Buscapé: Beavis é Mac

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Está passando noite e dia, no momento durante os intervalos do programa «House M.D.» — agora com conteudo móvel exclusivo ao iPhone!

Acaba de passar duas vezes durante o mesmo intervalo.

É o novo anúncio de Buscapé, a empresa de e-varejo do E-Commerce Media Group Informação e Tecnologia Ltda, CNPJ 03.437.665/0001-55.

O produto que você quer, avaliado por quem já comprou.

Quem avaliou o iMac de R$7,000 que eu selecionei para avaliar o primeiro avaliador com que cruzei aparece à esquerda no foto embaixo.

Não brinco. Chama-se Terabyte.

Ele detém o selo E-Bit do Consumidor Real.

Você também pode avaliar este produto.

Até tem jabaculé disponível.

Ao avaliar este produto, as melhores opiniões concorrem a 100 Apple iPod Nano 8GB. Serão 10 iPods por mês até o fim do ano! Só no BuscaPé você acumula 2.000 bits por avaliação e ainda concorre a prêmios.

Define «melhor». Se eu fosse muito eloquente no ataque ao produto como um brinquedo de ricaços, sobrefaturado por caralho dado o custo dos componentes, acha que eu ganhava?

Ao respeito de outro produto — uma secadora Whirlpool, acho — outra resenha diz «ainda não comprei mais eu gostaria comprar!» Ora, se ainda não notou a diferença em minhas cuecas, você não tem informações uteis.

Teste de Penetração

Cadastrar meu dublê malvado de um universo parallelo, o inglês pedante Andrew Warhull, apelidado Bicho, é um exercício trivial.

Estou imediatamente convidado a avaliar uma empresa.

Dou uma resenha negativa a um romance de Paulo Coelho, como eu sempre faço, como reflexo, até dormido.

Ganho 2.000 pontos, mas para reclamá-los preciso me cadastrar com E-Bit.

Essa vez, querem obrigatoriamente meu CPF e número de celular.

Não tenho celular.

Não consigo entrar um número aleatório no campo do CPF, como consegui outro dia quando assinei embaixo  uma campanaha promovida, absurdamente, por Carlos Alberto di Franco como «um auténtico grito do povo».

Eu tenho u CPF, de fato — sou dono de propriedade e chefe de familia aqui — mas não o daria a algum amigo do homem mais intelectualmente desonesto de São Paulo só porque quero afirmar minha posição contra a corrupção. Quem não é? Além dos corruptos?

A empresa realmente tem acesso a um banco de dados com cada CPF no Brasil?

Ou será que os números tem rasgos matemáticos que podem ser validados sem serem identificados? Talvez a próxima vez eu enganarei a lógica sem ter que roubar identidade alheia.

Para quê querem meu CPF?

É para minha própria segurança, e pela bem de democracia.

O CPF é importante para garantir a sua segurança e a validade dos nossos sorteios. Através do CPF é que podemos garantir que cada pessoa se associe uma única vez ao site e concorra em igualdade de condições com outros bitSócios.

Além disso, quando você ganha um prêmio, nós recolhemos Imposto de Renda em seu nome (não se preocupe, você não paga nada). A Receita Federal pede sua identificação pelo CPF, e isso agiliza o processo na hora em que você for sorteado.

Você não precisa se preocupar com a privacidade de suas informações, pois a e-bit segue os mais respeitados padrões internacionais em sua Política de Privacidade.

Mais respeitados por quem?

A política de privacidade da maioria de sites brasileiros — dos quais eu parei para ler a pólitica de privacidade — é um único passo além do estado hobbesiano da natureza.

Tudo bem: Parece que eu possa cadastrar tantas identidades que eu quiser, uma vez que não pretendo participar no sorteio de prêmios. Vou criar uma ONG fazendo lobby promovendo o argumento que Paulo Coelho seja um constrangimento cultural ao povo brasileiro e que deveria ser espalhado que ele é argentino, que nem Jorge Amado.

No site Reclamão, o Hijor Marijas de Sampa reclama que um site avalado pelo Buscapé deu a calote sem entregar os bens encomendados:

EFETUEI UMA COMPRA, POIS ERA SITE INDICADO PELO BUSCAPE, E JÁ SE PASSARAM O PRAZO MAXIMO DE 15 DIAS E NAO CONSIGO CONTATO PELO TEL E NEM POR E-MAIL PARA SABER QUAL A POSIÇÃO DE MINHA COMPRA, E PARA MINHA SURPRESA VERIFIQUEI EM DIVERSOS SITE QUE DESDE DEZ 09 TEM MUITAS PESSOAS NA MESMA SITUAÇÃO. !!!! QUERO UMA POSIÇÃO SE SERÁ ENTREGUE ESSA SEMANA OU TEREI MEU DINHEIRO DE VOLTA.

Em fim, sobre os produtos que eu pesquisei — uma esteira, uma secadora de roupa, um brinquedo sexual, o iMac de R$7.000 e uma caixa X5 com processador AMD, de potência de computação comparável, para R$1.200 — não vi quase nenhumas avaliações de consumidores.

Ainda não vi avaliação apresentando provas de que o autor realmente comprou a coisa. Beavis-Terabyte diz ter comprado, além do iMac, um Sony Vaio, uma máquina fotográfica digital, é um TV plasma com tela enorme.

Se é tão Mac assim — ele faz questão de elogiar o sistema operacional — porque comprar um portátil rodando Windows 7?

Eu acordo de manhã com a uma escolha entre pelo menos cinco saboresde Linux, que não me custaram um tostão. Se minha máquina falhar, um robô manda um relatório aos programadores. Pago com informação útil.

Em fim, o anúncio na TV põe em destaque uma função do site que ainda não censeguiu uma massa critica.

Foi mas que uma década atrás que o escândalo estorou no Amazon.com, quando foi descoberto que empregados de editoras estavam entrando nos foros e escrevendo resenhas elogiosas de seus próprios produtos.

A empresa tomou medidas, mas ainda hoje eu simplesmente ignoro essas resenhas.

Não vejo nenhum mecanismo guardando contra a mesma coisa acontecendo no Buscape, que em outros aspectos me lembra de um eAgora — do grego agora, «mercado» — típico dos anos 1990s. Antes do estouro da boiada da Internet, 1.0.

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