Memeologia do Dia: Nós da Comunicação e a Máquina de Zumbido

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José Luiz Schiavoni é sócio-diretor da Agência S2, além de passado presidente e diretor do grupo PRGN, uma rede global de agências de publicidade ao qual a agência pertence.

Um pano rápido da organização de S2 revela um arquivo de releases, uma busca na qual localiza vários serviços feito pelo cliente ENDEAVOR.ORG.BR. Exemplo:

A Microsoft Brasil participa da 7ª Conferência Internacional Endeavor e Anprotec como patrocinadora e palestrante. Com o tema “E agora José?”, o objetivo do encontro é discutir e apresentar lições e casos de empreendimentos que obtiveram sucesso no país. As organizações promovem a geração de emprego por meio do fomento à cultura empreendedora e o uso de tecnologias avançadas. Além do evento, a companhia apoiará trabalhos da Endeavor ao longo do próxim

E agora, disse? Hum.

Schiavoni também é passado presidente e diretor da ABRACOM — com SINCO e FENACON, uma das duas maiores entidades de classe da indústria brasileiro.

O site mais referido pelo site de S2 é Nós da Comunicação, uma «comunidade de conhecimento» aberta — eu acabo de me cadastrar — da indústria de comunicões corporativas.

O site vive nos EUA, na rede de Softlayer, um hóspede que destaca-se pelo alto número de campanhas publicitárias brasileiras que hospeda, estou começando a achar.

Quem são os nós dessa rede?

Nós somos uma comunidade de pessoas, profissionais, estudiosos, estudantes, pesquisadores, gestores, interessados, amantes, afins…  Nós somos uma rede que debate, comenta, discute, pensa, reflete, questiona as intensas transformações em curso na comunicação, nos relacionamentos humanos e, especialmente, na comunicação corporativa.  Nós somos aqueles que analisam, planejam, fazem, realizam, concretizam, mensuram e contabilizam resultados em uma área estratégica para toda e qualquer corporação.

Na verdade, Nós é uma rede específica de agências de comunicação sob a guarda-chuva da ABRACOM — quer dizer, um avatar e portavoz da entidade. Parece repercutir primeiramente notícias sobre grandes clientes e os interesses da classe. Ou assim me parece.

Hoje, na capa da Nós, o príncipe do marketing de zumbido — «buzz» — Jeff Jarvis. Achei que seria um bom exercício hoje comentar essa capa no contexto das redes que condicionam seu conteúdo.

Vamos comentar os assuntos em destaque hoje, entãõ.

Infelizmente, não houve matéria de capa dobre o iPad, embora uma busca rápida revela 25 matérias sobre o assunto. Há uma coluna dedicada à «bugiganga mágica», como tanto Veja quanto Steve Jobs vivem chamando-a.

Também teve isso, de um site que au acompanha para realmente ser informado:

«Revista GQ vende somente 385 edições feita especialmente para donos de iPad.». Trata-se de uns $1,500, dizem. Embora isso, destaca o redator da revista, o número é quase todo sem os custos de produção da edição em papel luxuoso! É «pure profit»!

É, mas se a revista imprensa custava 0,25% da custa de um iPad, seria demais.

Aos assuntos: além de Jarvis, temos

  1. Liberdade da imprensa com o executivo de TV Globo-RJ, ABRAJI e uma organização internacional pela segurança de jornalistas, Marcelo Moreira
  2. O Reputation Institute
  3. Masters em Jornalismo
  4. Geração Y

A Câmara de Eco e a Máquina de «Buzz»

Eu me lembro de conversar com Jeff uma vez sobre um possível pauta — redes sociais no setor financeiro — após uma palestra que ele deu no congresso do SPJ em 2004 — entidade do qual saí quando prêmiou Judith Miller como heroina de liberdade de expressão.

Judith Miller foi pra cadeia para proteger uma fonte que depois foi responsibilizado criminalmente pelo vazamento ao qual Judy deu espaço nos New York Times, sem apuração independente do fato vazado.

Serviu de mera fachada para — emprestou o prestígio do jornal a — uma campanha de calúnia contra alguém que corajosamente desafiou o governo, desmontando um factóide-chave na campanha de vender a futura guerra ao público com mentiras, medo e preconceito cultural.

Judy também foi aquela repórter fortalecendo a hipótese das armas nucleares de Saddam e depois desesperadamente vagando pelas roças iraquianas após a guerra, com um destacamento de soldados sob seu comando, no rastros dessas armas inexistentes.

