As Novas RPs: A Mentira Saiu da Moda?

Padrão

Suficientes ao dia são as ironias do mesmo.

Faz anos agora que acompanho as Novas Relações Públicas no NewPR Wiki — co-inquilino de ipadaccessories.com e a blogosfera de gatos no apache2.emu-dads.dreamhost.com.

Se você realmente quer saber o quê faz a cabeça dessa gente, opa, não estão escondendo nada. Admiro a dedicação e honestidade intelectual de quem mantém o site esses anos todos. É um documento históricio bem valioso.

Nova é nótavel no wiki, então, é sua campanha contra a prática de «astroturfing» — a montagem de campanhas publicitárias propositalmente disfarçadas de movimentos espontâneos da «sociedade civil ».

Ou, na verdade, nem tão nova assim.

É de 2006.

Assino embaixo.

A identificação informatizada — tenho preguiça de fazer sozinho — de campanhas dessa natureza é a grande arte que ando aperfeiçoando, aliás.

Um foro anti-continuismo brasileiro no Facebook descuberto recentemente, por exemplo, tem cara de «astroturf» (1) por ser assinado por um covarde anônimo e (2) por ter crescido muito além da taxa previsível pela curva S de adoção.

Há o que parece um efeito «batimento cardíaco» nos dados — como dizem os estatísticos, Deus os abençoe.

Tenho nas mãos um estudo interessante sobre como detectar anomalias desse tipo.

Sobre o qual mais em seguida. Mas, ora, quando faço clique, no wiki das NovasRPs, na imagem da campanha — para baixar e repercutí-lo no meu blog — sou redirecionado a um site pirata de poker em Alemanha.

Juro.

Meu desejo de participar na renovação de retidão é o pretexto para o spam do jogo do bicho.

Apesar daquilo, o WikiNovoRP tem uma página interessante sobre o assunto, com recursos sobre a chamada «propaganda branca, negra e cinza» e o rascunho de um código de ética nessa área, pelo autor de Communications Overtones.

Qual a diferença entre esse tipo de enganação e a moblização autêntica em rede? Boa pergunta. Qual a diferença entre essa diferença no mundo virtual e a mesma diferença do mundo real?

Mentiras 1.0 e Mentiras 2.0 são mentiras, assim como o Impala de 1963 e a Celta de 2010 são ambos de Chevrolet.

Eu traduzo a proposta para Índio Tupy ler.

«Eu assumo o compromisso de

  1. deixar de fabricar preocupação pública, pagando ou coagindo indivíduos para atuar, falsamente, como cidadãos comuns
  2. buscar dar a voz a quem já têm preocupação sincera e/ou fornecer informações úteis a partes interessados em assunto determinado
  3. ser transparente na minha atuação enquanto dou apoio a movimentos comunitários desse tipo, divulgando, publicamente e com clareza, quais são as minhas ações e quem é a organização ou cliente que sirvo de representante
  4. deixar de propositalmente distorcer ou falsificar informações para fornecer ao meu cliente uma vantagem estratégica ou emocional em um debate público
  5. encorajar militantes de movimentos da sociedade civil a serem abertos e honestos em todas suas comunicações, assim como eu serei

Que belo mundo seria, né?

Mas e quando o cliente é o Pentágono, que fala quase abertamente hoje em dia — para quem sabe navegar domínios .mil e a Corporação RAND — da «convocação da Avenida Madison» para uma «guerra global de idéias»?

A campanha do NewPR começou, segundo nosso autor, com o caso de um palestrante provindo de um instituto de pesquisa que defende tais práticas, especializado, para variar, em ceticismo espúrio sobre mudanças climáticas e os maus de tabagismo, assim como os patrocinadores do Instituto Millenium.

Este palestrante do Instituto em questão — na minha Grande Aranhação, estou começando a identificar os clones por número, para evitar o efeito Novílingua — deu um seminário sobre a técnica, seminário frequentado por representantes de agências do governo australiano.

A viagem do palestrante foi pago pelo instituto, sem a divulgação devida, segundo os australianos que descrevem o caso. Citam a crítica de Clive Hamilton, chefe do Australian Institute:

Que uma agência do governo marcaria presença num seminário destes é imcompreensível. Essas agências são a propriedade do público, e portanto estão conspirado contra os próprios donos quando estudam como derrotar grupos de cidadãos por quaisquer meios, honestos e nem tantos. Somente uma organização completamente alienada do interesse público assistiria um evento como aquilo.

É uma pena, mas tem que ser encarado: quando pensamos em australianos hoje em dia, temos a tendência de pensar no mais rico do todos: o anarcocapitalista-mor, Rupert Murdoch de NYSE:NEWS.

Era uma vez que pensavamos principalmente em Crocodile Dundee e em vários tenistas poderoso(a)s e bonito(a)s.

Eu tenho bastante amigos que ainda defendem a prática, e continuam amigos por mais chatos que sejam.

O exemplo que gosto dar é o programador de Apple Computers que não para de fazer o marketing da empresa até em foros íntimos.

Eu reclamo da minha plataforma Intel-Debian e ele: «Compre um Mac!»

Eu: «Compraria se não fosse obscenamente caro em comparação com as caixas genêricas chinesas que começamos a ver nas Casas Bahia».

Eu não preciso acasalhar meu computador com minha televisão, como os novos notebooks de HP prometem fazer.

Tenho uma bela de uma Gradiente, bem barata, para consumir velhos episódios de House M.D., Futurama e Combate.

Tenho uma caixa meio mequetrefe no qual faço o processamento intensivo de planilhas com dezenas de milhares de células quadradas, com interface gráfico que presta mas falta aqueles toques mágicos que consumem recursos preciosos demais.

Sonho ainda com a criação de um supercomputador caseiro feito de um monte de velhas caixas ultrapassadas, utilizando o Samba.

Houve um anúncio de TV décadas atrás, de um fabricante de toupeiras, que fica lembrado até hoje por ser o exemplo mais descarado desse estilo de marketing.

«Eu não sou somente o presidente de Toupeiras Somos Nós! Sou cliente também!» E tirava a peruca com um sorriso para mostrar a carequice.

O bom e velho Cy Sperling!

Pergunte a qualquer iánque de uma certa idade. De certo jeito, era o rei da propaganda cafajeste, mas ao mesmo tempo desarmava o cinismo pelo gesto simples que revelava sua imperfeição humana e vaidade sem-vergonha.

Sem-vergonhice não é coisa ruim quando falta motivo pela vergonha.

Em fim, vemos uma evolução entre essa turma das Relações Públicas 2.0, no sentido do reconhecimento de que todas as piadas — sobre como palavras modificadas por «neo » ou «2.0» costumam significar o contrário do «páleo » e «1.0» — estão surtindo efeito.

Que Jornalismo 2.0 — reportajabaganda somos nós — seria anti-jornalismo, por exemplo.

À mesma vez, no entanto, vemos a continuada militarização de marketing, como, por exemplo, nesse documento que eu achei outro dia … e não acho mais.

Foi um estudo feito sob encomenda pelas FFAA sobre o soldado anônimo como «embaixador-cidadão», tipo «cada fuzileiro um embaixador», ecoando o livro Um Exército de Davís

Após o Império da Mentira que era a época de Bush ibn Bush, fala-se abertamente de novo — estamos de volta aos anos 1980s, com a queda do Shah e o SAVAK e a CPI do Senador Church — de «blowback».

Ou seja, o lance que saiu pela culatra.

Como é gostoso poder dizer, «Eu disse, não disse?»