O Jornalismo de Vazamento e os Rodoaneis da TI: Uma Reportagem 1.0.

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Acima: Foto tirada no metrô de Nova York. Fonte: Me desculpe, blogueiro qualquer, foi o primeiro resultado do Google Imagens.

Nova e notável: Governo de Obama Endurece Atitude Contra Vazadores.

O New York Times mostra porque os blogueiros e wikeiros jamais terão condições de produzir as ricas e rigorosas reportagens produzidas por um equipe de profissionais experientes dentro de uma instituição com memória institucional funda, ampla e tão enorme como o mamute.

Isto não quer dizer que não deveriamos tentar. Este projeto, por exemplo, realmente não passa de uma tentativa de criar um Google ou Yahoo pessoal, na medida possível, como ponto de comparação com os grandes motores de pesquisa, com seus vieses comerciais.

O caso contado pela Dama Cinza  ilustra o problema de diferenciar os vazadores interesseiros, muitos deles altas autoridades, trabalhando um ângulo político qualquer, dos «apiteiros» — servidores públicos que vazam à imprensa para denunciar os três patetas da gestão temerária, «waste, fraud and abuse».

Ou seja, jogando o dinheiro do contribuinte fora, fraude e abuso de poder em proveito próprio. Malufismo, para cunhar uma frase.

A história tem dois aspectos.

Primeiro, oferece uma visão ampla do equilíbrio delicado e vacilante mantido pela justiça federal estadounidense entre a liberdade de imprensa e a manutenção do devido e necessário sigilo do Estado em casos de vazamento.

Segundo, conta uma história concreta de como o governo jogou baldes de dinheiro fora em sistemas tecnológicas que não funcionavam.

O Times já sentiu na pele o primeiro problema quando uma repórter deles, Judy Miller, foi detida pela justiça federal por não revelar fontes no caso do vazamento da identidade de uma agente da CIA.

O vazamento foi uma represália política contra o marido da araponga, que contradisse a administração nas páginas do Times e Post quanto à capacidade de Saddam de produzir uma bomba atómica, que foi inexistente — apesar do discurso de Condaleezza Rice sobre «nuvens de cogumelo» nos programas de entrevista de domingo, em rede nacional. Como eu odeio o terrorismo midático daquela turba.

O vazador, o homem de confiança principal do vice-presidente da República, foi condenando criminalmente no caso. Judy foi discretamente oferecida uma aposentadoria antecipada. E bem merecida, não cabe dúvida.

O caso ganha relevância com as manchetes dos últimos dias sbore o possível indiciamento de um soldado americano que vazou imagems de um helicóptero Apache cometendo uma chacina contra pessoas desarmadas no Iraque, distribuido pelo site WikiLeaks.

O delator do apiteiro está dando entrevistas, dizendo que ele identificou o soldado às autoridades por uma preocupação com segurança nacional. Que nobreza que o obrigou! O cara estava ameaçado com prisão, onde hackers mocinhos viram mulher de cadeia. Isso é pelo menos compreensível.

Quando chegamos ao ponto de chamar de traição qualquer publicidade negativa sobre autoridades que gastam centenas de bilhões de dólares do contribuinte sem ser cobradas adequadamente, nos ferramos.

Mas o governo Obama não mostra sinais de desacelerar o marketing de America.gov como um grife de moda que começou em 2000, e que chegou em várias ocasiões a ser chamado de propaganda clandestina ilegal pelo GAO — o CGU de lá — durante o regime de Bush.

Reportajabagandas foram compradas e vendidas. Foros de gente que nem agente foram infltrados por agentes do Estado, disfarçados.

Eu lusofonico a grande reportagem do Times porque o jornalismo de vazamentos seletivos de grampos enviesados por fontes anônimas escusas surge de vez em quando em conversas de boteco aqui na terra da seleção hexacampeã futura– se bem que não der com a devida freqüência nos jornalões que o pratica, como dá hoje nos Times.

Os Rodoaneis da Via Berners-Lee

Eu tenho um grande interesse no segundo aspecto da história, informática em escala industrial sendo uma das minhas paixões.