Branca branca branc! Leão leão leão! Deveria ler umas crónicas dessa expedição mal-fadada. Foi uma coisa.

Após ser festejada pelos colegas de CBS e o Washington Times, Judy foi discretamente oferecida aposentadoria antecipada pelo jornal, que contratou como seu novo ombudsman um redator da única cadeia de jornais que tratou com ceticísmo a propaganda do governo Bush antes da invasão de Saddãolândia.

Jeff, entretanto, é um dos pioneiros no campo de «buzz marketing», ou propaganda de «zumbido», um conceito comemorado no título do seu ainda influente blog, Buzz Machine.

Ora, o «buzz machine» é básicamente o seguinte:

«0wn» é gíria de hacker querendo dizer que «nós controlamos todos os seus bases» — ou servidores.

O jornalismo é reduzido ao papel de repercutir tendências atuais, medidas por pesquisadores no mundo virtual.

Muitas dessas tendências espontâneas são fabricadas.

Os pesquisadores de mercado entrevistados são os mesmos que ajudaram a criar as campanhas a serem realizadas por meio de «zumbido».

O jornalismo investigativo, entretanto, é reduzido ao vazamento estratégico e seletivo de denúncias feitas por fontes oficiais. Sobre isso, mais em seguida.

Tomo como exemplo a meme-mensagem «Geração Ypsilon barra Generación I Griega» para encurtar o relato.

Uma campanha conjunta do Endeavor International — cliente de S2 — e Globo tem o mesmo nome-meme, assim como tem o famoso blog de DESDECUBA.COM e Yoani Sánchez.

Exemplos podem ser multiplicados. De ontem para hoje, por exemplo, uma nova matéria sob o tema apareceu na capa dos Nós.

Está meio nebulosa a imagem porque tenho configurado meu navegador a bloquear Flash automaticamente — uma função altamente valiosa. Nesse caso, evito uma animação de uns 30 segundos que não traz nenhuma informação, aparece cada vez que a página é recarregada, e atrapalha a navegação. É invisível ao navegador que não bloqueie Flash, e insere-se entre o clique e seu alvo pretendido.

Leve-me direto aos fatos, é minha filosofia de navegar.

Endeavor — liderado pelos diretores de Warner Music e Televisa (México)  — é um patrocinador do Instituto Millenium.

Globo Protegendo o Jornalista da Globo

Entrevistando o editor-chefe de um regional de Globo sobre a proteção de jornalistas e jornalismo investigativo é um pouco como chamar o PM que faz bico como leão-da-chácara do bingo para fechá-lo e prender todo mundo.

Entrevistando-o sobre a proteção de jornalistas em um veículo de comunicação corporativa é como o domador de leões entrevistando o leão sobre seu bom trabalho na proteção de zebras.

Sua avaliação dos riscos ao jornalista hoje em dia:

O cenário é péssimo … prosperam grupos de narcotraficantes, muitos ligados ao poder público. O judiciário não pune e os jornalistas não são vistos com respeito. E eles próprios são frágeis como instituição. O resultado é impunidade e autocensura. Os repórteres sabendo que podem ser ameaçados acabam desistindo de fazer as matérias. É contra isso que estamos lutando.

Esqueci de incluir a afirmação inteira.

Em vez de «…», leia-se «No México,» …

Mas o Brasil não é o México.

(Eu pessoalmente acho o México o país mais parecido com o Brasil em toda a América Latina, institucionalmente e economicamente — só que, como o presidente brasileiro notu com certa sabedoria, as eleições não tem segundo turno.)

No Brasil, entretanto, o atitude de Globo e FENAJ foram decisivas em revertir esta situação, segundo ele.

No caso do Tim [Lopes], todos os assassinos foram presos, julgados e condenados. Isso é raro no restante da América Latina e isso faz com que um bandido pense duas vezes ao pensar em cometer um ato de violência contra um jornalista. Temos outro exemplo disso que foi com os agressores da equipe do jornal ‘O Dia’, na favela do Batan, em 2008. Os responsáveis foram identificados em pouquíssimo tempo pela polícia e estão sendo processados. Em ambos os casos, os sistemas policial e judiciário funcionaram. Com isso, os casos de crimes contra jornalistas são muito baixos no Brasil quando comparamos com os demais países latino-americanos.

