Exportando Democracia: Ilusões Duradouras

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Arquive para futura referência: Os Mitos do “Apoio à Democracia”: a Intervenção Política dos EUA na Europa do Leste Pós-Soviética.

O autor, Gerald Sussman, colaborador especial do ODiario.info, é o autor de

  1. Branding Democracy: U.S. Regime Change in Post-Soviet Eastern Europe (O marketing de democracia como grife: mudanças de regime patrocinadas pelos EUA na Europa Oriental pós-soviético)
  2. Global Electioneering: Campaign Consulting, Communications and Corporate Financing (Campanha política em escala global: consultoria política, comunicações e financiamento pelo setor privado)

Não tem nada a ver com o conhecido genial de programação de MIT, Gerald J. Sussman.

À medida que os aparelhos dos partidos comunistas daqueles países começaram a colapsar, no final dos anos 80, e foram substituídos por forças políticas emergentes, o Ocidente, e especialmente os EUA, rapidamente intervieram nos seus assuntos políticos e económicos. Os métodos de manipulação de eleições evoluíram desde os tempos áureos das operações da CIA, mas os objectivos gerais do imperialismo mantêm-se inalterados. O governo dos EUA apoia-se hoje, e na maioria dos casos, menos na CIA e mais nas iniciativas relativamente transparentes levadas a cabo por organizações públicas e privadas como a National Endownment for Democracy NED, a U. S. Agency for International Development USAID, a Freedom House, a George Soros’s Open Society, e uma rede de outras bem financiadas organizações políticas profissionais, públicas e privadas, principalmente americanas, operando ao serviço dos objectivos neoliberais do estado, tanto económicos como políticos. Allen Weinstein, que ajudou a criar a NED, notava: “Muito do que nós NED fazemos hoje era feito de forma encoberta pela CIA, há 25 anos.”

Eu comentei o mesmo fato outro dia em uma nota de blog de, acho que foi o Vi o Mundo.

Hoje em dia, não é preciso imaginar ações nebulosas da CIA para entender a tentativa de influenciar o proceso político de outros paises, sejam «em transição» ou «estados falhidos» como o Haiti.

É só acompanhar as atividades do NED e suas subsidiárias, NDI, IRI, CIPE e o Centro de Solidariedade do AFL-CIO, ao lado da USAID — que recentemente formalizaou sua parceria com as forças armadas em boletim circulado livremente — todas bastante transparentes e operando às claras, se bem com uso liberal de eufemismos para práticas escusas.

Bote a frase “democracy assistance” no Google e vai achar decenas de páginas de notas de várias fundações e institutos de pesquisa sobre o melhor jeito de aprimorar a exportação do modelo norteamericano de democracia liberal e superar a resistência — ou seja, «repressão» — dos governos de paises-alvos.

Estes «think tanks» serviam de «multiplicadores» da política do governo, enchendo os conteudutos com argumentos papagaiando a linha oficial.

Basta anotar que a Secretária de Estado de Bush foi egressa de, e hoje tem uma cadeira no, Instituto Hoover, cuja defesa da prática é ilustrada acima. Escrevem

Houve um ingerência pelos EUA nos assuntos internos do Ukraine? Houve. Agentes de influência norteamericana prefeririam descrever suas atividades de outro jeito — assistencia democrática, promoção de democracia, apoio à sociedade civil — mas de qualquer maneira seu trabalho visava influenciar o curso de mudança política no país. USAID, NED e um punhado de outras fundações patrociniavam certas organizações, como Freedom House, IRI, NDI, o Centro de Solidariedade, a Fundação Eurasia, Internews, e várias outras, que por sua vez fornecerem dinheiro e apoio técnico à sociedade civil do país. A UA, vários paises europeus, e a Fundação Renascença International, financiado por George Soros, fez a mesma coisa.

E não houve nada de errado nisso, resumindo o resto do artigo.

O que não achará nos resultados de Google é um grande volume de auto-crítica, questionando se as práticas da burocracia de exportação de democracia não abram espaço para queixas legítimas, até por atores políticos realmente illeberais, como a Russia de Putin e a China.

Segundo muitos ativistas iranianos que acompanho, o apoio de Tio Sam é o beijo de morte a sua credibilidade doméstica, por exemplo.

Em 2006, por exemplo, o NED, fundo de economia mista pela promoção de democracia financiado em parte pelo contribuinte, preparou um relatório sob encomenda do presidente da comissão do Senado sobre relações exteriores.

O relatório é constrangedor na medida que falta-lhe qualquer indicação de que a resistência ao financiamento de grupos domésticos poderia proceder de um bem-fundamentado receio de deixar grupos estrangeiros violar soberania alheia.

Eu, como cidadão dos EUA, por exemplo, gostaria saber como é possível um auto-proclamado messias sulkoreano, dono do Washington Times e a agência UPI, ter tamanha influência sobre o processo político nos EUA.

O cara chegou a ser fotografado sendo coroado por integrantes da Câmara e Senado, porra! Dando a manchete em veículos de propaganda, «o Congresso reconhece a santidade de Moon!»

Quase por definição, na visão desse relatório de 2006, democracias que não permitem ONGs domésticas a aceitarem dinheiro mole de Tio Sam ou outros exportadores são «democracias iliberais» e, portanto, inautênticas.

