Nota Sobre Leituras 1.0: A Grande Informalidade e o Traduttore Traditore

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Comprove que você não é mais um petralha raivoso, gringo!

Não existe tradução de «petralha» no inglês iánque-surfista que eu falo desde desmamado.

Tem o bom e velho «bleeding-heart liberal» — embora no hemisfério do norte, o liberal é o contrário do conservador em vez de sinônimo com este.

Quem segue um manual de políitica, traduzido por Google do inglês de Dick Morris, vai cair em enormes erros de interpretação, é isso meu ponto de sempre.

Ora, ontem, enquanto rodavam-se vários processos automatizados nessaa macunaimáquina@127.0.0.1 — e enquanto o cliente mais uma vez não entregava o projeto prometido por uma semana atrás — eu fui obrigado a recorrer ao meu repositório 1.0 de conhecimento: Livros de tinta e papel em estantes bem borgesianas em seu estado de anarquia aparente.

Uma anarquia que esconde niveis mais profundos de ordem.

Segundo eu. A patroa só gargalha.

Lá escolho três livros para uma semana de releitura, caso a eletricidade falta de novo  –como me lembro acontecendo durante as primeiras viagens ao Brasil, na época dos Apagões.

A patroa tem uma pequena lanterna de óleo que ganhou de brinde quando entrevistou Lenny Kravitz alguns anos atrás.

Ela serve para iluminar meu scriptorium medieval.

Não é exagero meu. É prudência.

Acaba de rolar um daqueles surtos de minipanes de Eletropaulo que já tinham fritos minha caixa de TV a cabo e várias lâmpadas que uso para ler na na cama.

Toda a informática está ligada a uma caixa enorme e pesada — parece feito como parte de um plano de cinco anos maoista dos anos 1950s — amortecedor de flutuações repentinas e raios inesperados do irado Zeus.

São

  1. Marc Eliot, Walt Disney: o príncipe sombrio de Hollywood (tr. Leiko Gotoda)
  2. José Carlos Teixeira Gomes, Memorias das Trevas: uma devassa na vida de Antônio Carlos Magalhães
  3. Hernando de Soto, The Other Path (El Otro Sendero)

Eu resolvi faz tempo buscar quase todas a minhas leituras lusófonas em Sebolândia, aquela rede offline e muitas vezes na Grande Informalidade, onde reside quase tudo que vale a pena ler nesse país.

Se quer ler os dez mais do New York Times de cinco anos atrás, em uma ótima tradução, como se fossem atualidades, por um preço exorbitante, é FNAC, Saraiva, Cultura ou a Livraria da Vila.

Exceção: aquela coletânea inprescindível da bossa nova por Almir Chediak, com partitura e aqueles acordes que estão quebrando meus dedos mais acustomados aos três dos Ramones.

Para vozes de vocês brasileiras, é o Sebolândia.

Quando me aposento, eu terei  sebo próprio.

Eis meu sonho: um velho safado que nem Clint Eastwood no filme Gran Torino.

De Sendeiros Trabalhosos

Mas é da Grande Informalidade que eu quero falar agora. Eu sempre insisto, aos covardes anônimos do esgoto do submundo da samizdat de boataria descarada  — como a situação refere-se à blogueirada do anticontinuismo — que há um fator enorme, embora quase nunca assumido, que inviabiliza qualquer comparação direto entre a economia política dos EUA e esta do Brasil.

É a Grande Informalidade.

Temos uma versão disso, é verdade, no mercado de trabalho precário daquele exército de mexicanos ilegais sem os quais nossa economia entrava em colapso.

É o que disse o prefeito de Nova York, Bloomberg, sobre medidas draconianas propostas pelo regime de Bush ibn Bush, seu copartidário na época, na área de imigração: «Faça isso e a indústria de restaurantes dessa cidade acabava na hora. Vamos reconhecer isso e formalizar esse povo.» Gosto daquele cara, Bloomberg. Como político, tenho ressalvas. Como cidadão, todo respeito.

A grande diferença entre vossa e nossa grande informalidade: os imigrantes itinerantes que fazem os serviços com os quais vocês não sujariam as mãos são seus próprios concidadãos.

O mexicano explorado do Brasil … é o brasileiro.

O ágio jurídico aqui — a criação da zona autônoma temporária permanente — acontece dentro das fronteiras e não atravês delas.

O economista peruviano, premiado pelo Instituto Cato e portanto ídolo do Instituto Millenium, continua sendo o autor mas esclarecedor, para mim, sobre a natureza dessa Grande Informalidade, especialmente neste livro originalmente lançado em 1986 em espanhol — tipicamente, a editora norteamericana não dá crédito ao tradutor.

A distinção que ele traz entre mercantilismo e liberalismo é essencial.

Pena ele ter sido seduzido depois pelas aventuras totalitárias de Fujimori e festejado pelo maior bando de neomercantilistas que há, os institutos de pesquisa do movimento neoconservador.

Ouçam o que de Soto dizia na época sobre a imcompreensão de políticos americanos tanto da esquerda quanto da direita sobre a economia política latinamericana.