Recolho clippings sobre casos que vão desde panes chocantes nos sistemas da maior bolsa de valores no mundo, em plena sessão — com explicações mambembes e assessores de imprensa absolutamente pirando na tentativa de culpar o cliente dos outros assessores — à falha grotesca do projeto de e-ducação de Microsoft, o Enciclomédia, em México.

As maquinas foram distribudas a vilarejos sem eletricidade e descobertas em desmanches de Tijuana, sendo transformadas em caça-níqueis.

Chamamos tais projetos de «Big Digs» — «grandes excavaçãoes», uma homenagem ao projeto de infraestrutura na cidade de Boston que ainda hoje está anos atrasado e gazilhões além do orçamento.

Acima: Blog do projeto Eleitor2010, de Global Voices Online. Énfase meu, graças ao GIMP.

Em vez da reportajabaganda que reina no caderno de tecnologia hoje — dominado como é pelos investidores de risco e latifúndios de faça-clique, e dedicado ao mito estupifárdia de um tecnopocalipse iminente — eu gosto de ler histórias simples e concretas sobre tecnologistas trabalhando.

Um trecho em tradução minha ilustra o que quero dizer:

Segundo duas ex-administradores da comunidade de informações, o Sr. Drake virou advogado de ThinThread, uma teconologia de ponta projetada para filtrar o maré de ligações de telefone, mensagens de correio eletrônico e trâfego de Internet recolhido pela Agência. Ele acreditava que ThinThread também oferecia proteção à privacidade do cidadao.

Mas a liderança da NSA rechaçaram a ThinThread e escolheram uma tecnologia concorrente chamada de Trailblazer, que depois foi avaliada um fracasso e abandonada. Drake e seus aliados insistiam no argumento para ThinThread mas não foram ouvidos, segundo os administradores.

«Rolava uma luta acirrada dentro da agência,» disse um ex-gestor gráudo da agência. «A turma de ThinThread eram uma minoria muito vocífera».

Um antigo consultor da NSA, entretanto, se lembrou de «notas e mensagens alarmistas» de Drake, entre elas uma que disse da Agência, «este lugar ficou corrompido quase por inteiro.»

E assim por diante.

Uma riqueza de fontes, tanto identificadas quanto anônimas, são ouvidas, e vários pontos de vista debatidos com entre-aspas generosas.

Sob o Olhar do Grande Irmão

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ECCE VEJA: Dado o surto de pânico moral que deu quando Os Novos Intocáveis da PF brasileira viraram o KGB de Lula, é bom lembrar um caso verdadeiro de vigilância sem limites e como foi derrotado — por enquanto.

O programa em questão nessa reportagem foi relacionado com a iniciativa conhecida como TIA — «Total Information Awareness», ou seja, «conhecimento total de tudo».

O gregos falavam de hubris.

Foi descoberto que grandes operadoras de redes convergentes de dados, conteúdo digital e telefonia, como Verizon e AT&T, colaboravam com o governo para monitorear trâfego de rede sem qualquer fiscalização ou mandado de quebra de sigilo emitidos pelos tribunais especiais estabelecidos para tal finalidade faz anos.

Considere este fato quando lê a reportagens recentes sobre a falha de segurança para donos do iPhone dentro da AT&T.

A empresa fez questão de fazer uma ampla divulgação do incidente, e fez bem. A primeira regra de comunicação em crise é: forneça informações até demais.

Uma riqueza de detalhes apoia o argumento mais importante nesses casos: este incidente tem nuances, e os nuances são o que fazem uma narrativa interessante e diferenciada.

Garanto, porém, que entrou no cálculo dos estrategistas de comunicação o fato da empresa ter fama de nem ficar lixando pela privacidade de clientes.

Um Caso Modesto na Vida Real

Uma das reportagens do que me orgulho mais — apesar de ser o mero pauteiro; foi colega meu que fez — tratou-se da instalação de uma nova tecnologia de servidor na enorme fazenda de caixas-pretas de um banco depositário uns 200m das Torres Gémeas.

