horas, eu chupo e faço índice de todo o conteúdo, relaçãoes institucioanais e informais, e memeologia da organização, com uns quinze minutos de intervenção humana.

O Diogo Vive Nos Detalhes

Especialmente no caso de empresas listadas na bolsa, era para debruçar sobre os formulários 8-K, 10-K e 20-F, praticando uma hermenêutica sofisticada nas notas de rodapé. Houve um ótimo blog, acho que continua na ativa, chamado de Footnoted, dedicado a essa grande arte.

Fazemos a leitura chata para você não ter que fazer!

Eis a mais-valia: É puro tédio, mandem o nerd fazer e resumir, ele até gosta.

A divisão social de trabalho é parte do complôt comunista agora, por ocaso?

A arte de jornalismo é formular boas perguntas inéditas e impertinentes.

A arte de assessoria de imprensa é antecipar estas perguntas e ter as repostas preparadas.

Assim, fonte e jornalista ficam sempre espertas, alertas e com a cabeça no jogo.

A qualidade do futebol — ou beisebol — é o primeiro beneficiado do fato.

Assessores estilo Toninho Malvadezas não duram por muito tempo.

Tampouco jornalistas estilo Miriam Leitao o Diego Esto … Estogo … Estochol … Escato … aquele vasco ou catalão ou que seja, dito investigativo. Conhecem o cara,  é um nome — mais um testa-de-ferro de vazadores sub-reptícios da Veja.

O Mercado Livro de Sindicatos

Antigamente eu pertencia a ABPE.  Quando um bando de puxa-sacos falando de Jornalismo 2.0, com os causismos medievais de um Di Franco, tomou conta, fui pro SABEW, onde fico muto satisfeito, obrigado.

Vocês, no entanto, não tem escolha, né?

Poxa, bicho, toda minha solidariedade.

Se fosse vocês, eu tinha medo também.

Alguém que passeia cães la na praça kassabificada da vizinhança, por exemplo — da turma de minha mulher no Caspar Hauser — continuava numa editora de revistas conhecida apesar de não ter recebido o salário para seis meses.

Vivia de crédito conseguido através de uma guerra de boataria sobre fusões-fanstasmas.

Por exemplo.

Diz muito ao respeito do poderio e compromisso dos seus SINDJORs e ABREDATs no admirável novo latifúndio de faça-clique lusófono.