Haiti é Aqui: Blackwater e o Jornalismo «Embutido»

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Ótimo, tem brasileira fazendo tradução muito boa de jornalismo nosso muito bom — merecendo de imitação lusófona. Existe vida inteligente no lado debaixo, apesar da má impressão que recebe-se julgando somente das Abrís e Globos.

Deu no Vi o Mundo: «No mundo de Blackwater».

.Adam Ciralsky, Vanity Fair, jan. 2010 – traduzido por Caia Fittipaldi

O artigo é um bom exemplo de como lidar com o fato sempre difícil de ter sido convidado a fazé-lo pelo objeto da reportagem. A solução é muito simples: Divulgue o fato o quanto antes.

Para dar o contraste, eu imediatemente pensei na cobertura feita pela jornalista «embutida» do Estadão sobre a situação das forças armadas no Haiti uns dois, três anos atrás, que eu traduzi para inglês ver.

Julgando somente pela preponderância de fontes oficias e a ausência completa do contraditório, eu achava a série um exemplar clássico de jornalismo embutido — mais uma cara do sindrome «reportajabanda» que andamos identificando nessas notas.

Os Embutidos

O termo «jornalista embutido» virou corrente durante a invasão do Iraque, quando ficou muito claro que as forças armadas estavam fazendo terrorismo contra a imprensa na tentativa de controlar os fatos relatados.

Haviam fatos inéditos a levar em considerção, com a emergência, por exemplo, de uma imprensa árabe na Oriente Média que divulgava informações em inglês sobre a Internet.

Foi mais ou menos assim: «Vocês precisam da gente para protegé-los».

— Olhem só que aconteceu com os jornalistas da rede Al-Jazeera.

Fazendo reportagem sem autorização prévia, um time da rede foi alvejado — por ocaso — por um tanque de guerra, enquanto filmavam, desde o telhado de um hotel conhecidamente reservado pela imprensa estrangeira, a entrada do exército na cidade de Bagdá.

E portanto:

— Sem autorização prévia, não podemos garantir a sua segurança — perante qualquer lado do conflito — levando em conta a «neblina de guerra».

Ora, a matéria da revista americana resolve o dilemma do jornalismo embutido muito bem. Bota o fato de se tratar de uma viagem orquestrada por publicitários no primeiro plano, logo no começo — algo de que o general-comandante no país reclamava amargamente em comentários recentes.

Que a mídia, destacando o fato de informações serem alvo de uma tentativa de censura, minou a confiança do público na missão.

Entretanto, como observei na época, a repórter do Estadão botou o fato de viajar ao convite dos militares quase como se fosse uma nota de rodapé.

O tema geral da série: «A experiência do exército no Haiti é o modelo a ser seguido nas favelas de Rio de Janeiro».

Só no Brasil podia-se entreter a noção de virar as forças armadas contra a própria cidadania, substituindo os poderes civís em estado duradoura de exeção. Não acontece entre a gente desde a Guerra Civil — que vocês chamam da Guerra da Secessão.

Erik Prince, recentemente indiciado como membro ativo de um programa de ‘assassinatos seletivos’ da CIA, ganhou notoriedade como presidente da empresa-gigante de segurança privada Blackwater, empresa que é hoje objeto de investigação federal acusada de suborno, julgamento privado e tortura de cinco ex-empregados, com julgamento marcado para o mês de julho. Em movimento que visa a responder aos que o criticam, o milionário ex-fuzileiro de grupo de elite da marinha dos EUA convida o jornalista para acompanhá-lo até o coração de sua empresa, nos EUA e no Afeganistão, para mostrar o papel que tem na guerra dos EUA contra o terror.

A fonte não é apresentada como isenta. Tampouco é castigada por ser interesseira. O interesse é simplesmente posto em primeiro plano.

O assunto continua corrente com reportagens mais recentes da Folha de S. Paulo, por exemplo.

Eu me lembro de ler algumas nas quais não havia nenhuma menção do fato relatado por outras fontes: Que a imprensa brasileira estava alojada no base do exército, que até uma rede sem-fio fornecia, e só saia acompanhada por segurança militar.

A reportagem do que estou pensando — deixa-me buscar a citação no Sousafono Lusófono — foi feita encima de uma generalização totalmente mambembe, a seguir: «Não assistimos quase nenhuma manifestação anti-brasileira em nossos passeios pela Port-au-Prince».

Esta besteira total de um grupo midiático que inclui uma organização ultramoderna de pesquisa de opinião pública.

A reportagem da Folha até antecipava essa crítica, alegando que o problema de segurança pública no país impossibilitava a prática de metodologias mais científicas.

Mas ora, se eu fosse perguntado por um jornalista acompanhado por polícias militares o que eu achava da problema de esquadrões de morte no Brasil, eu provavelmente também não manifestava minha séria preocupação com o assunto.

Uma vizinha foi morta no ano passado daquele jeito que sabe-se, sabe?

