O Envoi do Internauta a Trystero, Seu Robô

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Na tradição medieval de amor cortês, seguindo nos passos dos elegistas romanos, era o costume fechar uma obra com o envoi, dedicando a obra a algum mecenas ou dama amada.

Nesta redondilha, o poeta «envia» a poesia, fazendo uso da falácia antropomórfica: «voem, versos indignos, como o beija-flor, e procurem o ouvido daquela que não me dará bola jamais …» e coisa e tal.

O poeta Geoffrey Chaucer famosamente invertiu a função elogiosa deste elemento, deixando um envoi a um tal de «Adão, meu escrivão», um personagem baixo, ridículo e traidor.

Lá o Chaucer avisa que se ele ter que borrar erros causados pelo desleixo do escrivão do pergamino — teria que raspar com uma faca, eu já vi o uso de raio-X para recuperar palimpestos borrados assim — ele vai fazer a mesma coisa com o pergamino da cabeça do escrivinhador infeliz.

Uma raspada da cabeça sendo um sinal de vergonha..

è por isso — a dificuldade de reproduzir textos antes da invenção da copiadora e o Ctl-C, Ctl-V — que temos o método de Lachmann — de «erros comúns» — para tentar reconstruir o texto original desde um monte de manuscritos de várias datas.

Embaixo, a tradição de manuscritos do Parlamento dos Pássaros, imitação chauceriana de um original persa, conhecida por tradução em língua árabe.

Ora, de vez em quando eu gosto de tentar versificar nessa tradiçao, que mirabile dictu continua viva nos sertões e mercados-modelos desse grande país — como por exemplo na banca dos cordelistas de Salvador, onde eu tive a honra de receber um repente ao meu respeito do grande Bule-Bule uma vez.

Comprei uma viola caipira na hora.

Na estrutura que montei na minha macunaimáquina para fazer essas experiências, todos os agentes automatizados residem em um diretório chamado de Trystero.

É uma homenagem literária ao romancista Thomas Pynchon, cujo primeiro romance tratou de um sistema nebuloso e paralelo de correios com este nome. Estou relendo agora, para matar saudades de gringolândia, seu Against The Day.

Fim do século. Terroristas em todo lugar. Capitalismo selvagem e falcatruas financeiras em escala industrial. Novas tecnologias de comunicação que estão para revolucionar o mundo. Trata-se do fim do século XIX. «Qualquer semelhança com os dias de hoje podia não ser  puro ocaso», o autor avisa.

Quando eu mando agentes — seja Harvestman, Heritrix, Pavuk, Yacy, WIRE ou outro — vascular as redes, costumo batizar o agent de Trystero@macunaimachine, com um endereço de contato, como é regra da boa nética, ou ética de navegar.

Então, O Envoi do Internauta a Trystero, Seu Robô, no espírito de Bule-Bule e Geoffrey Chaucer.

Vai! minha aranha!
Pelos dutos desse mundo!
Pelas câmaras de eco,
De barulho vagabundo!
Cada pisca de pestanha
De todos oculares globos
Guarde no seu coração
Para saibamos os bobos,
Os carneiros e os lobos.

Os na(ss)ifs, os mentirosos
Os sinceros, o cinismo
Dos profetas ardilosos
E da mercadologia
Veja bem. E veja a Veja
E qualquer véiculo que seja
Que, de escandalizadouro,
Visa vender mais cerveja
Ou objetos de inveja

Como celular de ponta.
Já virou piada pronta
Como o jornalão de peso
Faz reportajabaganda.
Ah, mas sairá ileso?
O leitor é indefeso?
Ou da Camarada Wanda e
Zé Carequeconomista
Tenha isentos analistas?

Uai, por quê não teria?
No Brasil, pluralidade
No mercado livre impera!
Quem detém duas metades
Do mercado assegura!
Já virou banalidade
Sobre o falso é a verdade
Que a rentabilidade
Determina a escolha.

Olha,

O joio, não! O trigo!
Minha aranha, traz contigo!
Trarás alhos, não bugalhos
Fosse sincero, meu amigo!
Se fizer, eu te bendigo
E senão, corre perigo
de castigo! Pô! Caralho!
Pois o tempo é dinheiro
por tão curta ser a vida.

Se cuida.
Tempus fugit: verdadeira.

Que a preciosa vida
Não se gaste com besteira.

Honi soit qui mal y pense, morou?

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