Se sua CPI das ONGs — na ativa, mas quase como se não existisse — produzisse um PL nesse sentido, daria mais capas na Veja sobre a «tentação autoritária», eu aposto uma cervejada para dez na minha conta.

A onda contrária a nossa exportação de democracia não é da nossa culpa., segundo o relatório de NED.

Chega a recomendar que o Congresso aplique sanções econômicas contra paises que recusam a deixar fluxos de dinheiro mole vindo de fora entrarem no sistema vascular da sua vida política.

Ensinem o Livro Vermelho de Mao na rede pública de ensino ou nós, os chineses, não lhes venderemos mais nosso carvão barato.

Existem diplomatas de carreira argumentando o contraditório, só que não são otimizados para motores de pesquisa.

Como é o caso com a indústria de lobby, a dificulade para quem pretende montar um observatório desse ramo de atividade «como se fosse não-governamental» é a proliferação aparente de entidades dedicadas à tarefa.

Lembra o Aprendiz do Feiticeiro, no clássico de Disney.

Uma entre-aspas que eu apanhei de um relatório da USAID parece resumir tudo:

Nós não fundamos ONGs de liberdade de imprensa no estrangeiro, o que seria ilegal. Mas quando anunciamos a diponibilidade de fundos, estas brotam da terra que nem cogumelos após a chuva.

Uma iniciativa exemplar nesse sentido é a «caixa de ferramentas» da rede Atlas, aquela cria do movimento Living Marxism.

A organização atualmente disponibiliza uma planilha com acima de 500 institutos de pesquisa montados no mundo inteiro. Como já apontei, a maioria de «think tanks» na rede RELIAL.ORG, por exemplo, tem como o fiduciário-fundador o mesmo cara, um tal de Alejandro Chafuen.

Seguindo as instruções, seria trivial pegar emprestado o RG da minha mulher ou o CNPJ do meu cunhado para estabelecer o Instituto Democratico Indignado com Onerosas Taxas Autoritárias — IDIOTA.ORG.BR, sem envolver meu próprio nome.

Assim, dois repórteres da Folha conseguiram fundar a Igreja Heliocéntrica dos Sagrandos Evangelhos, lembram?

O risco desse método, porém, como aponta um especialista Tupy ou Not Tupy na Internet política, é também ilustrado pela fábula do Aprendiz.

Nas redes,
[…] cada um pode ser líder em algum assunto de que goste e domine, por meio do qual seja capaz de propor iniciativas que sejam acolhidas voluntariamente por outros. Redes não podem ter líderes únicos, líderes de todos os assuntos, dirigentes autocráticos que tentam monopolizar a liderança e impedir que os outros a exerçam. Cada um pode ser líder em algum assunto de que goste e domine, por meio do qual seja capaz de propor iniciativas que sejam acolhidas voluntariamente por outros. Redes não podem ter líderes únicos, líderes de todos os assuntos, dirigentes autocráticos que tentam monopolizar a liderança e impedir que os outros a exerçam.

Parece ser um aviso ignorado pelos diretores editoriais do Instituto Millenium, que se diz uma rede aberta a qualquer pessoa — uma vez que esta compartilhe os «valores» e «fins pragmáticos» do Instituto.

Resultado: tem atores aloprados tomando a inciativa e assinando embaixo no nome do partido — assinatura feita com uma fonte tipográfica proprietária de Microsoft, para completar a brincadeira.

Em fim, para ilustrar a dificuldade de fazer a contabilidade dessa nuvem de ONG-OSCIPs muitas vezes efémeras da qual o movimentarianismo «como-se-fosse um exemplo de ordem espontânea hayekiana» da democracia 2.0 é feito, o relatório do NED de 2006 ao Senado é fundamentado quase por inteiro numa pesquia feita pelo ICNL — Centro Internacional para Legislação Organizações sem Fins Lucrativos.

Eu nunca ouvi falar. Quem é?

O nome dele na gerigonça de servidores IP é

AS32392 Ecommerce proxy-registered aut-num for Ecommerce

Ou seja, não consta.

Ou, se prefiram

rev.opentransfer.com.64.19.41.72.in-addr.arpa: Sorry, we are currently missing dns information for rev.opentransfer.com.64.19.41.72.in-addr.arpa

opentransfer.com.64.19.41.72.in-addr.arpa: Sorry, we are currently missing dns information for opentransfer.com.64.19.41.72.in-addr.arpa

Divulgam relatórios annuais em inglês, espanhol e língua árabe, pelo menos.

Mais que 99% do orçamento veio do governo, dando-lhe o perfil de um QuaNGO clássico — uma ONG «como se fosse não-governamental».

Sendo uma INGO — ONG internacional — do mesmo tipo dito vítima das políticas discriminatórias sob estudo, o ICNL não pode ser dito um observador imparcial da tendência, nem um contraponto à denúncia de que muitas dessas ONGs são fachadas financiadas por dinheiro público.

Ora, eu sou gerente de uma ONG que recebe $5 milhões por ano do erário.

Um senador me pergunta se o dinheiro público está sendo gasto bem, e se o financiamento público de ONGs em outros paises não estaria minando os objetivos do meu projeto.

Como vou responder?

Chamando os governos que não gostam da prática de «illiberais»?