Eu traduzo, absurdamente, da tradução, que eu comprei na reedição de Basic Books em 1996, no Barnes & Noble que hoje ocupa a velha Fábrica de Andy Warhol, na Union Square, Rua 14 com Park Avenue South .

Encaramos assim um paradoxo estranho: a maioria de esquerdistas e direitistas tradicionais acreditam que o que temos em Perú hoje é um status quo liberal. Encima dessa premissa, empresários mercantilistas viram aos governos do Ocidente e seus aliados no setor privado para apoio na preservação de um sistema seria um reflexo daquele no mundo desenvolvido. A esquerda, por sua parte, pede dos aliados ideológicos no estrangeiro para apoio em abolindo um sistema liberal que, reclamam eles, já falhou e portanto seria inviável.

Nenhum dos dois tem razão.

Perú não é uma sociedade liberal. É uma sociedade mercantilista.

Assim, quando conservadores e os da centro-esquerda nos EUA tomam um atitude sobre o conflito em Peru, com os primeiros apoiando a direita e os últimos a esquerda, não percebem que nenhum deles está apoiando outra coisa que o mercantilismo em uma forma ou outra.

De Soto destaca o quanto o modelo de democracia para exportação de democracias liberais sofre na tradução.

Ambos lados perdem, uma vez que acabam entregando o monopólio de poder sobre a mudança a radicais. A direita tradicional perde mais, no entanto, por virem defesores do status quo, assim chegando a serem identificados com a injustiça e miséria. O neoliberalismo — chamado de neoconservadorismo nos EUA — nem marca presença no espectro político local e não tem influência quase alguma sobre nosso intelectuais.

É em outro trecho:

Apesar disso, o discurso de nossas direitas e esquerdas é muito parecido ao discurso de seus apoiadores estrangeiros. Pode ser que eles mesmos estejam confusos, mas o resultado é que têm conseguidos criar a ilusão perante audiências no estrangeiro que o processo politico em Peru é um confronto plural e democratico típico do Ocidente: Adireita quer fortalecer iniciativa privada enquanto a esquerda quer ajudar os pobres e sarar injustiça social.

Essa questão de mercantilismos da direita e esquerda é muito esclarecedora:

Há diferenças entre os mercantilismos da direita e esquerda, decerto. A direita governará no serviço de interesses empresariais tanto nacionais quanto internacionais, enquanto a esquerda governará para redistribuir riqueza aos mais necessitados. Ambos, porém, governarão com legislação mal-pensada que explicitamente beneficiam alguns enquanto prejudicam outros. Os objetivos parecem ser distintos, mas o resultado é que em qualquer caso o sucesso ou fracasso do país resta nas mãos de políticos.

O governo da situação hoje, por exemplo, tem algo de liberal ou é um mercantilismo da esquerda, favorecendo a criação de multinacionais tupi como Friboi e BrOI?

Não é uma pergunta booleana, de sim ou não.

Aquele de «um simples vendedor de cachorro-quente» de Lula — no rídiculo debate de Globo onde os candidatos estavam apresentados, literalmente, em um circo — foi e continua sendo um discurso muito Hernandesco.

E não acho-o puro discurso, divorciado de ação, assim como não acho o empreendedorismo social uma insinceridade.

O problema de sempre é o do falso cognato.

Não pode-se traduzir «propaganda» em português como «propaganda» em inglês.

É «advertising».

Propaganda é de Goebbels e Mao.

Embora disso tudo, o leitor deve entender que eu ainda estou completamente esmagado pelo tamanho gigantesco do problema no Brasil.

Nós temos uma acomodação com a informalidade nos EUA — que alguns pretendem derrubar, é verdade. Se um mexicano sem documentos é linchado, dá no jornal, pelo menos, e pessoas se preocupam. Graças a César Chávez.

Aqui, é a lei do cão.

O jeitinho e o gestão de projetos estilo «deixa pra lá, a gente conversa» — como praticado por meu cliente de hoje, uai! — também me irritam e confundem profundamente.

Eu sou da ética protestante e o Fordismo!

O tempo é dinheiro porque a vida já é curta demais!

Eu quero uma diagrama Gantt, seguida à risca!

O paradoxo do Brasil parece ser que os profissionais formais são os mais aptos a deixarem tudo para o pós-Carnaval — sei lá, um dia de aguas de março, eu mando um torpedo — enquanto se a faxineira afavelada paga em dinheiro vivo concorde em chegar às oito, ela chegas às 7:59.

Tem todo o câlculo do onibus e suas oscilações estatísticas quanto aos atrasos e tal embutido na cabeça.

É impressionante.

Às vezes nem entendo como o pais pode sustentar uma classe de economistas profissionais, uma vez que a metade de atividade econômica é invisível e jamais medida.

Pensando na Grande Informalidade.

Só isso por enquanto.

Ah, é também que meu advogado de imigração, um policial civil licenciado, ou talvez nem tanto, foi preso durante meu processo de permanência.

Mafia dos fiscais número 747.