A pauta foi proposta pela assessoria da marca dos novos componentes, como é de praxe. Propunham uma entrevista com a empreiteira e o responsável pela decisão de contratá-la — as duas figuras de destaque em qualquer release padrão.

Eu disse que o que me interessava mais foi entrevistar, ao lado destes, os engenheiros cujas avaliaçãoes informaram a decisão e que tinham que enfiar as rebimbocas na parafuseta para fazer a coisa rodar.

Ficaram chateados quando o engenheiro nos deu uma entrevista completamente franca e aberta, esquecendo-se de falar mal dos concorrentes que não ganharam o contrato.

Foi «aquilo era um pouco mais rápido, mas quente demais» e «este era de desempenho igual, então a escolha podia ser feita por outros critérios» — e coisa e tal.

Eu não sei porque a assesoria ficou tão chateada. O cara elogiou os técnicos do ganhador e explicou porque a avaliação de apoio técnico é tão importante.

Tem quem promete uma caixa-preta que jamais precisará de manutenção, e depois, putz, não é bem assim. O martketing de tecnologia de ponta costuma ser feito por poetas e não por engenheiros. Pena.

Foi fascinante em si — um astrofísico que sabe explicar essas coisas para todos nós é raro.

Também foi um dos primeiros casos do casamento de Linux com arquiteturas que antes não queriam abrir a porta para o filho natural de UNIX, além de uma das primeiras apostas em escala industrial em máquinas virtuais como mecansimo de integração de sistemas «legacy».

No jormalismo de inovação, esses sistemas aparecem ab nihilo como se pela mão de Deus.

No jornalismo de TI que EU gosto de ler, são os produtos de sangue, suor e cerveja, de colaboração e de intrigas, de gambiarras e preces e buscas inspiradas pela linha de código com a aspa no lugar errado que está trapalhando a entrega de um projeto que vale milhões e tem milhões de linhas de código compilado.

Studs, autor das histórias orais Gigantes do Jazz (1956) e Trabalhando –e padroeiro de podcasting.

Minha inspiração sempre era o historiador oral e jornalista de rádio Studs Terkel, autor do arquivo e livro WorkingTrabalhando — com entrevistas de milhares de pessoas sobre a experiência íntima de trabalhar.

O último livro dele, P.S.: Pensamentos Sobre uma Vida Passada Ouvindo (minha tradução livre) foi lançado em 2008. Em comparação, os Webjornalistas de hoje passam as vidas ouvindo os ecos ocos da sua própria voz.

Studs inovou dando o microfone ao ser humano comúm — tal como a Rede 2.0 estaria fazendo hoje em um país onde a rádio de pilha discutivelemente continua sendo a tecnologia mais importante e eficiente pela divulgação de informações — e desinformações

Studs era mais da vanguarda do proletariado do que eu, mais o princípio ainda vale para tomadores de decisões e coordenadores das grandes escavações, que os sociólogos — foi Veblen? — chamam dos «manipuladores de símbolos»: É uma drama humana cujo valor jornalístico fica na sua qualidade exemplar.

Um dia, você pode encarar a mesma situação, ou ter que entender a mentalidade de um cara bem parecido com este.

Mais um Capítulo da Minha Vida na Moita de Fantasmas

Eu uma vez trabalhava em um escritório de advogacia fazendo a transição de um antiquado  servidor VAX — me lembrava do filme COLOSSUS: O PROJETO FORBIN — ao suite de produtividade de Microsoft.

Quanto ao suite de Bill, que justiça seja feito é o melhor produto da empresa de longe, as secretárias odiavam-no, apesar dele ser capaz de aumentar sua produtividade por um fator imenso.

O objetivo: mostrar como era mais fácil apertar um botão para, digamos, comparar dois documentos — «redlining» — em vez de entrar vários comandos esotéricos e difíceis a decorar no CLI, o interface da linha de comando.

Foi quase como … como … como dar um iPhone a um beduíno que jamais viu uma cidade.

Ou uma máquina Enciclopédia a um vilarejo mexicano sem Luz Para Todos, muito menos a capacidade de encarar a Tela Azul de Morte.

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