Dois homens de moto. Chapa branca. Duas na nuca.  Não brinco. Deu no G1@Globo.

O Paradigmo Enron

A reportagem de Vanity Fair — o título vem do romance de William Thackeray, que por sua vez se refere à Bíblia — me lembra, entretanto, da cobertura de outro bode expiatório corporativo: a massa falida de Enron.

Se estivestes morando em outra planeta durante a última década, trata-se da empresa de energia cuja diretoria financeira escondia a condição podre da empresa, de capital aberto, do público investidor por meio de um esquema inédito de empresas-fantasma em paraísos fiscais.

Paralelamente, houve o escândalo de operadores da empresa no mercado de energia desregulamentado de California.

Estavam fazendo operações-fantasmas de ágio, desde estado vizinho de Oregon, nas quais, na verdade, watt algúm de energia estava sendo mandado pelos fios.

Pior, jactavam-se do fato nas mensagens instantâneas trocadas pela intranet da firma, depois vazadas à imprensa.

Entre-aspas memorável: «Acabo de roubar os últimos tostões da velhinha de Pasadena que vive comendo ração de gato! Oba!».

Uau. Misturou a música dos Beach Boys com a tragêdia folclórica de idosos forçados à dita medida pela insuficiência da aposentadoria.

Ainda assim, como eu obervava na época — em uma pauta que não consegui vender — a empresa tinha muita tecnologia de ponta, e subsidiárias fazendo trabalho realmente inovador no campo de gestão sustentável de energia, por exemplo, em grandes facilidades industriais.

Esta turma — muitos atraídos à empresa de postos no setor público ou acadêmico por salários vultuosos — vira seu currículo manchado para sempre pela malfeitoria de gestores temerários.

E a demonização da empresa na imprensa não os ajudava.

Embora isso, como já disse, e apesar de ter feito várias entrevistas com essas pessoas — imagine como foi difícil convencé-las a colaborarem comigo — eu não consegui vender a pauta.

Foi «Enron, o fim do mundo do capitalismo selvagem» ou nada.

Era o Zeitgeist e ninguém questionava-o.

Blackwater também se sente demonizada.

“Minha empresa e eu nos pomos a serviço da CIA, em algumas missões muito perigosas” – diz Erik Prince, enquanto corre os olhos pela fortaleza onde vive, cercado por 7 mil acres, numa propriedade na área rural de Moyock, Carolina do Norte. “Mas quando parece politicamente conveniente a uns ou outros, sou sempre o primeiro que empurram para baixo do ônibus”. Prince, fundador da Blackwater, a mais conhecida empresa mundial de prestação de serviços militares privados[,] está soltando fogo pelas ventas milionárias. Quer desabafar. E quer que todos ouçam o desabafo.

De novo, as pretensões da fonte são postos em primeiro plano.

O executivo reclama a oportunidade de contar o outro lado … e com toda razão. As palavras da fonte de primeira-mão são sempre preferíveis as especulações e interpretações do jornalista.

No próximo parágrafo, como se não fosse destacado o suficiente nos dois primeiros, repete-se que a matéria trata-se da auto-justificação da fonte principal, que reclama da natureza folclórica e simplificadora do tratamento que recebe da indústria de infotenimento .

A natureza da publicidade é o tema orientador aqui.

Erik Prince enfrenta hoje um problema de imagem – desses que não há publicidade comprada na Avenida Madison que resolva. Aos 40 anos, herdeiro de fortuna construída em Michigan com rede de lojas de revenda de peças para automóveis e ex-fuzileiro do corpo de elite da Marinha dos EUA, conseguiu a façanha de ser crucificado no plano real e, também, no plano simbólico.

O bode expiatório:

Em Washington, Prince tornou-se bode expiatório para todos os erros e tragédias do governo Bush no Iraque – embora alguns dos feitos da Blackwater tenham sido citados para neutralizar as críticas.

Estou completamente fisgado.

Levanta-se aqui uma pergunta fascinante: De quem é culpa?

O empreendedor militar que aproveitou o mercado para serviços terceirizados?

Ou era da política pública que criava o mercado para a iniciativa privada na terceirização de violência do Estado?

Realmente não sei. É isso que eu gostaria entender. Parece que haverá fatos importantes na matéria a seguir.

Mais Estranho Que Ficção

Os fatos são mais estranhos ainda de que as ficções de Hollywood.

Mas a verdade sobre Prince talvez alcance magnitudes mais estranhas que qualquer ficção. Nos últimos seis anos, parece ter vivido vida aterrorizantemente dupla. Publicamente, trabalhou como presidente e diretor da Blackwater.

Nos planos privado e secreto, opera como superagente da CIA, ajudando a planejar, financiar e executar operações que vão desde infiltrar seus funcionários em áreas de “acesso negado” – locais nos quais a inteligência oficial dos EUA não consegue entrar –, até reunir equipes cujos alvos são membros da al-Qaeda e seus aliados.

Operava, preterito, se for verdade. Vamos nessa.