Porque Eu Não Confio Mais Na BBC

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Out-Law.com relata que um tribunal superior recusou a mandar o BBC divulgar o relatório de um inquérito sobre eventuais reportagens enviesadas na sua cobertura do Oriente Médio.

Cabe lembrar aqui que a emissora pública — inovadoramente de economia mista — foi constrangida por outro inquérito sobre sua cobertura de negócios, no curso do qual vários exemplos de reportajabaganda foram identificados.

Trazeram uma plataforma de jogos Wii no noticiário de manhã, por exemplo, e ficavam comentado o quanto a bugiganga era divertida. Sem visão mais ampla do mercado de bugigangas, sem vantagens e desvantagens, sem nada de perspectiva crítica.

Foi uma vergonha.

Deixa ver se eu consigo localizar a minha nota daquela época.

Agora, eu traduzo:

A BBC não tem que divulgar o relatório sobre sua cobertura do Oriente Médio, o Tribunal de Apelações julgou. Uma exceção à Lei de Livre Acesso a Informação no caso de informações jornalísticas aplica-se, até se a máteria em questão deixa-se de ser divulgada por outras razões.

A emissora produziu o relatório sobre sua cobertura da região em 2003 e 2004. O conselho de jornalismo examinou os resultados no fim de 2004 e fez recomendações encima deles.

O Stephen Sugar pretendeu forçar a divulgação do relatório por meio da lei de transparência, e a BBC restiu, argumentando que o relatório fosse isento porque a legislação permite emissoras estaduais — corrijo: estatais — a manterem sigilogas informações de natureza «jornalística, artística ou literarária».

A BBC alegou que essa exceção fosse cabível ao relatório e recusou a divulgá-lo. O Comisário de Informações concordou, mas o Tribunal de Informaões revertiu a decisão, dizendo que o relatório não era isento.

O caso parece virar no fato do teor jornalístico do relatório ser um entre vários fatores a serem considerados, a maioria dos quais não trazem a isenção para informações daquela natureza.

Tradução possível embora especulativa: A BBC jogava um papel não estritamente jornalístico na cobertura da invasão de Iraque e não queira o fato divulgado.

Que atuasse sob a orientação das forças armadas e MI-6 e produziu propaganda clandestina para consumpção doméstica, por exemplo.

Que repórteres da rede receberam da Mossad. Quem sabe? Melhor por fim à especulação e divulgar tudo.

Não sei como fica a lei dos ingleses, mas entre nós, propaganda clandestina visando audiências domeśticas é ilegal. Ponto final, embora o Rumsfeld — cuja casa caiu no segundo mandato de Bush, se lembrem — buscou uma exceção para propaganda almejando audiências estrangeiras que acaba repercutida lá em casa, mas «sem querer».

O regime Bush foi flagrado várias vezes comprando jornalistas para promover suas políticas públicas. Com dinheiro do contribuinte.

Tem innúmeros casos de jabá pago pelo NED, inclusive a uma jornalista da Associated Press com circulação internacional que informava milhões de pessoas por uns cinco anos antes de ser flagrada.

Será que os «Limeys» estão imitando os Primos nesse sentido?

A prática é corrupta no sentido mais amplo do termo. É corrupção.

O New York Times respondeu ao contágio de suspeitas parecidas — graças à atuação doida da execrável Judith Miller —  com um renovado compromisso com transparência, contratando um ombudsman de peso e destacando seu trabalho. Comigo, funciona, pelo menos. Gosto de Clark Hoyt.

A BBC, queimada uma vez por transparência desfavorável, parece não querer a repetição do constragimento, que mostrou uma emissora, concebida como pública e não-comercial, «PWNED» por interesses comerciais.

A mesma coisa aconteceu com nossa pública de rádio, NPR.

Mas uma empresa de informação que recusa a divulgar os fatos fundamentando reportagens ou denúncias feitas, ou deliberações internas sobre valores jornalísticos afeitando a cobertura, está descendo ao nível Globo-Folha de integridade jornalística.

Alguém já leu o Padrão Globo de Qualidade? Até receber minha cópia, eu vou continuar a acreditar que o documento é uma ficção.

Portanto, não assisto a BBC.

Al-Jazeera nem é opção no Brasil, que eu saiba.

Para mim, a VOA, apesar de ser estatal, e prima de Rádio Marti e Rádio Sawa, continua uma voz neutra, objetiva, eficiente, seca mas informativa.

Não sei como conseguiram sobreviver a Idade do Arbusto,  mais a integridade da emissora sempre foi tida como exemplar de nossos melhores valores.

Imagina a Pravda relatando a corrupção de um presidente do Partidão, como a VOA relatou a queda de Nixon!

E C-SPAN é muito bom.