Nos dois casos discutidos pelo jornalista, o de Tim Lopes e o do time infiltrado de O Dia, jornalistas foram descolados para reportagens de alto risco pelos patrões — editores-chefes, por exemplo — sem a atenção mais básica aos padrões internacionais de segurança.

Globo toma um atitude corajoso contra o problema — o problema sendo Globo.

Demorou quatro anos para levar os assassinos de Luiz Carlos Barbon Filho — eram policiais no serviço de um poder público corrupto — à Justiça, entretanto.

Se os mandantes foram levados à Justiça, não sei. Acho que não foram.

Onde estava o poder de fogo do Globo naquele caso?

As denúncias do jornalistoa levou a prisão de autoridades — reeleitas desde a cadeia — e uma indicação a um prêmio Esso regional.

Mas não levou à fama de bom jornalista que poderia ter marcado ele como alguém que não podia ser assassinado.

Era uma vez um repórter da Globo que fez uma fazanha de jornalismo investigativo maravilhosa — por conta própria, durante as horas de folga.

Caco Barcellos fez um cruzamento de dados trabalhoso, sem MySQL ou PostgreSQL ou XML, em arquivos de acesso impossível e acabou escrevendo Rota 66, sobre a esquadrão de morte na polícia paulista — fato que ainda existe apesar da denúncia devastadora 15 anos atrás.

Acabou deixando o Páis por vários anos para evitar sua própria execução.

Hoje, ele protagoniza Repórter Globo, um espetáculo de infotenimento triste e degradante.

O Jornalista 2.0 da Globo hoje não corre risco porque não sai mais do prédio.

Ficam fazendo as notícias encima dos «jornalistas cidadãos» de Twitter.

A Marca Master

O Masters [sic] para gestores de conteúdo — redatores e revisores sendo 1.0 demais — e todo mais remete às consideraçãoes começadas na nota

Uma nota abandonada em favor de almoços, mais não esquecida.

Master ou Masters — o correto em inglês seria Master’s — é uma marca, um grife, como o velho anúncio de RCA, «his master’s voice». O Meio & Mensagem, por exemplo, patrocina um curso MBA do grife Master.

Vou dedicar uma nota mais acabada ao assunto quando der tempo.

A Gestão de Boa Fama

«Reputation Management» — a gestão do bom nome — é um ramo de relaçãoes com investidores que busca controlar o fluxo de notícias sobre uma empresa pública, visando impedir a circulação de fatos out boatos que poderiam afeitar o preço da ação negativamente.

Se alguém reclama do seu produto em um blog — ora, 50 pau para uma peça de reposição de um «blender» de grife que compramos por 90 só dois meses atrás? — manda uma carta por seu advogado.

O domínio de Nosso Institute é cadastrado a um filial em Belga dessa organização, fundada por académicos americanos de comunicação corporativa, em Belga.

THE REPUTATION INSTITUTE
avenue des gaulois, 7
brussels,  1040
BE

O contato técnico fica com a sede na Wall Street.

webmaster@reputationinstitute.com
62 William Street
9th Floor
New York, NY 10005
US
Phone: 212-495-3855
Fax: 212-495-3859

Eu trabalhava lá perto por muitos anos!

Foi antes de Deutsche Bank, antes até de JP Morgan Chase, quando era simplesmente JP Morgan. Eu fazia infográfica e revisão de textos. A batata quente naquela época entre os analistas: as privatizaçãoes brasileiras.

Quase de imediato penso no sanduíche de café de manhã do deli no outro lado da rua — três ovos em pão «hero» com «Philly cheese steak». Café de bombeiro. Café de Homer Simpson.

Ana Luísa Almeida is Managing Director and Academic Representative for the Reputation Institute in Brazil. On the academic field she has a doctorate in Business Administration at the UFMG in Brazil and Erasmus University in Holland and currently lectures at PUC Minas and FDC, two of the most renowned education institutions in Brazil. As a consultant, she has an experience of more than 20 years in the field of Corporate Communication, developing projects for companies such as Cemig, Vale, Petrobras, Gerdau, Samarco, ArcelorMittal, Holcim, amongst many others.

Outros como Andrade Gutierrez.

Tem uma convergência interessante aqui entre S2, integrante da rede PRGN e com influência na rede ABRACOM. Os grandes clientes são quase sempre os mesmo. Apple e Microsoft sempre aparecem.